70 anos do cantor Sérgio Sampaio, 23 anos de sua morte: uma entrevista em Brasília em 1993

Publicado em 17 de maio de 2017
(O cantor e compositor Sérgio Sampaio nos anos 1970. Foto: arquivo pessoal)

(O cantor e compositor Sérgio Sampaio nos anos 1970. Foto: arquivo pessoal)

Eu, que sempre fui fã de Raul Seixas, encontrei seu amigo e parceiro Sérgio Sampaio em junho de 1993, quando atuava como repórter de Cultura no Jornal de Brasília e ele, após dez anos quieto, fazia uma miniturnê na capital federal e em Vitória, no seu Espírito Santo natal. Menos de um ano depois, ele faleceria, aos 47 anos, vítima de uma pancreatite.

Se estivesse vivo, Sérgio teria feito 70 anos em abril passado. Na segunda-feira, 15 de maio, completaram-se 23 anos de sua morte. Em Vitória, acontece uma exposição em sua homenagem, em cartaz até o próximo dia 25 de maio: Sérgio Sampaio 70, Eu Sou Aquele que Disse.

Digitei e adaptei a entrevista para vocês conhecerem um pouco deste grande artista da música brasileira, considerado “maldito” apenas porque não se deixou seduzir pela fama. Clique aqui para visitar o site oficial de Sérgio Sampaio.

***

Discreto retorno*

Sérgio Sampaio volta a botar o bloco na rua. Meio discretamente, é verdade. Longe dos holofotes há pelo menos dez anos (seu último show na cidade foi justamente em 1983), mas voltado para apresentações no Nordeste, o cantor e compositor capixaba deixou o sossego da casa em Patamares, orla de Salvador onde mora há quase três anos para uma miniturnê com shows em Vitória e Brasília. E diz que a popularidade foi um “equívoco” em sua vida.

“O sucesso foi da canção, não meu”, explica Sérgio Sampaio. O ano era 1972, e o cantor, após cinco anos no Rio, primeiro como locutor de rádio e depois como músico, estourou nas paradas com Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, classificado no Festival Internacional da Canção. “Eu não pretendia aquilo, não estava preparado para aquela loucura de segurança, avião, hotéis, shows consecutivos”, diz Sérgio. “Eu queria ser como o Caymmi, vir devagarzinho. Raul, sim, almejava a popularidade”, conta.

Foi Raul Seixas quem fez Sérgio Sampaio abraçar de vez a carreira musical. Sérgio era um anônimo qualquer (“anônimo até de mim mesmo”, fala) quando entrou na sala de Raul na CBS  o maluco beleza era produtor da gravadora  para acompanhar no violão um garoto que queria ser cantor. Raul disse que era preciso uma música forte para lançar um cantor novo. Sérgio cantou Coco Verde. Raul pediu outra. Só para Sérgio, num canto, falou: “volte amanhã”.

Do encontro resultou uma forte amizade e até um disco, Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, junto com o transformista Edy Star e Miriam Batucada, uma combinação esdrúxula que fez mais polêmica do que propriamente sucesso. (De todos os envolvidos no disco, só Edy Star está vivo; Miriam morreu com a mesma idade de Sérgio, um mês depois dele.) Chegou-se a comentar que Raul teria produzido o disco à revelia da gravadora e acabou sendo demitido. “Isso é invenção”, garante Sérgio Sampaio. É verdade que tudo que um ou outro aprontou a partir daí  ou levou fama era sempre alvo do comentário: “Vocês dois…” Mas o desligamento da CBS só aconteceu no ano seguinte, a convite da Phillips, para onde Raul foi como produtor de Sérgio.

Alguns ódios uniam a dupla: a raiva dos pais, por exemplo. “Eu tinha raiva do meu porque era violento e Raul do dele porque era pacífico”, conta  curiosamente, uma música composta pelo pai de Sérgio, Cala a Boca, Zebedeu, integra seu repertório. Com o roqueiro baiano, chegou a compor duas músicas, Quero Ir e Cowboy 73. Esta última, gravada por Raul muitos anos mais tarde, virou Cowboy Fora-da-Lei, sem crédito para a co-autoria. “Raul esqueceu”, perdoa Sérgio. Segundo ele, a primeira parte de Gita é de Plínio, irmão de Raul, e ele também esqueceu de dar crédito. “Ele falou: ‘Plininho, eu sabia que conhecia essa música de algum lugar'”, lembra.

