Miruna, filha de Genoino: “A grande mídia parecia sentir prazer em nos sufocar”

Publicado em 19 de fevereiro de 2017
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(José Genoino, a mulher, Rioco Kayano, e os filhos Ronan e Miruna. Foto: arquivo pessoal)

Entre 1981, o ano em que Miruna nasceu, e 2005, ano em que estourou o escândalo do mensalão, o cearense José Genoino Guimarães Neto foi um político de esquerda respeitado por todo mundo, até mesmo pelos adversários. A partir de 1982, quando foi eleito deputado federal pelo PT pela primeira vez, Genoino se tornaria um dos mais brilhantes e habilidosos parlamentares que o Congresso já conheceu. Para Miruna, era ainda o herói a quem escutava, embevecida, contar que, quando menino, percorria a pé 14 quilômetros por dia, sob o sol inclemente do sertão de Quixeramobim, para poder estudar.

Depois do mensalão, tudo mudou. Genoino, um político reconhecidamente honesto que jamais acumulara bens além da casa simples em que vive até hoje, em São Paulo, seria tratado como um pária, um ladrão, um corrupto. E sua família, assediada e perseguida por uma imprensa feroz e sádica em sua sanha antipetista. Antigos bajuladores de Genoino na imprensa viraram-lhe as costas e se calaram, cúmplices do linchamento. Nenhum dos repórteres que cobriam a Câmara no auge do petista como parlamentar foi capaz de se solidarizar, de defendê-lo da injustiça de uma condenação a seis anos e 11 meses de prisão apenas por ter assinado, como presidente do PT, um empréstimo quitado e declarado à Justiça eleitoral.

“Antes de magoar minha família como um todo, esta atitude da imprensa magoou demais meu pai, porque ele não esperava este tratamento unilateral, sem espaço para a verdade, com tanta manipulação”, diz Miruna. “Ele rememorava toda a luta na ditadura por uma imprensa livre, dedicou-se totalmente a atender esta imprensa, mas, quando precisou, foi achincalhado. Para nós, da família, a grande mídia foi responsável por grandes traumas em nosso dia a dia. Não respeitaram meus filhos, na época com 5 e 6 anos de idade, não respeitaram nossa privacidade, riam de nós, pareciam sentir prazer em nos sufocar. Muito triste ter vivido isso.”

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(Trecho do primeiro texto de Miruna, de 2012, após a condenação do pai)

A educadora, primogênita de Genoino, vai lançar, em março, o livro Felicidade Fechada, onde transmite a visão dos familiares do petista sobre uma das maiores injustiças da história recente do país. Além do depoimento dela, são reproduzidas as cartas que enviou ao pai durante os nove meses em que ele ficou encarcerado na prisão da Papuda, em Brasília. Rejeitado por várias editoras, o livro se tornou possível graças a uma “vaquinha” virtual que Miruna fez no ano passado, arrecadando quase 100 mil reais para a edição.

É uma obra delicada, onde o olhar carinhoso da filha aparece em primeiro plano, sem lugar para rancor, mágoa ou vingança. Os capítulos são ilustrados com pássaros bordados em um pano por dezenas de mãos amigas, uma ideia da mãe de Miruna, Rioco, para homenagear o amado, como uma Penélope da era moderna que espera a volta de seu Ulisses. Foi este tecido que Genoino amarrou no pescoço ao se entregar à Polícia Federal para ser preso, em novembro de 2013. A “capa” do herói de Miruna virou a capa do livro.

“Nessa história, não vou falar de dados e informações. Não vou ficar explicando que meu pai é inocente, porque os empréstimos que ele assinou foram registrados na Justiça Eleitoral e já foram pagos pelo PT e aceitos pelo Tribunal de Justiça Eleitoral. Isso foi relatado e é verdade. Não vou dizer que não existiam provas que o condenassem. E vou tentar não ficar aqui soando como uma magoada, repetindo que o acontecido foi um tribunal de exceção. Não pretendo falar de tudo, porque quero contar a verdade desde dentro, desde quem viveu cada momento, desde quem cresceu sendo criada por um pai exemplar, que se tornou um avô iluminado e que jamais roubou nada de ninguém, nem deixou de seguir os princípios de justiça e igualdade que sempre o guiaram”, adverte, na introdução.

