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Direitos Humanos

A hipersexualização do corpo do homem negro, a face “aceita” do racismo

Por Weudson Ribeiro* “Você é preto e pobre. Uma cova e uma cela decorada com o seu nome te aguardam. Então, mostre o seu melhor!” Com essas palavras, dona Lucinária costumava acordar o filho Rodrigo Amaro, 23 anos, todas as manhãs, para levá-lo à escola. O tom assustava. Dado o pouco entendimento sobre questões sociais […]

Cynara Menezes
30 de abril de 2017, 12h02
mappletorpe

(Ajitto, Robert Mapplethorpe, 1981)

Por Weudson Ribeiro*

“Você é preto e pobre. Uma cova e uma cela decorada com o seu nome te aguardam. Então, mostre o seu melhor!”

Com essas palavras, dona Lucinária costumava acordar o filho Rodrigo Amaro, 23 anos, todas as manhãs, para levá-lo à escola. O tom assustava. Dado o pouco entendimento sobre questões sociais na infância, o rapaz conta ter crescido sob a impressão de que estaria condenado. “Eu tinha cerca de sete anos quando ouvi aquela frase pela primeira vez. Aprendi cedo sobre o peso que acompanha o homem negro desde o nascimento”, diz ele. “Andar dois passos atrás do homem branco em termos de oportunidades e auto-estima e precisar aceitar a objetificação do próprio corpo como um dos poucos meios de tratamento favorável é algo com que lidamos diariamente.”

O jovem acredita que a hipersexualização projetada sobre a tez de ébano revela uma face cruel do racismo. “Eu recebo tratamento distinto em relação a amigos de pele clara. Com eles, cogitam casar e ter filhos. Comigo, apenas sexo casual… Dizem que pareço ser bom de cama”, conta. A politização, reflete Rodrigo, deu um quê de amargura ao que antes parecia lisonja: “É como se nenhuma virtude, além de um presumido vigor sexual, fosse digna de reconhecimento ou atenção”.

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(Foto: Weudson Ribeiro)

Na avaliação da etnógrafa negra norte-americana Yaba Blay, a herança escravagista alimenta uma série de mitos e estereótipos presentes na ontologia (a “ciência do ser”) do homem de cor, como a naturalização da “criminalidade negra” por parte da mídia. “A constante animalização de seus corpos não os afeta tanto porque a espécie masculina necessita de validação sexual. Serem vistos como fortes e bem-dotados os desencoraja de discutir sobre o abuso implícito que os vitimiza há mais de 500 anos”, explica.

Gênero popular no mercado pornográfico, o roteiro Cuckold retrata maridos brancos como entusiastas de esposas que procuram sexo extraconjugal com “machos alfa” de pele escura, também chamados de “touros” por praticantes de BDSM (sadomasoquismo). O livro A Vênus das Peles (1870), a obra mais conhecida de Leopold Ritter von Sacher-Masoch, aborda a fantasia de forma despudorada, embora eurocêntrica.

Um século mais tarde, o assunto ganharia viés étnico no cinema: em 1975, o boxeador Ken Norton estrelou o filme de blaxploitation Mandingo. A obra conta a história de Mede, um africano de corpo escultural que é forçado a transar com Blanche, sinhá da plantação em que ele trabalhava, sob a ameaça de ser acusado de tê-la estuprado. Após dar à luz o filho do escravo, Blanche e o bebê mulato são sacrificados pelo marido, Hammond. Numa cena emblemática do conceito contemporâneo de “privilégio masculino”, o assassino caucásico lava o túmulo da ex-esposa com um “caldo” feito a partir da carcaça do negro, também morto por Hammond.

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(Cena do filme Mandingo, 1975)

Cleber Arlequim, 29 anos, conta que sai com mulheres casadas desde os 23, quando deixou a casa dos pais, em Barreiras (BA), para morar no interior do Rio de Janeiro. Ele relata que os maridos são os primeiros a estabelecer contato, a fim de garantir que a aventura não afete o vínculo primário dos cônjuges. O rapaz acredita que, quando há consenso, a fetichização interracial é aceitável: “Não vejo nada de errado nisso. São casais estáveis ​​em busca de adrenalina e prazer. Admiro a atitude de quem me procura para saciar essa curiosidade”, diz. “Todos se divertem.”

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(Cleber Arlequim. Foto: Weudson Ribeiro)

O protagonismo de homens negros no cerne das grandes bilheterias tem se tornado cada vez mais comum. Numa época focada na exposição feminina, o nu frontal masculino também se prova constante na tevê paga. Esses avanços, porém, raramente se manifestam no mesmo corpo. O thriller de verão da HBO, The Night Of (2016), é um reflexo dessa realidade: na cena mais memorável do episódio The Season of the Witch, o primeiro pênis negro a aparecer no canal famoso por exibir séries carregadas de volúpia pertencia a um cadáver. Por outro lado, o personagem negro mais sexual da atração era um estuprador convicto.

“Por toda parte, a sexualidade de pessoas negras é mais imaginada do que, de fato, vista. Isso dá fôlego ao longo histórico de fetichismo reproduzido sobre homens e mulheres negros. Não há nada de errado com a sexualidade do homem negro inerentemente, mas sim com o vício que alguns dos maiores roteiristas demonstram ao demonizar, negar ou distorcê-la em suas criações”, explica o cineastra paulista Jeferson De. Sociólogo e professor de estudo de mídias da Universidade Federal de Campinas, Noel Carvalho compara a sub-representação da nudez negra à censura ao beijo gay na teledramaturgia tupiniquim.

“Apesar de o meio audiovisual ter dado uma guinada progressista, parte da sociedade não mudou o bastante para permitir que aos personagens negros seja oferecida a mesma gama de seriedade, safadeza e romance presente na retratação comercial da sexualidade branca. Essa exclusão mostra um desconforto geral em relação à ideia conservadora do que é tabu. Conforme artistas, escritores, diretores e produtores negros ganham espaço e voz, esse contexto ganha ares de igualdade”, diz o estudioso, que aponta o premiado Moonlight (2017) como divisor de águas para o cinema negro e queer contemporâneo.

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(Robert Mapplethorpe, Retrato de Ken Moody, 1973)

Bissexual declarado, Robert Mapplethorpe (1946-1989) foi o principal artista da “geração Warhol” a celebrar o sexo negro por meio da fotografia. Em 1986, The Black Book ganhou notoriedade por enquadrar um anônimo cujo pênis cruzava a braguilha de um terno de poliéster. Há quem acuse o clique erótico de encapsular um problema, uma vez que, ao pôr gênero e raça lado a lado, a representação reforçaria estereótipos, podendo distorcer a compreensão sobre negritude e sexualidade afro. Fotógrafa e professora do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, Denise Camargo discorda da tese, que considera “reducionista”.

“Por meio da imagem, o próprio fotógrafo desconstrói a ideia do sexo potente que lhe querem impingir.  Assim, pouco importa se é um pênis negro, homo ou heterossexual, por exemplo”, diz Denise. “O corpo negro transcende a questões de gênero. Trata-se de um corpo identitário  –nem masculino, nem feminino, mas cultural… Uma referência às matrizes ancestrais africanas. Esse é o corpo que deu voltas numa árvore do esquecimento, deixando para trás suas memórias para se reconfigurar em terras desconhecidas. Escravizado, precisou aprender a driblar, gingar, suingar e atravessar encruzilhadas. Os corpos negros não se separam do que, de fato, representam.”

 

*PAGUE O AUTOR: O repórter Weudson Ribeiro colabora com o blog pelo sistema de “vaquinha posterior”: todas as doações para este post irão para ele. Contribua!

 


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