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Bachelet passa o 44º aniversário do golpe em confronto com fundamentalistas

Aprovação da descriminalização do aborto em três circunstâncias e do casamento igualitário deixou a presidenta do Chile em rota de colisão com a direita conservadora

Michelle Bachelet coloca uma rosa para Allende. Foto: governo do Chile
Da Redação
11 de setembro de 2017, 22h10

Assim como no Brasil, o fundamentalismo religioso avança também no Chile. A aprovação da descriminalização do aborto apenas em três circunstâncias (estupro, risco vital para a mãe e em fetos sem chance de sobreviver) e de um projeto de lei que regulamenta o casamento igualitário e permite a adoção de crianças por casais homossexuais deixou a presidenta Michelle Bachelet em rota de colisão com a direita conservadora.

No domingo, 10 de setembro, véspera do 44º aniversário do golpe militar, Bachelet deixou indignada uma celebração evangélica após ser insultada por um candidato da RN (Renovação Nacional) e bispo evangélico. Na porta, a presidenta chilena já tinha ouvido gritos de “assassina”. Dentro da catedral, a presidenta ouviu a plateia aplaudir o ex-presidente e rival Sebastián Piñera, também presente, enquanto silenciava durante a menção a seu nome.

A intervenção do bispo evangélico e candidato a deputado Eduardo Durán Salinas foi a gota que faltava. “Hoje são outros moinhos de vento que temos que enfrentar, que se traduzem na promulgação de leis que vão contra todos os nossos princípios, que violentam nossa consciência e nossa fé. Hoje os movimentos minoritários lograram instalar uma agenda que nem sequer conta com o respaldo da maioria dos cidadãos. Identidade de gênero, matrimônio igualitário, descriminalização do aborto são leis que não representam nossos valores cristãos”, disse Durán Salinas, um Silas Malafaia chileno.

Sem se acovardar, Michelle Bachelet anunciou que acabará com o sigilo de documentos que permitem elucidar mais crimes da ditadura Pinochet. “Falta esclarecer mais, sobre muitos mais”

O pastor fundamentalista traçou um plano muito similar ao que acontece no Brasil: tomar de assalto o parlamento para impor sua agenda retrógrada. “Hoje alguns cristãos nos levantamos para iniciar carreiras parlamentares não só para defender nossos princípios e valores, como também para contribuir em fazer um Chile mais amável.”

Bachelet não quis saber de cerimonial e resolveu deixar a celebração antes do hino nacional, o que causou novas críticas da direita, inclusive do relações públicas da catedral evangélica, que é ninguém menos que o próprio Durán Salinas. “A primeira mandatária não gostou de nossa intervenção, nem das demais que aconteceram na cerimônia. Mas é legítimo que a presidenta e seus ministros se retirem antes do final da cerimônia, no momento que se inicia o hino naciona? Ela se atreveria a ter uma reação similar numa missa católica?”

A porta-voz do governo, Paula Narváez, reclamou que a presidenta havia sido convidada a uma celebração religiosa e não a um comício eleitoral. No twitter, criticou as ofensas a Bachelet.

Hoje, durante a cerimônia em homenagem a Salvador Allende, o capelão evangélico do palácio de La Moneda, Eduardo Cid, fez um desagravo à presidenta. “Nem todos os que dizem ‘senhor, senhor’ entrarão no reino dos céus”.

Sem se acovardar, Michelle Bachelet anunciou após a cerimônia religiosa que acabará com o sigilo de documentos que permitem elucidar mais crimes da ditadura de Augusto Pinochet. “Falta esclarecer mais, sobre muitos mais”, disse a presidenta, citando o caso do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, cuja morte, 36 anos atrás, foi elucidada apenas em agosto. Na semana passada, sua filha, a ex-senadora Carmen Frei, lançou o livro Magnicídio, onde relata sua luta para esclarecer a morte do pai.

Em dezembro de 1981, Eduardo Frei foi internado para realizar uma cirurgia de hérnia de hiato, um procedimento simples. Mas, nos dias seguintes, contraiu uma infecção bacteriana que lhe causou septicemia e em seguida a morte. Em 2009, a Justiça chilena abriu investigação sobre o homicídio e, no mês passado, o juiz Alejandro Madri imputou seis pessoas como os autores da trama macabra: quatro médicos da equipe que o atendeu, o motorista da família e um agente da polícia secreta de Pinochet.

A presidenta destacou que não se trata de revanchismo, mas de saber a verdade. “Não vou permitir que se pretenda ver o legítimo desejo de Justiça e reparação de milhares de famílias no Chile como revanchismo. Todos desejamos passar a uma nova fase em nossa convivência cívica, mas isso exige verdade e implica Justiça; e não jogar terra em cima de onde, desgraçadamente, já se jogou muita, durante tempo demais.”

 

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Rafael em 12/09/2017 - 15h24 comentou:

O mesmo discurso daqui, impressionante.

Sugiro uma série de matérias sobre os absurdos da direita.

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