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(Genoino com a filha Miruna aos 2 anos de idade. Foto: arquivo pessoal)

No livro aparecem poucos nomes. Relator do mensalão no Supremo e principal algoz de Genoino, o ex-ministro Joaquim Barbosa, por exemplo, surge como “o relator”. Miruna explica que preferiu assim porque seu pai sempre aconselhou os familiares a não “fulanizar” o processo. “Alguns nomes específicos ficaram fortes neste percurso? Sim. Mas não foram estes nomes que decidiram, foi um movimento grande. Foi a grande imprensa, foi a opinião pública, que acreditou, foi o STF como um todo, não um juiz. Por isso colocar nomes só fica alimentando a fulanização e nosso foco é no processo, como um todo, que foi injusto.”

Miruna também evitou escrever sobre as decepções que a família deve ter sofrido ao longo do processo. “Meu livro não trata de vingança, não trata de ‘toma lá dá cá’, algo que meu pai sempre nos ensinou a abominar. Meu livro trata de vida. Da vida de pessoas reais, com suas vidas, e que tiveram de se unir para enfrentar a injustiça. Meu livro quer deixar um registro para meus filhos, e a geração deles, e as posteriores, de que José Genoino é inocente. E isso é o mais importante, não as decepções.”

Um dos momentos mais tocantes é quando a família, reunida após um almoço descontraído com amigos, recebe, de repente, a notícia de que Genoino será preso.

“Foi quando o telefone do meu pai tocou. Ele mudou sua expressão, foi falando e se levantando, e nós não conseguíamos falar. Ele desligou e disse: ‘Saiu o papel. Chegou a hora pessoal’. Voltar àquele momento é algo muito difícil, porque não existem palavras que possam mostrar para quem está aqui comigo agora, acompanhando essa espécie de memória, o que sentimos naquele momento. No começo, todos nos abraçamos ao meu pai, mas ele não nos abraçava por muito tempo, apenas segurava nos nossos braços e dizia, ‘Vamos, vamos’. Depois, cada um foi para um lado… Eu não sei bem dos meus irmãos, mas minha mãe foi a única que não deu espaço para si mesma e começou a organizar tudo o que meu pai precisava levar, suas roupas e seus pertences. Meu irmão, tão parecido que é com a minha mãe, prático quando é preciso, subiu correndo para o quarto e começou a colocar em um papel os horários dos remédios do meu pai, que recentemente tinha tido uma confusão na forma de tomar e estava sendo medicado com a ajuda do filho. Eu chorei e gritei. Muito. E forte. (…) Com a mala pronta, esperando o advogado, meu pai foi para a cozinha e disse: ‘Vamos lá pessoal, é uma injustiça, mas eu estou forte, vamos lá, vamos começar logo com isso’. Meu pai não aguentava mais a tortura de esperar e mostrava que já que era para viver a injustiça, que começasse logo de uma vez.”

Para visitar Genoino na Papuda, sua mulher e os três filhos (há ainda Mariana, de outra relação do petista) tinham que se submeter a uma humilhação extra: vestir-se completamente de branco, dos sapatos às roupas íntimas.

“Minha primeira visita ao presídio da Papuda, localizado em Brasília, começou bem cedo, quando saí de São Paulo para vir para cá, e continuou ontem cedo quando nos levantamos e vestimos todos, eu, minha mãe, meu irmão e meu cunhado, roupas brancas dos pés à cabeça. Cueca branca, calcinha branca, sutiã branco, sem bojo, calça branca, camiseta branca, chinelo branco. Tudo branco. Exatamente igual à roupa que os presos precisam usar: branco. Desde que soube que isso era assim, pensei e busquei todo tipo de explicação para essa obrigatoriedade imposta aos familiares e apesar de já ter ouvido todo tipo de ideias, só penso em uma coisa: marcar as famílias. Marcar e humilhar as famílias com a mesma vestimenta que qualquer preso do CIR-Papuda precisa usar para cumprir sua pena, mostrar, a quem quer que seja e saiba, que quem veste branco tem um familiar preso, com toda a carga emocional que isso significa. Mulheres, homens, velhos, crianças, bebês, todos de branco”, escreve.

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(Ronan, Miruna e Rioco esperam para visitar Genoino na Papuda em 2013. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Causa indignação ler o relato de Miruna sobre a extrema agressividade de repórteres e fotógrafos no contato com a família do então deputado federal, e a forma como a imprensa se portou diante do problema de coração que ele teve durante o processo.

