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Adeus, Luiz Melodia, pérola negra da MPB <3

Agosto, o mês do desgosto, salvou Temer e levou Melodia. Para lembrar uma das vozes mais deliciosas, inconfundíveis e insubstituíveis da MPB, um obituário melódico

Detalhe da capa do disco Pérola Negra, de 1973
Cynara Menezes
04 de agosto de 2017, 19h24

Confirmando a fama de aziago, agourento, nefasto, agosto, o mês do desgosto, começa salvando Michel Temer e levando de nós ninguém menos que Luiz Melodia, uma das mais deliciosas, inconfundíveis, insubstituíveis vozes da MPB.

Melodia morreu aos 66 anos, vítima de câncer de medula, nesta sexta-feira, 3, no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, no bairro do Estácio.

Anúncio de um dos primeiros shows de Melodia, em 1972

Para homenageá-lo, um obituário melódico com algumas de suas mais famosas canções. Entre 1973, quando sai seu primeiro disco, Pérola Negra, e 2014, quando gravou Zerima, Luiz Melodia lançou 16 álbums, além de várias participações em coletâneas e trabalhos de outros intérpretes.

Melodia por Ivan Cardoso/Coleção Pirelli

Gênio precoce, em 1973, aos 22 anos, explodiu com Pérola Negra, canção e disco homônimo, saudado desde o princípio como grande letrista. Este disco é sempre lembrado como um dos melhores da MPB de todos os tempos. As canções deste disco ainda estão entre as mais conhecidas de Melodia, como MagrelinhaEstácio, Holly Estácio, com o imortal verso se alguém quer matar-me de amor/ que me mate no Estácio.

Naquele ano, Gal Costa apresentaria o lendário show Índia, dirigido por Wally Sailormoon (Wally Salomão) e incluiu no repertório Presente Cotidiano, de Melodia. Eram todos grandes amigos.

Em 1975, Luiz Melodia foi um dos finalistas do festival Abertura, da Globo, com Ébano. Carlinhos Vergueiro levou o primeiro lugar com Como um ladrão, de Carlinhos Vergueiro.

Luiz Melodia foi um cantor e compositor extremamente popular. Participou de várias trilhas novelas da Globo, mas principalmente em duas delas suas canções estouraram nas paradas.

Primeiro foi Juventude Transviada, na primeira versão de Pecado Capital, de Janete Clair, com Francisco Cuoco e Betty Faria, de 1975. Os versos Lava a roupa todo dia/que agonia fizeram parte da infância de muitos brasileiros que cresceram naquela década.

Em O Dono do Mundo, de Gilberto Braga, em 1991, novamente Melodia estourou com Codinome Beija-Flor, de Cazuza.

Luiz Melodia foi casado durante 40 anos com Jane Reis, também cantora e compositora. Tiveram o filho Mahal, rapper, hoje com 37 anos.

Melodia, Jane e Mahal na capa do disco Nós, de 2012

As cantoras o amavam. Maria Bethania foi a primeira a gravá-lo, em 1972, com Estácio, Holly Estácio.

Em 1978, a “ternurinha” Wanderlea gravou sua canção Segredo.

Com Elza Soares, gravou Fadas, talvez uma das letras mais surreais da música brasileira.

E com Cássia Eller, Juventude Transviada, a cara dela.

Em seu último disco, Zerima, primeiro de músicas inéditas após 13 anos, foi a vez de Céu, em Dor de Carnaval.

Com Angela RoRo, ano passado, cantou Grito de Alerta, de Gonzaguinha.

E com Mart’nália, mais uma vez, para sempre, Estácio.

Vai deixar muita saudade.

Fiquem com a definição de Melodia pelo jornalista Luiz Carlos Maciel, em novembro de 1976, tão poética quanto ele: “Grande poeta e grande músico, a mais aberta, fulgurante e doce sensibilidade aberta ao instante fugaz e renovado, ao fluxo eterno e mundano e cósmico de todas coisas, que pode ser encontrada no atual panorama da música popular brasileira. A Luiz Melodia, gato eletrônico, reencarnação de grandes poetas de civilizações das quais perdemos toda e qualquer notícia, meu respeito e meu carinho”.

 

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Janaina em 04/08/2017 - 20h27 comentou:

Uma perda irreparável! Ficamos mais pobres, tristes e mudos! Restam, sempre, as poesias dele em forma de canções! 💕

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