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Renato Gaúcho ressuscita a lei de Gérson: “O mundo é dos espertos”

Técnico do Grêmio tem razão, sempre houve espiões no futebol. Mas isso seria condizente com o chamado fair play, a ética no futebol, o saber vencer e perder?

O mundo é dos espertos, certo? Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Victor Farinelli
25 de novembro de 2017, 13h31

“O mundo é dos espertos”, disse Renato Portaluppi, numa coletiva em que admitia que o Grêmio tinha sim utilizado um drone para espionar o treino do Lanús, seu rival na final da Copa Libertadores.

A frase foi dita por um técnico de futebol, mas poderia ter sido pronunciada por um político, um ator, um empresário pequeno ou grande, um advogado ou um apresentador de televisão global. Poderia ser dita por Cunha, Temer, Frota, Kataguiri e tantos outros que defendem a “esperteza” como estratégia.

É uma frase em sintonia com o seu tempo e lugar, este Brasil de 2017, este Brasil da segunda década do século 21, bem diferente da primeira, e muito mais distante ainda daquele dos anos 70 do século passado, quando outro futebolista lançou involuntariamente uma norma parecida.

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também. Leve Vila Rica!”, dizia Gérson, meia cerebral da histórica Seleção do Tri de 1970, naquele comercial de cigarros que marcou a sua vida.

O anúncio dos cigarros Vila Rica fez sucesso naquele Brasil de 1976, mas a opinião pública brasileira rejeitou ver aquele bordão, que passou a ser conhecido como Lei de Gérson, como espelho de si própria. A lei de Gérson virou sinônimo de gente inescrupulosa, que quer levar vantagem em tudo, como disse o Canhotinha de Ouro no comercial, um termo pejorativo que servia pra classificar as “pequenas corrupções” diárias, o famoso “jeitinho”: a pessoa que estaciona na vaga dos deficientes ou dos idosos, a que passa na frente dos outros na fila, que molha a mão do guarda, a que defende que “sonegar imposto é legítima defesa”, e por aí vai.

Falar que "o mundo é dos espertos" não seria outra forma de defender a "meritocracia", tão em voga ultimamente? E a meritocracia não teria, como a espionagem no futebol, algo de trapaça, ao ser utilizada por gente que na verdade herdou o que conseguiu, como é comum?

Gerson sempre lamentou o uso da propaganda como sinônimo de trapaça, na política e fora dela. “Uns idiotas colocaram isso, que se você está numa fila e o cara entrou aqui ‘ó, levou vantagem. É a lei do Gerson’. Lei do cacete, porra. Não tenho nada com isso aí. Não gosto dessa política safada que eles fazem aí. Mas tô bancando tudo isso porque sai do meu bolso também. Do nosso. Então, quem é que está levando vantagem?”, disse, em entrevista ao Globo Esporte no ano passado.

A lei de Gérson se usava muito mais pra repreender alguém, mas às vezes também cabia em tom de ironia maliciosa pela vantagem alcançada. Tempos em que mesmo o capitalismo e a moral distorcida da ditadura vigente tinham que se enquadrar em certos escrúpulos, e esconder os crimes que cometiam.

No Brasil do golpe, porém, dizer que “o mundo é dos espertos” parece constatar algo tão natural que falar numa “Lei de Renato” soa como forçação de barra. Falar que “o mundo é dos espertos” não seria outra forma de defender a “meritocracia”, tão em voga ultimamente? E a meritocracia não teria, como a espionagem no futebol, algo de trapaça, ao ser utilizada por gente que na verdade herdou o que conseguiu, sem o menor esforço, como é comum?

Durante a mesma entrevista em que justificou o uso do drone, Renato Gaúcho disse uma verdade: o futebol usa recursos dos mais diversos para espionar um adversário, desde sempre. De certa forma, ele tem razão em reclamar dessa hipocrisia na escandalização do fato, já que todo mundo sabe disso –ou talvez seja pitoresco somente o método, embora este também esteja atualizado com a tecnologia disponível.

Nos comentários, torcedores preferiram criticar reportagem do que fato em si

Contudo e tentando não cair no puritanismo esportivo–, o fato em si não condiz com o que os futebolistas projetam na sociedade, e não somente no Brasil. Os meios de comunicação usam o futebol e seus protagonistas, atletas e treinadores, como exemplos para as crianças. São os heróis dos nossos tempos, pessoas acima de qualquer crítica ou suspeita.

