Socialista Morena
Cultura

70 anos depois, o que “1984” nos diz sobre o mundo de hoje?

De maneira similar à teletela do romance de Orwell, a TV gera no espectador conformismo com um sistema de consumo predatório

Capa vencedora do Polish Book Cover Contest em 2011. Por Ben Jones
The Conversation
24 de junho de 2019, 19h04

Por Stephen Groening*, no The Conversation
Tradução Maurício Búrigo*

Setenta anos atrás, Eric Blair, que escrevia sob o pseudônimo de George Orwell, publicou 1984, atualmente considerado um clássico da ficção distópica.

O romance narra a história de Winston Smith, um desafortunado burocrata de meia-idade que vive em Oceania, onde é controlado por vigilância constante. Embora não haja quaisquer leis, existe uma força policial, a Polícia do Pensamento, e os lembretes constantes, em pôsteres, de que “O Grande Irmão Está Observando Você”.

Smith trabalha no Ministério da Verdade, e seu serviço é reescrever notícias de jornais do passado para se adequarem à realidade do presente. Smith vive num estado de incerteza constante; não está seguro de que o ano seja de fato 1984.

Embora o relato oficial seja de que a Oceania sempre estivera em guerra com a Eurásia, Smith tem certeza absoluta de que apenas uns anos atrás eles estavam em guerra com a Lestásia, que agora foi declarada sua aliada constante e leal. Na sociedade retratada em 1984, o controle social é exercido através de desinformação e vigilância.

No romance, a teletela é usada para gerar conformismo com o Partido. Na opinião do especialista em mídia Mark Miller, a televisão gera conformismo com um sistema de consumo predatório –através de publicidade e da ênfase nos ricos e famosos

Na qualidade de estudioso da cultura da televisão e do audiovisual, sustento que as técnicas e tecnologias descritas no romance estão bastante presentes no mundo de hoje.

Uma das tecnologias-chave da vigilância no romance é a “teletela”, um aparelho bastante parecido com a nossa televisão. A teletela exibe um único canal de programação de notícias, propaganda e bem-estar. Ela difere da nossa televisão em dois aspectos cruciais: é impossível de desligar e a tela também assiste aos espectadores. A teletela é televisão e câmera de vigilância em uma só. No romance, o personagem Smith jamais tem certeza de que esteja de fato sendo monitorado através da teletela.

A teletela de Orwell era baseada nas tecnologias de televisão pioneiras de antes da Segunda Guerra Mundial e dificilmente poderia ser vista como ficção científica. Nos anos 1930, a Alemanha tinha um sistema de videofone em funcionamento, e programas de televisão já estavam sendo transmitidos em partes dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França.

A leitura dominante de 1984 é a de que era uma predição terrível do que poderia ser. Nas palavras do ensaísta italiano Umberto Eco, “ao menos três quartos daquilo que Orwell narra não é utopia negativa, mas história.” Outros estudiosos também observaram como 1984 descreve claramente o presente.

Em 1949, quando o romance foi publicado, os estadunidenses assistiam em média quatro horas e meia de televisão por dia; em 2009, quase duas vezes isso. Em 2017, assistir televisão diminuiu um pouco, para oito horas, mais tempo do que passamos dormindo. Nos EUA, a informação transmitida às telas de televisão passou a constituir uma parcela dominante das vidas sociais e psicológicas das pessoas.

No ano de 1984, contudo, houve muita cobertura autocongratulatória nos EUA afirmando que a distopia do romance não se concretizou. Mas o especialista em estudos de mídia Mark Miller mostrou como o famoso slogan do livro, “O Grande Irmão Está Observando Você”, foi transformado em “O Grande Irmão é você, assistindo” televisão. (O verbo inglês to watch, empregado em ambos slogans, possui acepções tanto de “vigiar, guardar, velar por” como “observar, prestar atenção”, e daí “ver, olhar, assistir”. N. do T.)

O escritor George Orwell

Miller sustentava que a televisão nos Estados Unidos ensina um tipo diferente de conformismo daquele retratado no romance. No romance, a teletela é usada para gerar conformismo com o Partido. No argumento de Miller, a televisão gera conformismo com um sistema de consumo predatório –através de publicidade e da ênfase nos ricos e famosos. Promove também uma infindável produtividade, através de mensagens acerca do significado do sucesso e das virtudes de se trabalhar duro.

Nas palavras do ensaísta italiano Umberto Eco, “ao menos três quartos daquilo que Orwell narra não é utopia negativa, mas história”

Muitos espectadores se conformam ao se avaliarem em relação ao que veem na televisão, tal como trajes, relacionamentos e conduta. Nas palavras de Miller, a televisão “estabelece o padrão habitual de auto-escrutínio.”

O tipo de preocupação paranoica possuída por Smith no romance –de que qualquer ato imprudente ou pensamento indevido irá atrair a polícia do pensamento– por sua vez se manifesta, nos espectadores de televisão, no que Miller descreve como uma “vigilância inerte”. Em outras palavras, os espectadores se observam para se certificarem de que estão em conformidade com aqueles outros que veem na tela.

Essa vigilância inerte consegue existir porque a televisão permite que os espectadores observem desconhecidos sem que sejam vistos. O estudioso Joshua Meyrowitz mostrou que os tipos de programação que dominam na televisão dos E.U.A. – noticiários, sitcoms, dramas – tornaram normal examinar a vida privada dos outros.

