Contra o feminicídio, Café Tacvba não tocará mais La Ingrata, um de seus maiores sucessos

Publicado em 24 de fevereiro de 2017
cafetacuba

(O grupo mexicano Café Tacvba. Foto: divulgação)

O grupo de rock mexicano Café Tacvba anunciou esta semana que não tocará mais um de seus maiores sucessos, La Ingrata, cujo vídeo de lançamento foi considerado o melhor do ano pela MTV em 1995. A razão: solidarizar-se com as mulheres que são assassinadas todos os anos no México, que carrega o triste recorde de ser um dos campeões mundiais em feminicídios. A letra de La Ingrata termina justamente com uma mulher assassinada pelo companheiro.

Ingrata, aunque quieras tu dejarme
los recuerdos de esos dias
de las noches tan obscuras tu
jamas podras borrarte.
Por eso ahora
tendre que obsequiarte
un par de balazos
pa que te duela.
Y aunque estoy triste
por ya no tenerte
voy a estar contigo
en tu funeral…

(Ingrata, ainda que queiras deixar-me/as lembranças destas noites tão escuras jamais poderás apagar/ Por isso agora/ terei que obsequiar-te com um par de balaços/ para que te machuque. /E ainda que esteja triste/ por já não ter você comigo/ Vou estar contigo em teu funeral…)

laingrata

(Capa do single de La Ingrata, de 1994)

A confirmação de que La Ingrata não será mais tocada pelo grupo veio na página oficial do Café Tacvba no Facebook, na última terça-feira 21. “Para nós, as mulheres sempre são dignas de muito respeito, amor e cuidado”, dizia a nota, acompanhada do link para uma entrevista ao jornal argentino La Nacion, em novembro passado, onde os músicos mexicanos foram questionados por cantar uma canção que contém um feminicídio ao mesmo tempo em que estão engajados na luta por igualdade de gênero.

“Éramos bem jovens quando fizemos a canção e não estávamos sensibilizados para esta problemática como agora estamos. Creio que é um momento de repensar se vamos continuar tocando a canção ou se mudamos a letra. Porque agora sim estamos sensibilizados, agora sabemos do problema. E eu, pessoalmente, não estou interessado em apoiar isso. Muita gente pode dizer que é só uma canção. Mas as canções são a cultura, e essa cultura é o que faz com que certas pessoas se sintam com o poder de agredir, de fazer dano”, disse o vocalista Rubén Albarrán.

Entre 2007 e 2015 o número de mulheres assassinadas no México duplicou. Cerca de 10 mil mulheres foram assassinadas entre 2012 e 2016, mas menos de 20% destas mortes foram julgadas como feminicídio, segundo a investigação Feminicídios Ocultos, feita pela ONG Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade (MCCI), com o apoio da plataforma CONNECTAS e do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ).

“Com base nestes informes, pelo menos 7,6 mil mulheres que foram assassinadas a bala, esquartejadas, estupradas, asfixiadas ou golpeadas até morrer não foram reconhecidas como vítimas de feminicídios”, diz a investigação. “Um feminicida pode receber uma pena de até 70 anos de prisão em alguns estados mexicanos, mas se o assassino alega que cometeu o crime sob ‘forte emoção’ (que também chamado de crime passional), a pena pode ser reduzida a um quarto.”

A decisão do Café Tacvba de não tocar mais La Ingrata dividiu os fãs no Facebook. Alguns reclamaram e outros apoiaram. “Historicamente a música popular trata as mulheres com falta de respeito. Isso que vocês estão fazendo, simbolicamente, é muito poderoso. Fala da mudança de mentalidade que ocorreu no novo século. Fala da evolução que estão dispostos a seguir e é coerente com as causas que vocês defendem”, disse um dos apoiadores. “Por favor, menos lição de moral e correção política”, criticou outro.

La Ingrata é uma das canções de maior sucesso do grupo mexicano e uma das que mais sacudiam seus fãs nos shows, por seu ritmo empolgante. A conferir se a decisão de não tocá-la mais é para valer.

 

 

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Justiça ordena que Danilo Gentili explique acusação contra Lula

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(Foto: divulgação)

(Foto: divulgação)

Uma decisão em segunda instância do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que o “humorista” Danilo Gentili, atualmente no SBT, explique formalmente de onde tirou a informação que baseou uma mensagem publicada por ele nas redes sociais no ano de 2015. Trata-se de um “tuíte” divulgado na conta pessoal do humorista, onde Gentili afirmou que Lula “forjou um ataque (à bomba, na sede do Instituto Lula) para sair de vítima”.