“Todo este processo foi duro, mas a maior ferida de todas, a ferida que nunca cicatrizará, é aquela causada pela revolta e indignação por terem conseguido, mídia e pessoas covardes, colocar em dúvida a real condição de saúde do meu pai. Quem dera ele nunca tivesse tido a dissecção da aorta. Estaria sem a domiciliar, sem nós, mas estaria com o coração forte. Quem dera ele não necessitasse cuidados médicos por conta da coagulação de seu sangue; ele estaria comendo mal, mas não teria a ameaça de um AVC. Quem dera não tivéssemos que passar por juntas médicas, que olhavam meu pai como um enganador de sua própria condição de saúde.”

Pergunto a Miruna como é o estado de espírito de José Genoino hoje, fora da prisão, seu cotidiano…

– Ele também pretende escrever um livro?

– Meu pai é um homem com imensa capacidade de se reinventar e como filha me orgulho profundamente disso. Hoje ele se dedica a conversas sobre sua paixão, que é a política, e a sociedade democrática e justa, com grupos de amigos e pessoas que queiram ouvi-lo, refletir com ele. Está estudando, pois isso é algo que ele jamais deixou de lado e está se dedicando muito à família, em especial aos netos, fazendo com eles o que não pôde fazer por mim e por meus irmãos por conta da política. E sim, quando chegar o momento meu pai vai falar, vai contar a sua verdade e sua história.”

– Como vocês estão acompanhando a nova prisão de Zé Dirceu e a Lava-Jato?

– Nós sentimos muito esta prisão do Zé Dirceu e somos totalmente solidários a ele e sua família por toda a arbitrariedade a qual ele já foi e continua sendo submetido. A Lava-Jato nos preocupa pela quantidade de novas formas e processos jurídicos que mostram que precisamos repensar esta relação mídia e justiça, pois certamente quem é citado não consegue nunca mais se livrar desta marca, já tem seu nome jogado nas manchetes, sua casa invadida, e isso é uma injustiça por si só, ser condenado antes de ser julgado com imparcialidade.

– Você diz no livro que aguarda Justiça. Que tipo de Justiça ainda poderia ser feita?

– Um novo julgamento deste processo todo. Que sejam analisadas as provas, e não os “achismos”, as situações de “ele deveria saber”. Que um dia se prove que meu pai nunca cometeu crime algum. Sua história não é de dinheiro, mas sim de luta por seus ideais, de forma democrática e humana.

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Livro: Felicidade Fechada

Autora: Miruna Genoino

Editora: Cosmos

Quanto: 65 reais, 266 págs.

Lançamento: 16 de março, 20 h, no Espaço ViaTV – rua José Piragibe, 366, Butantã, São Paulo-SP.

 

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Manuela Carmena, prefeita de Madri: a política tem que ser ocasional, não uma carreira

Publicado em 29 de novembro de 2016
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(Manuela Carmena, Pepe Mujica e sua mulher, Lucía Topolanski, em Madri: Foto: Elvira Megias/Ahora Madrid)

Por Lucas Rohan, de Lisboa

No início do ano, a prefeita da capital espanhola, da coligação de esquerda Ahora Madrid, causou o maior rebuliço ao revolucionar a tradicional Cavalgada de Reis, a grande data infantil do país. São os reis magos, e não o papai Noel, que entregam os presentes às crianças por lá. Pois Manuela Carmena resolveu dar umas tintas de realidade à festa e colocou um rei Baltazar negro de verdade, sem black face e vestido com trajes genuinamente africanos -afinal, se existiu, o rei mago possivelmente era negro.

Não foi a única polêmica de Manuela, que se considera uma “política vocacional” e não profissional. Aos 72 anos, foi eleita em 2015 como candidata independente por Ahora Madrid, que reuniu partidos de esquerda, entre eles o Podemos, e movimentos sociais, e pôs fim a 24 anos de hegemonia do neoliberal Partido Popular (PP) na capital espanhola. Regularizou a situação dos okupas que invadiram vivendas públicas sem uso, oferecendo-lhes a possibilidade de alugar os imóveis; rompeu o contrato com a agência Standard’s and Poors, que auditava a prefeitura madrilenha; autorizou o “dia sem maiô” nas piscinas municipais; criou um portal para ouvir a opinião da população sobre as mudanças no urbanismo da cidade; e fez declarações sobre o clitóris e a masturbação com a maior naturalidade.

