Socialista Morena
Feminismo

A canção cafona de Chico Buarque, moralismo e ídolos inatacáveis

Vamos combinar, a nova canção do Chico Buarque é cafona. Cafonérrima. O que me incomoda na crítica a ela é o moralismo embutido. Mas não acho que ninguém seja sagrado, todo mundo pode ser alvo de críticas. Até o Chico e o Ney

Reprodução youtube
Cynara Menezes
09 de agosto de 2017, 11h57

Vamos combinar, a nova canção do Chico Buarque é cafona. Cafonérrima. Conta a história de uma puladinha de cerca. Duas pessoas casadas que se encontram às escondidas. Se fosse Roberto Carlos que escrevesse “Se o teu vigia se alvoroçar/ E, estrada afora, te conduzir/ Basta soprar meu nome/ Com teu perfume/ Pra me atrair” vocês iam achar cafona, confessem. “Vigia”? Como assim, mano? Achei até o Chico meio constrangido de cantar isso.

Mas o verso de Tua Cantiga (single do novo disco do compositor) que está dando o que falar é outro: “Largo mulher e filhos/ e de joelhos/ vou te seguir”. Um artigo da produtora Flavia Azevedo publicado no Correio da Bahia causou frisson ao dizer que o lirismo de Chico “datou”. “De repente, pra um monte de mulheres, ‘largo filhos’ soou tão romântico quanto um arroto no meio do beijo. Uma deselegância, uma sacanagem, uma coisa feia e desnecessária. A gente broxou”, escreveu Flavia.

Eu entendo perfeitamente o ponto de vista dela, num mundo em que até hoje as mulheres cuidam dos filhos pelo menos dez anos a mais do que os homens. E num país em que as mulheres chefiam 40% das famílias. “Largo mulher e filhos” soa como se Chico avalizasse o comportamento machista de abandonar os próprios filhos, coisa que o cantor, aliás, em sua vida pessoal, nunca fez. Soa esquisito, sobretudo vindo de um homem de esquerda, e no momento que vivemos. Neste sentido, a canção é datada, sim.

Por que nossos ídolos são inatacáveis? Não deveriam. Ninguém é sagrado, todo mundo pode ser alvo de críticas

O que me incomoda neste raciocínio é o moralismo embutido nele. Chico está falando de adultério. Seu “largo mulher e filhos” pode só ser metafórico, força de expressão –ou momentâneo, para quem viu, como eu, um relato de pulada de cerca, de fugidinha, na canção. Levar ao pé da letra o verso é meio pudico, puritano. Ter um/a amante não deveria ser algo louvável, como parece sugerir a canção, mas precisamos ser mais honestos: é algo que pode acontecer com qualquer um.

Um artigo da minha amiga Nina Lemos defendendo Chico me deixou incomodada com outro aspecto da questão. Por que nossos ídolos são inatacáveis? Não deveriam. Ninguém é sagrado, todo mundo pode ser alvo de críticas. O mesmo quiproquó rolou quando o jovem roqueiro Johnny Hooker criticou Ney Matogrosso por “desdenhar a causa gay” ao dizer numa entrevista: “Que gay o caralho, sou um ser humano”. Muita gente se levantou em defesa de Ney enquanto ícone da MPB acima do bem e do mal, sendo que não é a primeira vez que ele adota uma postura extremamente conservadora. Quem era Johnny Hooker pra falar de Deus?

Eu penso diferente, qualquer um pode dizer que Ney Matogrosso falou besteira e desprezou a causa LGBT, assim como qualquer um pode dizer que a canção de Chico datou. Este negócio de “quem somos nós para falar deles”, em plena era das redes sociais, que ampliou as vozes de todo mundo, é algo meio humilde demais pro meu gosto. É tipo “coloque-se no seu lugar!” ou “você sabe com quem está falando?” Pára com isso, deixa o povo detonar o Chico, detonar o Ney. O verdadeiro ídolo saberá aprender com as críticas. Nunca é tarde.

É saudável o debate inteligente. É saudável pensar, escrever, publicar e gerar discussões, como fez a produtora que “ousou” fazer reparos a uma canção de Chico Buarque, aquele para quem “toda mulher quer dar” (eu nunca). Os “textões” são a melhor parte das redes sociais. Problematizar é divertido. O que não é saudável é baixar o nível. Além disso, o que seria de nossas vidas sem estas polêmicas? Só nos restaria o Temer.

 

 

 


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Bia em 09/08/2017 - 13h39 comentou:

A canção pode até lá ter seus senões, mas o Chico já leva tanta taquarada dos esquerdofóbicos o tempo todo que só faço críticas entre quatro paredes. Algo parecido me acontece em relação ao Lula. Reclamações? Depende de quem seja o meu interlocutor.

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jose em 09/08/2017 - 13h43 comentou:

Lembro-me bem das críticas que se fazia a Chico por “Sabiá”: alienada, ultrapassada, etc. Chico é um grande escritor, conhece profundamente os truques da literatura; E se a Democracia der um suspiro vale a pena correr atrás dela de joelhos, mesmo com o sacrifício das perda da família.

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    Regina em 10/08/2017 - 15h41 comentou:

    Boa!!!!

    Sergio Bian em 14/08/2017 - 13h02 comentou:

    Concordo plenamente com você e percebo que não estou sozinho. Você captou o mesmo sentido que eu. Além disso a música é composta com polirritmias de compasso 6×8 binário) e 3×4 (ternário), uma alusão à cultura afro americana e principalmente afro-cubana) Chico está muitíssimo além de seus críticos incapazes de compreender sua genialidade.

Daniel em 09/08/2017 - 13h52 comentou:

O Chico é um observador do cotidiano. E fala de personagens desse cotidiano. O fato de escrever um verso amoral, imoral ou criminoso não o faz participar do ato, da injúria ou do crime. Ele não canta apenas o que defende, canta o que vê! Gostei da canção. O que torna uma história cafona não é o tema mas os elementos artísticos utilizados…

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    Morgana Rodrigues em 09/08/2017 - 22h13 comentou:

    Certíssimo, Daniel. Exatamente. Matéria de quem não conhece as composições desse grande artista.

    LUCILENE DULTRA CARAM em 10/08/2017 - 08h47 comentou:

    É isso mesmo. Cafona é não ter sensibilidade para o que é belo, poético e novo. Cafona é ser pragmático e não se render a nada apenas para não ceder em sua “posição”. Mais cafona ainda é usar tudo é todos para encontrar um machismo, uma homofobia, qualquer coisa para criticar. O mundo está muito chato. É muito mímimi. É preciso poesia, sem análise socio-politico-seticista, apenas para alegrar a alma. Chico sabe fazer isso.

    Joana em 11/08/2017 - 16h32 comentou:

    Exato. O cotidiano é cheio dessas histórias. Essa música é linda e representativa. Parece que a juventude precisa atacar ídolos antigos pra fortalecer a sua posição, sem pensar muito em outros contextos, outras histórias. Podemos interpretar literalmente também e porquê não? Pessoas vivem o que Chico canta e quem somos nós pra julgar.

    Ademar Amancio em 13/08/2017 - 04h33 comentou:

    Correto.

    Petúnia em 13/08/2017 - 23h06 comentou:

    Perfeito! O poeta tem que ter passe livre.Falso moralismo é triste.

Alvaro Fernando Souza em 09/08/2017 - 14h09 comentou:

Gostei muito dessa nova música do Chico, assim como do seu texto.
Não vejo problema algum em criticar Chico ou Ney ou qualquer outro, mas não acho que a música seja datada, nem que seja ofensa a qualquer causa que defenda, assim como nunca foi ofensa suas músicas que expressam a visão feminina, sendo um homem.
No mais, “basta soprar meu nome com seu perfume que eu vou”… 😆

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Re em 09/08/2017 - 14h14 comentou:

Aplausos.
Concordo, apesar de discordar politicamente de vc, esse foi seu melhor texto.

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Francisco Águas em 09/08/2017 - 14h22 comentou:

Eu acho que ele tá falando da Thaís Gullin. Terminaram o romance de cinco anos, de acordo com as colunas sociais, mas ele deixa claro que mesmo ela estando com o atual dela, ele ainda lembra dela e estaria disposto a viver momentos com ela.