Nos últimos anos de vida de Raul, Sérgio Sampaio só se comunicava com ele por telefone. “Estive na casa de Raul um ano antes de ele morrer e havia muita decrepitude pro meu gosto”, explica Sampaio. “Eu me interesso pela vida, não pela morte.” Até por isto, evita participar da idolatria post-mortem em torno do maluco beleza, e não canta músicas de Raul em seu repertório, restrito às composições próprias de maior sucesso, como Viajei de Trem, Meu Pobre Blues e Que Loucura, O Ciúme, de Caetano Veloso, Cabelos Brancos, de Herivelto Martins, e Como É Grande o Meu Amor Por Você, de Roberto Carlos.

“Roberto é um gênio”, elogia Sampaio, conterrâneo do Rei e do escritor Rubem Braga: também nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, mas jura que só canta Meu Pequeno Cachoeiro em reuniões muito íntimas. O cantor considera um “ranço provinciano” as críticas negativas ao trabalho de Roberto Carlos. “Precisou Caetano gravar Fera Ferida para as pessoas reconhecerem que a música era boa”, reclama. “Não se pode alijar o que Roberto fez só porque seus últimos discos são ruins.”

O incrível de tudo é que o compositor que pediu para “botar para gemer” se diz um homem de coração triste  e aí se encontra com o ídolo, o poeta Augusto dos Anjos. Pior ainda: Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua foi escrito num momento de absoluta tristeza! Quem conta é Sérgio Sampaio. “Eu me sentia só, num apartamento enorme e estava superabalado com o acidente no viaduto Paulo de Frontin, onde morreu um monte de gente”, lembra. “Na verdade, a música foi adaptada para o trio elétrico, mas é tristíssima. Uma vez até falei para Waly Salomão que não entendia como uma música tão triste podia tocar no Carnaval. Ele respondeu: ‘E quem disse que o Carnaval é alegre?'”

*Texto publicado originalmente no Jornal de Brasília em 17 de junho de 1993.

 

Bônus: um minidocumentário sobre Sérgio Sampaio dirigido por Nayara Tognere.

 

 

 

 

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Hector Babenco (1946-2016): “Sou mais o cinema brasileiro, com suas imperfeições, do que o argentino, com seu aburguesamento”

Publicado em 14 de julho de 2016
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(Hector Babenco com Meryl Streep no set de Ironweed em 1987)

Em homenagem ao grande cineasta argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco, falecido hoje aos 70 anos, republico a íntegra da entrevista que saiu menor, editada, na revista VIP em 2007, na época do lançamento de seu filme O Passado, com Gael García Bernal como protagonista. Eu tinha um trauma de haver falado com Babeco ao telefone certa vez e ele havia sido superantipático… Mas como para mim a primeira impressão NÃO É a que fica, quando o conheci pessoalmente fui de coração aberto e aconteceu o contrário: ele foi muito simpático e a conversa, no sofá de sua casa em São Paulo, absolutamente agradável.

Hector Babenco era um sobrevivente. Enfrentara um câncer linfático no início da década de 1990, do qual se salvara graças a um transplante de medula, doada por um irmão com quem pouco tinha contato, mas não gostava de falar da doença –só mencionou o assunto para mim após a entrevista. Em seu último filme, Meu Amigo Hindu (2015), aborda o câncer de forma autobiográfica. Internado para tratar de uma sinusite, Babenco teve uma parada cardíaca na noite de quarta-feira 13. Entre seus filmes mais famosos estão Lucio Flavio, O Passageiro da Agonia (1977), Pixote (1982), O Beijo da Mulher Aranha (de 1985, pelo qual foi indicado ao Oscar de diretor), Ironweed (com Meryl Strepp e Jack Nicholson, de 1987) e Carandiru (2003, indicado à Palma de Ouro no festival de Cannes).

