Perseguindo Robert Barker: um brasileiro explora a vida dos papparazzi londrinos

Publicado em 21 de abril de 2017

chasing

O cineasta mineiro Daniel Florêncio foi estudar em Londres 10 anos atrás e de lá não voltou. Mas mantém os olhos bem ligados no Brasil e principalmente na política. Em 2008, fez um documentário em curta-metragem que fez muito barulho aqui em sua terra natal, Gagged in Brazil (Amordaçados no Brasil), sobre a censura imposta pelo então governador Aécio Neves à imprensa mineira. Óbvio que o tucano ficou furioso e tentou censurar… o documentário.

Agora, está sendo lançado no Brasil, por enquanto só nas lojas digitais, o primeiro longa de Daniel, Perseguindo Robert Barker (Chasing Robert Barker), uma ficção inspirada na espionagem dos tabloides britânicos sobre celebridades, políticos e até sobre a família real que veio à tona em 2011. David (o islandês Gudmundur Thorvaldsson, brilhante) é um fotógrafo profissional que sofreu um trauma familiar e virou papparazzo. O filme, com elenco internacional, retrata o submundo e a rotina dos caçadores de celebridades na noite londrina.

O cineasta mineiro-britânico consegue captar bem a atmosfera de ansiedade, correria, a luta cotidiana deles por uma foto e também a repugnância do trabalho destes ladrões da imagem alheia. Serão os papparazzi trabalhadores da imprensa ou criminosos? Jornalisticamente, é curioso como as principais “fontes” deles são os funcionários das casas noturnas.

Daniel Florêncio falou com o blog por e-mail.

Socialista Morena – Como foi sua pesquisa para retratar a vida dos papparazzi?

Daniel Florêncio – Quando produzi o documentário Tracking William: A Night with a Paparazzo eu tive a oportunidade de vivenciar esse universo em seus detalhes. Passei praticamente todo um dia ao lado do meu personagem, Charlie, um paparazzo veterano já aqui em Londres. Ele foi muito generoso em descrever alguns dos mecanismos da profissão, e outros eu presenciei. Quando ele, e mais uma dezena de outros fotógrafos, esperavam pelo príncipe William na porta de uma boate no frio, eu também esperava no frio. Quando ele, e todos os outros fotógrafos corriam em disparada para conseguir a foto do príncipe quando ele finalmente saiu da boate, eu também saí em disparada. Outras coisas são mais sutis, como a solidão desses personagens tipicamente noturnos. A relação deles com os seguranças de boates e restaurantes. A relação deles uns com os outros. A relação deles com os fotografados. A percepção que eles têm do que é relevante e do que não é. Quem merece um clique e quem não merece. Claro que eu fui além, li bastante, assisti outros documentários, mas foi minha experiência com Tracking Willam que basicamente me forneceu os elementos que eu precisava pra retratar esse universo.

Por que escolheu o tema da mídia/invasão de privacidade neste primeiro longa?

Mídia, jornalismo e comunicação são assuntos que me interessam muito. Eu estava procurando uma história pra contar quando o escândalo das escutas telefônicas do tablóide News of the World veio à tona, e com ele vários detalhes de como jornalistas, editores, policiais etc. operavam. Foi quando decidi que iria abordar esse tema, mas sob a perspectiva do paparazzo, esse cara que nas investigações do escândalo mal era mencionado, mas ele está lá, no fundo da engrenagem de produção das fofocas de tablóides, e cujo universo eu já conhecia bem, por ter feito o documentário Tracking William

Perseguindo… ganhou melhor filme de ação no National Film Arwards. Te surpreendeu?

A primeira surpresa foi a indicação, especialmente concorrendo com filmes imensos como Guerra nas Estrelas e James Bond. À época da indicação o filme ainda não havia nem sido lançado aqui, e apenas algumas poucas pessoas da equipe e da indústria (distribuidores, festivais etc.) o haviam assistido. Não fazia sentido na minha cabeça… Fez menos sentido ainda ganhar esse o prêmio. Melhor filme de ação? Concorrendo com Guerra nas Estrelas? O meu assistente de direção fez uma piada que eles se referiam à ação por trás da câmeras, por conta das dificuldades que nós tivemos durante a produção… Mas, na realidade, acho que procuravam algo além de raio lasers, naves espaciais e explosões. Procuravam uma ação com um pouco mais de significado e relevância.

