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Chaves, o Chaplin cucaracha

Assisti Chaves pela primeira vez na adolescência, com meus irmãos mais novos (e minha mãe também sempre foi fã). Voltei a assisti-lo quando tive meu filho mais velho, aos 20 e poucos anos. E, mais uma vez, quando nasceu o caçula, seis anos atrás. Que belas desculpas tive para ver o Chaves e o Chapolin… […]

Cynara Menezes
30 de novembro de 2014, 16h10

chavo

Assisti Chaves pela primeira vez na adolescência, com meus irmãos mais novos (e minha mãe também sempre foi fã). Voltei a assisti-lo quando tive meu filho mais velho, aos 20 e poucos anos. E, mais uma vez, quando nasceu o caçula, seis anos atrás. Que belas desculpas tive para ver o Chaves e o Chapolin… Até hoje me faz dar boas risadas diante da TV, mesmo sozinha.

Os personagens criados por Roberto Bolaños (1929-2014) são, ao mesmo tempo, inteligentes e hilários. Engana-se quem vê o humor de Chaves como raso. Ao contrário, o texto é muito interessante e cheio de picardia. Quem se dedicasse a analisar sociologicamente a turma do Chaves e a compará-lo à sociedade capitalista ia encontrar um prato cheio: o miserável (Chaves), a burguesa (Dona Florinda/Florinda Meza), o explorador (seu Barriga/Edgar Vivar), o desempregado (seu Madruga/Ramon Valdés)… O romance do professor Girafales (Rubén Aguirre) com dona Florinda ironiza as melodramáticas novelas mexicanas.

Como o vagabundo de Chaplin, Chaves é um excluído. Seu nome original, Chavo del Ocho, quer dizer que ele é o menino que mora no número 8 da vila, ou seja, num barril assim como dona Clotilde (Angelines Fernandes) é a “bruxa do 71”. Chaves encanta seus fãs pela imensa ternura misturada com a graça de fazer as coisas errado “sem querer querendo”, exatamente como o vagabundo de Chaplin fazia. É adorável e engraçado, mas tem uma tristeza implícita no olhar, como se fosse a versão criança e “cucaracha” do vagabundo chapliniano. Até chapéu usa.

chavo2

Seu outro personagem famoso, o Chapolin Colorado, é um herói perdedor. O anti-herói americano. Já imaginaram um super-homem fracote? Um Batman desastrado? Um Homem-Aranha falível? Chapolin é assim. (Seria Chapolin um trocadilho/homenagem a Chaplin? Só muda uma letra…)

Em um dos meus episódios favoritos, Chapolin aparece na vila onde vive a turma do Chaves e os dois personagens interpretados por Bolaños contracenam. O final é emocionante: Chaves pega uma “pílula de polegarina” de Chapolin que o faz diminuir de tamanho e, com biscoitos gigantes na mão, diz que é a maior refeição que já teve na vida… Lágrimas e risos.

Outro episódio inesquecível é uma das reconstituições históricas hilárias feitas por Bolaños e seus atores na parte teatral dos episódios. É aquela cena bíblica do rei Salomão com as duas mães e o bebê que disputam. Bolaños é o rei Salomão e Chiquinha (Maria Antonieta de las Nieves) faz a rainha de Sabá. Ao dizer que vai cortar a criança em duas e dar cada uma das metades para uma das mulheres, o rei/Chaves ouve da rainha/Chiquinha: “Comunismo!!!!”

Em minhas viagens pela América Latina, por onde andei conheci fãs de Chaves e sua turma, sempre relembrando o bordão de Quico (Carlos Villagrán): “Chusma! Chusma! Chusma!” (gentalha! gentalha! gentalha!). Todos mostravam simpatia e carinho pelo personagem, que só chegou ao Brasil em 1984, mas que tinha sido criado no México em 1971 e circulava pelos demais países da América Latina desde então. Ou seja, quem tem entre 0 e 55 anos de idade no continente vê ou viu o Chaves. Mas o personagem tem fãs de todas as idades, como minha mãe ou o poeta Manoel de Barros. Basta assistir.

Situo Bolaños/Chaves entre os grandes da comédia universal, ao lado não só de Chaplin como do conterrâneo Cantinflas, de Buster Keaton ou de Jerry Lewis. Todos eles carregam em si esse clown ingênuo, desajeitado e hilariante que Roberto Bolaños imortalizou no mexicano Chaves. Adeus, Bolaños. Sua criação é um clássico e ainda fará gargalhar gerações.


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(22) comentários Escrever comentário

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Maia Kaefman em 30/11/2014 - 16h30 comentou:

Minha singela homenagem:
https://estudiotm.wordpress.com/2014/11/30/colora

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@diegomascate em 30/11/2014 - 16h32 comentou:

Cynara, Parabéns pelo post!

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Carlos Lenin em 30/11/2014 - 16h44 comentou:

…devo ser um dos poucos q n conseguia se aperceber do Chaves,ou q ele representava…Nunca me agradou.Desculpa aí…e continua n me agradando…

Responder

    Victor em 30/11/2014 - 18h27 comentou:

    Carlos, concordo contigo.

    Ricardo Gonçalves em 02/12/2014 - 00h15 comentou:

    Tão perdoados!!!!

    Marise em 19/12/2014 - 11h03 comentou:

    Carlos,

    Concordo com você. Vi muita gente com pena do falecimento dele. Pelo lado humano, o falecimento de alguém é sempre triste. Mas, como artista, nunca me agradou tanto. E não 'virou santo' depois de falecido. Que ele descanse em paz e que a família encontre conforto e paz. E, os fãs que me perdoem, mas para mim "Chaves" está tão distante de "Chaplin" quantto o Brasil da Austrália!