Entre as surpresas da entrevista, o fato de Babenco entender perfeitamente as nuances do cinema brasileiro, destoando dos que endeusam o cinema argentino. Para ele, o endeusamento do cinema do seu país natal em detrimento do nosso é uma questão de classe. “O cinema brasileiro de fato tem dado mais espaço a uma dramaturgia alimentada pelos excluídos, pelas desigualdades sociais. Já as tragédias argentinas são dramas de classe média: a vovó que não morre e não deixa a casa que tem que ser dividida pelos filhos, o filho cujo pai está com câncer e não sabe o que fazer… Como o público brasileiro também é de classe média, acha que o cinema daqui teria que ser como o de lá. Sou mais o cinema brasileiro, com suas imperfeições, do que o argentino, com seu aburguesamento.”

Leia a entrevista. E reveja os filmes de Hector Babenco, todos excelentes.

***

Você acha as mulheres todas neuróticas, ou pelo menos as ex, como aparece no filme O Passado?
Eu disse outro dia uma mentira cavalar para uma platéia de mulheres jornalistas: que poderia ser o contrário, que o homem poderia ter se transformado num perseguidor da ex e de suas novas relações, atrapalhando a vida dela. Mas é menos plausível do que uma mulher fazer isso… Agora, todos somos neuróticos. Todos temos um sentimento de posse que se confunde muito com amor. Todos padecemos de não querer que alguém tasque aquilo que é ou foi nosso. E eu me incluo nisso, não me coloco como uma exceção nem como um caga-regras.

Já teve alguma ex te perseguindo ou perseguiu alguma ex?
Já persegui uma ex. Não de sair de casa e ficar esperando a hora que ela sai do apartamento, persegui dentro de mim. É natural você querer reconstruir um amor perdido. Se é uma relação que ainda tem um sabor, um cheiro, é natural ter saudade da outra pessoa. O quanto isso vai interferir na sua nova relação não se sabe. O amor é tão esquisito, menina…

E esse sentimento passou logo?
Não, ele fica. Assume novos disfarces, personificações, vira outra coisa, mas está lá. E para ele só Prozac.

Tem uma frase em seu filme Coração Iluminado (1996) que tem a ver com esse novo: os homens se apaixonam pelas mulheres loucas mas se casam com as outras. É verdade?
Sempre procurei mulheres loucas. Sempre achei que a loucura era o atributo máximo da fêmea, da feminilidade, da sexualidade, da turbulência, do tesão. Nunca vi a mulher como uma figura frágil, doméstica, uma pessoa encantadora porém tênue, misteriosa e delicada. Meu primeiro amor foi essa louca de Coração… Eu tinha 16 anos, ela 20 e poucos e era esquizofrênica. Foi com quem tive minha primeira experiência de homem-mulher e aquilo fica como um padrão. Quase um DNA na tua pele.

Você acha as loucas mais interessantes?
A loucura é altamente poética. Agora, conviver com ela pode ser uma tragédia.

Por outro lado, acha os homens fracos? Porque o protagonista (Gael) é um bolha!
É como se você dissesse a mim que sou um bolha! Só contei a história porque me identifiquei demais com ele… A figura masculina estruturada, que sabe o que quer, tem bíceps, toma Gatorade e trata a mulher como uma motocicleta, não sou esse homem. Não sei tratar uma mulher desse jeito. Não saberia, nem que ela me peça. Não me excita, me dá medo. Tenho vergonha. Então pra mim o Gael percorre um caminho em que é passivamente usado pelas mulheres, mas também as usa.

Há uma melancolia bem pouco brasileira em O Passado. É seu filme mais argentino?
Não. Acho Coração Iluminado mais. É um filme que pode acontecer com qualquer pessoa que tenha uma masculinidade delicada e não exacerbada, de academia. As situações que acontecem o desconstroem, de alguma forma o fragilizam, porque ele é vulnerável, delicado. Mas não acho que devamos rotular o filme como melancólico, triste. Detesto adjetivos. Os adjetivos são a forma mais fácil e mais burra de não saber o que dizer e dar uma opinião.

Você escolheu filmar em Buenos Aires por alguma razão?
A história se passa lá e o autor (Alan Pauls) é argentino, mas eu ia filmá-la em São Paulo. E você iria fazer a mesma pergunta: ah, essa história só podia se passar em São Paulo! Claro, seria muito difícil em Salvador, no Piauí, porque a etnia, a temperatura, os códigos das relações são muito diversos. Mas em São Paulo tranqüilamente. Só não fiz porque o Rodrigo Santoro, que ia fazer o papel, tinha um compromisso com esse seriado nos Estados Unidos (Lost). Me ocorreu que o Gael poderia ser interessante e não podia fazer o filme com ele no Brasil, em português. Seria um pastiche, um engodo.

