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Cultura

6 tramas de Nelson Rodrigues que irão chocar reaças que o “admiram” sem conhecer sua obra

“Um dia será necessário rever o epíteto de reacionário que o próprio Nelson se afixou”, escreveu o crítico Sábato Magaldi

Cynara Menezes
30 de setembro de 2015, 19h38

O pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980), o maior dramaturgo brasileiro, se assumia como “reacionário” e apoiou a ditadura militar até descobrir que a tortura não era só lenda –seu filho, Nelsinho, militante de uma organização clandestina, foi preso e torturado e ficou na cadeia de 1972 até 1979. Nelson morreria no ano seguinte. Apesar de ser um anticomunista ferrenho, o escritor teve muitos amigos esquerdistas e comunistas, como João Saldanha, e inclusive interveio junto aos militares para tirar alguns da prisão. Em 1979, voltou-se contra a ditadura e participou da campanha pela anistia.

A obra teatral de Nelson, por outro lado, foi alvo constante da censura durante quase toda a sua vida por desafiar a moral, os bons costumes e a igreja, o que não condiz muito com o perfil de um “direitista”. Estas nuances fizeram com que alguns críticos teatrais, como Sábato Magaldi, se tornassem reticentes sobre o que há de real e de pilhéria no “reacionarismo” assumido de Nelson.

“Um dia será necessário rever o epíteto de reacionário que o próprio Nelson se afixou”, escreveu Magaldi. “Na verdade, há muito de feroz ironia nesse qualificativo. Porque Nelson Rodrigues foi reacionário apenas na medida em que não aceitou a submissão do indivíduo a qualquer regime totalitário.” No fim, sua crítica ao totalitarismo dos regimes comunistas liderados pela extinta União Soviética estava correta e os esquerdistas de então é que estavam equivocados em apoiá-lo.

Na biografia O Anjo Pornográfico, o escritor Ruy Castro oferece ao leitor as inúmeras facetas do dramaturgo e cronista, e algumas delas simplesmente não ornam com o estigma de reacionário que deu a si mesmo. Nelson Rodrigues foi, por exemplo, pioneiro em denunciar o racismo no País, coisa que a direita brasileira até hoje nega existir. Escreveu O Anjo Negro, em 1948, para seu amigo Abdias do Nascimento (1914-2011), que acabou impedido de representar o papel principal: o Teatro Municipal exigiu um branco com a cara pintada de graxa no lugar, para revolta de Nelson. Além disso, criou a expressão “complexo de vira-latas”, melhor definição para a reaçada Miami.

Lamentavelmente, quase 35 anos após sua morte, Nelson Rodrigues virou ídolo de jovens conservadores que nunca leram sua obra e o conhecem apenas pela frase “sou reacionário: minha reação é contra tudo que não presta”. Mas será que eles sobreviveriam diante de um filme ou peça de teatro baseados em Nelson? Será que Nelson Rodrigues tem realmente algo a ver com o ideal reaça de Família, Tradição e Propriedade? Duvido.

Escolhi seis peças de Nelson Rodrigues para testar até onde vai a “adoração” do neoconservadorismo brazuca por ele. Vejamos.

1. O Beijo no Asfalto (1960)

Um moribundo atropelado pede a um passante, Arandir, um beijo. O ato de caridade é transformado pela imprensa sensacionalista e por um delegado de polícia num escândalo. O sogro de Arandir insinua o tempo todo que ele é homossexual e parece ter uma relação incestuosa com a filha, mas no final se revela apaixonado pelo próprio genro.

(Cena do filme O Beijo no Asfalto, de Bruno Barreto, 1980)

beijonoasfalto

2. Bonitinha, Mas Ordinária ou Otto Lara Rezende (1963)

Maria Cecília, menina rica, simula uma farsa para realizar a fantasia sexual de ser estuprada por cinco negros enquanto grita o apelido do cunhado, “cadelão”. Sua família, porém, pretende esconder o fato e tenta subornar o contínuo da empresa, Edgard, para que se case com a patricinha e restaure sua “honra”. Enquanto isso, Ritinha, a mulher por quem Edgard é apaixonado, finge ser professora, mas é prostituta.