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Agenor Tenório em 09/08/2017 - 14h47 comentou:

Prezada Cynara Menezes

Antes de tudo uma obra de arte provoca interpretações e emoções em quem sabe apreciar. A obra de Chico é toda arte/ poesia das melhores. A frase “largo mulher e filhos” é uma força de expressão querendo dizer: “você é tão importante para mim que eu largo mulher e filhos pra lhe seguir”. Não significa largar a família. Outra coisa: a canção é uma elegante declaração de amor. Nenhuma conotação de adultério. Ouçamos muitas vezes como se aprecia um quadro famoso.

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Isa Godoy em 09/08/2017 - 14h50 comentou:

Críticas podem ser feitas a qualquer pessoa ou a coisas que qualquer pessoa fez ou venha a fazer. Só acho que no caso do Chico é desnecessário, pois acaba dando munição e uma ajuda danada pra engrossar o coro dos coxas que já o detonaram e o detonam ainda. Pra quê? E daí? Alguém acha que vai ensinar alguma coisa pra ele? Quem acha a música cafona, misógina, sacana, basta não ouví-la. Acho que é o mesmo que criticar os eventuais deslizes dos pronunciamentos do Lula. Pra quê? De que adianta? Alguém vai ensiná-lo a se pronunciar? Deixa isso para os coxas e golpistas!

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Danielle Fernandes da Silva em 09/08/2017 - 15h42 comentou:

Desculpa, mas não entendi assim o texto da canção. Entendi que, na história, o cara foi largado e a moça se arranjou com outro, mas o cara ainda gosta dela. Então, ele manda um recado dizendo que se ela o quiser de volta, ele larga o que estiver fazendo e vai atrás dela. Não achei a música machista. É uma poesia normal de Chico Buarque, como várias que ele faz com eu lírico feminino. Por que a música da Geni não pode ser considerada machista, por exemplo?
Só minha opinião.

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Heber em 09/08/2017 - 15h45 comentou:

Essa canção conta uma história com personagens que, não necessariamente, nos identificamos, só isso, achar que o autor é machista é não conhecer sua obra. Gostar ou não da música também é outra questão, na minha opinião, por exemplo, “Tua Cantiga” não está à altura de sua obra, mesmo assim, é melhor do que 99% do que se está sendo produzido atualmente.

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Neiva em 09/08/2017 - 17h12 comentou:

Nenhuma pessoa tem procuração pra falar em meu nome. Afirmar de forma peremptória algo do qual eu discordo, tentando transformar em verdade única é stalinismo. Se não gostou, não ouça. Mas não use o nome do cara prá poder publicar um texto. Vão capinar uma horta e deixem o Chico em paz.

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Francisco Marcio Gomes Pinheiro em 09/08/2017 - 17h18 comentou:

Não sei para quem a fez mas, me deu a impressão de um “rondó” feito para a netinha dele…
Achei massa.

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Orlando em 09/08/2017 - 17h34 comentou:

Quem escreveu esta crítica nunca obviu falar de “sentido figurado” ou de “metáfora”… Sinto muito, mais querer levar autores como Chico, Gil, Vinicius de Moraes ou Jobim, assim como outros, ao pê da letra, guiados por paradigmas rígidos é de uma ignorância e ausência de cultura poética incomensurável. Lamentável!!

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João Leonel em 09/08/2017 - 18h11 comentou:

Chico é um cronista da vida. Compõe e canta as coisas que acontecem, como as puladinhas e fugidinhas entre outros vários temas.
O problema da crítica, de forma geral, e independente de quem é criticado, é a referência ou a régua utilizada pelo crítico, que muitas vezes só existe na cabeça dele e sempre exclusiva para os outros.
Quem idolatra ou idealiza um ídolo acha que o mesmo é o que ele, seguidor, acha que é.

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Miguel Correia em 09/08/2017 - 18h13 comentou:

Assino embaixo, minha socialista predileta.
Chico já deu voz a inúmeras pessoas marginais, com o jargão machista, criminoso, afetado, depravado e que tais, que lhes são próprios.
Não sei se seria adequado tomar as expressões “ao pé da letra”, para avaliar sua criação.
Entretanto, também concordo que pode se tratar apenas, e tão somente, de uma falha típica dos seres humanos.
Humanos como são os ídolos de carne e osso. Falíveis, como são os meus ídolos, dentre eles o Chico Buarque.
O Chico saberá, com certeza, absorver as críticas. Ele já demonstrou que tem um senso de autocrítica muito grande.
A crítica, abstraída a ofensa, faz muito bem. Ao contrário da bajulação.

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David em 09/08/2017 - 18h33 comentou:

Chico sempre falou de amores mundanos, de paixões fulminantes. Deixem o homem livre pra usar a linguagem que bem entender para sua poesia. O homem é gênio. Na sua arte pode inventar histórias. Melhor do que cantar que vai agachar na garrafinha.

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    Bernardo em 09/08/2017 - 21h34 comentou:

    Muito bem lembrado.

Diego Rocha em 09/08/2017 - 18h59 comentou:

Normalmente seus textos são muitos bons.
Esse não é um deles.
Achou que faltou um pouco a compreensão o que é poesia e o tal do eu-lírico.
Meu humilde conselho é que você não deixe a militância exacerbada atrapalhar sua mensagem em troca de biscoito.

Responder

Zenaide vieira de aguiar em 09/08/2017 - 19h05 comentou:

O Chico é sábio. Nascido em berço de ouro da cultura conhece a cultura de todos como ninguém. Conhece a rotina desde as elites ao mais humilde . Uma frase do Chico pode ter várias interpretações, depende do QI de quem a interpreta. Ao pé da letra pouco importa, o que importa é a poesia.

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Marta Oliveira em 09/08/2017 - 19h07 comentou:

O cafona da canção tá no arranjo, achei bem ruim. Mas as críticas moralistas vem de uma incapacidade de interpretação é uma enorme vontade de problematizar tudo. Qto ao Ney, acho a fala contundente, somos mais do q o gênero define… E pra criticar tem q ter o mínimo de cultura, leitura e não esse monte de pseudocultos de rede…

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George Velame em 09/08/2017 - 19h14 comentou:

Cynara, vc confundiu eu-lírico com o sujeito que escreve. O eu-lírico, assim como o narrador é um personagem. Chico sempre foi mais escritor do que músico. O Mal de certa parte da esquerda é querer que a arte seja monofônica.

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Paulo Henrique de Farias em 09/08/2017 - 19h17 comentou:

O Chico sempre escreveu canções assim, o porém, é que atualmente esperam dele musicalmente o que ele é politicamente. Já vemos de longe o tempo do Chico de ‘Apesar de Você’.

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ORFEU MARANHAO MOREIRA BARROS em 09/08/2017 - 19h22 comentou:

Surpreende-me a superficialidade dos comentários e críticas a respeito dessa canção.
Fico triste em verificar que tantas pessoas que escrevem em sites e blogs são incapazes de perceber que a letra da música é uma alegoria.
Acho que algo se perdeu no nosso sistema educacional, de forma que as pessoas não conhecem mais os códigos e os símbolos usados pelos poetas do passado.
Se você não entende a mensagem da canção, o melhor é ficar calado.
O talento nem sempre é óbvio.
Chico Buarque tem o domínio da linguagem poética. Ele sabe o que diz.
Achar que essa canção trata da paixão dele por uma amante chega a ser patético!
Amantes não tem vigias que as conduzem por estradas.
Faça uma nova leitura com mais profundidade e talvez você comece a entender do que ele está falando.

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Junior Meneses em 09/08/2017 - 19h34 comentou:

Acho que “Cafona” não é o termo adequado! Acredito que ele simpliciou a canção, pois os ouvintes atuais não iriam entender a complexidade das letras de Chico e usou apenas um tema atual (traição). Não vejo no que ele errou, a não ser na mixagem, a voz ficou muita alta, quase não se escuta os instrumentos!