Você sempre manteve essa relação com a literatura argentina: Manuel Puig (O Beijo da Mulher Aranha), Ricardo Piglia (Coração…) e agora Pauls…
É que minha formação é de cinema europeu com leitura. Fui ver TV muito tarde, com 14 anos, e nessa altura já estava fascinado pelo cinema e pela literatura. O vídeo-game e a computação chegaram mais tarde ainda e sempre agi com uma certa preguiça, um certo desdém, não me pega. Aos poucos fui me rendendo. Em nível de comunicação, de informação, a internet é rápida, importante. Mas em nível de conteúdo é zero. Não há nenhum conteúdo que me interesse sendo transmitido por via digital.

E pela televisão?
Vejo muito pouco, tem meses que não vejo. Não gosto de ver filmes em vídeo… Acho que ver muito filme deseduca.

Não vai ao cinema?
De vez em quando. Vou ver os nacionais, para acompanhar o que meus colegas fazem. E tenho tido surpresas fantásticas. Pra falar a verdade, hoje tô mais interessado pelo cinema brasileiro do que pelo norte-americano.

Agora se começou a dizer, cada vez que sai um bom filme brasileiro: “Até parece argentino”… Eles filmam melhor?
Quem vai ao cinema no Brasil são as pessoas que podem pagar 16, 20 reais, são de classe média. E o cinema brasileiro de fato tem dado mais espaço a uma dramaturgia alimentada pelos excluídos, pelas desigualdades sociais, por essa mentira em que o país se transformou, essa lepra, como diz o Jabor. Já as tragédias argentinas são dramas de classe média: a vovó que não morre e não deixa a casa que tem que ser dividida pelos filhos, o filho cujo pai está com câncer e não sabe o que fazer… Como o público brasileiro também é de classe média, acha que o cinema daqui teria que ser como o de lá. Sou mais o cinema brasileiro, com suas imperfeições, do que o argentino com seu aburguesamento.

Às vezes dá a impressão que eles amarram as histórias melhor.
É verdade, eles têm uma carpintaria, um ofício maior, porque são mais organizados. Herdaram um modelo narrativo e comportamental muito inglês ou muito italiano do norte, onde o rigor, a disciplina, a ordem, fazem parte do planejamento. O brasileiro não teve essa formação cultural e seu produto final padece de imperfeições porque nós o estamos comparando com modelos já arquetípicos que temos dentro de nós sobre o que é bom e o que é menos bom. Sei lá, às vezes acho mais beleza no que é feio do que naquilo que é óbvio. Mas sou um louquinho…

Uma vez o Quino, criador da Mafalda, me disse que os argentinos, como os portugueses, têm uma tristeza que vêm do tango e do fado, e que nós, brasileiros, somos naturalmente alegres. Você concorda?
Claro, somos África! É só você ver qualquer tribo africana: em seus rituais, a expressão corporal, a alegria, a joie de vivre, a sensualidade, ocupam um lugar primordial. Os argentinos acham a alegria brasileira vil, ignóbil, moeda fraca, coisa de negritos, de macacos… E nós, através dos burgueses que gostam dos filmes argentinos, admiramos como são bem vestidos os atores argentinos, como os penteados são bons, como falam corretamente o que têm de dizer, como sofrem higienicamente… Sou muito mais a bagunça brasileira do que o Kleenex argentino.

Bom, a felicidade é muito malvista intelectualmente, de maneira geral.
Quando eu falava de Brasil, meus amigos argentinos mais intelectuais achavam que a alegria, o prazer, a irresponsabilidade, a espontaneidade, eram uma coisa inferior. Superior era quem sofria mais. Quem sofria mais era mais verdadeiro, mais autêntico, levava as coisas mais a sério, era uma pessoa superior. Todos nós queríamos sofrer muito porque isso nos fazia pessoas melhores. Graças a Deus vim pro Brasil e peguei minha primeira gonorréia com uma mulata, aos 17 anos… Uma mulata linda que encontrei na rua Bela Cintra. Sempre digo: a primeira gonorréia a gente nunca esquece!