Qual seu próximo projeto? Pretende filmar no Brasil?

O roteiro está pronto. Ele lida com temas semelhantes a Perseguindo Robert Barker, mas também ódio, intolerância e violência. Não sei ainda se vai ser filmado no Brasil, mas certamente vai ser uma co-produção com o Brasil, e tal qual fizemos com Perseguindo…, vai ter uma equipe repleta de brasileiros.

Você acha que a mídia de política se encontra mesmo um degrau acima da mídia de celebridades em termos éticos ou hoje, no Brasil, por exemplo, se assemelham?

O cenário do jornalismo aqui no Reino Unido é muito bem delimitado. Existem os tablóides e existem os ‘broadsheets’, os jornalões, considerados mais sérios. Enquanto os tablóides pecam pela dependência excessiva de boatos, pelo invencionismo e pelo filtro ideológico forte e evidente, os jornalões são mais protegidos pelas empresas de comunicação para que não sejam contaminados por essas práticas. Como no Brasil não existem tablóides de grande circulação ou relevância, os títulos que aí são considerados sérios, utilizam-se sim dessas mesmas práticas, especialmente na cobertura política.

O que é pior: tirar a foto de uma celebridade na rua ou divulgar vazamentos de investigações?

Não se pode culpar o jornalista por publicar um furo, mas é de se esperar que ele ao menos avalie e considere quais são as intenções de sua fonte. A questão dos vazamentos de investigações é ainda mais complexa, pois não apenas as fontes são seletivas no que vazam, ou seja, elas tem interesses específicos em sua publicação, mas é também papel do jornalista checar a veracidade dessas informações antes que elas sejam publicadas. Aliás, é prática aqui no Reino Unido, de tablóides ou jornalões, não publicar nada sobre investigações ou processos judiciais que não sejam provas produzidas no tribunal, pois o jornalista e o veículo cometem uma contravenção, que aqui é chamada de contempt que é, basicamente, desrespeitar as regras da corte e influenciar o julgamento). Ou o jornalista realiza a própria investigação e apuração, ou espera que os processos judiciais sejam concluídos. Acho que outra questão a ser tratada é a da relevância. Por exemplo, qual a relevância que um jornalista (e um juiz federal) acreditam ter em um áudio vazado de Dona Marisa conversando com seu filho? Qual o sentido e o objetivo de divulgar algo nesse sentido? Apesar de frívola, talvez a foto de uma celebridade caminhando na rua seja mais inofensiva.

Para baixar, clique iTunes, Google Play e Vimeo on Demand. O filme também está na TV por assinatura no Now.

 

 

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6 razões pelas quais reaças jamais gostarão de Moonlight, o vencedor do Oscar

Publicado em 6 de março de 2017

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1. Reaças não possuem empatia suficiente para se sentir tocados pela história de um menino negro, pobre, filho de mãe solteira e viciada em crack. Eles devem olhar para a tela pensando assim: “Ah, esse menino não se esforçou!” ou “Ah, a mãe dele não se esforçou!”. Ou ainda: “Afe, este filme sobre negro gay maconheiro que sofre bullying só podia ter sido feito por algum esquerdista de Hollywood para ganhar o Oscar. Quanto mimimi”.

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2. Os protagonistas de Moonlight não são gente “bem sucedida” e sim membros daquela parcela invisível da sociedade: gente pobre, de pele preta, que mora na periferia, que circula perto das bocas de tráfico, que enfrenta as maiores dificuldades no dia a dia e ainda tem de rezar para não ser morto pela polícia antes dos 25 anos. Aquele tipo de gente que os reaças fingem que não existe ou atravessam a rua para não cruzar com elas, achando que vão ser assaltados. Como é que eles iriam gostar de pagar para ver essas pessoas no cinema se, na vida real, eles preferem levantar o vidro do carro para não enxergá-las? “Hum, coitadismo.”

