Exposição de Frida no instituto Tomie Ohtake peca por esconder comunismo da pintora

Publicado em 12 de novembro de 2015
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(Frida e a foice e o martelo pintados em seu colete ortopédico; esta foto NÃO integra a exposição em São Paulo)

“Estou cada vez mais convencida de que o único caminho para se chegar a ser um homem, isto é, um ser humano e não um animal, é ser comunista”
(Frida Kahlo)

Em termos estritamente artísticos, a exposição Frida Kahlo: Conexões entre Mulheres Surrealistas no México, em cartaz no instituto Tomie Ohtake em São Paulo, é irretocável. Alguns dos mais icônicos trabalhos da pintora mexicana estão lá, além de peças menos conhecidas, como as aquarelas. As mulheres surrealistas que a acompanham também estão representadas lindamente.

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(Diego em Meu Pensamento , 1943. Foto: Gerardo Suter/divulgação)

O único senão para a mostra é a tentativa de apagar ou minimizar a militância comunista que permeou toda a vida de Frida, sobretudo com a escolha do vídeo The Life and Times of Frida Kahlo pela curadora Teresa Arcq para contar a biografia da pintora mexicana.

O documentário, dirigido pela norte-americana Amy Stechler para a TV PBS com patrocínio da Elma Chips (!!!), dilui o comunismo de Frida, afirmando que ela “só foi comunista ferrenha” nos seus últimos anos e que “confundiu comunismo com comunidade”. Para referendar a opinião, a diretora convoca o escritor Carlos Fuentes, ex-esquerdista que se tornou liberal, que diz que Frida “não era comunista, era panteísta”, sem ninguém que lhe sirva de contraponto.

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(O abraço do amor do Universo, a Terra, Diego e eu e o senhor Xólotl, 1949. Foto: divulgação)

Me parece um desrespeito à memória da pintora e à sua inteligência dizer que ela “confundiu comunismo com comunidade”, seja lá o que isso signifique. Ora, Frida Kahlo ingressou nas Juventudes Comunistas aos 17 anos e, aos 20, se filiou ao Partido Comunista Mexicano. Com Diego Rivera, deixou o Partido em 1929 em solidariedade ao marido, que havia sido expulso por divergências com os dirigentes locais. Em 1937, o casal receberia Natalia e Leon Trotsky em seu exílio mexicano. Em 1948, Frida volta a ser aceita pelo PC mexicano, seis anos antes de Diego. Em seu colete ortopédico, trazia pintado o símbolo da foice e do martelo no meio do peito, próximo ao coração.

Frida pintou Marx e Stalin e tinha retratos de comunistas na cabeceira de sua cama na Casa Azul, em Coyoacán. Dias antes de morrer, já em estado grave, insistiu em participar de uma manifestação contra o golpe de Estado organizado pela CIA que derrubou Jacobo Arbenz na Guatemala, acusado de comunismo por defender a realização da reforma agrária no país. Em seu funeral, o caixão de Frida Kahlo foi coberto pela bandeira comunista, causando a demissão do diretor do Palácio de Belas Artes por ter permitido que fosse desfraldada ali.

Muitos especialistas e fãs de Frida Kahlo vêm denunciando a transformação da artista por seus herdeiros em objeto de consumo, a metamorfose de uma comunista em um produto capitalista, a exploração de sua imagem para vender jóias, roupas, bonecas, tequila, tênis, cosméticos, aplicativos e jogos para celular e até – blasfêmia das blasfêmias –um cartão de banco com o rosto e a assinatura dela estampados.

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Tudo pelas mãos da sobrinha da pintora, Isolda Kahlo (1929-2007), que fundou a Frida Kahlo Corporation (oh, tragédia) com sede em Miami (onde mais?). Hoje o business Kahlo é controlado por Mara Romeo-Kahlo, sobrinha-neta de Frida, e um investidor venezuelano, Carlos Dorado, que detêm a maioria das ações. Entre os planos da empresa estão a construção de hotéis e spas com o nome da pintora, além de uma cerveja e um restaurante. “Se Frida visse o que estão fazendo com o nome dela, suas cinzas estariam se revolvendo na urna”, disse a historiadora de arte Teresa del Conde na época do lançamento da tequila. A crítica de arte Raquel Tibol ficou indignada. “É uma vergonha, uma total falta de respeito.”

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(Três Mulheres com Corvos, Leonora Carrington, 1951. Foto: divulgação)

Obviamente que o interesse em diminuir ou esconder que Frida era comunista é uma prioridade para os que manejam o negócio milionário da Fridamania. Esta omissão não poupa as pintoras surrealistas cujas obras integram a exposição no Tomie Ohtake. Algumas delas foram para o México justamente para fugir ao regime fascista de Franco na Espanha, como aconteceu, por exemplo, com Remedios Varo. A fotógrafa Kati Horna era anarquista; Leonora Carrington era feminista militante; Lucienne Bloch foi sindicalista e ativista dos direitos trabalhistas.

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(A Carruagem, Remedios Varo, 1955. Foto: divulgação)

O título da exposição fala em “conexões”, mas os estudantes que se acotovelam diante das obras de Frida Kahlo fazendo selfies vão sair de lá desconhecendo por completo algo que unia profundamente estas mulheres: eram mulheres de esquerda, engajadas politicamente. De fato, orna melhor com o mercantilismo com que os herdeiros tratam o legado de Frida deixá-los pensar que sua militância nunca existiu.