Hoje até se diz que as pessoas estão com saudades da gonorréia, porque tem tantas doenças piores…
Pois é, a gonorréia é uma piada, você comprava um antibiótico, um tetrex da vida e já ficava bom.

Por conta dessa alegria brasileira, você acha que a tristeza no cinema ficou restrita a quando se mostram problemas sociais e não nas relações humanas?
Há uma carência no Brasil de um cinema de relações de classe média, mas acho que isso não existe porque esse espaço é ocupado pela televisão. Pra que vou fazer filmes pra competir com a TV? Se você faz um filme sobre os dramas de classe média, o cara tem isso de graça na televisão! Me perguntam: por que você não trabalha com o José Wilker, com o Antonio Fagundes? Porque a assistência tem eles de graça na TV. Ninguém sai de casa para ver um filme do Fagundes. Ele está, há 15 anos, sete meses por ano na TV, de graça, todos os dias! Meu público tem que sair de casa, pegar o carro, passar pela linha vermelha, enfrentar tiroteio, cruzar com um maluco que passa bêbado, parar num shopping, pagar o estacionamento… Vai gastar 60 reais. Esse público não vai sair de casa pra ver filme com nenhum ator importante brasileiro. Ponto.

Você fez TV?
Fiz para a Globo o seriado Carandiru – Outras Histórias, que gosto muito, tanto quanto do filme ou mais. E estou estudando uma nova série para eles, como criador e produtor. Talvez dirija algum episódio.

Você já está há mais de 30 anos fazendo filmes. Está mais fácil hoje?
Está pior. Muito mais difícil, a captação é difícil e o mercado internacional, que é de onde a gente podia tirar, inexiste. Não querem filmes em espanhol, por que iam querer em português? E o mercado brasileiro não paga o filme. Sou um profissional que vive muito bem porque trabalhei no mercado internacional, fiz dois grandes filmes lá fora (Ironweed e Brincando nos Campos do Senhor) e fui pago,é por isso. Se só tivesse vivido dos meus filmes brasileiros estaria, como morei sempre, num apartamento de três quartos e sala, não poderia pretender nada mais do que isso.

A impressão que dá é que está melhor, com tanta gente filmando…
Muitos pequenos dinheiros estão sendo dados pelas entidades que patrocinam, mas há muitos filmes que não se conseguem terminar.

O caminho das co-produções é uma saída?
Foi a que encontrei. Se não tivesse esses sócios argentinos, que não foi pelo viés “ah, ta difícil”, mas porque o filme tinha que ser feito aqui e lá, teria demorado mais um ou dois anos para captar. Porque a rigor se o filme custou dois palitos, um palito é argentino e outro brasileiro. Então teria que ter batalhado o dobro. Acho um pouco ingrato ter dedicado 35 anos de vida profissional ao Brasil e na hora de ir a um concurso para tentar dar um tapa num dinheiro, o projeto ser considerado absolutamente igual ao de um rapaz de 22 anos, talentosíssimo eventualmente, mas que acabou de sair de uma faculdade. Cair na mesma vala comum, não me parece muito legal.

Agora que você terminou esse filme já fica pensando no próximo?
Até não estrear, não consigo. Tenho idéias, imagens soltas, mas espero desovar um filme antes de pensar em outro, senão acho traição. Não dá pra ter duas mulheres e amar as duas com o mesmo carinho. Quer dizer: que dá, dá, mas é uma porcaria.

Filmar no exterior ainda te anima?
Sim, se for um bom projeto, nunca medi onde filmar. Vou ser argentino-brasileiro ou brasileiro-argentino até a morte, o que não me interessa é morar em outro país. Mas poderia filmar em qualquer lugar. Tem um projeto que estou estudando que adoraria que saísse, na Irlanda.

Pensei mais na carreira americana. Te interessa ainda?
Não, já tive e não me fisgaram. Não tenho nenhum interesse em estar disputando roteiro com mais 44 diretores e com uma cadeia de produtores me dizendo o que eles acham, quando são pessoas que saíram de Business School… No way, no fucking way.