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Laércio J. Pereira em 09/08/2017 - 20h16 comentou:

Os lamentos por causa do verso “largo mulher e filhos…” só deixam claro o quanto a escolha da expressão foi acertada. Se o autor quer que o personagem seja capaz de absurdos nada melhor do que uma imagem que provoque falação mesmo. O eu lírico da letra paparica a coisa amada (talvez a pátria, talvez a inspiração musical, talvez a poesia; talvez o mais simples, uma pessoa amada…) e faz isso o tempo todo, como um escravo. Até de joelhos, uma expressão pra lá de forte também.
Não há surpresas nas críticas, porque a maioria não considera toda a obra do autor, nem lê o texto todo. Uma vez ele disse: “Nao, eu não sou homossexual, mas quando eu escrevo eu posso ser”. O escritor pode ser qualquer coisa, até o diferente de si.
Eu respeito outros entendimentos porque a arte é assim. Isso é saudável. Pode alguém entender que ele está falando até da morte, e daí?
Concordo plenamente que o Chico, o Caetano, o Nietzsche, o Papa, o Guimarães Rosa, são passíveis de críticas sim, porque não? Eles erram, mas quem interpreta o poema coloca muito da sua pessoa na interpretação, e erram também, é normal.

Responder

    Rocha em 21/08/2017 - 16h33 comentou:

    Concordo que seja relacionado a pátria, quando fala “largo mulher e filhos”, o que um soldado faz quando vai para guerra defender seu país numa guerra???

Ceres Pascal em 09/08/2017 - 20h26 comentou:

É preciso ser muito amarga pra criticar esta linda e doce canção do Chico. Não acho cafona não . É suave e diz o que se e capaz de pensar quando se está apaixonada. E o Chico é capaz de colocar-se em suas canções no sentimento dele e no dos outros. Que bom saber que você não quer fazer amor com Chico. Pois eu largaria qualquer amor pra ficar com ele. Vá ser amarga assim no inferno. E polemiza a grave situação política criada por golpistas da pior qualidade.

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    beth em 10/08/2017 - 02h15 comentou:

    Também adorei a música e não vi nada de “datado”. Datadas são essas críticas moralistas burras, elas me lembram os burguesões que combatíamos nos anos 60 e 70. Essa turma de “críticos” do Chico seria contra o amor livre e Woodstock, provavelmente. Estão mais caretas e autoritários do que os nossos avós…isso é horrível.

Gil Nuno Vaz em 09/08/2017 - 21h45 comentou:

Quando leio “deixo mulher e filhos, e de joelhos”, o que me chama a atenção é o uso de uma rima apoiada nas sílabas finais das palavras. Isso acontece por toda a letra (nega com cantiga, suspiro com ligeiro, nome com perfume, nome com ciúme, lenço com alcanço. Além disso, vejo rimas à distância, obedecendo a paralelismos nas estrofes (mim com fim), além das dobradinhas entre “ar” e “ir” na exposição da parte A da canção e a sua reexposição com letra diferente. Procedimento que volta no final da canção, com uma ligeira substituição de “ir” por “i”. Chico é herdeiro de uma tradição que vem da Idade Média, dos trovadores e troveiros, e não há como negar a sua maestria. Em Tua Cantiga, ele não está fazendo nada além do que sempre fez, canções bem feitas. Bom, se o assunto é datado, deixa que o futuro vai dizer. Se quem fica para a história é o autor ou o crítico.

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    Laércio J. Pereira em 10/08/2017 - 00h25 comentou:

    Ótimo comentário.

Armando Roda em 09/08/2017 - 21h56 comentou:

Concordo que a letra esteja muito abaixo da obra de Chico Buarque, porém não toda, há versos bonitos e a música é muito linda.
Quanto a letra sinto que está impregnada daquela paixão que nos deixa bobo, não acho que seja cafona, aliás o Roberto é cafona na essência, qualquer coisa cantada por ele fica brega.
Quanto ao genial Chico Buarque, tem crédito de ser o maior intelectual do Brasil e pode ser cafona ou apaixonado as vezes.

Responder

CARLOS ALBERTO CAVALCANTI em 09/08/2017 - 23h04 comentou:

Perdeu uma ótima oportunidade de ficar calada. Não é o tema que torna uma música ou poesia cafona ou tem o dom de classificá-la como obra prima, mas sua abordagem ou sua “Construção” (e aqui vai o nome de outra grande obra do Chico). Para completar, a menção preconceituosa à obra prima dele “As Vitrines” foi mais infeliz ainda.

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Meiri em 09/08/2017 - 23h31 comentou:

Sobre as críticas da “mulherada (empoderada?)”a música Tua cantiga de Chico Buarque….me soa datada sim, mas no universo real NÃO. Mulherada tá sempre muito perto de ser a mulher que ironicamente Chico sempre cantou e “criticou”, Ele canta a verdade mulher, a sua verdade.Dói? Mude.

Responder

    hugo em 10/08/2017 - 21h56 comentou:

    concordo

Thiago Pereira em 09/08/2017 - 23h35 comentou:

Que merda está havendo com a esquerda brasileira, que caminha, de mãos dadas com a direita, para as mais intoleráveis formas de fascismo e censura? Tudo agora é policiado, exposto e linchado publicamente, inclusive um território múltiplo e aberto como o da criação artística. Só essa turma mesmo para achar uma frase como “Sou humano” de Ney um escândalo (o Hoker chega mesmo a evocar essa dimensão humana como “abstrata”!); agora esta senhora parte com tudo para meter patrulha ideológica na construção estética de Chico Buarque. Vem e anuncia que a canção é “cafonérrima” (categoria estética) e não se dá ao trabalho de sequer numa linha explicar a afirmação e, muito menos, de utilizar fundamentos que deem Consequência ao que acusa. Sim, por que os textos desta nova esquerda tem esse tom: são sempre denuncias, são maniqueístas (ou se é do bem ou das trevas) e são desonestos intelectualmente: afora misturar a poesia do Chico Buarque com estatísticas do direito de família, conduz o discurso, numa notável inversão, que faz de Chico de acusado a Culpado por “querer ser inatacável”. Chico não quer nada, Chico faz canções – e política – e cada área deve analisada pelo valor que tem. É estúpido, e grosseiro e pretende submeter toda a realidade uma só visão de mundo, ao que parte do terceira onda feminista chama de “o novo normal”: portanto uma nova moralidade (bom seria se esse mundo fosse verdadeiramente Livre nas suas contradições). Devagar com o andor, minha cara, é muita “vontade de potência” querer colocar o mundo todo na sua mão: daqui a pouco, com essa falinha mansa e simpática dessa “turma do bem”, não vai haver grandes diferenças entre esquerda, evangélico, bolsmonions: todos terão em comum linchar e submeter uma canção ao seu credo.

Responder

    beth em 10/08/2017 - 02h05 comentou:

    Perfeito o seu comentário!

    Thiago Fusco em 10/08/2017 - 08h18 comentou:

    Parabéns pela sensibilidade chará.

ROBERTO LEON INACIO PONCZEK em 10/08/2017 - 01h02 comentou:

Leitura pobre , equivocada e ideologizada de uma magnífica canção que descreve um avassalador amor de um homem por uma mulher. Desta vez, é o Chico falando pelo homem depois de tantos anos falando pela mulher. No entanto, as feministas odeiam que se fale como homem.

Responder

Maurício Santini em 10/08/2017 - 01h12 comentou:

Então eu vou explicar e não vou desenhar…

Estou vendo que conhecem bem de política ou de preconceitos, mas de músicas vocês não sabem nada…
Já estão falando mal da música do Chico Buarque. Por que? Como compositor, poeta e letrista quero declarar que, nem sempre o que compomos corresponde ao que fazemos.

Esta canção notadamente é uma declaração de amor de um amante. Ora, eu não tenho amantes, nem tampouco o Chico, mas ele fez esta letra pensando no amante que ama a sua amada. E, quantos casais têm amantes, não? Não???

É errado, creio que sim, já que não é preciso ter amantes…(no meu conceito). Mas, isso é um poema, um retrato, é arte!

Marília Mendonça canta sob a vestimenta da amante, Chico não pode? Ou Chico é a puta de Geni e Zeppelin? Ou Chico é todas as mulheres que ele cantou?

Nunca ninguém traduziu tanto o pensamento feminino como este homem. Por que ele não pode também falar como um amante homem que ama a sua amante em sua música?