(Cena de Bonitinha, Mas Ordinária, de Braz Chediak, 1981)

bonitinha

3. Álbum de Família (1945)

O pai, Jonas, gosta de desvirginar adolescentes para aplacar o tesão na própria filha caçula, Glória, e, ao que tudo indica, é correspondido. O filho mais velho também se sente atraído pela irmã, ao mesmo tempo que o segundo irmão é apaixonado pela própria mãe, dona Senhorinha. A matriarca, por sua vez, ama secretamente o terceiro filho, Nonô.

4. Toda Nudez Será Castigada (1965)

O viúvo Herculano, de uma família conservadora e religiosa, casa-se com uma prostituta, Geni. Enquanto mantém o casamento com Herculano, Geni o trai com o próprio enteado, Serginho, por quem está apaixonada. O rapaz acaba fugindo com um ladrão boliviano por quem fora estuprado na cadeia.

(Cena do filme Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, 1972)

todanudez

5. Os Sete Gatinhos (1958)

A família Noronha é uma família normal de classe média do Grajaú. A aparente normalidade, porém, esconde um segredo: as quatro filhas do casal Aracy e seu Noronha se prostituem para bancar o colégio interno e o enxoval da caçula, Silene, de 16 anos. Até que se descobre que Silene de inocente não tinha nada…

6. Asfalto Selvagem ou Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados

A adolescente Engraçadinha seduz o primo Silvio na noite do seu noivado com outra prima, Letícia. Mais tarde, descobre que Silvio é na verdade seu irmão. Letícia se revela mais interessada em Engraçadinha do que no próprio noivo, e tenta beijá-la à força. Na segunda parte da história, Letícia tenta seduzir a filha de Engraçadinha, Silene.

engracadinha

***

Agora me diz: você consegue imaginar Jair Bolsonaro assistindo a uma peça ou filme destes? Os Revoltados Online? Eduardo Cunha? Marco Feliciano? O jovem Kim Kataguiri, coitado, ia ficar assombrado. E o Olavo de Carvalho, então? Nelson Rodrigues era anticomunista, sim. Mas, para mim, sua obra está mais para Marcha das Vadias do que para Marcha Para Jesus.

 


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(12) comentários Escrever comentário

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Rupert Schattenfeuer em 05/10/2017 - 14h47 comentou:

Aqui em Berlin faz um dia horrível (não vejo a hora de voltar para meu modesto bangalô alugado a duras penas em Floripa, na paradisíaca Campeche, onde o criador do Pequeno Príncipe um dia pousou e sonhou). É irremediável minha situação pecuniária, mas brasileiro não desiste nunca.

Numa entrevista, o Nelson disse que não queria ser um canalha de esquerda e nem um canalha de direita; na verdade ele nunca quis politizar a sua literatura, mas apenas focar no estudo da esdrúxula natureza humana, ou melhor, na natureza humana brasileira infantiloide, vamos dizer assim.

O brasileiro parece que nunca sai da adolescência, é o que dizem os alemães por aqui, e não mentem. Uma coisa é a arte e a literatura, outra coisa é usar ambas as duas para inculcar ideologias que já provaram que são um fracasso total, tanto quanto a ideologia que predomina no mundo que é um mal necessário.

A ditadura do proletariado pode ser tão nefasta quanto a ditadura militar (embora em alguns casos a ditadura militar também seja um mal necessário para por ordem no caos e equiparar essas dinâmicas antagônicas ideológicas, como acontece agora no país; num momento como este, onde a parte mais burra da esquerda acaba de destruir o Brasil por demonstrar que o pior da natureza humana pode agir até mesmos em forças aparentemente populares que, em tese, seriam benéficas para a maior parte do país, que é pobre e proletária. Falta é maturidade na “civilização brasileira”.

Mas somos, de certa forma, um país jovem mas que precisa urgentemente crescer. Crescer costuma doer. É o que está acontecendo com a gente, estamos sofrendo como sofrem aqueles dois irmãos de família com personalidades bem diferentes e que se odeiam e se recusam a crescer. Sim, o Brasil está dividido em dois polos, duas forças; nunca esteve tão dividido como agora. O que acontecerá? Espero que o país saia da eterna adolescência e desabroche para a maturidade de um país que pode e deve ser um dos grandes do mundo, não apenas em tamanho.