E olha que você foi bem tratado…
Eu? Eu fui um príncipe. Fiz dois filmes totalmente autorais, fora do sistema, não eram filmes de estúdio. O Jack Nicholson (em Ironweed) todo dia me pegava pela mão e dizia: “Any problem? Let me know”. Então eu sabia que podia fazer o que quisesse, porque ele a qualquer momento iria interferir. Depois fiz Brincando nos Campos… com Saul Zaentz, o produtor de Um Estranho no Ninho e Amadeus, um monstro. Fui uma pessoa muito feliz e fui procurado, não fui searching for: Ei, me dá um dinheiro aí. Foram projetos que quis fazer porque fui convidado. Esse percurso que alguns diretores brasileiros estão loucos pra fazer eu já fiz. E tem que fazer, jamais diria não o faça. Jamais diria ao Fernando Meirelles, um menino talentosíssimo, que não fizesse um filme como O Jardineiro Fiel. Faça, mas faça do jeito que você quer, não do jeito que eles querem.

É um bom filme, não?
Excelente, lógico. Ele foi craque, não se vendeu. É melhor fazer o Jardineiro Fiel do que ficar no Brasil e adaptar o livro do José Sarney, que é uma vergonha.

Mas não é difícil não se vender?
Pra mim, não. Decidi não me vender muito cedo, decidi ser anarquista, não ser nunca patrão. Sempre fui um franco-atirador, um espírito livre. Padeço da solidão, sou um solitário. Não pertenço a nenhuma associação, nenhum grupo. Sou uma pessoa estupidamente politizada para pertencer a algum grupo político. Os grupos são sempre de conveniência, sejam de classe, políticos, setoriais. São uma forma de encobrir a falta de talento.

O que tem de melhor na Argentina e no Brasil?
Prefiro dizer o que tem de pior: no Brasil é a irresponsabilidade, a falta de auto-estima e a pouca indignação em relação aos abusos, a falta de um pensamento sobre a nação. E o pior que os argentinos têm é essa crença absurda e absoluta de que podem pensar o mundo e que o mundo tem que se render ao pensamento argentino. É uma arrogância muito nefasta.

À medida que o tempo vai passando você vai se sentindo mais brasileiro ou argentino?
Essa é uma equação que jamais vai ter uma resposta, mas se eu tivesse que optar onde morar, minha nação é o Brasil. Você não acredita, né?

Acredito, acredito…
Ninguém acredita. Sempre vêm com a história: se jogam Brasil e Argentina, por quem você torce? (Era minha próxima pergunta.) Torço pelo melhor. Curto futebol, mas não sou fanático. Na verdade, não me sinto nem argentino nem brasileiro, acho que eu sou eu. Pode parecer pedante, babaca, humildemente peço desculpas. Mas pego do lugar, da pessoa, do pensamento, aquilo que me atrai mais e que eu considero mais genuíno, sem me preocupar que camiseta veste ou de onde vem.

 

 

 

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Janine, novo ministro da Educação, aconselha Dilma a se comunicar melhor com o povo

Publicado em 28 de março de 2015
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(Renato Janine Ribeiro em sua casa em São Paulo. Foto: CartaCapital)

Em novembro do ano passado, estive na casa do professor Renato Janine Ribeiro em São Paulo para conversar sobre política. Enquanto tomávamos um café em seu simpático sobrado na Aclimação, Janine me falou de suas preocupações com o segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, recém-reeleita. A entrevista foi publicada na revista CartaCapital. Com a sua escolha para ministro da Educação, resolvi divulgar aqui uma versão estendida daquele bate-papo.

As críticas que o filósofo fazia ao governo e também à oposição são muito pertinentes. Alguém assim me representa no ministério e espero que a presidenta o ouça –se o chamou, parece claro que está disposta a ouvir. Espero que logo possamos a tomar um café novamente para que ele me conte de suas ideias à frente da pasta.

***

“Oposição tem de atuar com ideias, sem ódio”

O filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política na USP (Universidade de São Paulo), declarou voto em Dilma Rousseff por achar que o PT conduz melhor as políticas sociais. Mas está preocupado. Acha que a presidenta terá que mudar seu modo de governar se quiser fazer um segundo mandato melhor que o primeiro: ser menos centralizadora, delegar mais poder e não inibir os ministros e colaboradores. “Se dentro dela houver uma disposição maior ao diálogo, será muito bom”, aconselha Janine. Ele falou a CartaCapital em sua casa, em São Paulo.

CartaCapital – A eleição de Dilma surpreendeu o senhor?