De fato, no dia 30 de julho de 2015, uma bomba foi arremessada na entrada do Instituto Lula, e a autoria do atentado segue sendo investigada até hoje. No dia seguinte ao fato, Gentili publicou a frase acusatória em questão em sua conta no Twitter. Os advogados de Lula, então, ingressaram na Justiça com o chamado “pedido de explicações”, que é uma medida jurídica que antecede um processo penal por calúnia ou difamação.

Isso significa que, agora que a Justiça ordenou que Gentili explique de onde tirou a informação que eventualmente sustente sua acusação. Se ele não conseguir explicar ou provar que Lula forjou o ataque ao instituto, como afirmou, será processado por difamação. Se condenado, a pena é de três meses a um ano de detenção.

Uma hora após a postagem, o apresentador ainda se gabou de ter “acertado de novo” com seu comentário, diante da reação dos admiradores do ex-presidente Lula, que saíram em sua defesa.

(Com informações do site de Lula)

 

 

 

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Anistia Internacional: livre direito à manifestação sofre retrocesso com Temer

Publicado em 22 de fevereiro de 2017
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(Polícia reprime ato contra posse de Temer em São Paulo, em agosto. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, manifestantes vestidos de verde e amarelo praticamente não saíam das ruas, protestando contra seu governo. Foi só Michel Temer assumir que o livre direito à manifestação sofreu um grave retrocesso, segundo aponta o relatório da Anistia Internacional sobre 2016, divulgado hoje. Sob Temer, segundo a Anistia, houve “excessivo e desnecessário” uso da força em vários estados para dispersar manifestações contra o governo e a proposta de emenda constitucional (PEC 241/55) que restringe os gastos públicos.

“Estudantes ocuparam pacificamente cerca de mil escolas públicas no país para questionar a reforma da educação e os cortes de investimento propostos pelo governo. Em junho, na cidade do Rio de Janeiro, a polícia usou força excessiva e desnecessária para acabar com o protesto de estudantes no prédio da Secretaria de Educação”, diz o relatório, que aponta “políticas de ódio” como causadoras de um “revés histórico” nos direitos humanos em todo o continente americano.

“Estamos enfrentando um dos ataques mais estruturados contra os direitos humanos nas últimas décadas”, disse Erika Guevara-Rosas, diretora para as Américas da Anistia Internacional. “A retórica de ódio e anti-direitos permeou o discurso e as ações da maioria dos líderes políticos da região, colocando a segurança e a vida de milhões de pessoas em perigo. Partindo dos índices alarmantes de violência por parte das forças de segurança, até a crescente onda de ataques contra defensores dos direitos humanos, e a falta de medidas para deter a crise de refugiados, as Américas enfrentam um dos seus piores momentos quando se trata de direitos humanos e justiça.”

Além do ataque ao livre direito de manifestação, o relatório da Anistia Internacional mostra um retrocesso nos Direitos Humanos generalizado após a chegada de Temer ao governo. “O que vimos em 2016 foi o desmantelamento de estruturas institucionais e programas que garantiam a proteção a direitos previamente conquistados, além da omissão do Estado em relação a temas críticos, como a segurança pública”, afirmou a diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck. “Nenhuma crise pode ser usada como justificativa para a perda de direitos.”

Em 2016, ataques, ameaças e assassinatos de defensores de direitos humanos aumentaram em comparação a 2015, quando Dilma Rousseff ocupava a presidência. De acordo com o relatório, pelo menos 47 defensores foram mortos entre janeiro e setembro no Brasil, incluindo pequenos agricultores, camponeses, trabalhadores rurais, indígenas e quilombolas, pescadores e ribeirinhos, em sua luta pelo acesso à terras e recursos naturais.

A Anistia mostrou preocupação de que o retrocesso nos direitos humanos se aprofunde ainda mais, com o anúncio, pelo governo Temer, de diversas medidas e propostas que podem ter impacto sobre os direitos humanos, inclusive a PEC que limita os gastos governamentais durante os próximos vinte anos, e que pode ter efeitos negativos nos investimentos em educação, saúde e outras áreas.

“No Congresso, várias propostas que prejudicariam os direitos das mulheres, povos indígenas, crianças, e lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais (LGBTI) estavam em discussão. Em setembro, uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou mudanças no Estatuto da Família para definir família como a união entre um homem e uma mulher”, criticou o relatório.

