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A tortura na poesia de Alex Polari: Inventário de Cicatrizes

Torturado na ditadura, poeta paraibano se dedica hoje ao Santo Daime

Alex Polari hoje. Foto: Bruno Torturra
Cynara Menezes
27 de março de 2014, 15h16

Nascido em João Pessoa (PB) em 1951, Alex Polari de Alverga tinha 20 anos de idade e era membro da organização clandestina VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), responsável pelo sequestro do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben, quando caiu preso, no Rio. Barbaramente torturado, Alex testemunhou e escreveu da prisão uma carta à estilista Zuzu Angel onde narrava as atrocidades cometidas pelos militares contra seu filho, Stuart, militante do MR-8. Aos 26 anos, em 1971, Stuart foi arrastado por um jeep pelo pátio interno da base aérea do Galeão com a boca no cano de descarga do veículo. Seu corpo nunca foi encontrado. Supõe-se que tenha sido jogado em alto-mar ou enterrado como indigente.

Alex Polari passaria seus 20 anos inteiramente na cadeia: condenado a 80 anos de prisão, só foi libertado aos 29, em 1980, após a anistia. Dois anos antes, em 1978, publicou um livro, Inventário de Cicatrizes, com as poesias que escreveu no cárcere. São versos duros, tristes, revoltantes, sobre a tortura nos porões da ditadura militar –um dos poemas é dedicado a Stuart Angel. Hoje, aos 63 anos, Alex se dedica ao Santo Daime e é um dos líderes da Comunidade Céu do Mapiá, no Acre. “Vi companheiros desaparecer no cárcere… mas não queria estender muito nisso. Porque hoje é uma coisa que vejo mais como uma experiência, não acho que é mais o cerne da questão”, disse o “padrinho Alex” ao repórter Bruno Torturra em 2012. “Dificilmente nós vamos achar uma solução para a crise planetária fora de uma revolução espiritual. Todas as outras formas de ler o mundo faliram no último século” (leia mais aqui).

Conheci os poemas de Alex Polari sobre a tortura na adolescência. A leitura de “Os Primeiros Tempos da Tortura” foi provavelmente o primeiro contato que tive na vida com os horrores da ditadura militar. Jamais esqueci este poema. Aos 50 anos do golpe, ninguém lembrou de reeditar o livro de Alex, que pode dizer tanto aos jovens sobre o que foi aquela era de trevas. Mais do que qualquer recriação no cinema: está tudo ali, sangrado em forma de poesia.

Os Primeiros Tempos da Tortura

Não era mole aqueles dias
de percorrer de capuz
a distância da cela
à câmara de tortura
e nela ser capaz de dar urros
tão feios como nunca ouvi.

Havia dias que as piruetas no pau-de-arara
pareciam rídiculas e humilhantes
e nus, ainda éramos capazes de corar
ante as piadas sádicas dos carrascos.

Havia dias em que todas as perspectivas
eram prá lá de negras
e todas as expectativas
se resumiam à esperança algo cética
de não tomar porradas nem choques elétricos.

Havia outros momentos
em que as horas se consumiam
à espera do ferrolho da porta que conduzia
às mãos dos especialistas
em nossa agonia.
Houve ainda períodos
em que a única preocupação possível
era ter papel higiênico
comer alguma coisa com algum talher
saber o nome do carcereiro de dia
ficar na expectativa da primeira visita
o que valia como um aval da vida
um carimbo de sobrevivente
e um status de prisioneiro político.

Depois a situação foi melhorando
e foi possível até sofrer
ter angústia, ler
amar, ter ciúmes
e todas essas outras bobagens amenas
que aí fora reputamos
como experiências cruciais.