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(Manuela com Mujica em seu Fusca azul)

Uma foto do ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica levando Manuela para um churrasco em Montevidéu em seu Fusca azul viralizou na internet. A prefeita não nega que o uruguaio é uma de suas inspirações. “O senhor Mujica é um político absolutamente invejável”, diz. Agnóstica, ex-militante do Partido Comunista Espanhol, advogada dos trabalhadores presos na ditadura de Francisco Franco, juíza por mais de 30 anos, Manuela admite que trabalha num “ambiente masculino” e defende que “a política se feminize”. Pensando nisso, sua administração criou uma Escola de Igualdade Para Homens e Mulheres, com formação na área de gênero e empoderamento.

No início de seu mandato na prefeitura de Madri, começava também a fase mais aguda da crise dos refugiados. Mandou colocar uma faixa com os dizeres em inglês refugees welcome (bem-vindos refugiados) na fachada do Palácio de Cibeles, sede da administração e um dos principais edifícios históricos do centro de Madri. A ação correu o mundo através das redes sociais. Mais de um ano depois, com a crise dos refugiados ainda em curso, o cartaz gigante de boas-vindas continua lá.

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Na contramão da esquerda tradicional, em um ponto o discurso da prefeita madrilenha se aproxima das novas caras da direita: defende que a política seja “ocasional”, e não uma carreira profissional, como tem sido para tantos. Manuela Carmena falou com o repórter Lucas Rohan pelo telefone. Leia.

– A senhora é considerada uma das principais figuras da chamada “nova política”. Mas o que é essa nova política para a senhora? Que diferenças há entre a senhora e os políticos profissionais?

– Bom, creio que a diferença fundamental é que eu sou uma pessoa cuja carreira nunca teve a ver com a política. Fui juíza até que me aposentei antecipadamente. E justo nesse período, que é um verdadeiro paraíso, de uma aposentadoria quando você está bem e com muita capacidade de trabalho, surgiu a possibilidade de me dedicar durante um tempo à política, que eu considero política vocacional.

– Mas o que seria essa nova política?

– Eu diria que tem muito a ver com ser um político ocasional, de ser uma política que não seja de carreira, uma política que tente que as estruturas clássicas, que se afastaram tanto da política, que se convertam em algo mais flexível, que permita a combinação da democracia representativa com a democracia política.

– A senhora se propôs a fazer um governo aberto e para isso foi criado o portal Decide Madrid. Como foi o primeiro ano da experiência?

– Nesse primeiro ano nós verificamos que houve um número representativo de acessos ao portal. No entanto, ainda não alcançamos a meta necessária para que a partir daí as propostas que os cidadãos fizeram lá sejam submetidas a um referendo. Se tivermos dez por cento do censo geral já poderemos ter uma proposta submetida a referendo em breve.

– Há algum exemplo de proposta cidadã enviada pelo portal que tenha se convertido em realidade?

– Há algumas que já se converteram em realidade porque foram medidas que tomamos na administração. O mais determinante é que uma das propostas que será discutida é a criação de um bilhete único que possa ser usado não somente em todos os transportes públicos de Madri, mas também das cidades da comunidade.

– Mas a senhora acredita que um portal é suficiente para garantir um governo aberto?

– Não, por isso tomamos muitas outras medidas que, diria eu, são tanto ou mais indicativas de que este é um governo aberto. Nós implantamos a transparência de todas as nossas agendas, assim que praticamente todo o trabalho que a administração municipal faz está disponível na internet e pode ser acessado por qualquer pessoa. Ainda que pareça surpreendente, qualquer cidadão pode conhecer 80% dos dados com os quais trabalhamos.

– A senhora esteve em viagem pela América Latina, onde se encontrou com o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Aceita o fato de que Mujica e a senhora são similares? A sua atuação política tem alguma inspiração nele?

– O senhor Mujica é um político absolutamente invejável. Ele sim é um político profissional, mas é exemplar. O que ele tem demonstrado em todas as suas atividades políticas indica as virtudes necessárias para o desenvolvimento de um trabalho de liderança política.

– Ainda sobre a América Latina, o que a senhora viu lá em termos de política?