O amante não é ele, nem eu, mas são vários que têm este sentimento. Vários homens e mulheres!!! Podemos julgar e condenar a conduta? Para muitos sim. Mas, o caso aqui não é o julgamento dele e sim de sua poesia, sua arte, sua música!

Para mim é genial. É linda, simples e tocante. Já vocês… Precisam conhecer mais um pouco de música e de alma.

Responder

    Jair Fonseca em 10/08/2017 - 15h08 comentou:

    Exatamente! Tanta gente cometendo o erro básico de confundir a pessoa do autor com o que diz seu texto literário.

André Aragão em 10/08/2017 - 01h52 comentou:

Numa boa, nem sei pq estou respondendo rsrs fiquei indeciso: faço um textão no fb? Pra Q? Preferi falar diretamente. Olha, não quero dizer o famoso “apenas pare” pq sei Q vc é uma pessoa inteligente, curto sua causa, coaduno com alguns ideais de esquerda, e acho Q a polêmica é atual e interessante.
1- é preciso Q acabe de vez essa relação louca Q é feita entra a esquerda e o feminismo! Aliás, entre a esquerda e qq causa de minorias! PAREM!! Conhece stalin, fidel Castro? Isso é coisa de uma esquerda nova brasileira, o pessoal do psol, a quem tenho máximo respeito, apesar de não ser minha turma. A parada da esquerda sempre foi o TRABALHADOR, O POBRE! Não consta Q dread queen seja obra da Coreia do Norte, isso nasceu no berço LIBERAL, e eu acho o máximo.

2- porra, traição existe! Vc mesmo diz Q ele jamais largou mulher e filhos! Será Q é possível deixar o poeta imaginar livremente? Tem
Q ser sempre com essa cartilha pra ter valor atual? Agora AMÉLIA ou EMÍLIA não tem mais valor? Amiga, isso é nosso cultura! Obviamente munha geração precisou se desconstruir e mudar de atitude, não temos a vida confortável Q nossos pais tinham. Aceito, aqui em casa divido tudo iguaizinhos, tarefas do lar e do filho, IGUAL! mas meu Deus, não é negando parte da nossa cultura A QQ PREÇO Q vamos melhorar algo! A mudança está aí, td mundo tá vendo, tá tudo renovado! Em relação à tempos atrás, tem como comparar o número de piadas racistas ou homofóbicas de hj?? Parem! É Q nem aquele cônjuge Q reclama com razão mas não sabe a hora da trégua! Pqp Q saco!

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André Aragão em 10/08/2017 - 02h03 comentou:

Outra coisa, vc mete o malho na canção levando em conta só a letra! Acha Q fazer música é pegar uma caneta e sair escrevendo? Deus do céu, sequer pensa nisso! Chico Buarque é um dos maiores melodistas desse planeta! A letra poderia ser um detalhe, e vc não poupa nada, simplesmente diz Q a música é CAFONA! Dane-se a harmonia, a melodia, o rimo (ou seja, A MÚSICA!! Kkk). Cara, vou parar kkkkkkkkk não da não! Sei Q não publicarão, mas deveriam! Não são a nova esquerda DEMOCRÁTICA?? Parte dessa nova esquerda é tbm responsável por fenômenos de popularidade irritantes como o bolsonaro. É por raiva de agendas loucas vindas da nossa própria galera Q pessoas passam a simpatizar com o outro lado. Desculpe ser duro, se quiser não publique, mas ao menos reflita!

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beth em 10/08/2017 - 02h04 comentou:

Moralismo e ignorância…cruzes que gente chata esses “críticos” ofendidos com o Chico. Essa tal produtora é uma besta quadrada. Vão ler poesia, estudar figuras de linguagem, ouvir mais MPB e deixar de ser tão literais. Se os grandes poetas e artistas em geral fossem tão pudicos e pequeno-burgueses, mais da metade das grandes obras de arte do mundo não existiria. O Brasil está ficando assim burro mesmo ou é só impressão?

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André Aragão em 10/08/2017 - 02h09 comentou:

Ah desculpa, não Tô aguentando! Não sei se vai ser textão, mas pelo menos um testículo kkkkkkkk abs
Po ta Tudo errado!

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ARIVALDO MENDONÇA em 10/08/2017 - 02h56 comentou:

Francisco Buarque de Holanda.
Maravilhoso em qualquer sentido.
Reserva de moral do Brasil.

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Nélio Rosa em 10/08/2017 - 06h38 comentou:

Não há nada mais ultrapassado do que a palavra cafona. Ela me remete aos anos setenta.
Concordo com as críticas ao discurso, só que acho que devem ser dirigidas ao eu lírico, que infelizmente está vivissimo na contemporaneidade desse nosso país.
Quanto à letra de Chico, enquanto obra de arte, é belíssima, e captou esse homem assim desprevenido.
Cafona é quem não sabe separar uma coisa da outra e fica à margem do rio.

Responder

Lucio Menezes em 10/08/2017 - 08h06 comentou:

Na sociedade do espetáculo dá IBOPE dizer que uma canção do Chico é cafona. Agrega valor à sua marca. Sobre a questão de Chico ser inatacável, é uma decisão sua. Ele mesmo não se põe nesse lugar. Agora, o que me chamou atenção na sua “crítica” não foi o fato de você gostar ou não dá canção que é um direito seu. Foi a grosseria da forma que me fez lembrar de todas “jornalistas” da mídia golpista. Estamos precisando de mais delicadeza nesse Brasil golpeado. Inspire-se em Chico Buarque de Holanda, uma elegância única. Triste fim da Socialista Morena. Nunca pensei que um artigo seu me fizesse lembrar da Joice Hasselmann

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Iago em 10/08/2017 - 08h42 comentou:

Cynara, assim você parece até aquelas senhorinhas reaças que acham que o objetivo da arte ou de qualquer obra de ficção é dar alguma lição de moral. Aquelas senhorinhas que dizem que não vão mais assistir a novela porque o protagonista traiu a mulher, ou usou droga, ou deu um golpe, ou é gay… Deixe de bancar a fiscal de beleza intrínseca, a fiscal de moral contemporânea

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Edmundo Henrique Vasques Moreira em 10/08/2017 - 09h16 comentou:

Penso que, como em todas as suas alegorias (o que dizer da Geni, por exemplo), o cantor fala de uma relação que não foi até o fim. Pra completar, ele finaliza dizendo que abandona “tudo o que tem” (só que de forma poética), se os dois se reverem. Não fala necessariamente de adultério. É a história de um amor que o consumiu, sem se estabelecer.

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Tiago Olive em 10/08/2017 - 09h25 comentou:

Não concordo com o texto. Depende de muitas variáveis. De muitos pontos de vista. Pode sim criticar Chico, Ney, etc. O que não vale é ser tão fechado dentro do que se pensa e expressar dessa forma tão agressiva. Se é feminista o comentário dessa música, o que dirá sobre sertanejo universitário, etc?
Calma, apenas não concordo com seu texto. Não lhe conheço e não lhe odeio.

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Maviael em 10/08/2017 - 10h28 comentou:

O GÊNIO CHICO, COM O OLHO CLÍNICO NOS MOVIMENTOS DA SOCIEDADE, ACERTOU NA LETRA, NA MÚSICA E ALVEJOU NO CENTRO DA HIPÓCRITA DA SOCIEDADE.
BRAVO CHICO!
BRAVO! BRAVO! BRAVO!…..
.

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Felipe em 10/08/2017 - 10h36 comentou:

Texto tão lamentável quanto o primeiro. Análises de caráter conteudista deslocadas para um universo pessoal em ambos os lados. Provavelmente daqui há 200 anos quando necessitarem fazer uma análise sobre machismo ele (o cronista) tenha muito mais utilidade do que a modernidade preconizada por um feminismo de butique.

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Felipe em 10/08/2017 - 10h39 comentou:

tá cheio de polícia da xereca da vizinha

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Maristela Mendes de Castro em 10/08/2017 - 10h46 comentou:

Maravilhosa música!! Chico maior ícone da MPB!!

