Um ano depois, franceses voltam às ruas contra governo “socialista” e violência policial

Publicado em 3 de abril de 2017

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(Fotos: Manuca Ferreira)

Por Manuca Ferreira, de Paris*

O Nuit Debout (pronuncia-se “nuí debú”; em tradução literal, “de noite em pé”), movimento francês semelhante ao Occupy Wall Street e ao 15-M espanhol, encerrou no domingo, 2 de abril, com uma ocupação na Place de la République, em Paris, as comemorações de um ano de sua criação e das manifestações contrárias à nova lei trabalhista francesa. A lei, aprovada pelo governo do “socialista” François Hollande em julho de 2016, permite, entre outras medidas, a possibilidade de até 60 horas semanais de trabalho, em casos de emergência e após negociação com os sindicatos.

As alterações foram suficientes para uma série de manifestações contra o governo Hollande, que ganhou corpo após a criação do Nuit Debout, mas que arrefeceu após a aprovação da lei. A legislação foi aprovada com o desacordo de parte do Partido Socialista, partido de Hollande, após a utilização pelo governo de um artifício constitucional que desobrigou a votação no parlamento. O presidente da França (como pretende Michel Temer no Brasil) também ampliou o tempo de contribuição dos trabalhadores para se aposentar para 43 anos –Temer quer 49 anos de contribuição.

O Nuit Debout surgiu em 31 de março de 2016, após o diretor do documentário Merci, Patrón! (Obrigado, patrão!), François Ruffin, editor da revista Fakir, ter sugerido que a discussão sobre seu filme continuasse na praça da República, cenário de diversas manifestações na capital francesa, no meio de uma das mobilizações contra a lei trabalhista. As pessoas ocuparam o restante da noite e as que se seguiram, originando o movimento político anti-institucional francês.

Para os participantes do Nuit Debout, aquele mês de março não teve fim. Em vez de se referir a 1º de abril, eles começaram a chamá-lo, em vocabulário próprio, de 32 mars (32 de março), data em que as manifestações do Nuit Debout se espalharam para outras cidades francesas.

Merci, Patrón!

Em Merci, Patrón!, Ruffin critica um dos homens mais ricos da França, Bernard Arnault, diretor da LVMH, holding que atua em seis setores de atividade, e que tem a Louis Vuitton, a Christian Dior, a Sephora, a Tag Heuer, a Moët & Chandon entre suas marcas. O filme mostra, de forma irônica, Ruffin atuando como porta-voz de pessoas afetadas pelas transferências de unidades de produção do grupo para países que ofereçam maiores vantagens financeiras.

Após um ano de sua criação, os nuitdeboutistas voltaram à Praça da República, divididos em suas muitas frentes que propõem um novo mundo. Há o Nuit Debout feminista, o ecologista, a comissão pela Educação popular, de economia, de política… Desta maneira, o movimento que surgiu atrelado à luta contra a lei trabalhista reproduziu esta forma de organização que tem caracterizado os diversos movimentos ao redor do mundo, como o Occupy e o 15-M: especialização de temas, sem hierarquias, com uma forte rejeição às formas mais institucionalizadas de formas políticas, como sindicatos e partidos, com reuniões em que as pessoas sentadas no chão aprovam ou rejeitam o que está sendo dito agitando as mãos, em vez de aplausos e vaias, e com uma atuação forte nas redes sociais.

Há perfis e páginas do Nuit Debout no facebook, twitter, instagram (instagram), além de um canal no youtube, a TV Debout, grupos no telegram e o jornal online Gazette Debout. Um arsenal midiático para fazer frente à cobertura mais tradicional da imprensa francesa. Cópias impressas da Gazette Debout foram distribuídas na tarde de domingo e nelas o movimento se apresenta como “uma referência cultural, um estandarte que brande com orgulho”.

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Violência policial

Se, no seu início, o Nuit Debout fez ressoar as críticas à lei trabalhista, no domingo o movimento convergiu com uma grande manifestação da comunidade franco-chinesa contra o assassinato de Shaoyao Liu, chinês de 56 anos, pela polícia francesa em março, no 19º distrito de Paris, em circunstâncias ainda não esclarecidas. A polícia diz que foi atacada pelo chinês ao chegar à sua residência, mas a família nega a agressão.

Foram várias as pessoas que se alternaram nos microfones disponibilizados por integrantes do Nuit Debout, com críticas às autoridades policiais, que estavam presentes e chegaram a lançar bombas de gás lacrimogêneo, insuficientes para dispersar quem estava presente na République. O caso gerou um protesto oficial do governo chinês, que pediu proteção para seus cidadãos na França. A comunidade chinesa no país chega a 300 mil pessoas.

 

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Série: por que estou ocupando? Hoje: Universidade de Brasília

Publicado em 21 de novembro de 2016
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(Foto: reprodução de cartaz na reitoria da UnB)

No início do mês, o presidente ilegítimo Michel Temer disse que os estudantes que estão ocupando escolas e universidades contra as medidas de seu governo que prejudicam o futuro dos brasileiros nem sequer sabem o que quer dizer PEC (Proposta de Emenda Constitucional). Em evento com empresários, Temer ironizou afirmando que os jovens pensam que PEC é “Proposta de Ensino Comercial”… Será mesmo que os estudantes não sabem por que estão ali?

