Uma em cada cinco crianças vive na pobreza em países ricos; uma em cada oito passa fome

Publicado em 23 de junho de 2017
(Crianças comem a merenda em escola da Paraíba. Foto: Isadora Ferreira/ONU)

(Crianças comem a merenda em escola pública da Paraíba. Foto: Isadora Ferreira/PMA)

“Onde é que o socialismo funcionou?” é a pergunta mais frequente dita pela direita nas redes sociais, como se o capitalismo tivesse “funcionado” em alguma parte do planeta. Um relatório do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) mostra que uma em cada cinco crianças em 41 países ricos vive na pobreza. Uma em cada oito crianças passa fome nestes países. Se isso é “funcionar”, imaginem se não funcionasse.

O relatório aborda a situação de meninos, meninas e jovens em 41 nações de alta renda e o cumprimento dos principais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) associados ao bem-estar infanto-juvenil. A Dinamarca tem os melhores resultados em relação à pobreza relativa, mas mesmo ali 9,2% das crianças vivem na miséria. Taxa similar têm a Islândia e a Noruega, e o número sobe para 30% em Israel e na Romênia, que possuem os piores resultados em termos de pobreza relativa entre os países ricos.

EUA, Bulgária, Espanha, México e Turquia também registram taxas de pobreza infantil superiores à média do mundo rico. Já a insegurança alimentar —ou falta de comida— afeta 20% das crianças no Reino Unido e nos EUA e uma em cada três no México e na Turquia.

Os sete países em que uma em cada sete crianças vive em situação de pobreza estão na Europa. Uma em cada três crianças europeias sofre carências de dois ou mais tipos nesta lista: nutrição, vestuário, recursos educativos, atividades recreativas, atividades sociais, acesso à informação e qualidade da moradia.

O relatório também aponta a obesidade infantil como uma forma de desnutrição, já que as crianças consomem cada vez mais alimentos pouco saudáveis e bebidas com alto conteúdo de açúcar e, ao mesmo tempo, não praticam exercícios físicos regularmente. “A obesidade está relacionada com múltiplos problemas durante a infância, baixa autoestima e a possibilidade de desenvolver enfermidades cardiovasculares e diabetes na idade adulta”, diz o relatório.

Uma em cada sete crianças tem sobrepeso ou é obesa nestes países, um indicador que apresenta poucas variações, com taxas de obesidade infantil entre 10% e 20% em todos eles, exceto em quatro. O país mais saudável é a Dinamarca, que vem reduzindo a sua já baixa taxa de obesidade infantil nos últimos anos. Já em Malta e no Canadá, uma em cada quatro crianças estão acima do peso ideal.

“Rendas mais altas não levam automaticamente a resultados melhores para todas as crianças e podem, na verdade, aprofundar desigualdades. Governos em todos os países precisam agir para garantir que as lacunas sejam reduzidas e que seja feito progresso para alcançar os ODS para as crianças”, defendeu Sarah Cook, a diretora do Centro de Pesquisa Innocenti, do Unicef, durante a divulgação do documento, em 15 de junho.

O Unicef chamou a atenção para a eficácia dos programas de transferência de renda, sempre criticados pela direita brasileira, a exemplo do Bolsa Família. Em 11 dos países pesquisados, as transferências reduziram a pobreza infantil à metade, e, nos casos de maior sucesso, como Finlândia, Islândia e Noruega, até em dois terços. Em termos gerais, as transferências de renda nos países ricos reduziram as taxas de pobreza infantil em quase 40%.

Sobre a saúde do público infanto-juvenil, o relatório destaca que a boa notícia é que as taxas de mortalidade neonatal, suicídio adolescente, gravidez na adolescência e alcoolismo têm registrado quedas nos países ricos. No entanto, o Unicef alerta que um em cada quatro adolescentes relata ter dois ou mais problemas de saúde mental (prostração, irritabilidade, nervosismo e dificuldades para conciliar o sono) mais de uma vez por semana.

A respeito da educação fornecida por países de alta renda, o relatório também surpreende ao mostrar que 20% dos estudantes de 15 anos de idade não alcançam os níveis mínimos de proficiência em leitura, matemática e ciência em países tidos como “modelo” no Brasil, como o Japão e a Finlândia. Menos da metade dos jovens de 15 anos examinados na Bulgária, Chile, Romênia e Turquia alcançaram os níveis mínimos.

E ora vejam só: o país que ocupa o primeiro lugar em proficiência é justamente um integrante da extinta União Soviética, a Estônia, com renda per capita que não chega nem à metade da dos outros quatro países que ocupam os cinco primeiros postos do ranking. Abaixo da ex-comunista Estônia é que vêm Japão, Finlândia, Canadá e Irlanda.

Acesse o relatório clicando aqui.