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Felipe em 10/08/2017 - 11h08 comentou:

Ah, mais uma coisa. NINGUÉM DISSE QUE O CHICO BUARQUE É INTOCÁVEL MAS QUANDO FOR TOCAR TOCA DIREITO POR FAVOR. O último que tocou errado parou ele na porta do restaurante p falar a merda do mesmo nível

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Larissa em 10/08/2017 - 11h41 comentou:

Acredito que a musica é bem mais que uma puladunha, largar a família. Conhecendo as dicotomias de Chico e ele lançar uma nova música após tanto tempo ausente, justo na situação caótico política que nos encontramos, não seria tão superfula assim sua mensagem. Por tanto para mim está claro um fundo político no conteúdo da letra.

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Mauricio em 10/08/2017 - 11h41 comentou:

Dias estranhos, Chico Buarque agora é brega e Ney Matogrosso não é gay o suficiente.

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Cida souza em 10/08/2017 - 13h03 comentou:

Concordo com o Francisco Marcio Gomes Pinheiro em 09/08/2017 – um livro, uma poesia, uma canção, cada um interpreta com seus olhos, mente e ouvidos. Se foi p uma amante, foi perfeita. Se foi p uma filha ou neta, me passou doçura e segurança.

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Giselle Bertaggia em 10/08/2017 - 13h41 comentou:

Perfeito, Cynara. Quando ouvi me senti incomodada com essa letra (não fiz uma análise, apenas senti mesmo, o que é pior ainda…). Além disso, vamos combinar… num momento de caos político como esse, Chico poderia ter feito algo que denunciasse, de forma artística, o caos que estamos vivendo. Pena que ele renega essa parte da sua carreira completamente (li isso numa entrevista antiga na Caros Amigos). De lá pra cá não acho tudo isso do Chico, que achava brilhante… Sim, eles não são (e nem podem ser) intocáveis.

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    Ev Xavs em 12/08/2017 - 23h54 comentou:

    Vocês não estão entendendo o Chico 2017, nem vou comentar a letra, não é isto que me preocupa, todos podemos e devemos ser criticados, se não quisermos piorar, cair no revisionismo e reformismo.
    O importante no debate é constatar que o deus dos deuses, politicamente, renega o passado, assim como Dilma e Lula ao se renderem ao neoliberalismo e entreguismo, ele defende com unhas e dentes dois aliados de Temer, o vice, que está, com sua quadrilha, destruindo o país, doando suas riquezas, aos monopólios internacionais.
    Duvido que esse comentário seja publicado, pois está em contradição com a ideologia da boqueira e seus assíduos leitores.

Fabio em 10/08/2017 - 14h46 comentou:

Concordo com o texto. As pessoas não tão sabendo lidar com críticas a seus ídolos, só pq eles fizeram algo no passado (ou ainda fazem algo). Críticas todo mundo pode fazer, a internet tá cheio disso tanto para as produções dos novos artistas como a dos antigos artistas. Se eu concordei ou não, a opinião é minha. O q vejo hoje em dia é um ataque absurdo em cima de quem dá sua opinião q vai de encontro a um ídolo ‘intocável’, mas fecham os olhos q tb a crítica está alinhada com o pensamento de uma parcela da população. Essa crítica representa uma parcela q não gostou da frase usada na música. E só. Vida q segue.

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Jair Fonseca em 10/08/2017 - 14h59 comentou:

Tanta gente ainda comete o erro básico de confundir a pessoa do autor com o que diz seu texto LITERÁRIO, ou seja poético-ficcional. Quantas letras, quantos poemas e textos narrativos são escritos do ponto de vista de um assassino, por exemplo? Seus autores são assassinos por isso?

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Marco Antonio em 10/08/2017 - 16h09 comentou:

Os debates atualmente estão uma monotonia, se é que podem ser considerados debates. É como se cada um estivesse num beco ouvindo sua própria voz que rebate da parede. Hoje em dia, quem tem razão é a parede que ecoa a “minha voz. É a única que eu deixo falar por último”. Busco fazer silêncio e ouvir os ruídos dos becos. As personas estão incomodadas com suas próprias repercussões falidas, a ponto de não aceitarem nada. O eu deve estar acima do outro, que também é eu.

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Regina em 10/08/2017 - 17h02 comentou:

muito bom seu artigo.Ele é da geração q oferecer “largar mulher e filhos” era sinônimo de amor.mas o tempo passou. A nova mulher (possivelmente filha de casais c esse pensamento) sabe q se alguém pensa em trocar é pq o casamento anterior já não estava bom.entao é como oferecer um buquê de flores murchas.bj

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Paulo Passos em 10/08/2017 - 17h58 comentou:

Não sei se nos comentários acima alguém citou ‘Mulheres de Atenas’, que também causou enorme polêmica, como se Chico defendesse aquele comportamento feminino.
Ele é apenas um artista que dá voz a diversos tipos de pessoas. Aquela canção em que ele se coloca na pele de um escravo que viu sinhazinha nua, e que por isso é castigado, é uma das passagens mais interessantes da música brasileira.
O problema de ‘Tua cantiga’ não é nem a letra, legal até, embora nenhuma das ‘brastempes’ que o caracterizam. O problema é a música, a levada da música. Ô coisinha chata!
Quanto ao Nei Matogrosso, insuportável. Não consigo ouvir uma sequer, da mesma forma que Lulu Santos, Herbert Viana, Nando Reis, Maria Rita, Rita Lee, Ana Carolina… Não entendo como Lucas Santana e Anelis Assunpção, para citar apenas dois dos bons, ficam fora das rádios.

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FELIPE em 10/08/2017 - 18h00 comentou:

É só um problema semiótico, confundir o autor com o enunciador do texto e se confundir enquanto pessoa(em sua subjetividade) com as possíveis personagens femininas, ou situações da obra dele. A autora do texto conquistou empatia ao confundir o leitor (sobretudo leitoras), mas não existe realismo na obra, não é o Chico falando pra ninguém, sua obra não é conteudista e nunca foi, são os diversos personagens enunciando sobre alguém ou fatos que inexistem, muito embora referenciem e retratem a nossa sociedade até mesmo em textos dramáticos (teatro). Essa é a questão, não tem a ver com desqualificar, machismo, feminismo nem nada, é só o maior problema brasileiro da atualidade: INTERPRETAÇÃO DE TEXTO. Narcisismo extremo é se achar retratada na situação colocada em um trecho da canção, e dar uma DE moderna/feminista montando em conceitos de butique. Coisa do além, só o tempo poderá revelar. Um outro detalhe: quando falarem música e canção, não esqueçam que Chico é só o letrista e vc está desqualificando o trabalho de um dos maiores pianistas do Brasil, que talvez nem a vota de um tempo da delicadeza CHEGUE A revelar o devido valor. Datado mesmo é o texto da morena que nasceu morto!!

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Roger Zitter em 10/08/2017 - 21h42 comentou:

O Brasil pós-Internet é fantástico. O poder e o direito de julgar impressiona qualquer proprietário de um cérebro com inteligência razoável. Estão todos de plantão… especialistas em física quântica, neurolinguístca, filosofia, futebol, economia, religião, hermeneutica jurídica e principalmente música. Pior, esse povo (os especialistas) descobriram que são maioria. Ninguém segura mais o ímpeto dos julgadores oficiais de plantão. Oremus !!!

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Fabão em 10/08/2017 - 21h42 comentou:

Só que Roberto jamais cantaria “Se teu vigia se alvoroçar”, a não ser que desejasse se referir literalmente ao agente de segurança.
No máximo, “Amada amante” etc.

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hugo em 10/08/2017 - 23h20 comentou:

Vamos de textão, Cynara?

Onde foi parar a interpretação de um poema? Onde está a interpretação de uma obra e não de uma frase?
Se pegarmos frases isoladas de toda a obra do Chico Buarque podemos transformá-lo num misógino, racista, homofóbico, etc…

vamos lá:
“Andava nua pelo meu país”
Objetificação da mulher

“De muito gorda a porca já não anda”
Gordofóbico

“Eu fui fazer um samba em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais”
Apropriação cultural

“Joga pedra na Geni”
Homofobia/Transfobia

Se pegarmos essas frases isoladas qualquer um pode transformar o Chico no mais reacionário dos reacionários. Mas alguém em sã consciência acha que o Chico é isso de fato?

