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Com eleição de esquerdista López Obrador, relações EUA-México entram numa nova era

Trump pode esquecer fazer o México pagar por seu muro: presidente eleito diz que seu país não fará mais o "serviço sujo" para os EUA

O presidente eleito do México, López Obrador. Foto: reprodução/facebook
The Conversation
02 de julho de 2018, 20h26

Por Luis Gómez Romero*, no The Conversation

Tradução Cynara Menezes

O próximo presidente do México será Andrés Manuel López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México e crítico do establishment político, tanto do México quanto dos EUA. O esquerdista de 64 anos, que vinha liderando a disputa presidencial, derrotou três competidores no domingo em sua terceira tentativa de chegar ao poder.

López Obrador ganhou por 53% dos votos, de acordo com a última contagem oficial. Seu adversário mais próximo, Ricardo Anaya –que formou uma unusual aliança direita-esquerda no final do ano passado em uma tentativa inútil de ultrapassar López Obrador– teve 25% dos votos. Apenas 16% dos eleitores escolheram o candidato governista, José Antonio Meade, do PRI.

Com 18 mil outros cargos públicos em disputa, de prefeitos a senadores, esta foi a maior e mais cara eleição mexicana de todos os tempos. Também foi a mais violenta na história do México moderno. Pelo menos 136 candidatos e cabos eleitores foram mortos durante a campanha, aparentemente assassinados por grupos do crime organizado buscando manter suas garras no poder.

Esta foi a maior e mais cara eleição mexicana de todos os tempos. Também foi a mais violenta na história do México moderno. Pelo menos 136 candidatos e cabos eleitores foram mortos durante a campanha

Em seu discurso de vitória, López Obrador prometeu aos mexicanos, cujo desgosto com a política propulsou a chegada deste outsider até a presidência, que irá “transformar” o país e que irá governar “para o bem de todos”, disse, “a começar pelos pobres”. Os quatro candidatos à presidência debateram vários temas, inclusive como enfrentar os números recordes da violência e a desigualdade sistêmica.

Ainda há poucos detalhes sobre muitos dos compromissos de campanha de López Obrador, que incluem anistiar traficantes e acabar com a corrupção na política. Não está claro, por exemplo, como seu governo irá pagar pelos programas sociais que prometeu, ou qual sua posição em assuntos de direitos humanos como o aborto, já que seu partido, Morena, se aliou ao Partido Encuentro Social, de centro-direita, para formar sua coalizão eleitoral.

Uma coisa ficou clara no final da campanha, que coincidiu com a nova política do governo Trump de processar criminalmente todos os migrantes que cruzem a fronteira entre EUA-México: o México não vai mais ajudar a impor as leis migratórias de seu vizinho ao norte. O presidente eleito López Obrador chamou a política norte-americana de separar famílias de imigrantes de “arrogante, racista e desumana”.

A despeito das repetidas queixas de Donald Trump de que o México não faz “nada” para impedir que os migrantes da América Central cheguem aos EUA, o México tem sido um parceiro proativo das políticas migratórias norte-americanas. O atual presidente Peña Nieto, que foi constitucionalmente proibido de tentar a reeleição, aceitou 90 milhões de dólares de financiamento dos EUA para lançar o programa Frontera Sur em 2014, destinado a parar a migração na fronteira do México com a Guatemala e apreender migrantes que viajavam através do país.

As deportações mexicanas de centro-americanos que viajavam para os EUA –principalmente guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos– logo duplicaram, de 78,733 em 2013 para 176,726 em 2015. Durante o mesmo período, o número de migrantes centro-americanos detidos na fronteira por agentes dos EUA caiu em mais da metade.

Uma coisa ficou clara no final da campanha: o México não vai mais ajudar a impor as leis migratórias de seu vizinho ao norte. López Obrador chamou a política norte-americana de separar famílias de imigrantes de “arrogante, racista e desumana”

Os padrões de migração na região mudaram radicalmente nas últimas décadas. O número de mexicanos detidos cruzando ilegalmente a fronteira despencou de mais de 1,6 milhão em 2000 para 130 mil no ano passado. Agora mais mexicanos estão deixando os EUA do que indo para lá.

Os centro-americanos, movidos pela violência generalizada e pela pobreza, atualmente constituem o maior volume de pessoas que cruzam a fronteira entre os EUA e o México. em 2017, agentes de fronteira prenderam 303,916 migrante. Mais da metade deles (162,891) eram da Guatemala, Honduras e El Salvador. O México se tornou um grande país de trânsito para migrantes.