(Com informações do site da ONU)

 

 

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Mountain Dew, o refrigerante que detona dentes nos EUA (e que a Ambev trouxe pra cá)

Publicado em 19 de junho de 2017
(No Brasil eles querem associar a marca à vida saúdável)

(No Brasil eles querem associar a marca à “vida saudável”)

Tem um refrigerante novo no mercado: Mountain Dew, uma bebida cítrica cuja embalagem mais parece a de um desentupidor de pia, “verde neon” que nem o Diabo Verde. E a impressão de que aquela garrafinha contém algo corrosivo não é só impressão. Este refrigerante, que começou a ser produzido no Tennessee no início do século 20, está associado a uma epidemia de dentes destruídos na região onde se encontra seu Estado natal. A Ambev fez o favor de trazê-lo, há cerca de dois anos, para o Brasil.

A região de onde vem o Mountain Dew, a Appalachia, perpassa, além do Tennessee, os Estados de West Virginia, Alabama, Kentucky, Virginia, North Carolina e Georgia. A Appalachia possui estatísticas dignas de “terceiro mundo”: extremamente pobre, pouco instruída e também a que tem os piores problemas dentários dos Estados Unidos. As crianças e adolescentes de lá tiveram os dentes estragados devido a um fenômeno que ficou conhecido como “Mountain Dew mouth” (boca de Mountain Dew), em “homenagem” ao refrigerante que a Ambev quer empurrar goela abaixo dos brasileiros.

Qual a diferença do Mountain Dew para os outros refrigerantes? Muito mais açúcar e muita cafeína. Uma garrafinha de 600 ml de Mountain Dew contém 290 calorias, 77 g de açúcar (ou 19,25 colheres de chá) e 91 miligramas de cafeína, mais do que qualquer refrigerante – a Pepsi, do mesmo fabricante, possui 250 calorias, 69 g de açúcar e 63 miligramas de cafeína. A combinação de tanto açúcar com o ácido cítrico é, de acordo com os dentistas, fatal para os dentes, sobretudo das crianças e dos adolescentes. O lado irônico é que Mountain Dew quer dizer “orvalho da montanha”.

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O Kentucky, maior consumidor de Mountain Dew do país, é também um dos campeões entre os Estados com piores dentes. É ainda o número um com pessoas acima de 65 anos sem dentes na boca. Para as pessoas que pensam que os EUA são só Miami, deve ser duro descobrir que o Kentucky é um Estado pobre, com um nível educacional baixíssimo: em um país rico como os EUA, apenas 23,3% da população conseguiram concluir a universidade, e o Estado tem uma das maiores taxas de desemprego no país.

O resultado do baixo nível educacional da região é que muitos pais não veem problema algum em dar Mountain Dew às criancinhas ainda na mamadeira, e pouco antes de colocá-las na cama. Como o acesso ao tratamento dentário é somente para os ricos no “país das oportunidades”, um em cada cinco norte-americanos não possui um só dente de verdade na boca; como tratar é caríssimo, a maioria prefere extrair de uma vez. Os tratamentos gratuitos, oferecidos por dentistas de bom coração, provocam filas quilométricas. Em nosso país, o Brasil Sorridente, criado pelo governo Lula em 2003, é o maior programa de saúde bucal do mundo.

Edwin Smith, um dentista do Kentucky que viaja em um trailer por toda a região da Appalachia fazendo tratamentos de graça, disse à CNN que encontrou por lá pessoas que nunca foram ao dentista na vida. “Vi um monte de crianças com a boca cheia de dentes podres”, afirmou Smith, que atribui a má dentição ao excesso de bebidas açucaradas. No Kentucky, ele encontrou bebês de dois e três anos com dentes de leite esburacados, crianças que não escovam os dentes porque estão com as gengivas inflamadas e adolescentes que arrancaram os próprios dentes podres usando alicates.

Parece mentira dizer isso sobre uma localidade dos EUA, mas muitas cidades do Kentucky não possuem rede municipal de abastecimento de água, e metade dos habitantes do Estado depende exclusivamente de água de poço ou cisterna, que não recebe flúor. A falta de confiança na água que bebem também influencia no fato de os habitantes da Appalachia beberem tanto refrigerante.

Este adolescente do documentário Açúcar! chega a beber 12 latas de Mountain Dew por dia. A primeira vez que ele tomou tinha 2 ou três anos de idade. Olhem o estado dos dentes dele.

Com 26% das crianças em idade pré-escolar com cáries e 15% dos jovens com pelo menos um dente extraído, a “boca de Mountain Dew” criou na região um dos piores problemas de saúde dental dos EUA. 65% das crianças da região possuem cáries, segundo a Robert Wood Johnson Foundation.

É preciso deixar claro que não é só o Mountain Dew que provoca cáries. De acordo com especialistas, uma pessoa que toma qualquer refrigerante em excesso e não cuida dos dentes pode ter uma boca tão deteriorada quanto a de um viciado em metanfetaminas ou crack. Enquanto os dentistas atacam os refrigerantes por causar danos aos dentes, a indústria de refrigerantes tira o corpo fora, dizendo que “isoladamente, bebidas não causam cáries”.

