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Budtenders do Colorado desmistificam a arte de vender maconha

Eles são os baristas da maconha, sendo que, diferentemente do café, também atendem pessoas que precisam da erva não só para degustação, mas por motivos de saúde. Em alguns estados dos EUA onde a maconha foi legalizada, é uma profissão em alta –além de muito cobiçada por gente que curte fumar um baseado. Até por […]

(a budtender Mia Jane)
Cynara Menezes
04 de novembro de 2015, 19h44
(a budtender Mia Jane)

(A budtender Mia Jane)

Eles são os baristas da maconha, sendo que, diferentemente do café, também atendem pessoas que precisam da erva não só para degustação, mas por motivos de saúde. Em alguns estados dos EUA onde a maconha foi legalizada, é uma profissão em alta –além de muito cobiçada por gente que curte fumar um baseado. Até por isso, está cercada de estereótipos. Vou decepcionar alguns de vocês, mas não, ser vendedor de maconha não é sinônimo de passar o dia experimentando variedades gourmet de cannabis deitado numa rede. Embora tenha lá suas vantagens…

O norte-americano Anthony Franciosi, que planta maconha orgânica (tóxico sem agrotóxico!) legalmente no Colorado escreveu um post em seu blog com depoimentos de budtenders (trocadilho com bartender, garçom, sendo que “bud” é gíria para os camarões da maconha) que querem desmistificar a profissão. Franciosi me mandou o texto e eu o traduzi para vocês. Original aqui. Cliquem nos links, ele indica muita coisa boa para ler.

***

O Que é Ser Um Budtender

Por Anthony Franciosi

“Budtender” não é exatamente o termo que muitos deles preferem usar para si mesmos. Consideram este título uma gozação. Katie, budtender no Colorado, nos conta que vários preferem ser chamados “agentes de dispensário” (algo como um “balconista de farmácia” especializadíssimo). Forasteiros em busca de uma onda recreativa dão uma risadinha toda vez que escutam o termo, de acordo com Mia Jane, que tem um blog sobre vender maconha no Colorado.

Budtenders são tão diferentes entre si quanto as variedades de cannabis que vendem, mas os melhores deles levam seu trabalho super a sério e a última coisa que qualquer um deseja é que o público ache que eles são pagos para passar o dia à toa fumando becks.

Alguns dispensários na Califórnia não permitem a seus budtenders que fumem de jeito nenhum. Alguns não permitem que seus budtenders fumem nos horários de pico caso estejam preocupados em manter uma imagem profissional. Outros dispensários californianos permitem que eles usem alguns concentrados sem fumaça e apenas alguns proprietários permitem que seus budtenders fumem enquanto estão atendendo.

http://askabudtender.tumblr.com/post/52941575791/could-a-budtender-smoke-while-working-in-ca

De qualquer maneira, fumar nas dependências do dispensário é ilegal no Colorado. Portanto, esqueça o estereótipo do budtender largadão e chapado.

Budtenders têm um “cabeção”

Empacotar camarões pode ser um trabalho simples, independentemente do Estado em que a maconha é vendida, mas você não pode ser um junkie se quer vender drogas legalmente. Se quiser cuidar de berlotas no Colorado é preciso passar em um teste de antecedentes criminais. A verdade sobre o assunto é que muitos, se não a maioria das pessoas que estão trabalhando na indústria legal de cannabis, não são novatos no assunto. Muitos budtenders profissionais foram experientes o suficiente para administrar negócios similares de forma underground, escapando da prisão e da punição pelas autoridades, ao mesmo tempo que muitas destas mesmas pessoas batalhavam para descriminalizar e legalizar a maconha. A maioria dos budtenders é gente que sofreu e lutou duro – e continua a fazê-lo – pelos direitos deles e nossos de comprar cannabis legal, e esta é a razão pela qual budtenders levam este trabalho e, mais importante, seus pacientes e clientes, tão a sério, a despeito dos estereótipos.

“Kevo”, um amigo que nós contactamos, concordou em compartilhar sua experiência para este post. Ele começou a plantar ilegalmente e vender maconha aos 17 anos, e fez isso durante 13 anos antes de se mudar para o Colorado, onde tem trabalhado como um profissional no negócio legal de erva desde o ano passado. Ele nos disse que corporações gigantes vieram para o Colorado com todo o dinheiro do mundo para contratar pessoas que pudessem cultivar não uma, mas centenas e milhares de lindos camarões, o que não é um grande desafio. Um monte de gente que pôde arranjar empregos na indústria legal avançou vários degraus em horticultura e botânica e também em vendas e experiência comercial, de acordo com Kevo, mas muitos trabalhadores de sucesso na nova indústria aprenderam o que sabem da planta baseados em suas experiências de como plantar e vender ilegalmente.