Também está crescendo sua escolha como destino final. O México teve 12.700 pedidos de asilo de refugiados centro-americanos em 2017, contra 8.800 em 2016 e 3400 em 2015. Somente os EUA receberam maior atenção de centro-americanos em busca de asilo, de acordo com a Agência de Refugiados das Nações Unidas.

Os centro-americanos, movidos pela violência e pela pobreza, atualmente são a maioria dos que cruzam a fronteira EUA-México. O número de mexicanos detidos cruzando ilegalmente despencou. Agora mais mexicanos estão deixando os EUA do que indo para lá

Crítico da política do presidente Peña Nieto de prender e deportar centro-americanos, López Obrador acusou o governo mexicano de cometer violações de direitos humanos contra migrantes. Como presidente, Obrador ainda irá “prestar especial atenção” à fronteira sul do México, ele disse. Mas seu governo não mais fará o “serviço sujo” da imigração dos EUA.

López Obrador quer que o México respeite as leis existentes que protegem os direitos humanos dos migrantes. A Constituição mexicana garante que requerentes de pedidos de asilo podem encontrar refúgio em suas fronteiras desde 2016.

Em sua primeira entrevista como presidente eleito, nesta segunda-feira, López Obrador agradeceu o tweet de congratulações postado por Trump na noite da eleição. Ele também disse que não irá “brigar” com Trump. O México irá respeitar o governo norte-americano, disse López Obrador, porque espera respeito dos EUA.

Na verdade, obter este respeito será difícil, como seu antecessor descobriu da pior forma. Em agosto de 2016, os assessores do presidente Peña Nieto convidaram Trump, cuja campanha estava cheia de promessas de construir um “grande, gordo, bonito” muro fronteiriço, para ir ao México.

Durante a visita de Trump, Peña Nieto enfatizou a contribuição de seu país para a contenção migratória dos EUA. A fronteira, disse Peña Nieto a um moderado Trump, representa um “desafio compartilhado” e “uma grande crise humanitária”. Mais tarde, Trump ridicularizou seu similar mexicano, insistindo que os EUA precisam de um muro na fronteira. “Eles ainda não sabem disso”, afirmou a seus apoiadores no Arizona, “mas eles vão pagar por ele”.

Peña Nieto nunca se recuperou deste desastre diplomático. Quase 90% dos cidadãos mexicanos se disseram ofendidos pela visita de Trump e pelo comportamento submisso de seu presidente. A aprovação de Peña Nieto caiu para abaixo de 25% e lá permaneceu. Seu PRI pagou o preço nesta eleição. O candidato José Antonio Meade terminou em terceiro, e o PRI perdeu oito cadeiras no senado e nove governos estaduais. Ele ainda pode perder vários outros cargos que ainda estão sendo contestados.

López Obrador se beneficiou dos erros de Peña Nieto. Seu jovem partido, Morena, fundado em 2014, ganhou a maioria do legislativo no domingo. Sua candidata a prefeita da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, também venceu e se tornou a primeira mulher a se eleger para administrar a capital do país.

O partido de Obrador, Morena, fundado em 2014, ganhou a maioria no legislativo. Sua candidata a prefeita da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, também venceu e se tornou a primeira mulher a se eleger para administrar a capital do país

A auto-glorificação de López Obrador deixou alguns observadores mexicanos preocupados. Ele vendeu a si mesmo como uma figura revolucionária, dizendo que sua presidência será a última fase da progressiva transformação política dos últimos 200 anos no México, que começou com a independência da Espanha, em 1821, continuou em 1850 com a Guerra de Reforma, que consolidou o liberalismo republicano no país, e se expandiu durante a Revolução Mexicana de 1910.

O México está entrando numa nova era, assim como as relações México-EUA. Mas ninguém –provavelmente nem mesmo o futuro presidente– sabe exatamente o que isso significa.

*Luis Gómez Romero é conferencista sênior em Direitos Humanos, Constituição e Teoria Legal na Universidade de Wollongong, Austrália

 

 


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Sergio em 04/07/2018 - 08h40 comentou:

Parada indigesta para quem depende excessivamente dos EUA. Mas, ano a ano, o importante é mudar! Um dia muda!

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