Veja a seguir os principais alvos das críticas da Anistia Internacional ao Brasil (íntegra aqui):

 SEGURANÇA PÚBLICA: As taxas de homicídio e a violência armada continuaram altas no país todo. Segundo as estimativas, o número de vítimas de homicídios em 2015 era de 58 mil. 70% das vítimas morreram atingidas por arma de fogo. A maioria das vítimas é masculina, jovem e negra. As autoridades falharam em propor um plano para abordar a situação. Em setembro, o governo federal autorizou o envio das Forças Armadas para o Rio Grande do Norte para dar apoio à polícia, após vários dias de ataques de grupos criminosos a ônibus e prédios públicos. Pelo menos 85 pessoas foram detidas sob a alegação de terem participado dos ataques. Em 18 de novembro, sete homens foram mortos a tiros em Imperatriz no Maranhão, depois que um policial militar foi alvo de uma tentativa de roubo e agressão quando estava fora de serviço.

  JOGOS OLÍMPICOS 2016: As autoridades e organizadores dos Jogos Olímpicos 2016 não implantaram as medidas necessárias para evitar violações de direitos humanos pelas forças de segurança antes e durante o evento esportivo. Isso levou à repetição das violações já testemunhadas em outros grandes eventos esportivos realizados na cidade do Rio de Janeiro (os Jogos PanAmericanos em 2007 e a Copa do Mundo em 2014). Dezenas de milhares de militares e agentes de segurança foram deslocados para o Rio de Janeiro. O número de pessoas mortas pela polícia na cidade do Rio de Janeiro imediatamente antes dos Jogos, entre abril e junho, aumentou 103% em relação ao mesmo período de 2015. Os moradores relataram horas de tiroteios intensos e abusos contra os direitos humanos, como buscas domiciliares ilegais, ameaças e agressões físicas. A polícia admitiu ter matado pelo menos 12 pessoas durante os Jogos na cidade do Rio de Janeiro. Durante o trajeto da tocha olímpica por todo o país, protestos pacíficos em Angra dos Reis e Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro, foram reprimidos com uso excessivo e desnecessário da força pela polícia. Balas de borracha, bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo foram usados indiscriminadamente contra manifestantes pacíficos e pessoas que passavam pelo local, inclusive crianças.

  EXECUÇÕES EXTRAJUDICIAIS: Os homicídios pela polícia continuaram numerosos e, em alguns estados, aumentaram. No estado do Rio de Janeiro, 811 pessoas foram mortas pela polícia entre janeiro e novembro. Houve relatos de diversas operações policiais que resultaram em mortes, a maioria delas em favelas. A maioria dos homicídios cometidos por policiais continuaram impunes.

  CONDIÇÕES PRISIONAIS: As prisões continuaram extremamente superlotadas, com relatos de tortura e outros maus-tratos. De acordo com o Ministério da Justiça, até o fim de 2015 o sistema prisional tinha uma população de mais de 620 mil pessoas, embora a capacidade total seja de aproximadamente 370 mil. Rebeliões de presos ocorreram pelo país. Em outubro, dez homens foram decapitados ou queimados vivos em Roraima, e oito morreram asfixiados numa cela durante um incêndio numa penitenciária em Rondônia. Em 8 de março, o Relator Especial da ONU para tortura relatou, entre outras coisas, as péssimas condições de vida e a ocorrência frequente de tortura e outros maus-tratos de presos por policiais e carcereiros no Brasil. Em setembro, um tribunal anulou o julgamento e as sentenças de 74 policiais pelo massacre no presídio de Carandiru em 1992, quando 111 homens foram mortos por policiais.

  LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO: O ano foi marcado por protestos majoritariamente pacíficos pelo país, sobre assuntos como o processo de impeachment, a reforma educacional, violência contra as mulheres, impactos negativos dos Jogos Olímpicos de 2016 e a redução de gastos públicos com saúde e educação. Com frequência, a resposta da polícia era violenta, com uso excessivo e desnecessário de força.

 DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS: Os processos de demarcação e titulação dos territórios de povos indígenas continuaram a progredir muito lentamente, apesar do prazo para isso ter terminado há 23 anos. Uma emenda constitucional (PEC 215) que permite aos legisladores bloquear as demarcações — vetando, assim, os direitos dos povos indígenas previstos pela Constituição e pelo direito internacional — 86 Anistia Internacional Informe 2016/17 está em discussão no Congresso. Houve tentativas de bloquer a demarcação de terras, em alguns casos, por grandes fazendeiros.

 VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES E MENINAS: Em maio, com o afastamento de Dilma, o governo federal interino extinguiu o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos e o reduziu a uma secretaria, parte do Ministério da Justiça, o que causou uma redução significativa dos recursos e programas dedicados a salvaguardar os direitos das mulheres e meninas. Uma série de estudos durante o ano mostrou que a violência letal contra mulheres aumentou 24% durante a década anterior e confirmou que o Brasil é um dos piores países da América Latina para se nascer menina.

 

 

 

 

 

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