Renato Gaúcho disse uma verdade: o futebol usa recursos dos mais diversos para espionar um adversário, desde sempre. De certa forma, ele tem razão em reclamar dessa hipocrisia na escandalização do fato, já que todo mundo sabe disso

Mas, vendo de perto, em campo, eles fazem “pequenas” corrupções o tempo todo: espionam adversários, simulam faltas, fazem gols com a mão, abusam da violência quando o árbitro não vê… Sem mencionar as acusações de sonegação de impostos. Depois, vão pedir votos pro Aécio e desfilar nas marchas de indignados ao lado do MBL, o Eduardo Cunha e a Suzana Vieira.

Renato Gaúcho tem razão, sempre houve espiões no futebol, sempre houve a tentativa de levar vantagem roubando informação do outro time –e de outras formas também. Mas seria isso condizente com o chamado fair play, a ética no futebol, o saber vencer e perder?

No mundo do esporte, algumas disciplinas são mais fechadas que outras com respeito às correções éticas. O uso do recurso eletrônico para aumentar a precisão das decisões da arbitragem, adotado há anos por outras modalidades, só chegou ao ludopédio este ano, e ainda assim vem sendo aplicado de forma errática e ineficiente, talvez para que os “especialistas” possam dizer que quando a autoridade absolutista do árbitro era inquestionável a arbitragem era muito mais segura, apesar dos milhares de casos de erros históricos, e não são poucos os que foram claramente propositais.

No caso de Gérson, o jogador não cometeu nenhum crime pelo que disse, mas terminou com vergonha do comercial e dos valores que propagou. Com Renato Gaúcho, ao contrário, o caso gerou uma certa apologia da trapaça

Em outros âmbitos, frases como a do Renato Gaúcho provocam um caminhão de denúncias, que levam (ou deviam levar) a mudanças concretas visando melhorar os comportamentos e até mesmo a legislação. Por exemplo, criar regras para punir severamente a espionagem de um clube a outro, o que atualmente não existe.

Nas redes sociais, no entanto, sobraram “cidadãos de bem” comentaristas de site defendendo o técnico com desculpas como “todo mundo faz isso” ou “sempre foi assim e antes ninguém dizia nada”. No caso de Gérson, o jogador não cometeu nenhum crime pelo que disse, mas terminou com vergonha do comercial e dos valores que propagou. Com Renato Gaúcho, ao contrário, o caso gerou uma certa apologia da trapaça, em nome da tradição de fazer as coisas desse jeito. Afinal, o futebol “sempre foi assim” e “não tem por que mudar”. E é o exemplo, pras nossas crianças, de que o Brasil tampouco tem por que mudar.

Em tempo: Renato Gaúcho se arrependeu pelo uso da expressão e enviou à imprensa, através de sua assessoria, uma correção. “Gostaria de pedir desculpas por ter usado de forma errada a expressão ‘o mundo é dos espertos’. Não quis usar de maneira pejorativa. Na verdade, o mundo é dos inteligentes”.

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André Luís Schuler em 26/11/2017 - 06h12 comentou:

O que ele fez foi tão somente não ser politicamente correto.
Saiu de cima do muro .diferentemente de todos que falam o que os outros gostam de ouvir e agem diferente.
Apenas a palavra espertos foi mal colocada. Acho que se ele tivesse dito: ATENTOS às oportunidades todos estariam quietos.
Besteira!

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    Cynara Menezes em 26/11/2017 - 11h03 comentou:

    “atentos às oportunidades”. tucanaram a esperteza! ; P

Luiz Carlos P. Oliveira em 26/11/2017 - 08h50 comentou:

O fair play ajuda quando um jogador faz um gol com a mão? Ou quando o juiz não dá um pênalti escandaloso quase ao final do jogo ou marca pênalti quando a bola bate na barriga do zagueiro? O Renato tem razão, mas a frase dele não admite que o drone foi usado pelo Grêmio.

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Sergio em 27/11/2017 - 10h30 comentou:

O que esperar de um futebok comando pelo intocável Marco Polo Del Nero? Passou FHC, passou Lula, passou Dilma e estamos passando por Temer, e nenhum desses conseguiu moralizar o futebol!!!

Merecido ao Grêmio??? Uma boa derota para o Lanús!!!!!!!!!!!!!

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Flavio Marcio em 28/11/2017 - 07h08 comentou:

Num tempo em que um juiz made in USA faz interceptações ilegais e imorais – com fins políticos inconfessáveis – da conversa entre uma presidenta em exercício e um ex-presidente, esta querela envolvendo o Gaúcho é apenas uma imitação menor da cultura de malandragem federal .

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Carlos Valentin em 28/11/2017 - 13h50 comentou:

Ele vai ver o que o aguarda na Argentina, esta ferrado.

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