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    Cynara Menezes em 05/10/2017 - 20h17 comentou:

    seu comentário só foi publicado por estar bem escrito. mas aqui nesta página desprezamos defensores de ditadura militar. fica a dica para a próxima vez

Denis Guimarães em 07/11/2017 - 09h26 comentou:

Cynara , meu xuxu vc não entendeu nada da obra de Nelson Rodrigues.

Responder

    Cynara Menezes em 07/11/2017 - 10h13 comentou:

    será que fui eu? ; )

Carlos Filho em 26/03/2018 - 21h47 comentou:

Quer dizer que o Rupert acha que uma ditadura militar pode ser um mal necessário.
O dia que ele descobrir as urnas fazem o mesmo serviço, de forma pacífica, democrática e constitucional vai ficar deslumbrado.

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Elder Gabriel em 29/06/2018 - 16h48 comentou:

“Toda mulher gosta de apanhar!” – Nelson Rodrigues
“Todas?” – Hebe Camargo
“Nem todas. As neuróticas revidam.” – Nelson Rodrigues

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Tabata em 03/08/2018 - 13h35 comentou:

Nelson tinha razão:
“OS IDIOTAS VÃO DOMINAR O MUNDO; NÃO PELA CAPACIDADE, MAS PELA QUANTIDADE. SÃO MUITOS

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Rodolfo em 20/09/2018 - 14h00 comentou:

As obras de Nelson Rodrigues são tragédias, assim, buscam educar por meio do choque educar os indivíduos, ferramenta chamada, pelo teatro, de catarse. Mesmo assim, o questionamento sobre a reação dos ” reacionários ” acerca das peças é válido e construtivo.

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Rafael em 01/10/2018 - 13h43 comentou:

Parece que vcs não entenderam Nelson!
Suas crônicas mostram as várias faces do brasileiro. Nelson não emitia opiniões sobre seus personagens. Ele apenas os expôs à opinião do povo, pra que cada um tirasse as próprias conclusões.

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Mário Grez em 29/10/2018 - 09h29 comentou:

Me parece, pelas obras dele, que ele se encaixaria muito mais no perfil conservador (conservadorismo inglês, conservador na política e liberal nos costumes, liberal conservative) q surge da tradição do ceticismo de David Hume, não aceita utopias em seu pensamento, a vida como ela é. O reacionário não aceita a realidade do seu tempo, seu ideal tá no passado.
Acho que foi por isso que apoiou de inicio a ditadura até saber sobre o horror que ela praticava.

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Museu do Cinema em 19/11/2018 - 22h50 comentou:

Que desserviço você presta a sociedade brasileira, principalmente a cultura. Nelson descobriu a tortura através do filho?!?! Voltou-se contra e apoiou a anistia?!?! Quais são as fontes dessas bobagens todas?

Quando você acha que sua cota de manipulação da verdade se esgotou, ainda elenca suas principais obras como sendo de ideologia comunista?

Apesar de dizer que os leitores do Nelson nunca leram um livro dele, desafio você a debater sobre um livro que tenha lido dele, qualquer um. Se tivesse lido saberia que as famosas crônicas (muitas delas publicadas em jornais), assim como suas peças teatrais, e que viraram filmes, era o jeito dele criticar a sociedade despudorada. Todos filmes citados são criticas, muitas delas pesadíssimas (Engraçadinha, a única personagem correta é a virgem que cuida da mãe doente), a esse estilo de vida. Tanto que muitos filmes baseado em seus contos ou peças são odiados pelo Nelson, a exceção de Toda Nudez…, que é o mais crítico que o cinema conseguiu transpor.

Nada contra sua ideologia, apesar de Kolimá e gulags, seja feliz, mas não poderia ficar calado diante de tamanha barbárie a obra de uma dos principais autores brasileiros.

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    Cynara Menezes em 20/11/2018 - 10h06 comentou:

    carta pela anistia, escrita por nelson rodrigues em 1979: https://correioims.com.br/carta/carta-pela-anistia/. nela, ele também fala como descobriu que seu filho foi torturado.
    a ignorância de vocês é tanta que acusam os outros de sua própria ignorância.

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