Leonardo em 30/11/2014 - 18h29 comentou:

Chapulin é como são conhecido os gafanhotos no México. Por isso das anteninhas.

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Álavro em 30/11/2014 - 18h54 comentou:

Na verdade, o nome chapolin é originário do nome de uma espécie de gafanhoto, muito apreciado como iguaria, pelos mexicanos.

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Fabio em 30/11/2014 - 19h00 comentou:

Leio com frequência esse blog, mas Chaves sempre foi um humor muito raso, não consigo enxergar um subtexto sobre o sistema capitalista que tanto apregoam agora nesse momento de comoção. Acredito que sejamos tomados apenas pelas memórias da infância, o SBT reprisou exaustivamente Chaves e diante das poucas opções que existia na TV, o programa foi ganhando forma, de modo a sermos obrigados a ver algo mais profundo. Analisando friamente o programa era muito ruim. Prefiro "Los Olvidados" de Luis Buñuel, esse sim tem uma reflexão e crítica sobre o sistema capitalista.

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Obed Batista em 30/11/2014 - 21h40 comentou:

Bela homenagem, mas dá pra perceber que vcs estão tentando capturar a imagem do genio Chesperito para forjar uma identidade pan americana latina que serviria bem aos anseios bolivarianos. Escrevo para os administradores, pois percebo que minha mensagem não será postada.

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    Flavio Lima em 02/12/2014 - 18h01 comentou:

    Hahahahahahahaha… falou o Kiko?

Conrado Mello em 30/11/2014 - 21h51 comentou:

Genial, o chavez mora em uma vila miserável. que é habitado por pessoas gananciosas, invejosas, egoístas, preguiçosas, exibidas,e que, por falta de opção, dividem o mesmo pátio. Nenhum deles queria estar ali. Todos sonham com um lugar melhor. A realidade inegável da natureza desse mundo onde o maior oprime o menor acompanha a obra o tempo todo.
Seu Madruga o maior comunista de todos os tempos!!

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Danielle em 30/11/2014 - 22h55 comentou:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=784710014

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Paulo Cesar da Costa em 01/12/2014 - 02h03 comentou:

uma pesquisa sobre o assunto. Parece interessante: http://mestrado.fic.ufg.br/up/76/o/Disserta____o_

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Gabriel Andrade em 01/12/2014 - 02h06 comentou:

Não vejo o Sr. Barriga como explorador, em um episódio em que todos vão á Acapulco, o Seu Barriga sensibilizou-se ao ver Chaves sozinho e o levou para conhecer as praias. Mostra que não é só o fato do cara ser rico que ele vai ser malvado, é um questão de bom-senso…

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    Lah em 01/12/2014 - 16h36 comentou:

    Gabriel, talvez a autora nao pensou muito bem ao utilizar a palavra "explorador", mas acredito q ela quis dizer q o seu barriga nao trabalhava e vivia apenas da renda de seus imóveis alugados. Vale ressaltar que o seu madruga trabalhava em diversos empregos temporários e era considerado vagabundo, enquanto o sr barriga nao trabalhava e era visto com bons olhos.

José Carlos em 01/12/2014 - 13h23 comentou:

Normalmente gosto muito das postagens aqui feitas, acho a grande maioria muito interesantes, porém acho que há um grande equivoco na "motivação" essa vez. Não sei se a tradução brasileira é fiel ao conteúdo original do chaves (sou peruano e minha lingua materna é o espanhol) más o fato de trocar um nome impropio (Chavo do original) por um próprio (Chaves em portugues) já começa por distorcer um pouco as coisas. Em fim, não desmereço as increíveis atitudes do Chespirito como comediante, mas esse aqui não é um espaço de critica de salão, esse não é supostamente um espaço político?. Devem saber então, que embora o Gomez Bolaños fosse o criador do Chaves as personagens tinham muita liberdade para ser realizados, A bruxa e o madruga foram dentro do elenco os unico que tinham uma atitude política progresista (A bruxa ainda, foi uma guerrilheira contra Franco na Espanha). Mas basicamente todos os outros, e mais o Gomez Bolaños, foram e são direitistas. Não há nunca nem sequer uma menção aos problemas sociais de fundo que tinha o mexico dos 70s (problemas de terra, abuso contra indígenas, violencia). Isto ficou bem mais em evidencia quando o Madruga não aparecia mais (seja por estar fora do projeto ou após sua morte). Por ultimo, todo mundo sabe que o Gomez Bolaños nunca duvidou em ir aos convites de lideres direitistas e até apoia-los. Ficou feliz nas visitas às ditaduras de Pinochet e Videla (dua vezes na argentina) e fez campanha pero Vicente Fox no México. Com tudo um grande comediante, me crie com suas produções, mas grande mérito não foi só dele, e sejamos sinceros, o cara foi e morreu sendo um direitista, não lhe atribuíamos atitudes que não teve.

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Ricardo Gonçalves em 02/12/2014 - 00h10 comentou:

Cynara, a pílula não era de "nanicolina"?
Ótimo texto!!!
Chaves eterno!!!!!

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Deusimar Filho em 02/12/2014 - 13h54 comentou:

Ah não, luta de classes até no Chaves, para né.

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bruna em 02/12/2014 - 21h28 comentou:

o chaves era tao querido no brasil enteiro nos amamos o achapolin tmb bjs nos teamamos chaves uuuruuu

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Tutameia em 03/12/2014 - 12h04 comentou:

é..parece que está mesmo difícil engrenar uma pauta politica "socialista" já que os socialistas migraram todos da sessão de politica pra de policia…

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Lucas em 06/12/2014 - 07h14 comentou:

o zé rodrix tb era fã de chaves

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