O Big Brother, enquanto reality show, também é um experimento sobre controlar o comportamento. Ao pedirem aos participantes que coloquem suas vidas privadas em exibição, encoraja o auto-escrutínio e o comportamento de acordo com normas sociais padrão

Lado a lado com o aumento estável da “reality TV”, que começou nos anos 1960 com “Candid Camera,” “An American Family,” “Real People,” “Cops” e “The Real World,” a televisão também contribuiu para a aceitação de um novo tipo de vídeo-vigilância.

Por exemplo, poderia parecer apenas marketing engenhoso que um dos programas de reality TV que mais tempo ficou no ar e o mais popular no mundo fosse intitulado Big Brother. O aceno do programa ao romance invoca o tipo de vigilância benevolente que o “Grande Irmão” pretendia significar: “Estamos observando você e vamos tomar conta de você”.

Mas o Big Brother, enquanto reality show, também é um experimento sobre controlar e modificar o comportamento. Ao pedirem aos participantes que coloquem suas vidas privadas em exibição, programas como o Big Brother encorajam o auto-escrutínio e o comportamento de acordo com normas sociais padrão ou papéis que desafiam essas normas como tais.

O estresse de cumprir 24 horas por dia 7 dias por semana no Big Brother levou o programa a empregar uma equipe de psicólogos. A estudiosa de televisão Anna McCarthy e outros mostraram que as origens da reality TV podem remontar à psicologia social e a experimentos comportamentais do final da Segunda Guerra Mundial, idealizados para controlar melhor as pessoas.

O psicólogo da Universidade de Yale Stanley Milgram, por exemplo, foi influenciado pelo “Candid Camera” (pegadinhas, em português). No programa “Candid Camera”, câmeras eram escondidas em lugares de onde podiam filmar pessoas em situações incomuns. Milgram era fascinado pelo “Candid Camera”, e usou um modelo semelhante para os seus experimentos –os participantes não eram informados que estavam sendo observados ou que faziam parte de um experimento.

Como muitos outros no desfecho da Segunda Guerra Mundial, Milgram estava interessado no que poderia compelir grande número de pessoas a “seguir ordens” e participar de atos genocidas. Seus “experimentos de obediência” revelaram que uma proporção elevada de participantes obedecia a instruções, por uma figura de autoridade estabelecida, de prejudicar outra pessoa, mesmo com relutância.

Embora os programas de reality TV contemporâneos não mandem os participantes prejudicar de modo direto uns aos outros, eles são com frequência organizados como um experimento social em pequena escala que muitas vezes envolve competição cerrada ou até mesmo crueldade.

E, exatamente como no romance, a vídeo-vigilância ubíqua já está aqui. A televisão em circuito fechado existe virtualmente em toda a área da vida norte-americana, desde centrais e redes de transporte, até escolas, supermercados, hospitais e calçadas públicas, sem contar os policiais a serviço da lei e seus veículos.

O total de filmagens de vigilância destas câmeras é reproposto como a matéria-prima da televisão, a maior parte nos noticiários, mas também em programas como America’s Most Wanted, Right This Minute e outros. Muitos espectadores aceitam essa prática como legítima, sem questionar.

A reality TV é a face amigável da vigilância. Ajuda espectadores a pensar que a vigilância suceda apenas àqueles que a escolham ou àqueles que sejam criminosos. De fato, faz parte de uma cultura de uso muito difundido da televisão, que ocasionou o que o criminologista norueguês Thomas Mathiesen chamou de “sociedade do espectador” –na qual a maioria observa a minoria.

Para Mathiesen, a sociedade do espectador nada mais é que o outro lado da sociedade da vigilância –tão bem descrita no romance de Orwell– na qual uma minoria observa a maioria.

*Stephen Groening é professor assistente de Cinema e Estudos de Mídia na Universidade de Washington

*APOIE O TRADUTOR: Gostou da matéria? Contribua com o tradutor. Todas as doações para este post irão para o tradutor Maurício Búrigo. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Maurício Búrigo Mendes Pinto, Banco do Brasil, agência 2881-9, conta corrente 11983-0, CPF 480.450.551-20. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 


(1) comentário Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Heber de Oliveira Pelagio em 25/06/2019 - 21h00 comentou:

A obra 1984, de George Orwell, foi inspirada no romance “Nós”, de Evguêny Zamyátin, que este tentou lançar na Rússia ainda em 1921, sob o governo do Czar vermelho Vladimir Lênin, mas foi duramente censurada, vindo a ter a sua primeira edição distribuída ao público somente 3 anos depois na Inglaterra e nos EUA.
O próprio Orwell reconhecia o trabalho de Zamyátin como sua maior fonte de inspiração. Por seu turno, o escritor russo refletiu a realidade que via se formando em seu país naquela obra que pode ser considerada o primeiro libelo da história da humanidade contra o totalitarismo político.
Para quem quiser conhecer mais sobre o romance de Zamyátin antes de lê-lo, deixo abaixo o link contendo um ótimo arquivo a respeito:

http://zonanegativa2014.blogspot.com/2017/01/nos-de-evgeny-zamiatin-ou-manual-de.html

Abraços a todos!

Responder

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Trabalho

Contraf diz que mulheres do campo serão as maiores prejudicadas pela reforma


"Modelo proposto é excludente, injusto e desleal com os povos do campo", diz entidade dos trabalhadores na agricultura familiar

Cultura

Bentinho, o primeiro coxinha da história


Fraco e mimado, Bentinho foi incapaz de um único gesto de dúvida para com a única mulher que amou além da mãe