Renato Janine RibeiroEra imprevisível o que ia acontecer porque nunca tivemos uma eleição tão parecida com um thriller, um romance policial. Inclusive a morte de Eduardo Campos é destas histórias que se você colocasse num romance ia parecer apelação. Em um ano e meio, uma presidenta passa de 60% de aprovação, uma reeleição tranquilíssima, garantida, para um desgaste, e depois quando surgiu Marina, a chance forte de perder… Desde a morte de Eduardo, quem fosse apostar, ia apostar pelo menos 50% na chance de ela perder. Foi um trabalho muito grande para conseguir ganhar.

CC – De onde vem esse desgaste?

RJR Basicamente de dois pontos: de um lado, da campanha de desconstrução dela e do PT que tem pelo menos três anos. O primeiro ano do governo dela teve uma espécie de lua-de-mel. A mídia e a oposição estavam festejando o fato de que ela demitia os ministros suspeitos ou acusados e então isso trouxe, sobretudo com o contraste de uma certa tolerância do governo Lula, uam popularidade da Dilma nos setores reticentes ao PT. Essa popularidade não necessariamente iria se traduzir em votos. Duvido que essas pessoas fossem votar nela. Mas a partir do segundo ano de mandato foi um ataque ininterrupto, inclusive com um descolamento entre o que era dito e o que era entendido. Nunca li nenhum artigo, ninguém que acusasse Dilma de algum ato de corrupção. Os atos de corrupção sempre foram colocados na conta de outras pessoas, não há uma única acusação a ela. Mas na opinião pública de oposição colou a ideia de que ela e o partido eram corruptos. Então houve de um lado esse trabalho de desconstrução que culmina com a edição da Veja a poucas horas do pleito, com farta distribuição, propaganda no rádio e TV, recusa de publicar direito de resposta concedido pelo TSE… E, do outro lado, as falhas do próprio governo. Talvez a principal seja a dificuldade da presidenta de lidar com a política, a dificuldade dela de negociar. Um dos significados da política é que você não dá ordens, você ouve, escuta e tenta construir a mais ampla base possível. E ela não dialogou especificamente com três setores: primeiro, os empresários. Muitos se queixaram por um longo tempo não tanto do PT, não tinha uma queixa ideológica, até porque muitos gostavam de Lula, mas havia uma queixa de falta de comunicação, de que Dilma não os recebia, não dava sinais claros para onde ia a economia, e eles não sabiam como fazer suas escolhas. Apesar de os empresários terem um poder de fogo porque têm o capital, numa sociedade capitalista não há como não ouvi-los. O segundo ponto foi o pouco diálogo com os políticos, mesmo. Eles também foram pouco recebidos, pouco levados em conta. Mas o mais grave, a meu ver, do ponto de vista de um partido como o PT, é a falta de comunicação com o povo. Isso não tem nada a ver com técnica de comunicação, com o marqueteiro. E aí está outro erro: ter pensado que isso era uma coisa de marketing, então tinha que contratar o João Santana e aí resolve isso. Não. A questão de comunicação com o povo, para o PSDB, pode ser uma questão de técnica. Para o PT é uma questão de essência, de cerne. Se ele não se comunica com o povo, como é dos trabalhadores? E, no entanto, ela não se comunicou com eles. Ela parece gostar da política mais do lado poder do que do lado diálogo, discussão, escuta e tentativa de dar uma orientação. E isso faz um contraste muito grande com os dois últimos presidentes. Fernando Henrique não se metia na gestão, não devia entender de gestão, mas conseguiu vender o peixe da estabilização monetária e mesmo o das privatizações, um peixe indigesto, e conseguiu convencer que isso era bom. Teve uma excelente comunicação com a classe média. E Lula, que é um comunicador ainda melhor, conseguiu se comunicar com pessoas mais pobres, com muito mais gente que o Fernando Henrique. O problema da Dilma é que não fez nenhuma das duas coisas.

CC – Dilma tem condições de rever essa postura e fazer um segundo mandato melhor que o primeiro, como aconteceu com Lula?