– A Espanha e a América Latina ainda estão muito perto. Para mim o que é interessante desse momento da América Latina é o salto que deu. Acredito que a região viveu um desenvolvimento econômico muito importante atualmente. Após sofrerem com as grandes ditaduras com as responsabilidades históricas que devem ter, os países superaram, vieram as democracias e elas possibilitaram o desenvolvimento econômico. É verdade que se trata de um desenvolvimento que ainda é muito desigual, mas está gerando fontes de ingresso que são muito interessantes. Creio ser muito relevante ver como a América Latina está melhorando.

– No Brasil recentemente houve uma turbulência política, culminando com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que muitos dizem que se tratou de um golpe. O que a senhora pensa sobre isso?

– Não conheço bem a realidade brasileira, não me atreveria a dizer ou muito menos fazer um diagnóstico. No entanto, acredito que a situação atual é lamentável, na qual parece que há uma grande diferença entre o que os eleitores brasileiros quiseram ao votar e o que está sendo feito agora pelos que detêm o poder político.

– Falando nisso, a presidente do Brasil disse muitas vezes que há um pouco de machismo no golpe contra ela, que a política é um lugar de homens branco e ricos. A senhora acredita que a política ainda é machista?

– A política continua sendo muito masculina e por isso eu acredito que é importante que as mulheres participem da política, não tanto mulheres no sentido biológico, mas também pessoas que assumam uma cultura diferente de política com relação à mulher. Eu acredito que sim, é necessário que a política se feminize.

– Uma das ações do seu primeiro ano de governo em Madri que mais chamaram a atenção fora da Espanha foi a recepção aos refugiados. A imagem da frase de boas-vindas no Palácio de Cibeles (sede do governo municipal, onde foi colocada uma faixa “refugees welcome”) foi vista em todo o mundo…

– Há muitas cidades europeias que estão se posicionando pedindo aos Estados que mudem a política diante dessa terrível situação que muitas pessoas estão vivendo, que tem que fugir porque não há outro remédio para salvar suas vidas da guerra na Síria. Muitas cidades, entre elas Madri, fizeram tudo o que foi possível. E continuaremos fazendo para acabar com esse calvário dos refugiados. Continuaremos buscando atender as necessidades, cuidar e fazer com que essas pessoas esqueçam o terror que tiveram que viver.

 

 

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Los Barbudos e a partida de beisebol mais comunista da História

Publicado em 28 de novembro de 2016
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(Fidel, o arremessador. Fotos: Joe Scherschel)

Reza a lenda que, se tivesse sido contratado pelos Washington Senators aos 15 anos, Fidel Castro teria se tornado um astro do beisebol e sua vida seria outra. Um “olheiro”, Joe Cambria, teria visto o adolescente Fidel jogar em Havana e, impressionado com a “bola de curva” (curveball) do arremessador, o convidara para jogar profissionalmente nos Estados Unidos. O jovem preferiu continuar estudando e se tornou o revolucionário comunista cuja trajetória se interrompeu na última sexta, 25 de novembro, aos 90 anos.

O mito do Fidel beisebolista se tornou tão poderoso que, em 1964, um ex-jogador profissional, Don Hoak, chegou a publicar um artigo contando como enfrentara o imberbe Fidel numa partida entre estudantes em Havana que jamais aconteceu. Em uma reportagem feita para a Harper’s Magazine em 1989, Castro’s Curveball, o jornalista J. David Truby sustenta a história do “olheiro” como verdadeira, afirmando que Fidel foi “seriamente considerado para jogar nos Senators”.

Truby revela ainda que Fidel deixou os dirigentes do New York Giants estupefatos ao recusar uma oferta de 5 mil dólares da época para jogar no time. Talvez o garoto tenha pressentido que havia um destino mais importante para ele neste mundo –liderar uma revolução, quem sabe?

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(Fidel e Camilo Cienfuegos)

Nenhum destes relatos ficou comprovado. A “reportagem” de David Truby, hoje tida como inventada, acabou de fato romanceada por Tim Wendel na novela homônima Castro’s Curveball, de 1999. Entrevistado pela ABC em 1991, o próprio Fidel Castro avaliou, sem falsa modéstia, que havia sido um jogador de beisebol “bastante bom”, mas que não teria chance nos grandes times. “Eu provavelmente estaria engraxando sapatos em Nova York”, disse.

