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42 anos após fim do franquismo, a Espanha volta a ter presos políticos

Justiça manda para a cadeia sem direito a fiança dois líderes do movimento pela independência da Catalunha. Defensor da democracia na Venezuela, jornal El Pais se cala

Cartaz pede liberdade para "os Jordis"
Cynara Menezes
16 de outubro de 2017, 22h23

A Espanha, que desde a morte do ditador Francisco Franco em 1975 se orgulha de ser uma democracia, mandou para a cadeia hoje, sem direito a fiança, dois líderes pela independência da Catalunha, Jordi Sànchez e Jordi Cuixart. E o jornal El Pais, que vive atacando o governo de Nicolás Maduro por ser “uma ditadura”, se calou diante da existência de presos políticos em sua própria terra.

Em relação à prisão do líder oposicionista venezuelano Leopoldo López, o jornal espanhol dedicou inúmeros editoriais criticando Maduro, quando na verdade ele foi condenado pela Justiça. Em agosto deste ano, o El Pais publicou um artigo do advogado de López, Javier Cremades, que criticava a “cultura do medo” na Venezuela e conclamava “todos os democratas do mundo” a sair em sua defesa. Dirá o mesmo dos independentistas catalães?

“Refém de Maduro”, “preso por pensar diferente” e até “novo Mandela”. Foram muitos os epítetos com que o jornal espanhol brindou o opositor de Maduro todos estes anos. Sobre os dois presos políticos debaixo de seus próprios narizes, porém, o El Pais acatou integralmente a sentença de que foram presos “por sedição”, ou seja, por revolta, motim. Curiosamente, a mesma que recebeu Leopoldo López, acusado de incitar a violência durante os protestos contra o governo da Venezuela em 2014. Detalhe: as manifestações pacíficas dos catalães só foram manchadas pela extrema violência da polícia espanhola, que o jornal não se dignou a condenar.

“Refém de Maduro”, “preso por pensar diferente” e até “novo Mandela”, escreveu o El Pais sobre líder oposicionista venezuelano. Dirá o mesmo dos independentistas catalães?

Jórdi Sànchez e Jordi Cuixart são os presidentes da Assembleia Nacional Catalã (ANC) e da Òmnium, as principais entidades articuladoras do independentismo. A juíza Carmen Lamela os acusa de ter sublevado as massas em favor do referendo. Cuixart divulgou um vídeo em seu twitter onde clama por “serenidade, confiança e coragem”.

“Já imaginávamos e hoje temos uma prova mais de que a repressão do Estado não teria limites em tentar frear a maré democrática que vivemos na Catalunha”, lamentou o presidente da Òmnium.

Jordi Sànchez, presidente da Assembleia Nacional Catalã, disse que a Justiça espanhola tenta “intimidar e castigar” os catalães “por haver defendido a liberdade e ter saído às ruas”. Ele pediu que a mobilização continue, “sempre com unidade, civismo e confiança em nós mesmos. Não poderão nos vergar se nos mantivermos fortes. Eu estou. Sei que é uma decisão que pode indignar muita gente, a mim também me indigna.”

O presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, que também corre o risco de ser preso caso a Espanha decida aplicar o artigo 155 da Constituição e intervir na Catalunha, disse que pretendem “encarcerar ideias, mas fortalecerão a necessidade de liberdade”.

Em Barcelona, panelas soaram contra a prisão dos Jordis e a expectativa é que os manifestantes independentistas voltem às ruas amanhã.

A luta pela independência da Catalunha demonstra de forma inegável como a “defesa da democracia” pelos meios de comunicação hegemônicos depende do lado onde se encontram seus próprios interesses e da elite que representam. O El Pais que o diga.

 

 


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Maurício Santos em 17/10/2017 - 12h05 comentou:

Tenho acompanhado muito pouco esse assunto da Catalunha, mas, perdoe-me a ignorância de perguntar:-Nao seria constitucional a prisão de líderes que pregam o separatismo?A federação e a unidade nacional não estaria prevista na Constituição Espanhola?Fazendo um paralelo com o que acontece aqui no Brasil, em patamar bem mais raso, uma minoria sulista e reacionária também prega separatismo.Se chegássemos ao ponto de termos um plebiscito daquela magnitude tbem não ocorreriam prisões dessa lideranças?

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    Cynara Menezes em 17/10/2017 - 13h12 comentou:

    sou contra

    Patrick em 17/10/2017 - 15h18 comentou:

    É muito cômodo e um tanto hipócrita fazer o que fizeram na Espanha. Barram todas as tentativas de reformar a Constituição, decretam como inconstitucional a única reforma que passou nos parlamentos para aumentar a autonomia regional e depois mandam calar a boca porque “não está na Constituição”.

    Também não está na Constituição que é proibido ter chefe de estado ou de governo catalão, mas essa regra vem sendo cumprida à risca há 150 anos. Já pensou o Rio ou Minas desde 1870 sem direito a um Presidente no Brasil?

Victor Rodrigues em 17/10/2017 - 14h34 comentou:

Esse paralelo com a Venezuela eu acho meio complicado de fazer, Cynara…

É certo que a violência no dia do referendo por parte da polícia espanhola foi absurda e deveria ser passível de punição aos responsáveis, mas está posto o problema: de acordo com a constituição, o referendo foi ilegal, portanto um crime. Há respaldo legal pra a prisão dos líderes separatistas.

Essa questão catalã me deixa bastante dividido, até aonde deve ir o direito de um estado a separar-se do seu país?

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Maurício Santos em 17/10/2017 - 17h10 comentou:

Entendo Cynara, que vc seja contra esse tipo de prisão.Mas minha pergunta se remete a luz da constituição.Ha previsão para crimes de separatismo?Nesse sentido, se houver não nos cabe ser contra ou a favor.Veja bem, reclamamos do Golpe por ele ter sido feito ao arrepio da lei.Eu entendo, e insisto, sem conhecer a História da Catalunha, mas intuido que a região esteja em comunhao as diretrizes constitucionais da Espanha que essas prisões tenham caráter legal.Nesse sentido, ser contra ou a favor me parece torcida de futebol.

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