As canções do Chico estão datadas?
Vamos lembrar da tal história do filho do Bolsonaro e sua ex-namorada que está saindo com um médico cubano, e vamos comparar com os versos abaixo:

“Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você”

Existem versos mais atuais que esses?

Sinceramente, uma pessoa pegar a frase “largo mulher e filhos” e tratar isso como apologia a qualquer coisa…. Pelamor…

Concordo que essa não é a melhor letra do Chico, mas se apegar a uma única frase?…

Quanto ao Ney, tem que ter muito pouco bom senso em querer achar que dizer que dizer que é um ser humano é ser reacionário. Quem dera a gente possa conviver sem nos tratarmos como homo, hétero, lésbica, trans, bi, tri, tetra, penta, hexa. Hoje é necessário para uma luta política, mas tomara que chegue o dia que possamos nos reunir, conviver, sem se preocupar com quem o outro ama ou como se identifica, sendo apenas “humanos”.

Sim, ídolos devem ser questionados. Mas que haja qualidade na crítica, questionar a qualidade musical dessa canção, ok. Questionar opiniões, ok. Mas que se faça a partir de um contexto mais amplo, não a partir de uma única frase ou canção.

E não vamos esquecer que Chico é um poeta. Para terminar “é sempre bom lembrar” do poema do Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

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Nina Barros em 11/08/2017 - 00h39 comentou:

Sobre ‘tua cantiga’ do Chico Buarque: cafona é quem não tem coragem de tentar, de amar e de assumir o que sente, mesmo que haja risco de ser vão. Não emburreça o feminismo por favor. Largo mulher e filhos deve ser uma opção poética do eu lírico pra lembrar a quem ele sonha amar que ele a perdoa por ter necessitado largar família e filhos, parece uma tentativa de evocar por contraste uma lembrança. Ele tá falando com alguém importante do passado e não com seu ego

Tua Cantiga

Chico Buarque

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro : ou seja, te quero pra caraleo
Te consolar: i.é broderagem

Se o teu vigia se alvoroçar (ela tem alguém que o eu lírico acha ciumento. )
E, estrada afora, te conduzir (o eu lírico sabe que ela é vulnerável)
Basta soprar meu nome (i. É: tô aqui)
Com teu perfume
Pra me atrair ( te quero)

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar (ela está vulnerável)
Deixa cair um lenço (deixar cair um lenço ok que é risível, mas era sinal que a dama aceita ajuda de um cavalheiro do passado)
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar (sou seu, te alcanço significa estou antes, sou do passado, mas eu chego)

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir (eu não te suplico que o deixe por capricho meu, mas se vc o fizer, te quero)
Largo mulher e filhos
E de joelhos (devoçao)
Vou te seguir

Na nossa casa (a cada eh deles, já tiveram uma casa, ele eh um cavalheiro do passado)
Serás rainha
Serás cruel, talvez (ele conhece bem essa pessoa, eh uma ex mulher?)
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz (i.eh: te amo, te conheço, sei q vc eh difícil,manhosa, cruel, mas eh minha rainha e eu te amo)

Silentemente
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei (só vejo delicadeza, não acho cafona)

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar (ela tá casada com um outro Nome, alguém importante)
Terei ciúme
Até de mim
No espelho, a te abraçar (sou louco por vc e eu te quero mesmo assim)

Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou (ele assume que quer ser amante de alguém que já amou)
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou (ou então não houve amor nenhum e essas rimas foram vãs)

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

E quando o nosso tempo passar
Quando eu não estiver mais aqui
Lembra-te, minha nega (ou seja, nada mais lindo do que se despedir de um amor antes de morrer. Eh a boa morte, inclusive)
Desta cantiga
Que fiz pra ti (ele se deu ao trabalho de fazer e se despedir. De blefar, de superar o ciúme e de querer uma ex que ele sabe exatamente quem é é o quanto dói).

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João em 11/08/2017 - 01h18 comentou:

Não têm nada mais “antigolpe” e revolucionário do que descrever em uma música a relação de um homem e uma mulher, “no tempo, e com toda a delicadeza”. A genialidade das metáforas são precisas, não têm nada a ver com traição, está mais para um casal, como muitos casais pelo mundo a fora, que esta tentando se “desvencilhar da dor”, da mesmice, da ansiedade, da agonia dos nossos dias, e mesmo assim amando incontinentemente. E com juras. E o faz com um romantismo que “sobe o degrau” de qualquer quarto de dormir: “silentemente vou te deitar”. Quantos “vigias”, a favor e contra, temos dentro de nós, quando queremos deixar de lado o homem sério, a mulher séria, o pai responsável, a mãe responsável, para dar lugar aos minutos de fantasias e a fome de amar “urgentemente”. Peço desculpas ao Chico, se não foi isso que ele quis dizer, mas assim imaginei. É isso que torna as suas música e suas metáforas livres:”com estas, rimas não escrevi/Nem ninguém nunca amou”. Talvez para o meu amor eu seja mais um romântico, e de “joelhos a te seguir”.

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Eliana Luiza dos Santos Barros em 11/08/2017 - 06h45 comentou:

Adorei a nova canção do Chico ! Achei a-morosa !
Carinhosa !
cafona ? Não sei …acho que estou ficando cafona …
Toda mulher quer chamar um amor nas noites sem fim…

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ORFEU MARANHAO MOREIRA BARROS em 11/08/2017 - 08h43 comentou:

Tirem algum tempo para pensar. Quem tem um vigia qu lhe conduz pela estrada é a besta de carga ou o gado, a caminho do abatedouro.
Com esse verso, cujas palavras foram escolhidas cuidadosamente, Chico fornece a chave para decifrar o mistério de sua canção.
Deixar mulher e filhos por uma paixão é coisa comum aos homens. Sempre foi e sempre será.
O que fazem os homens-bomba, senão deixar tudo por uma paixão.
A canção é otima. Uma prova disso é a polêmica que ela provoca.

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YURI LIMA em 11/08/2017 - 10h00 comentou:

Postei algo semelhante em uma matéria sobre o mesmo assunto:
Gosto é algo pessoal.
Que a música de Chico tenha lá seu primor de métrica/rima (construção poética) – que é fato -, mas ela é ruim (para alguns).
Infelizmente, para muitos da nossa esquerda, Chico tornou-se “aquele cuja obra nunca deve ser criticada”. Chico também pode errar. Os olhos azuis não o eximem disso. Ele também é passível de crítica.
Mas por ser Chico (ou até por ser um “Buarque de Hollanda”), isso não é permitido. Do mesmo jeito, o fiasco que fora Ana de Hollanda no governo também não pode ser mencionado. Quem o fizer será linchado (virtualmente) em praça pública.
Isso seria um bom tema para discussão.
Não há “certo”e “errado” no que tange à arte. Particularmente falando, não achei ruim a letra da forma como a internet em polvorosa se manifestou. Também, é impossível agradar a gregos e troianos, e gosto é algo bastante subjetivo (como coloquei lá em cima). O ponto que faço é em relação à perspectiva das pessoas que criticaram a música. Que sejam eles de esquerda ou direita, falsos moralistas, mas enxerguei também na letra um certo machismo anacrônico, que não desmerece a qualidade construtiva da música.
É como em “Samba da bênção”, de Vinicius, quando diz que a mulher tem de ter: “Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”. Com todo o respeito ao legado de Vinicius (que é atemporal), é preciso apreciá-la lembrando-se que os tempos eram outros. Seria também anacrônico e ilógico fazer isso agora. Mas algo produzido desta forma – hoje – como “Tua Cantiga” tem um discurso não tão poético, num mundo em que se luta por equidade, você vê um lugar de submissão.

Chico não é só isso, mas é isso aí também.