O QUÊ: exposição Frida Kahlo: Conexões entre Mulheres Surrealistas no México
ONDE: Instituto Tomie Ohtake (rua Coropés, 88 – Pinheiros)
QUANDO: até 10/01/2016. De terça a domingo, das 10h às 19h. Ingressos a R$10 e R$5 (meia)

 

 

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Moradores de rua: tão paulistanos quanto você. Fotos por Magnesio

Publicado em 19 de outubro de 2015

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São Paulo, a maior cidade da América do Sul, tem quase 16 mil pessoas morando na rua, de acordo com o censo feito pela Fipe/USP entre fevereiro e março deste ano. É impossível não reparar neles, estão em toda parte. Mas e OLHAR para eles? A maioria das pessoas quando vê alguém que vive na rua vira o rosto –quando não simplesmente muda de calçada.

Por que olhar para os sem-teto perturba tanto? Tristeza? Culpa? Medo? Desprezo? Nojo? Ou é algo mais profundo, que tem a ver com valores e a real importância do dinheiro na vida da gente?

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O fotógrafo e designer Magnesio (autor do visual do blog!) faz o contrário: anda pelas ruas de São Paulo olhando para os sem-teto, que retrata em belas imagens em preto e branco. Preto e branco como as calçadas cinza, as paredes cinza e o céu cinza que os emolduram. Preto e branco como a vida destas pessoas. Por que elas foram parar ali? A maior parte das vezes por causa da pobreza, mas não só: desilusões amorosas, abandono pela família, alcoolismo… São muitas as razões que podem levar alguém a viver na rua, à margem da sociedade.

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O que muita gente não sabe é que as pessoas que vivem nas ruas têm o direito de estar ali. São tão paulistanas quanto você. Possuem, inclusive, os mesmos direitos constitucionais que qualquer um de nós: “todos são iguais perante a lei”, diz o artigo 5 da Constituição brasileira.

Não se pode forçar moradores de rua, como alguns desejam, a ir viver num abrigo –há cerca de 10 mil vagas nos abrigos da capital paulista hoje. Políticas higienistas são desumanas e hipócritas: apenas escondem o morador de rua da vista dos incomodados, não resolvem seus problemas sociais e existenciais. As soluções para eles precisam ser mais atuais e menos moralistas, condizentes com suas necessidades.

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E você, o que faz quando vê uma pessoa em situação de rua?

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A Brasília das esquadrias de alumínio X a capital do mármore e do concreto

Publicado em 23 de junho de 2015
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(A cidade-satélite de Ceilândia, 2013. Fotos: Zuleika de Souza)

No premiado e perturbador filme Branco Sai, Preto Fica (2015), misto de documentário e ficção científica de Adirley Queirós, os moradores da cidade-satélite de Ceilândia são obrigados a tirar passaporte para entrar “na” Brasília, o plano-piloto criado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. É como se existisse um muro invisível entre a capital planejadas e as não-planejadas satélites, um apartheid social e geográfico que não é muito distante da realidade. Em algumas cenas, parece que estamos em alguma parte do Oriente Médio, não no Brasil.

Esta quase total inexistência de contato entre a Brasília oficial e sua periferia denunciada por Queirós dialoga, de certa forma, com as imagens que a fotógrafa Zuleika de Souza colheu ao longo de oito anos nos arredores da capital. Na exposição Chão de Flores, em cartaz no CCBB, as 56 fotos de Zuleika passam bem longe dos palácios de mármore, grandes janelas de vidro e concreto. Em vez de planejamento, o que se vê nelas é o improviso. O símbolo dessa arquitetura não são as curvas, mas as esquadrias de alumínio nas janelas e portas.

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(Estrutural, 2010)

É uma Brasília desconhecida, que não aparece no noticiário da TV. A Brasília dos candangos que foram para o Planalto Central atendendo ao convite de Juscelino Kubitschek de povoar o Centro-Oeste do País. As cores das fachadas entregam a origem nordestina de muitos dos moradores. Nada da assepsia do branco, tão presente nos prédios oficiais. Muito amarelo, vermelho, laranja, lilás, cor-de-rosa… Que doce é a arquitetura do povo: cada tijolo colocado ali é como um degrau que o migrante subiu.

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(Guariroba, 2010)

Como não dizer? Brasília é menos a capital e mais cidade de verdade nas fotos de Zuleika. Elas falam muito mais às emoções de quem vive no “quadradinho” do que os edifícios oficiais, desabitados, sem crianças correndo, sem velhos sentados na porta, sem roupas penduradas no varal, sem café sendo coado no bule. Os palácios são frios como o mármore que os recobre –ou como o coração de tantos políticos que circulam por ali. As casinhas e prédios das satélites têm uma beleza menos óbvia e transbordam vida.

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(Estrutural, 2010)

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(Ceilândia, 2012)

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(Itapoã, 2010)

O QUÊ: Exposição Chão de Flores, da fotógrafa Zuleika de Souza
ONDE: CCBB/Brasília – SCES trecho 2, lote 22
QUANDO: até 29/6, de quarta a segunda, das 9 às 21h

 

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