***

Os 14 presos políticos do Rio no pátio do presídio Frei Caneca na greve de fome pela Anistia, em 1979. De pé: Paulo Roberto Jabur, Gilney Viana, Carlos Alberto Sales, Jesus Parede Soto, Jorge Santos Odria, Jorge Raymundo Junior, Antonio Pereira Mattos e Perly Cipriano. Sentados: Paulo Henrique O. Rocha Lins, Alex Polari, Nelson Rodrigues, Manoel Henrique Pereira, José Roberto Rezende e Helio da Silva

Moral e Cívica II

Eu me lembro
usava calças curtas e ia ver as paradas
radiante de alegria.
Depois o tempo passou
eu caí em maio
mas em setembro tava pelaí
por esses quartéis
onde sempre havia solenidades cívicas
e o cara que me tinha torturado
horas antes,
o cara que me tinha dependurado
no pau-de-arara
injetado éter no meu saco
me enchido de porrada
e rodado prazeirosamente
a manivela do choque
tava lá – o filho da puta
segurando uma bandeira
e um monte de crianças,
emocionado feito o diabo
com o hino nacional.

***

Alex Polari assinando sua carta de soltura em 1980

Trilogia Macabra: III – A Parafernália da Tortura

Nos instrumentos da tortura ainda subsistem, é verdade,
alguns resquícios medievais
como cavaletes, palmatórias, chicotes
que o moderno design
não conseguiu ainda amenizar
assim como a prepotência, chacotas
cacoetes e sorrisos
que também não mudaram muito.
Mas o restante é funcional
polido metálico
quase austero
algo moderno
com linhas arrojadas
digno de figurar
em um museu do futuro.

Portanto,
para o pesar dos velhos carrascos nostálgicos,
não é necessário mais rodas, trações,
fogo lento, azeite fervendo
e outras coisas
mais nojentas e chocantes.

Hoje faz-se sofrer a velha dor de sempre
hoje faz-se morrer a velha morte de sempre
com muito maior urbanidade,
sem precisar corar as pessoas bem educadas,
sem proporcionar crises histéricas
nas damas da alta sociedade
sem arrefecer os instintos
desta baixa saciedade.

Stuart Angel

Canção para ‘Paulo’ (A Stuart Angel)

Eles costuraram tua boca
com o silêncio
e trespassaram teu corpo
com uma corrente.
Eles te arrastaram em um carro
e te encheram de gases,
eles cobriram teus gritos
com chacotas.

Um vento gelado soprava lá fora
e os gemidos tinham a cadência
dos passos dos sentinelas no pátio.
Nele, os sentimentos não tinham eco
nele, as baionetas eram de aço
nele, os sentimentos e as baionetas
se calaram.

Um sentido totalmente diferente de existir
se descobre ali,
naquela sala.
Um sentido totalmente diferente de morrer
se morre ali,
naquela vala.

Eles queimaram nossa carne com os fios
e ligaram nosso destino à mesma eletricidade.
Igualmente vimos nossos rostos invertidos
e eu testemunhei quando levaram teu corpo
envolto em um tapete.

Então houve o percurso sem volta
houve a chuva que não molhou
a noite que não era escura
o tempo que não era tempo
o amor que não era mais amor
a coisa que não era mais coisa nenhuma.

Entregue a perplexidades como estas,
meus cabelos foram se embranquecendo
e os dias foram se passando.

Abaixo, especial da Globo sobre Zuzu Angel onde sua filha, Hildegard, conta da emoção da mãe ao receber a carta de Alex Polari, em maio de 1975, dando detalhes sobre a tortura e a morte de Stuart


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(20) comentários Escrever comentário

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Lucia em 27/03/2014 - 15h24 comentou:

Tenho um outro livro do Alex que é uma relíquia para mim: Camarim de Prisioneiro.