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(Camilo e Fidel, animados na chegada)

O que, sim, é história é que Fidel Castro foi a vida inteira louco por beisebol e, seis meses após a revolução que acabou com a ditadura de Fulgêncio Baptista, ele e seus camaradas organizariam um jogo de beisebol em Havana: Los Barbudos contra a Polícia Nacional. No estádio del Cerro, hoje chamado Latinoamericano, os guerrilheiros luziam uniformes com o nome do time. Camilo e Fidel seriam os lançadores de cada uma das equipes, mas à última hora Cienfuegos apareceu com o uniforme dos Barbudos. “Não fico contra Fidel nem em um jogo de bola”, explicou, fortalecendo outra lenda: a de que o comandante odiava perder e era daqueles capazes de fugir com a bola e o taco.

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(O jovem Raúl Castro na arquibancada)

Havia mais de 26 mil pessoas no estádio, a maior audiência já vista até então. As grandes estrelas eram Camilo e Fidel. Para nós, brasileiros, as regras e jogadas soam todas muito complicadas, mas o que se sabe é que a tal maestria de Fidel não deu as caras, pelo menos não naquela partida. Segundo os relatos sobre a partida, ambos se saíram razoavelmente bem, mas nem tanto; e o jogo terminou em 3 a 0 para os policiais. Há quem diga, porém, que a lenda do Fidel craque de beisebol nasceria naquela noite.

Tão perto e tão longe dos Estados Unidos, o beisebol continuou sendo o esporte nacional de Cuba após a revolução e muito pela promoção que Fidel fazia do esporte. “Assim como a terra, a pelota voltou para o povo”, disse Fidel em 1962, ao inaugurar a Série Nacional de Beisebol. “A bola não é criação ianque, os primeiros habitantes de Cuba já jogavam, com o nome de Batos. Este é um triunfo da bola livre sobre a bola escrava. Nossos atletas deixaram de ser mercadoria para converter-se em jogadores. Algum dia, quando os ianques se decidirem a coexistir com nossa pátria, o que terão sem dúvida que fazer, também os venceremos no beisebol, e então se poderá comprovar a superioridade do esporte revolucionário sobre o esporte explorado.”

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(El comandante comandando)

Apesar de ter acabado com o esporte profissional na ilha, o que para os detratores “destruiu” o beisebol cubano, para outros foi justamente com o fim do profissionalismo que ele alcança sua época de ouro. “A verdade é que o auge do beisebol cubano se alcançou na segunda metade do século 20 —uma era pó-revolução e não pré-revolução”, defende o historiador do beisebol Peter C. Bjarkman neste interessante artigo. “Fidel Castro e suas políticas de amadorismo foram no fundo responsáveis, durante os anos 1960 e 1970, por reconstruir o esporte de Doubleday e Cartwright na ilha e convertê-lo em uma vitrine de patrióticas competições amadoras. O resultado direto dessas duas décadas e das outras três que se seguiram seria um dos mais fascinantes circuitos de beisebol no mundo.”

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(Camisa 19, Fidel Castro)

Algumas dezenas de astros cubanos, porém, fugiram para o profissionalismo (e os dólares) dos EUA neste meio tempo. Só em 2015, fala-se que mais de 100 jogadores de beisebol de Cuba pediram asilo em terras norte-americanas. A última das fugas aconteceu em fevereiro deste ano, quando os irmãos Yulieski e Lourdes Gurriel, de 31 e 22 anos, respectivamente, duas das principais figuras do esporte em Cuba, desertaram na República Dominicana, abandonando a concentração após a equipe ser eliminada da Série do Caribe.

No mês seguinte, os irmãos chegaram a Miami, e, em julho, Yulieski foi contratado pelos Houston Astros por cinco anos e 47,5 milhões de dólares. Seu irmão Lourdes está jogando no Toronto Blue Jays, no Canadá, com um contrato de sete anos e 22 milhões de dólares.

Fidel e os Barbudos jogaram apenas uma vez, mas o comandante continuou batendo uma bolinha de vez em quando. Em novembro de 1999, o barbudo-mor participou de mais uma partida histórica: um embate entre Cuba e Venezuela, outro país aficionado ao beisebol, só com veteranos. Fidel dirigia o time cubano e Hugo Chávez era o lançador do venezuelano. Vejam Chávez arremessando e rebatendo. Todo um astro.

Mas, como treinador, Fidel se saiu bem melhor do que como jogador: o time de Cuba ganhou da Venezuela por 5 a 4. Chávez mostrou fair play. “Venezuela e Cuba ganharam. Este jogo aprofundou nossa amizade.”

 

 

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