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Cultura

A mais terrível de nossas heranças – Darcy Ribeiro

Este texto é para quem não percebe a importância das cotas, das políticas de ação afirmativa, para reparar uma injustiça histórica. Às vezes penso que muitas pessoas não têm noção do que significa para um ser humano ser escravizado. As marcas que isso deixou, os traumas, e inclusive a absurda desvantagem em termos de ocupar […]

Cynara Menezes
14 de outubro de 2012, 15h26

(Escravo sendo castigado, de Debret)

Este texto é para quem não percebe a importância das cotas, das políticas de ação afirmativa, para reparar uma injustiça histórica. Às vezes penso que muitas pessoas não têm noção do que significa para um ser humano ser escravizado. As marcas que isso deixou, os traumas, e inclusive a absurda desvantagem em termos de ocupar um lugar digno na sociedade. Darcy Ribeiro explica.

***

Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro – mercador africano de escravos – para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas. Dali partiam em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negros, numa corda puxada até o corpo e o tumbeiro. Metido no navio, era deitado no meio de cem outros para ocupar, por meios e meio, o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio da fedentina mais hedionda. Escapando vivo à travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e nos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava à terra adentro, ao senhor das minas ou dos açúcares, para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia todos os dias do ano. No domingo, podia cultivar uma rocinha, devorar faminto a parca e porca ração de bicho com que restaurava sua capacidade de trabalhar, no dia seguinte, até à exaustão.

Sem amor de ninguém, sem família, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém – seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos –, maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia a sua rotina. Esta era sofrer todo o dia o castigo diário das chicotadas soltas para trabalhar atento e tenso. Semanalmente, vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e, quando chamava atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilação de dedos, do furo de seio, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites no pelourinho, sob 300 chicotadas de uma vez, para matar, ou 50 chicotadas diárias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro em brasa, tendo um tendão cortado, viver peado com uma bola de ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de uma vez só, jogado nela para arder como um graveto oleoso.

Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida através de séculos sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos. Descendentes de escravos e senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.

A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária.

(Do livro “O povo brasileiro”, editora Companhia das Letras, 1995)


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(19) comentários Escrever comentário

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vitor mazzeo em 14/10/2012 - 16h45 comentou:

Ótimo texto. Parabens! Uma pena que a literatura sobre o tema seja tao escasso embora o acervo historico tenha um farto material, porcamente explorado e mal divulgado.

Abraços

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    morenasol em 14/10/2012 - 21h14 comentou:

    esse texto é do darcy, vitor. mas é verdade que falta divulgação do que existe. por isso fiz questão de compartilhart ; )

Laura em 14/10/2012 - 17h13 comentou:

Esse livro é muito bom! Recomendo-o por inteiro.

Responder

Sayonara em 15/10/2012 - 01h25 comentou:

Nunca li até hoje, e cresci vendo um exemplar dos meus pais na estante de casa.Você cumpriu sua missão com pelo menos essa pequena alma Cynara, preciso lê-lo e vou fazê-lo assim que possível!

Ótimo domingo 😉

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    morenasol em 15/10/2012 - 02h35 comentou:

    que bacana! fico orgulhosa. o maior objetivo desse blog é difundir conhecimento ; )

Daniela em 20/11/2012 - 17h17 comentou:

Dia mais que perfeito pra esse texto! Muito bom pra refletir sobre nossa sociedade e mais importante sobre a nossa postura nela! Parabéns pelo ótimo blog Cynara!

Responder

Bruno Boiteux em 20/11/2012 - 17h35 comentou:

O que eu mais vejo por ai, são os "defensores" dos negros e do Brasil miscigenado que no discurso prega uma coisa e na pratica passa longe do seu discurso. A pergunta que faço, a blogueira já beijo um preto na boca?

Responder

    Cássia em 19/11/2013 - 22h30 comentou:

    Voce está é desafiando e cantando a blogueira com essa pergunta indiscreta. Ainda mais que ela é gata.

Maria Reis em 20/11/2012 - 17h54 comentou:

Maravilha!!! texto bem oportuno para a data de hoje. Beijos Cynara.

Responder

Marzo em 21/11/2012 - 05h57 comentou:

Muito triste nossa historia, vale ressaltar que a comparação com animais é sintomática, será que não estamos cometendo os mesmos erros hoje, apenas mudando a especie das vítimas? O especismo de hoje é a escravidão de ontem, quem pode reclamar da opressão se tem no prato um pedaço do corpo de outro ser oprimido?!?