Responder

renata cerqueira em 27/03/2014 - 18h15 comentou:

Ai que triste! Sou ignorante em vários assuntos, mas nada me impede sofrer tamanha a crueldade humana que de tempos em tempos nos acorda e mostra suas facetas …quanta verdade em sofrimento, cada fala, cada palavra sangra…

Responder

Tutaméia em 27/03/2014 - 19h21 comentou:

Não digo isso com prazer nem para tripudiar…longe de mim que já carreguei muita bandeira vermelha e cantei a Internacional até ficar rouco..aliás por isso mesmo sei do que falo: qualquer um que lê essas coisas percebe na hora o enorme prazer que eles tem com o martírio, com o sacrifício pessoal extremo. Esse é o problema de nossa esquerda que passou longe do Marxismo que ao menos é materialista e procura entender a realidade objetiva; nossa "sinistra" é cristã, positivista, religiosa, mística..e não passa sem sofrimento, curte as derrotas e o fracasso com um prazer quase sexual: aliás, só a esquerda ta dando IBOPE pra essas marchas da família Adams de malucos "mômios" e "dinosaurios" – das canções imortais de Vitor Jara – e a esquerda dá trela pq torce por um novo golpe – incruento de preferência – mas que a livre de suas responsabilidade de governo e do poder no mundo real, e lhes dê feridas pra lamber por ao menos uns 20 anos. Coitados…

Responder

    candango em 30/03/2014 - 15h01 comentou:

    Tutaméia, não sei quem é vc , mas concordo em gênero,número e grau com tudo que vc escreveu. Também já carreguei muitas bandeiras e fui preso político. E concordo plenamente com tudo que foi dito principalmente com … "nossa esquerda que passou longe do Marxismo … que ao menos é materialista e procura entender a realidade objetiva. Parabéns. Se puder poderíamos trocar algumas idéias.

    Tutaméia em 30/03/2014 - 21h41 comentou:

    obrigado por suas palavras..mas confesso que tenho um certo pé atrás com qualquer tipo de apoio ou adesão ao que escrevo e explico pq: é que, como sabe, nossos intelectualmente deficientes compatriotas só funcionam, por assim dizer, no modo binário…como as máquinas: zero/um, aceso/apagado, esquerda/direita, PT/PSDB..pra eles vc é um ou outro; jamais passa pela sua cabeça que possa rejeitar os dois..pq em nosso caso por exemplo esquerda e direita são a mesma coisa com sinal trocado, tolos, primários, levianos, inconsequentes, rasos, bobo-alegres, maria vai com as outras pq são todos oriundos do mesmo caldo (ralo e fétido) de cultura. Então quando alguém responde algum comentário apoiando geralmente é que pensam que estou pronto pra assinar ficha de filiação no, digamos, DEM. E não é assim definitivamente. Enfim quando cedo à tentação e faço algum tipo de manifestação nos blogs da esquerda eles veem com 3 ou 4 pedras mão falando as coisas que sabem falar em seu vocabulário restrito e limitado de "fascista", direita, vendido e outras bobagens..
    não é minimamente possível debate de ideias entre nós dessa terra de boçais de esquerda ou direita.
    Mas se quiser arriscar apareça no face book e procure por Damastor Dagobé que talvez tenhamos ideias pra trocar. abraço.

    Stalin em 31/03/2014 - 04h18 comentou:

    caraca. falou tudo. 01000101010110

Lenir Vicente em 27/03/2014 - 19h37 comentou:

Alex Polaris transformou sua tortura em poesia, mas sabemos que essa dor não cicatriza.

Responder

Ulisses Borges em 27/03/2014 - 20h54 comentou:

Postagem muito tocante, Cynara, vou reproduzi-la em meu blogue, certo? Abração!

Responder

alexgoulart em 27/03/2014 - 22h35 comentou:

Tenho dele Camarim de Prisioneiro, com "Final de Espetáculo" feito para Stuart Angel….Sem palavras.

Responder

Julieta Chaves em 27/03/2014 - 23h10 comentou:

Cynara, sempre comprei a carta capital, desde o início e afirmo como sendo a melhor revista semanal da atualidade. Obrigada pelas suas belissimas e bem escolhidas matérias.

Responder

Rosane Alverga de Sá em 28/03/2014 - 13h08 comentou:

Como prima do Alex,assisti tudo de perto,pois morava no Rio nessa Época Triste e Macabra da nossa História,tenho dois Livros dele e sempre mostro aos amigos e às pessoas que trabalham comigo.Ele foi muito torturado,mas felizmente conseguiu se salvar.Meus Tios sofreram de dar dó e pouco podíamos fazer,apenas orar por ele.Tomara que essa SEMENTE PODRE,dita tortura, jamais crie raízes novamente….!!!Parabéns,Cynara,pela força e coragem….!!!Grata,mas muito Grata mesmo,Rosane Alverga de Sá…!!!