Moonlight

3. É um filme que olha o tráfico e o vício em drogas com compaixão, mas sem moralismo. O menino Little é “salvo” por um traficante gente fina, mas que vende drogas para a mãe dele. Como pode existir um traficante gente fina? Como é possível se afeiçoar a alguém que vende drogas para sua mãe? Como uma mãe pode ser viciada em drogas? Esta complexidade faz bugar a cabeça de qualquer reaça. Eles são incapazes de se perguntar (e muito menos compreender) quais as circunstâncias que levaram uma pessoa a se tornar traficante ou viciada. “Com certeza, sem-vergonhice”.

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4. O filme critica o bullying sofrido na escola por crianças mais sensíveis e adolescentes homossexuais ou que são apontados como homossexuais. Este deve ter sido o momento engraçado do filme para os reaças, eles devem ter gargalhado ao ver o franzino adolescente Chiron apanhando dos valentões da escola. Reaças são os reis do bullying, sobretudo virtual. Imaginem o que não faziam no colégio. “Não sabe brincar, não desce pro play.”

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5. Tem beijo gay em Moonlight, enorme, escancarado na tela grande. E ainda por cima masturbação. Reaças não suportam beijo gay. Eles têm problemas em aceitar a sexualidade alheia, talvez por não terem conseguido resolver a sua. Demonstrações de amor homossexual lhes causam repulsa e um desejo irrefreável de reprimir, perseguir, prender, boicotar. Punheta, então, vixe… Acho que a maioria deles deve ter saído da sala espumando neste momento. “Não tenho nada contra gays, até tenho amigos homossexuais, mas beijo gay é nojento.”

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6. Aparecem muitos torsos e abdômens trabalhados de homens negros. Sarados, sexy, lindos de morrer. Isso deve incomodar muito os reaças, tanto por racismo quanto por inveja. Ou algum desejo oculto, quem sabe? Ai, que loucura.

 

 

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Capitão Fantástico contra a vidinha de merda da sociedade de consumo

Publicado em 13 de fevereiro de 2017
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(Ben e uma de suas filhas, Vespyr)

A certa altura do filme Capitão Fantástico, em cartaz nos cinemas, o pré-adolescente Rellian pergunta irritado ao pai, Ben (Viggo Mortensen):

– Que tipo de gente maluca celebra o aniversário de Noam Chomsky como se isso fosse um tipo de data oficial? Por que não celebramos o Natal como todo o resto do mundo?

Ben responde:

– Você preferia celebrar um elfo mágico fictício em vez de um humanitário vivo que fez tanto para promover os direitos humanos e o entendimento?

O menino se cala. Rellian é o “rebelde” da família, só que ao contrário: Ben e a mulher, Leslie, criam os seis filhos de maneira alternativa, no meio de uma floresta. As roupas são costuradas por eles, que também aprendem desde cedo a caçar, plantar e encontrar o próprio alimento, fugindo, portanto, da chamada “sociedade de consumo”. Rellian está de saco cheio de viver assim e a internação da mãe só faz aprofundar o conflito entre o garoto e o pai.

O que a maioria das crianças e dos adolescentes quer é justamente o oposto, ser “iguais a todo mundo”, base fundamental para a sociedade de consumo funcionar. Sem o desejo de ser igual, não existiriam grifes, por exemplo, capazes de seduzir jovens a pagar fortunas por uma blusa ou uma bolsa “da moda” que todo mundo tem. Mas os Cash decidiram que não queriam desse jeito para os filhos. Queriam que sentissem orgulho de ser “diferentes”, por isso cada um tem um nome único, inventado pelos pais. O caçula, Nai, inclusive, é uma criança sem gênero.