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    Cariny em 20/11/2013 - 13h56 comentou:

    Nossa, Marzo, tão verdadeiro… muda a espécie, mas não muda a opressão! Ainda somos opressores…

André Coelho em 12/12/2012 - 18h17 comentou:

Esse livro do Darcy deveria ser muito mais divulgado e lido nas escolas e em todos os lugares. Excelente!

Responder

Janio em 13/12/2012 - 07h56 comentou:

Muito bom este texto do Darcy, hein!

Pensar na guerra étnica que aqui desaguou, que aqui se travou, para encher as burras de ouro para a nobreza e a nascente burguesia européia se refastelar em seu palácios, explica muito do que somos, entende-se a mediocridade das elites.
Quem imaginaria que dessa lama nasceria um projeto nação? Quiçá cada vez mais socialista e moreno.
Bendita contradição de onde nasceu o Samba… e outras tantas maravilhas.

O Documentário da Isa Ferraz "O Povo Brasileiro" baseado no livro vale uma visitada: https://www.youtube.com/watch?NR=1&v=2gqz4BHY….

Adorei ler, o difícil é retomar o sono depois, a essa altura da madruga.

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Guilherme em 19/11/2013 - 01h17 comentou:

A reparação dessa injustiça histórica tem que ser feita com o investimento no precário ensino público brasileiro, não com medidas a curto prazo que prejudicam milhares de estudantes em todo o país!

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    Paulo Pinheiro em 20/11/2013 - 01h24 comentou:

    Apoiado totalmente!

Mª Irene em 19/11/2013 - 10h59 comentou:

Sugiro que vejam "A saga dos Anunnakis". Penso que aí entenderão a origem da escravatura humana e a sua prática ancestral exercida sobre os habitantes do planeta Terra. É um vídeo feito essencialmente a partir de documentos sumérios: textos, desenhos e baixos relevos…
É uma narrativa ao longo de 4 horas onde é explicado por uma voz masculina uma possível intervenção extraterrestre, num passado ancestral, no nosso planeta Terra.

Não é propriamente um trabalho de ficção científica, pois tem fundamentação em documentos reais.
É muito interesssante e ajuda a explicar muita coisa que parecia inexplicável.
Já vi. Reconheço algumas lacunas.

É notório um grande interesse em supervalorizar o Médio Oriente, como tendo sido o CENTRO do Mundo, nesse tempo passado…

Algumas alusões parecem bem credíveis e prováveis de terem acontecido.
Já reparei que alguns pormenores entram em colisão com as recentes descobertas do DNA do menino-rei-deus egipcio Tutankamon….

Para pessoas preconceituosas também poderá originar conflitos com algumas interpretações literais, de passagens biblicas.

Eu gostei e recomendo. Pena Darcy Ribeiro já ter falecido. Certamente que até ele teria aprendido muito sobre a escravatura humana. A escravatura já era amplamente praticada entre várias tribos em África, muito antes dos europeus lá terem chegado no Sec XV. No youtube há várias versões disponíveis: http://www.youtube.com/results?search_query=Los+A

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    Maria Maia em 19/11/2013 - 17h00 comentou:

    Também já assisti a alguns vídeos sobre os Anunnaki. A escravatura é sem dúvida uma herança mesmo muito antiga. Herança exercida sobre toda a humanidade, desde a sua origem. Não quero com isto dizer que faço apologia dessa prática. Bem pelo contrário! Repudio-a completamente. Aquilo que digo é que é muito importante conhecermos a origem desses procedimentos e práticas de certos humanos sobre outros seres humanos. Também recomendo o visionamento desta obra que traz luz e muito esclarecimento sobre muitas interrogações Históricas.

Sérgio Paulo Pombo em 19/11/2013 - 11h37 comentou:

Nada podemos esperar dos descendentes ideológico dos escravocratas, dos apegados as regras da economia monárquica e dos novos "fazendeiros do café", mas é difícil, constrangedor a existência de pessoas ou ingênuas ou espertas demais que estão do outro lado rio esperando o circo pegar fogo. Obrigado, muito obrigado pelo seu texto tão fundamentado na História e tão humano como clama a Democracia.

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Reinaldo S de Souza em 19/11/2013 - 22h18 comentou:

Não podia ser o melhor texto para o dia de amanhã.

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