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Ted Tarantula em 28/03/2014 - 13h42 comentou:

Sei que é difícil figurar algo assim, mas seria bom para os jovens mais preocupados com os destinos do país entender uma coisa:
O Brasil não é uma nação propriamente; antes é uma entidade diabólica, uma espécie de esfinge maligna que destrói seus melhores filhos praticando um tipo de aborto extemporâneo em alguns casos enlouquecendo antes de matar de tristeza, câncer, aids por sangue contaminado em transfusão ou pelos infinitos meios a sua disposição quase todos que o amam e se preocupam com ele.
Exemplos: poderia fazer uma lista quase infinita..
Desde os poetas do passado como Castro Alves e seus seguidores do presente como
Gonzaguinha, Henfil, Raul Seixas, Glauber Rocha, Paulo Francis, Darcy Ribeiro, e tantos outros, fora os que diretamente entraram na luta por sua redenção e foram ceifados na mais tenra juventude.

Responder

Roland Scialom em 29/03/2014 - 14h51 comentou:

A poesia de Polari se alinha com a de Louis Aragon.
Penso particularmente na
"Ballade de celui qui chanta dans les supplices".
Polari merece figurar na galeria de nossos poetas importantes.
Obrigado à Carta Capital por divulgá-lo.

Responder

julio gomes em 29/03/2014 - 15h12 comentou:

Parabéns Cynara, você representa muito bem as mulheres na imprensa e supera muitos colegas do sexo masculino. Curiosamente, assisti pela primeira vez o LD sobre a Zuzu, aqui no seu post. Mais curioso ainda é constatar que retiraram do youtube a parte 3, deixando todas as demais. Você saberia dizer qual foi o motivo desta "censura"??

Responder

Humberto Sato em 30/03/2014 - 00h19 comentou:

Cynara, que texto esclarecedor e forte ! Muito bom saber que há profissionais no jornalismo como você ! Parabéns !

Responder

Gildázio G. Vitor em 30/03/2014 - 19h47 comentou:

É preciso relembrar estes tristes e negros Anos de Chumbo para que nunca se repitam, nem como farsa.

Responder

Nanda em 01/04/2014 - 02h18 comentou:

Tenho esse livro, comprei-o logo que foi editado, eu estava na faculdade. Comprei para mim e comprei outros para presentear, os sensíveis.

Responder

j.r.Bustamante em 01/04/2014 - 08h28 comentou:

Com muita emoção, saudade, indignação e certa dose de esperança, acompanho todas essas manifestações e palavras antigas/atuais, e depois de meia vida residindo e trabalhando na Alemanha (como músico profissional), agora na Espanha, envio desde aqui uma saudação, uma louvação, um abraço solidário aos que hoje lembram, relembram, reivindicam etc. um tempo que, perdido de jeito nenhum, foi nossa vida, é nosso passado, a vida continua. Cheguei a escrever entre muitas outras coisas um livro que –esta semana– ofereço GRÁTIS para quem quiser… "novos mistérios dolorosos / notturno & fuga, op. 7" (KindleEdition), é só buscar no site da Amazon. Quero presentear a quem queira compartir algumas experiências, amargas sim, até certo ponto!

Responder

Thiago Moreira em 06/10/2018 - 15h35 comentou:

Desejo a todos um copão de Daime e que cada um receba aquilo que plantou na mente e no coração.

Responder

Marcela Tadika em 07/10/2018 - 19h02 comentou:

O Alex Polari é dirigente de uma Casa de Santo Daime agora? Aonde esse mundo vai parar! Tem pessoas que se arrepiam só de ouvir o nome dele. Realmente, Deus liberta! Eu achava que o Alex não tinha jeito!

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