O conflito do filme é que, ao mesmo tempo que de fato aquelas crianças sentem orgulho de si mesmas, o contato com a “civilização” demonstra que também possuem inseguranças. Sentem-se ao mesmo tempo superiores e inferiores àquela sociedade que seu pai e sua mãe esnobaram. Contrastam maturidade e inocência: seu pai lhes acostumou a falar sobre tudo, sem reservas, mas se esqueceu de alertá-los para coisas prosaicas como paquerar uma garota.

Capitão Fantástico é uma fábula sobre como é duro desafiar o sistema reinante, mesmo que você abra mão dele por completo. Todos estamos programados a viver sob as regras do sistema e, se você foge delas, arrisca-se a sofrer e a ser punido, a ser visto como freak, uma aberração. A revolta de Rellian contra o Noam Chomsky Day ilustra isso –e se inspira numa celebração feita pelo diretor Matt Ross com os próprios filhos. Viver de forma anticapitalista num mundo capitalista é tão complicado quanto, para um ateu, se esquivar do Natal todos os anos.

Mas à ternura e à angústia despertadas pelo filme é adicionado ainda outro sentimento: frustração. A sensação de que hoje em dia criamos nossos filhos de uma maneira banal, automática. Submetidas a uma disciplina rígida de exercícios físicos e leituras, as crianças de Ben são incrivelmente agradáveis, encantadoras e interessantes, principalmente em contraste com os primos criados na cidade à base de muita televisão e videogames. Difícil não sentir uma invejinha dos resultados que ele conseguiu com seus meninos…

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(Ben e sua linda trupe)

A “sociedade de Noam Chomsky” emulada pela família Cash a partir das concepções do linguista, filósofo e ativista norte-americano está longe de ser perfeita, mas está impregnada de um humanismo que causa nostalgia. Será que um dia não fomos assim, capazes de sentar à mesa de jantar com nossos filhos e falar de literatura e ciência, em vez de permitir que passem a maioria de suas horas de folga absortos em si mesmos, mexendo num tablet? É constrangedor e incômodo se dar conta de como a vidinha confortável e previsível do mundo capitalista é, no fundo, uma vidinha de merda.

Temos todos os tipos de aparelhos eletrônicos que previa a ficção científica dos anos 1960 e nunca fomos tão pobres de espírito. As crianças do século 21 sabem mexer em qualquer bugiganga eletrônica, mas não teriam a menor ideia de como sobreviver no meio da mata se algum dia se perdessem em uma. Para sorte (ou azar) delas, dificilmente alguma criança toparia atualmente passar uma semana na natureza sem wi-fi.

A sociedade de consumo e a tecnologia trouxeram um efeito colateral bizarro, de nos tornar seres humanos vazios. Quantas horas de leitura o Facebook roubou de você hoje? Capitão Fantástico impacta por escancarar isso, por chacoalhar as certezas de todos, mesmo a dos que afirmam estar fazendo a sua parte, lutando por um mundo mais justo, com as nádegas confortavelmente instaladas sobre uma cadeira acolchoada e diante da tela de um computador.

É um paradoxo, porque em tese as facilidades das novas tecnologias deveriam servir para a gente se independizar da vida urbana e do caos das grandes cidades. Deveriam servir para a gente ter mais tempo para curtir a família, os amigos. E é todo o contrário o que está acontecendo: os gadgets estão roubando o tempo ocioso que temos porque nos viciamos neles. Como a heroína fez com a morfina, criamos uma dependência dos instrumentos que supostamente nos salvariam. E ela é transmissível às novas gerações.

Por outro lado, senti também que talvez exista um lugar no meio do caminho entre abdicar de tudo ou se embriagar na sociedade de consumo, chafurdar nela. Difícil é se dedicar a encontrar este caminho do meio, na correria em que vivemos. Há que se ter uma disciplina férrea, é isso que Ben ensina. Eu fiquei a fim de começar imitando o Noam Chosky Day. A propósito, é 7 de dezembro.

Capitão Fantástico – EUA, 2016. Direção: Matt Ross. Com: Viggo Mortensen, George McKay, Nicholas Hamilton, Annalise Basso, Samantha Isler, Shree Cooks, Charlie Shotwell.

 

 

 

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