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Macri diz que um dia todos os argentinos terão um “crush” pela chefa do FMI

Presidente argentino bajula Christine Lagarde em Nova York enquanto o país afunda na crise econômica e no meio de uma greve geral

Christine e seu crush. Foto: Casa Rosada
Martín Fernández Lorenzo
28 de setembro de 2018, 20h20

“Espero que todo o país acabe se apaixonando por Christine Lagarde”, disse o presidente da Argentina, Mauricio Macri, ao receber o Prêmio Cidadão Global 2018 em Nova York por “sua incansável dedicação ao seu país”. Ao declamar a frase bajulatória, Macri sorria no pódio, no mesmo momento em que os argentinos entravam em uma greve nacional de 24 horas contra o ajuste e a submissão ao FMI, dirigido pela charmosa Lagarde.

Me lembrou Juan Perón nos anos 1940, quando o embaixador norte-americano Spruille Braden tentou seduzi-lo com propostas milionárias e lhe garantiu que, se colaborasse, seria “muito bem visto em seu país”. O general respondeu: “Veja, senhor embaixador, eu não estou interessado em ser muito bem considerado em seu país ao custo de ser um filho da puta no meu”. Macri se esmera em seguir ao pé da letra o princípio oposto.

 

Quando concluiu, aplaudido pelos norte-americanos e os demais, deu rédea solta à sua alegria efusiva e puxou para dançar a vice-diretora executiva do Atlantic Council, que lhe outorgou o prêmio. Bizarro.

Da televisão assistimos estupefatos seu comportamento. Será que não sabia que seu país está quebrado e em greve naquele momento?

Mas suas travessuras em Nova York não terminaram aí. Em seu discurso na ONU ele se referiu à soberania sobre “As Ilhas Malvinas, as Ilhas Geórgia do Sul e as Ilhas SANGUCHES”. Sim, em vez de Ilhas Sandwich, ele disse Sanguches (como se pronuncia, mal, a palavra com sotaque espanhol). Posso assegurar que até mesmo o macrista mais fanático fez um face palm.

À parte a tragicomédia que produz ao se expressar, denunciou a falta de direitos humanos na Venezuela, ainda que seja o mesmo que, em fevereiro deste ano, recebeu como herói um policial processado por homicídio qualificado por matar um ladrão pelas costas, o que gerou uma onda de casos parecidos no país, como o de Facundo Ferreira, de 12 anos de idade, em Tucumán, também executado pelas costas pela polícia. Ou Ismael Rodríguez, de 13 anos, morto no Chaco durante um roubo.

As icônicas avós da Plaza de Mayo também realizaram uma coletiva de imprensa no final de agosto, em defesa da democracia e do Estado de Direito. Essas maravilhosas mulheres, que foram nomeadas para o Prêmio Nobel da Paz de 2018, nunca tiveram um único reconhecimento ou menção pelo presidente.

Contrariando o otimismo de Macri, a Forbes publicou: “Se a história serve como guia, a economia da Argentina e sua liderança política podem explodir a qualquer momento”. O Financial Times também foi lapidar: “A crise na Argentina se aprofunda”

Em sua bufonesca passagem pela grande maçã, Macri disse, em uma entrevista: “Não há chances de entrarmos em default“. Se ele diz que não, é muito provável que sim. No dia seguinte, o presidente do Banco Central, Luis Caputo, amigo íntimo de Mauricio renunciou. Em sua passagem pelo governo, de 2015 a 2017, Caputo aumentou seu patrimônio em 45 milhões de pesos.

Contrariando o otimismo do presidente, a revista Forbes publicou: “Se a história serve como guia, a economia da Argentina e sua liderança política podem explodir a qualquer momento”. O Financial Times também foi lapidar: “A crise na Argentina se aprofunda”.

Em 1º de setembro, Macri acabou com os ministérios do Trabalho, Saúde, Educação e Cultura, entre outros, algo inédito em qualquer país civilizado do mundo. A Argentina está em queda livre, e a coisa mais séria é que eles anunciam que os meses que estão por vir serão mais difíceis. E o presidente busca a filha na escola de helicóptero…

Ontem, o crush de Macri, Lagarde, aumentou em 7 bilhões de dólares o empréstimo à Argentina, que não recorria ao fundo desde 2003. A chefa do FMI estava ao lado de ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, e a imagem dela com a bandeira argentina às costas e se expressando em espanhol ao povo argentino entrará para a história.

Com um cinismo ímpar, Macri já declarou várias vezes que pretende se aposentar em um país estrangeiro ao final do seu mandato, se acabar. Nós, argentinos, só queremos uma coisa: que não escape!

 

 


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