Claro, similarmente não vamos deixar de ouvir Amélia, Geni e o Zeppelin ou Mil perdões por conta disso, é preciso apreciá-las de maneira diferente.
Sob essa perspectiva, se houve erro, creio eu ser o discurso machista presente numa composição tão recente e justamente vindo de alguém que hoje é um dos grandes referenciais artísticos/culturais/políticos do nosso tempo.
Quanto à questão de Ana, o que fiz foi um paralelo, em que, para muitos, – nenhum – Hollanda é passível de crítica, seja ela em que área for.
Criticar a obra de Chico, mesmo você sendo de esquerda, é quase um sacrilégio, e não é bem assim, ele também é humano. A autocrítica também é necessária, e um pensamento uníssono é ruim. Podemos discutir, sim, algo dentro do nosso viés ideológico sem que, necessariamente, seja considerado – de forma binária – como um discurso obtuso (redundância) de direita.

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Josué Neves em 11/08/2017 - 12h22 comentou:

Quantas coisas importantes que existem nesse mundo machista para lutar contra e conquistar, e o “feminismo” gastando bala com essa bobagem.
As metas se perderam…

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Regina da Silva Barbosa em 11/08/2017 - 14h30 comentou:

É infelizmente, só vos resta o Temer.Porque realmete a geraçao do Chico é toda datada tao datada que estaria talvez, se ainda mais força tivesse , tomando outras atitudes, em relaçao ao proprio Temer .Nao ídolos não sao inquestionaveis, alias nada é inquestionavel ate mesmo esta geraçao , que acha que o Chico e o Ney vao “aprender ” algo com essas criticas. Talvez eles aprendam sim, como eu estou aprendendo sempre no auge dos meus Sessenta e muitos, que foi isso que sobrou ai no Brasil ,depois de 20 anos de ditadura, sobrou criticar chico, ney ,caetano etc vao começar quando a criticar rita lee? Ela sempre foi batida, para ganhar cliques na internet, sobrou problematizar, aonde nao existe problema,( letras de musicas) ao invés de enfrentar os verdadeiros problemas estruturais que o Brasil tem .Viva Simone de Beavoir, alias outra datada, que deve estar se remoendo de tanto besteirol em nome de “feminismo”

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Alchimist em 11/08/2017 - 16h07 comentou:

Cafona? Gírias são expressões datadas, algumas ficam, se incorporam à língua, outras morrem de velhas. Cafona, qualificar assim já não é, “cafona”?

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Alchimist em 11/08/2017 - 16h17 comentou:

“Ninguém é sagrado, todo mundo pode ser alvo de críticas.” Quando ninguém é sagrado, todos são sagrados. Consegue compreender isso? Caso não, leia Slavoj Zizek – “Como ler Lacan” Compreenderá. Mas é bem mais complexo do que uma poesia do Chico.

Responder

Zaira em 11/08/2017 - 17h06 comentou:

E obra de arte então toca Chico

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André em 12/08/2017 - 00h15 comentou:

Leia
Chico e a polêmica “Tua Cantiga”
http://meucantonomundo.com/chico-e-polemica-tua-cantiga/

Responder

Regma em 12/08/2017 - 09h02 comentou:

SOBRE “TUA CANTIGA”
Instigada por um amigo músico e pela comoção que arrebatou minha alma ao ouvir a música de Chico “Tua Cantiga” resolvi escrever aqui algumas reflexões que têm me vindo à mente sem nenhuma pretensão de conseguir fazê-lo. Pode ser um ponto de partida para uma boa conversa.
Começo pelo título “Tua Cantiga”, que eu insistia em dizer “Tua canção”, quando queria perguntar a alguém se já havia ouvido a música.
A cantiga pode ser compreendida no duplo aspecto de cantar o amor e evidenciar a vivência do povo. É ligada ao popular. Interessante que o “Tua” apresenta certo grau de formalidade e erudição que contrasta com cantiga que é o popular. Chico é um exímio compositor que fricciona os opostos e deles tira e elabora outros sentidos.
Pela divulgação da música, através da mídia, trata-se mais uma vez de uma belíssima canção de amor, que fala sobre uma amante imaginária. Os comentários variam em cada meio, no Portal G1 concordam que Chico possa até ser um bom músico, mas o condenam por seus posicionamentos políticos e por ai encerram a discussão. Descontando os xingamentos e denúncias de se aproveitar da Lei Rouanet, que claro, nenhum deles deve conhecer.
Por outro lado, nas mídias alternativas, Chico é ovacionado pela bela letra. Alguns mais críticos dizem-se decepcionados pelas repetições e na falta de inventividade de quem espera que seu ídolo sempre se supere.
Não consigo corroborar com essas leituras tão facilmente, vejo aqui, mais uma vez a nos brindar com sua inteligência fina e sagaz uma leitura estética, poética e política dos nossos tempos. Embora tenha visto que alguns digam que o Chico mais uma vez fez uso de metáforas fáceis, sem dizer quais, não me satisfaço com essa leitura. Vou então dar aqui uns pitacos.
A cantiga trata-se de um chamado, uma convocação, uma denúncia. O que motiva esse chamado: a garganta apertada, o vigia que conduz estrada afora, o desalmado que faz chorar nas noites que não tem mais fim. Não pude deixar de associar essas sensações ao que vive nossa pátria amada Brasil. O que temos visto acontecer tanto nas chamadas macro estruturas políticas e econômicas, quanto no cotidiano banal de quem tem sua queimada, seu colchão molhado no inverno, seu dinheiro curto para alimentar sua família, os semáforos que voltam a ser ocupados por pedintes e crianças, a injustiça em seu estado bruto e desigual.
Por outro lado, como já dito antes, o poeta se prontifica a ouvir esse chamado, por um suspiro, por um sopro com seu nome, pelo lenço caído, pela súplica do coração, por algum capricho. Só o artista pleno, com seus sentidos antenados pode conseguir compreender essas sutilezas. Quando vivemos momentos de ódio, agressão, intolerância, a escuta do poeta e sua pronta resposta a essa convocação é delicada, gentil, mas forte e convicta: “eu vou ligeiro te consolar”, “te alcanço em qualquer lugar”, “ largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”, como alguém que marcha para uma guerra por acreditar no que a fundamenta.
O poeta não espera uma resposta a esse chamado sem ressalvas. Sabe que o povo é, por vezes, cruel, manhoso, pode aperrear quem se dispõem a enfrentar o vigia. Ainda assim o narrador é feliz e prepara de maneira taciturna, quieta, quase em silêncio uma cama, que não é mais um berço esplêndido. Estaria aqui manifesto um projeto utópico, um plano, uma estratégia? Ele despertará o destinatário da cantiga, com delicadeza como quem pisa em plumas. Não com violência, não com palavras de ordem ou gritos de guerra. E é assim esta cantiga.
Não nos esqueçamos dos sujeitos que com arroubo e violência peitaram o cantor nas ruas do Rio de Janeiro o acusando de apoiar ladrões e corruptos. Mas ainda assim ele insiste e como amante devoto aceita, mesmo enciumado, ser chamado por outro nome.
O que me tocou, mais profundamente nesta cantiga foi a última estrofe. Quando o poeta não estiver mais presente e puder ouvir este chamado pede que “minha nega” lembre-se desta cantiga.
A geração de Chico Buarque que viveu com sofrimento os anos da ditadura civil-militar no Brasil chega aos 70 anos. Alguns já se foram, outros lutam ainda bravamente para falar com delicadeza aos ouvidos da nação sobre sua história e seus desígnios. Esta é também uma cantiga para a memória, na qual o poeta diz ouvir seu chamado, usar as suas armas que são as palavras e os sons e ativar o nosso coração para os nossos enfrentamentos cotidianos.
Posto isso, podem confirmar que Chico Buarque jamais quis dizer o que escrevi, e ele mesmo confirmar, mas jamais conseguirei ler e ouvir esta cantiga de outra maneira que não uma declaração de amor ao Brasil e ao seu povo.
Regma Maria dos Santos

Responder

Heloisa em 12/08/2017 - 10h41 comentou:

Além da caretice, quanta necessidade dessas matérias todas em ressaltar que essa não é das melhores músicas da carreira de Chico!!!
Por que ele haveria de ser magistral toda vez? E porque “tua cantiga” seria menor?
Gente, é só uma cantiga!!!
Uma linda, doce e deliciosa cantiga! E daí que é sobre o adultério dito por quem o pratica? Por que não vão patrulhar as centenas (milhares?) de “músicas de corno”?