Os budtenders são pessoas que, ironicamente, gastam a maior parte de suas 10 horas de trabalho diárias dedicados a tarefas que lhes garantam que estão cumprindo (em vez de rompendo) leis, enquanto atendem as necessidades de seus clientes. Os dispensários de maconha medicinal na Califórnia não podem abrir antes das 8 e têm de fechar antes das 12 da noite e os dispensários recreativos não podem ficar abertos após as 7 da noite. Os budtenders se certificam que o edifício esteja em boas condições sanitárias e seguro contra o fogo. Os cartões de identificação do paciente devem ser checados. A maconha deve ser contabilizada desde as sementes para que não possa nunca ser vendida de forma subterrânea no mercado ilegal e deve ser pesada e empacotada de forma segura e adequada.

Kevo nos explicou em sua entrevista que a divisão de fiscalização da maconha e o chefe dos bombeiros fazem visitas rotineiras para ver se está tudo em ordem. Uma fileira de plantas a poucos centímetros da eletricidade ou do calor pode causar problemas em termos de multas e permissão de funcionamento. Kevo explicou que a regulação da cannabis no Colorado é ainda um experimento e as regras são atualizadas e modificadas frequentemente.

Maconheiros cool vs chatos

Kevo descreveu vender maconha como similar ao trabalho de garçom, no sentido de que interagir com o público e pacientes muitas vezes pode ser incrivelmente agradável ou completamente horrendo, com poucas exceções no meio. Não seja o tipo de caloteiro que fica ao redor da loja perguntando por amostras grátis, não queira se aproveitar do budtender para terapia grátis e acima de tudo não tente entrar numa competição cerebral com seu budtender quando você está falando de maconha na loja, especialmente se a conversa é longa e especialmente se você quer que seu budtender te respeite com pessoa e desenvolva uma relação que possibilite atender melhor suas necessidades de saúde específicas.

Kevo disse que ele tem uma particular implicância com fregueses que acham que sabem mais sobre maconha do que realmente sabem e se recusam a tentar uma híbrida de sativa porque acham que necessitam uma variedade de sativa pura, por exemplo.

Educar o público é a primeira responsabilidade e satisfação de todo budtender profissional, além da segurança. “Me dou conta que, como budtender, também sou a primeira experiência de alguém com a cannabis, e tomo essa responsabilidade com todo cuidado e orgulho”. Mia Jane escreve como aquece sua alma compartilhar as experiências canábicas com seus clientes para ajudá-los a se sentir melhor.

Os budtenders precisam ser capazes de fazer mais do que meramente entender e descrever os diferentes efeitos da índica e sativa, as variedades dominantes de maconha, ou os diferentes modos de utilizar sem fumar, concentrados e tinturas que seus fregueses podem preferir em vez de carburar flores de cannabis. Katie destaca que os melhores budtenders estão por dentro das últimas novidades em medicina tanto quanto sobre as exigências legais. “Nossos pacientes vão de bebês com epilepsia até idosos com câncer, além de todos os demais, então é importante nos educar continuamente.”

Os budtenders são bons ouvintes que passam a maior parte de seus dias perguntando a pessoas como querem se sentir após fumar maconha, para ter uma ideia de qual variedade indicar para elas. Sloane Poorman perguntará coisas como “com que frequência você fuma?” e “quando foi a última vez que você fumou?” para perceber o nível de tolerância dos novos pacientes dela.

Os budtenders desfrutam de muitas vantagens óbvias. Budtenders iniciantes no Colorado curtem ganhar no mínimo dois dólares por dia a mais que o salário mínimo. Kevo nos disse que ele, como muitos budtenders, também ama todas as diferentes variedades de marijuana com desconto a que tem acesso. Inclusive, pegar uma amostra de todas as variedades vendidas na loja é compulsório para Sloan Poorman e suas colegas. A melhor parte para Kevo é que ele de fato curte poder falar abertamente sobre maconha e interagir com outros consumidores de cannabis como parte de uma carreira que ele ama, mas que nunca pôde imaginar para si mesmo, já que era ilegal. Kevo sente que é um privilégio pertencer à primeira geração de trabalhadores na nova indústria legal da maconha.

Muitos budtenders aparentemente se sentem gratificados observando os efeitos benéficos que a cannabis legal propicia às vidas das pessoas, não em termos caso-a-caso, mas também das melhoras que trouxe para a sociedade. Os budtenders têm noção de que estão catalisando mudanças sociais. Orgulhosa da sua condição, Mia lamenta o aumento do trânsito, os aluguéis e algumas atitudes estranhas das hordas de pessoas que foram para seu Colorado natal em busca do direito de fumar maconha sem ser perseguidos. Ela espera ansiosamente a legalização da maconha no resto do país porque ama a revolução do baseado que ajudou a criar através de entendimento, compreensão e educação, mas também porque quer que todos os migrantes da maconha (“green rushers”, na gíria em inglês) possam fumar maconha em seus próprios estados e retornem para lá, fazendo com que os níveis populacionais – assim como seu aluguel e tempo de deslocamento – caiam aos níveis de antes da legalização.

 

 


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