Há quem defenda que refrigerantes deveriam trazer um rótulo avisando dos danos aos dentes, assim como ocorre com o cigarro. No Brasil, o marketing do Mountain Dew pretende, ao contrário, associá-lo à vida saudável, em especial ao skate. Assim que chegou ao país, a marca logo contratou skatistas famosos como Luan Oliveira e Tiago Lemos para serem seus garotos-propagandas.

Felizmente, os brasileiros parecem ter melhor gosto para refrigerantes do que os norte-americanos: esta é a terceira vez que o Mountain Dew tenta entrar no mercado nacional.

(Com informações do Alternet)

 

 

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Aprovada pelo Senado, MP da Grilagem vai aumentar a violência no campo

Publicado em 1 de junho de 2017
(Armas utilizadas no massacre em Pau d'Arco, no Pará)

(Armas utilizadas no massacre que vitimou dez trabalhadores rurais em Pau d’Arco, no Pará, dia 19 de maio)

Os ruralistas estão mandando e desmandando no governo ilegítimo de Michel Temer. Foi aprovada ontem pelo Senado, na calada da noite, a medida provisória 759, conhecida como a “MP da Grilagem”, que possibilita a transferência de terras da União a grandes especuladores fundiários, anistia grileiros de terras, enfraquece a reforma agrária e acaba com o conceito de uso social da terra. Com isso, a medida resultará em aumento do desmatamento de florestas, a disputa pela posse de terras e, consequentemente, a violência no campo. O texto segue agora para sanção presidencial.

Entidades ambientalistas e dos trabalhadores rurais lamentam que a MP tenha sido enviada ao Congresso sem nenhuma participação da sociedade e de estudiosos da área. “A medida reformula e revoga uma série de legislações sobre regularização fundiária que vem sendo discutidas há décadas. Anular décadas de trabalho e instituir novas regras via MP, sem nenhuma consulta pública e sem envolver especialistas, é uma aberração”, avaliou Marcio Astrini, coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace.

De acordo com a entidade, a MP faz parte de um pacote de medidas patrocinado pela bancada ruralista, que visam beneficiar grileiros, vender terras do país aos estrangeiros, acabar com a reforma agrária, liberar agrotóxicos, flexibilizar o Licenciamento Ambiental e acabar com Unidades de Conservação.

Na semana passada o Senado aprovou também as MPs 756 e 758, que reduzem a proteção de quase 600 mil de hectares de florestas – o equivalente a quatro vezes a cidade de São Paulo. “A cada canetada, áreas deixam de ser protegidas, indo para as mãos de grileiros e, por fim, podendo ser vendidas a estrangeiros. Não são ações isoladas. São articuladas e todas conversam com a destruição”, analisa Astrini.

O MPF (Ministério Público Federal) havia soltado uma nota técnica condenando a aprovação da medida. “A previsão de indenização mediante pagamento em dinheiro por desapropriações para fins de reforma agrária é inconstitucional”, afirma.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agriculta Familiar (Contraf) lamentou a aprovação da MP argumentando que a violência no campo e o desmatamento irão aumentar.

“A medida estabelece regras para a legalização de terras da União ocupadas na Amazônia Legal, isso significará mais desmatamento, mais concentração de terras nas mãos de grandes latifundiários e empresas, autoriza a venda de terras para estrangeiros, colocará em risco a Floresta Amazônica, acabará com as áreas de preservação ambiental, além de atentar contra a segurança dos povos do campo, da floresta e das águas, indígenas e quilombolas, também institucionaliza a grilagem de grandes áreas, inclusive as consideradas unidades de conservação, fragiliza o licenciamento ambiental dentre outras”, diz a entidade. “Para um país que já convive com chacinas de trabalhadores e trabalhadoras do campo, com 1834 assassinatos entre 1985 a 2016, destacando que em 2017 já são 36 assassinatos, esse número tende aumentar ainda mais com a aprovação da MP 759.”

A Contraf disse ter alertado, por meio de estudos, que a medida incentivará a concentração de terras no campo e aumentará as especulações nos centros urbanos, causando mais desigualdade para as populações com perfil socioeconômico desfavorecidos. A medida beneficiará apenas os grandes empresários que terão mais acesso às terras, o mercado imobiliário selvagem, os estrangeiros que instalarão com mais facilidade as industrias do agronegócio, principalmente na Amazônia e Centro-Oeste.

“É com preocupação que analisamos o cenário político e os programas governamentais dessa gestão. Por várias vezes estivemos com a Casa Civil, INCRA, Secretaria de Desenvolvimento Social, para nos posicionarmos em relação a MP 759. E, apesar de apontarmos os problemas que a medida provocará para as populações não apenas do campo, da floresta e das águas, mas também para a cidade, o governo se negou em construir uma medida considerando nossas proposições”, disse Marcos Rochinski, coordenador-geral da Contraf.

(Com informações do Greenpeace e da Contraf)

 

 

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