Sobre o Ney, pra quem chegou depois e quer sentar na janelinha, HÁ MUITOS ANOS ele diz que não levanta bandeiras. Nenhuma. Assim como não trata sua vida privada de forma pública, como fazem muitas “celebridades”. Ema ema ema.

Ah, e eu acho que problematizar não é discutir ou debater e não é bacana coisa nenhuma. Problematizar é coisa de quem tem “pobrema”.

Responder

Esther Torinho em 12/08/2017 - 12h07 comentou:

Vc e outros estão vendo pelo em ovo. É uma canção e mesmo se não concordarem com o que ela diz, lembrem-se de que existe algo chamado “eu poético”, o que significa que nem sempre o que está ali retratado é o autor ou o que pensa o autor. Mas muitos nem sabem o que é eu poético. Sugiro que procurem saber. O que não pode é abandonar ao Deus dará. Mas a música não diz isso.
Tanto é assim que, como vc mesma diz, ele, Chico, nunca fez.
Além disso, isso de “largo mulher e filhos” ser machista, ser sei lá o quê, quantos e quantas já largaram cônjuge e filhos para viver com outra/outro? E quantos e quantas não o fizeram e vivem uma vida insípida e até insuportável? O número de divórcios está aí para atestar.
Melhor largar do que simplesmente suportar. E isso não tem nada a ver com machismo, feminismo, etc. Tem a ver com injunções do coração. Que, segundo a sabedoria popular, tem razões que a própria razão desconhece.

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Renato Leite Alves em 12/08/2017 - 18h47 comentou:

O adultério existe desde que o mundo é mundo, assim como largar mulher e filhos. O que existe pouquíssimo no planeta é o artista maior, seja prosador, poeta ou letrista de música popular. “Tua Cantiga” tem forma e conteúdo. Chico Buarque é um artista no auge de sua capacidade criadora, agora também como romancista, a letra desta canção é um belo exemplo de domínio da língua, as rimas são belíssimas e a métrica impecável. A arte não deve ser rotulada nem estigmatizada por idiossincrasias. Cafonice, machismo, petismo, morenice. Chico jamais foi ou será datado. É um artista eterno. Darcy Ribeiro dizia que no ano 3000 apenas dois brasileiros seriam lembrados: Oscar Niemeyer e Chico Buarque. A arte existe para ser bela, como os imortais bigodes de Salvador Dali, adúltero e machista.

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Jaime Balbino em 12/08/2017 - 19h59 comentou:

Texto ruim. Dizer que a música é cafona ou datada é querer impor só poeta um estilo. E se ele se apegar ao modismo? Aí vão dizer que não tem personalidade… que busca o sucesso comercial fácil rsrsrs

O Chico é incriticável? Não. Mas com certeza crítica de quem não entende de música, não acompanha sua carreira, é indiferente ou não gosta dele ou, ainda, que nem sequer sabe separar o personagem do autor é uma crítica minimamente irrelevante.

Por que Chico a essa altura da vida deveria se preocupar com quem não curte ele e escreve para um público que igualmente lhe é indiferente?

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Jaime Balbino em 12/08/2017 - 20h00 comentou:

Deixa o Chico compor sem censura. Se quiser fazer melhor, compõe e Graça um disco também! Afinal, temos tecnologia acessível pra isso também, não só pra Facebook. O que falta é talento.

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Lisa em 13/08/2017 - 12h33 comentou:

Não entendo a polêmica e o porquê do “datado”. A música fala de paixão e clandestinidade, assunto sempre presente em muitos relacionamentos. Não se trata de uma ode à largar mulher e filhos, mas talvez uma confissão, um ato desesperado de paixão. O assunto não está datado. Continua presente e a canção é bonita. Não estimula, apenas relata. Deixar de cantar o assunto, falar do assunto não acabará com os casos de mulheres abandonadas por maridos que se apaixonaram “perdidamente”. Penso que calar o assunto é jogar para “debaixo do tapete” e a mulher que viveu isso talvez se sinta excluída, incompetente, porque não se pode nem falar no assunto porque é um assunto proibido, tabu. Falta naturalidade na discussão, mesmo porque as paixões vão continuar existindo e uma música que fala de paixão, tema mais que atual, não pode ser confundida com uma ode ao abandono.

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Nando Cruz em 13/08/2017 - 12h53 comentou:

Essa droga de musica vou ouvir pela milésima vez e continuar ate quando?? . Que coisa feia e datada, vou confessar esse compositor tinha que ser preso por trafico, Chico sinceramente esse andamento 6/8 valsam meus pés, essa lírica inquieta minha alma, pare com isso, cale se !!!

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Manoel Luiz Malaguti Barcellos Pancinha em 13/08/2017 - 16h41 comentou:

LINDA, LINDA!

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abolicionista em 14/08/2017 - 08h52 comentou:

Porra, que moralismo cacete. Tem um filme do Louis Malle, Os Amantes, em que a atriz larga os filhos, o marido para fujir com um arqueólogo, que também larga tudo. Na época, o filme produziu a maior polêmica, mas, porra, faz tempo pra caralho. Achei que tínhamos evoluído em relação a esse tipo de tabu. E Roberto Carlos tem canções lindas, que bobagem.

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abolicionista em 14/08/2017 - 09h00 comentou:

Em vez de sermos moralistas, o bonito seria contestar porque as mulheres brasileiras não têm o direito de abandonarem os filhos (porque, convenhamos, tem criança chata nesse mundo) para viverem grandes paixões, para se aventurarem onde quiserem. Vamos parar de cercear o desejo alheio, que merda, senão esse mundo fica ainda mais miserável do que já está.

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edson campos em 14/08/2017 - 23h29 comentou:

Conforme dizia John Lennon, o importante não é a letra, o importante é a música, que é linda.

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Caio em 15/08/2017 - 16h06 comentou:

Chico deve ter sido mulherengo, duvido nada que seja machista

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Vicente Jouclas em 16/08/2017 - 13h33 comentou:

obrigado, S.M. valeu a discussão; com ela cheguei à análise do Prof. Sergio; Linguísta; enriquecedora, em vários campos.

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    Cynara Menezes em 16/08/2017 - 16h05 comentou:

    o debate de alto nível é sempre proveitoso

João Paulo em 17/08/2017 - 04h45 comentou:

Vi esse vídeo e me lembrei desse texto. Se der, Morena, veja o vídeo, é bem interessante e dissipa essa falsa querela.

https://www.youtube.com/watch?v=o9vGgUkkGlA

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José Luiz em 18/08/2017 - 18h15 comentou:

Eu nunca tive coragem de dizer, mas agora posso: acho o “codinome” Socialista Morena” cafona.

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    Cynara Menezes em 19/08/2017 - 12h05 comentou:

    é uma expressão cunhada por darcy ribeiro e brizola.

Flávio Quintiliano em 19/08/2017 - 07h09 comentou:

Sou totalmente feminista, mas sempre achei que feminismo cego é uma das piores formas de machismo. É homem? Então não presta. A não ser que seja gay, e tem de ser gay militante. Isso é padrão para avaliar obras de arte? É óbvio que Chico Buarque está se referindo a um personagem imaginário. “O poeta é um fingidor”… A blogueira não tem um pingo de cultura. Ela é que é datada, mofada, vovozinha doutrinando os netos.

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DJENANE REGINA DIAS SOARES em 21/08/2017 - 10h31 comentou:

Achei linda ,apaixonada é ponto final!

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Ricardo em 21/08/2017 - 15h01 comentou:

Toda essa patrulha ideológica em forma de crítica musical (?) poderia ironicamente ser trocada por outra letra do Chico. Seria até uma forma original de fiscalizá-lo:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Essa é a “nova esquerda”: A esquerda que engrossa o coro dos milicos de 40 anos atrás patrulhando tudo e todos e gritando através de textões uma única palavra: Cálice!

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Rodrigo Mercadantr em 22/08/2017 - 01h17 comentou:

A esquerda recriando as senhoras católicas e as fiscalas do Sarney, defendendo uma espécie de poesia pedagógica que trata x ouvinte/leitxr feito imbecil.
“Se vc for tão ruim em política quanto é em estética estamos lascados”

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