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Cultura, Politik

A escritora e o assassino

Cinco anos atrás, a escritora britânica Helen Bailey estava na praia em Barbados, de férias com o marido John Sinfield, quando ele foi pego pela correnteza e se afogou diante dos olhos dela. Milionária autora de livros infanto-juvenis no Reino Unido, ela se relacionava com Sinfield havia 22 anos, 15 deles casados, e ficou devastada. Para […]

Cynara Menezes
16 de julho de 2016, 16h13
helenbailey

(A escritora Helen Bailey, seu companheiro Ian Stewart e o cãozinho Boris)

Cinco anos atrás, a escritora britânica Helen Bailey estava na praia em Barbados, de férias com o marido John Sinfield, quando ele foi pego pela correnteza e se afogou diante dos olhos dela. Milionária autora de livros infanto-juvenis no Reino Unido, ela se relacionava com Sinfield havia 22 anos, 15 deles casados, e ficou devastada. Para fugir à depressão, passou a escrever um blog, Planet Grief (algo como Planeta Perda), cujos posts foram reunidos em livro com o título When Bad Things Happen in Good Bikinis –pela estranheza que Helen sentiu ao viver uma tragédia daquelas em traje de banho.

No dia 11 de abril deste ano, a escritora saiu para passear com seu cachorro salsicha marrom e nunca mais foi vista. O novo companheiro dela, Ian Stewart, ligou para a polícia quatro dias depois denunciando o sumiço: “Estou preocupado, minha companheira desapareceu deixando um recado em que dizia que precisava de um tempo para si mesma e que iria para nossa casa de campo. Respeito a decisão dela, mas já se passou algum tempo e ela não deu notícias. Fui até Broadstair e chequei a propriedade. Ela não está lá. Estou preocupado com sua segurança e por isso estou comunicando a polícia”.

Stewart chegou a soltar uma declaração oficial em que demonstrava sua dor e saudade e que, disse, esperava que Helen pudesse ouvir: “Sentimos tanto a falta de você e Boris… Estamos devastados de tantas formas. Você não só remendou meu coração cinco anos atrás como fez ele maior, mais forte e mais amoroso. Juntos nós aprendemos a viver nossas dores e seguir as nossas vidas em frente sem nunca esquecer. Agora sinto que meu coração não existe mais. Nossos planos estão longe de se completar e sem você nada faz sentido. Prometemos um ao outro 30 anos, por favor cumpra sua promessa e volte para casa. O que quer que tenha acontecido, onde quer que você esteja, eu irei ao seu encontro e trarei você e Boris e te darei o que necessita. Amo você ainda mais.”

Sete semanas após o desaparecimento, a polícia estava atônita e vasculhava o blog de Helen em busca de pistas. Com base numa frase de uma das postagens, trabalhava com a teoria de que a escritora pudesse ter decidido sumir e começar uma nova vida com outro nome em paradeiro desconhecido. “Vi um programa sobre pessoas que desaparecem para começar uma nova vida sob uma nova identidade, e aquilo me pareceu atraente”, ela escreveu. Não havia, porém, nenhuma evidência disso: sua conta bancária, seu email e seu celular seguiam inativos. Os dois carros de Helen permaneciam na garagem.

Nada em suas redes sociais indicava desejo de desaparecer ou de suicídio. A hipótese de que ela houvesse se matado e ao cachorro foi inteiramente descartada por causa do afeto que nutria pelo animal, a quem Helen tratava como se fosse seu bebê –não tinha filhos. “O cão era o amor de sua vida”, disse a chefe de polícia Julie Wheatley ao Guardian, em maio. “Se ela era capaz de matar aquele cachorro? Provavelmente não. Se ela seria capaz de se esconder em algum lugar com o cachorro? É mais plausível e realista”. Cartazes com a imagem de Helen e Boris foram espalhados pela vizinhança e foi criado um grupo no Facebook para receber informações sobre seu paradeiro.

posterhelen

O caso já estava sendo comparado ao misterioso sumiço por 11 dias de outra escritora, ninguém menos que a “rainha do mistério” Agatha Christie, em 1926. Agatha foi encontrada sã e salva descansando num hotel de repouso, mas nunca deu explicações sobre o desaparecimento. Alguns elucubram que tenha tido um lapso de memória. Outros, que agiu assim por pirraça, para atrapalhar o fim de semana do ex-marido com a amante: antes de sumir, Agatha Christie abandonara o carro perto da casa da rival.

agatha

Hoje pela manhã, o blog de Helen Bailey trazia um comunicado do seu amigo de infância Mark, escrito assim:

“Helen foi vista pela última vez passeando com seu amado dachshund miniatura Boris em 11 de abril.

No dia 15 de julho sua família foi informada de que restos humanos foram encontrados na casa que ela dividia com seu companheiro.

Por favor, deixe seus pensamentos e memórias abaixo.

–Postado por Mark (um amigo de Helen desde a escola).”

A polícia encontrara o corpo de Helen Bailey enterrado no quintal da casa onde o casal vivia, a 60 quilômetros de Londres. Pouco antes, o agora viúvo da escritora, Ian Stewart, fora detido ao voltar de duas semanas de folga na praia em Palma de Mallorca, na Espanha. A polícia o acusava de ter retirado dinheiro da conta bancária dela após seu desaparecimento.

Ian, 55 anos, e Helen, 51, haviam se conhecido em 2011 em um grupo de ajuda para viúvos no Facebook e passaram a viver juntos dois anos depois. Nos dias prévios a seu desaparecimento, a escritora tinha manifestado a amigos a preocupação com a saúde do companheiro e o temor de que voltasse a ter que lidar com a dor da perda. A polícia continua investigando e ainda não se conhecem as circunstâncias do crime. Ian Stewart continua preso, agora acusado de homicídio e de prejudicar o trabalho da polícia.

O corpo do cãozinho dachshund Boris foi encontrado ao lado de Helen.

 

 


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