Pois o blog vai ouvi-los. Este é o primeiro post de uma série com vídeos curtos trazendo depoimentos de estudantes sobre as ocupações nas escolas e universidades contra a PEC55, que já foi aprovada na Câmara e começa a ser discutida esta semana pelo Senado. A PEC institui o teto de gastos públicos para os próximos 20 anos e trará cortes na saúde e educação que alcançarão 63 bilhões de reais nos próximos 20 anos. Os estudantes também estão mobilizados contra a MP 746 do governo ilegítimo de Michel Temer, que impôs, sem discussão na sociedade, a reforma no ensino médio.

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(Faixas na reitoria)

Hoje, a Justiça decidiu impor aos estudantes da UnB que desocupem a universidade em 48 horas e autorizou, inclusive o uso de força para expulsá-los de lá. O juiz do TRF (Tribunal Regional Federal) que ordenou a desocupação, a pedido do estudante de Direito Edinailton Silva Rodrigues e de um grupo de alunos, é o mesmo que impediu Lula de se tornar ministro de Dilma, em março deste ano.

“O objetivo do movimento é político, direciona-se à rejeição de projeto de emenda constitucional. Matéria que não tem relação direta com a atividade acadêmica, o que retira qualquer legitimidade dos atos de ocupação/invasão. Sob todos os aspectos, a invasão/ocupação não pode prevalecer”, argumentou o juiz.

Estudantes contrários à ocupação reuniram mais de 3 mil assinaturas e entraram com o pedido de desocupação junto ao Ministério Público. Agora, os estudantes favoráveis estão recorrendo e reúnem assinaturas para manter o movimento.

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(Corredor do instituto de Letras)

Fui conhecer a ocupação na Universidade de Brasília na sexta-feira, 18, e encontrei baixa adesão, mas vi um movimento totalmente pacífico e ordeiro. O Instituto de Letras estava ocupado e também a reitoria da Universidade. Na manhã de segunda-feira, a imprensa registrou bate-boca entre estudantes contrários e favoráveis à ocupação. Segundo a UNE (União Nacional dos Estudantes), já há quase 200 institutos e universidades federais ocupados em todo o país.

Ouvi as razões dos estudantes para ocuparem a Universidade de Brasília porque acho que a voz deles é o que mais interessa ouvir neste momento: por que ocupar? Outros posts virão em mais escolas e universidades ocupadas, aguardem.

Bárbara Pádua, 26, estudante de Letras

Antonio Aurélio 26, estudante de Ciências Sociais:

Diana Cristina, 26, estudante de Letras-Português

 

 

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Dia Mundial Contra a Monsanto: OMS confirma que pesticida mais vendido pode causar câncer

Publicado em 23 de maio de 2015

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Uma prova contundente de como a mídia é refém do poder econômico e de como não se importa em omitir notícias importantes para as pessoas em nome disso ocorreu em março. A Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da OMS (Organização Mundial de Saúde), publicou um relatório confirmando o que muitos ecologistas e o MST (Movimento dos Sem-Terra) vem dizendo há anos: o pesticida glifosato, vendido comercialmente pela Monsanto com o nome de Roundup, pode causar câncer. “Possivelmente cancerígeno” é a classificação que o glifosato recebeu da agência no relatório, publicado pela prestigiosa revista The Lancet Oncology (leia aqui). Nenhum grande jornal brasileiro destacou a notícia.

O estudo mostrou um aumento dos casos de câncer (especialmente linfoma não-hodgkin) em agricultores expostos ao glifosato na Suécia, EUA e Canadá. Após o alerta, as ações da Monsanto na bolsa de Nova York caíram. A Colômbia anunciou a proibição do uso de glifosato no país.

A multinacional reagiu furiosamente, dizendo que o estudo patrocinado pela OMS é baseado em “ciência lixo” e reafirmou que o glifosato “é seguro para a saúde e o meio ambiente”. Já os representantes da AIPC garantiram a qualidade do relatório, “baseado nos melhores dados científicos, e livre de conflito de interesses”.

No Brasil, campeão mundial no uso de agrotóxicos, o MPF (Ministério Público Federal) pediu à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a reavaliação toxicológica do glifosato com urgência e recomendou que o produto seja banido do mercado nacional. Atualmente, a Anvisa classifica o Roundup apenas como “ligeiramente tóxico” e temos em nossa ministra da agricultura, Kátia Abreu, uma grande defensora do glifosato. Em 2014, o glifosato foi proibido no Sri Lanka após um estudo comprovar que o agrotóxico é responsável pelo aumento de casos de doença renal no país. Uma pesquisa também encontrou vestígios do glifosato na urina de pessoas em 18 países europeus.

Hoje, 23 de maio, Dia Mundial contra a Monsanto, eu convido vocês a conhecer mais sobre esta empresa, que lucra 4,53 bilhões de dólares por ano vendendo agrotóxicos para o mundo. Também produz 98% da comercialização de soja transgênica e 78% do milho tolerantes a herbicidas. Na Europa, só Portugal e Espanha aceitaram comprar as sementes geneticamente modificadas da Monsanto.

Assista ao documentário O Mundo Segundo a Monsanto (2008), de Marie-Monique Robin.

Assista também a O Veneno Está na Mesa (2012), do brasileiro Silvio Tendler.

 

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