RJRPrecisar, ela precisa. Tinha que fazer ontem. Se ela vai querer e vai conseguir é outra história. Embora eu nunca a tenha visto pessoalmente, o que a gente ouve é dessa dificuldade de diálogo, essa tendência mais a dar ordens do que a escutar. É muito difícil mudar as pessoas. Tanto é que o segredo do Duda Mendonça para tornar o Lula popular não foi inventar um Lula novo, foi tirar a casca grossa do sujeito reclamão, cara fechada, e mostrar o lado alegre, feliz, bem-humorado. No caso da Dilma, será que ela consegue fazer isso sem ser forçado? O melhor momento de fala dela até hoje foi na discussão com o senador Agripino, quando ele a questionou de ter mentido sobre a tortura. Parece que quando ela fala de coração, sem seguir nenhum script, vai melhor. E nos debates ela tem script, foi treinada, recebeu um media training e isso não funciona muito bem com ela. Se dentro dela houver uma disposição maior ao diálogo e ela conseguir utilizar isso, será muito bom. Sem isso vai ser muito difícil o segundo mandato. Ela precisaria fazer concessões à direita e à esquerda. À esquerda tem toda uma agenda, pelo menos de costumes, ao qual ela não deu muita importância. Tem uma área, no que diz respeito aos Direitos Humanos e ao Meio Ambiente, que é muito deficiente. Cedeu aos setores mais conservadores e na hora do voto foi o pessoal dos Direitos Humanos que foi apoiá-la, enquanto os homófobos haviam ido em sua maioria para Aécio. Então vai ter que abrir por esse lado. Na agenda econômica, tem que fazer sinais para a direita, ou para o capital. O capital não necessariamente vai assumir as bandeiras da direita, mas o capital é por natureza conservador. Como vai conseguir negociar com todas essas pessoas se ela primou, até agora, por não negociar? 

CC – A presidenta centraliza demais?

RJR Tudo que a gente lê é que ela é muito centralizadora, delega muito pouco, inibe os ministros, os colaboradores, desautoriza de público… Isso inibe a criatividade. Um caso que sempre lembro: Haddad, quando era ministro da Educação de Lula, foi acordado de madrugada com a notícia de que haviam roubado as provas do Enem. E teve que tomar uma decisão super-rápido. Imagina ter que ligar para o Lula às 3 da manhã para pedir autorização para cancelar o Enem? Ou se cancelasse e duas horas depois o presidente mandasse fazer? Esse tipo de risco um ministro não pode correr. Outra coisa: você tem um ministério de pouco brilho. Um ministro que foi brilhante no governo Lula, Celso Amorim, nas Relações Exteriores, ninguém acompanha o que ele faz na Defesa. Gilberto Carvalho, Marco Aurélio Garcia… Estão apagados agora. Mesmo um ministro de maior projeção, como o Mercadante, você não ouve sobre iniciativas dele.

CC – A alegada divisão no Brasil sempre existiu, foi incentivada pelo PT ou pela mídia?

RJRExiste um clima alimentado por alguns veículos, sobretudo uma revista, que é um clima de ódio. Mas acho que pelo menos 50% das pessoas não dão muita importância à política. Dos 30% a 40% que dão, uma parte está muito antagônica à outra. Mas vejo essa revolta, essa intolerância, mais no eleitorado tucano. Isso não quer dizer que os 48% que votaram em Aécio são intolerantes, um terço, talvez. E um número menor ainda fala em impeachment. Mas ficou uma divisão que não é geográfica, é uma divisão entre os que se sentem beneficiados pelas políticas sociais do governo petista e os que ou se sentem prejudicados ou têm preconceito contra as pessoas que foram subindo na vida. Havia uma expressão horrorosa nos anos 1960 quando houve os conflitos raciais nos EUA: “no Brasil não temos isso porque os negros conhecem seu lugar”. A ideia de que o pobre sabe qual é “o lugar do pobre” sempre foi forte no Brasil.

CC – E como fica a oposição?

RJRA grande questão é se os tucanos vão conseguir fazer uma oposição para além do ódio. O que estou vendo é que o PSDB falhou em ser um grande partido liberal, dos empreendedores, e acabou se tornando o partido do grande capital. O grande problema do PSDB é não ter uma proposta, então acaba precisando dos votos do ódio. Isso justifica a proximidade com os blogueiros do ódio. Certamente o PSDB não os chamaria para nenhum cargo importante, mas iriam ter um espaço na máquina de propaganda. O problema disso é que o PSDB acaba tendo uma parte do eleitorado que é pior do que sua liderança, o que me parece um gigantesco erro político.

 

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