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Como o fundamentalismo religioso contra vacinas trouxe o sarampo de volta aos EUA

Índices de vacinação caem e cresce o número de pais que alegam "questões religiosas" para isentar os filhos da exigência de vacina

Uma das primeiras crianças norte-americanas vacinadas contra sarampo, em 1962. Foto: CDC
Da Redação
05 de maio de 2019, 13h56

Um surto de sarampo está assombrando os Estados Unidos. Desde o começo do ano, já foram registrados 700 casos da doença, que se acreditava erradicada no país desde o ano 2000. No Brasil o sarampo foi considerado erradicado em 2016. Mas os índices de vacinação, como ocorre nos EUA, têm caído desde então: 2017 teve o menor índice de vacinação em 16 anos e, em 2018, o Brasil viveu um surto de sarampo, com mais de 10 mil casos registrados, principalmente no Amazonas e em Roraima. No mesmo ano, em todo o país, 49% dos municípios tiveram vacinação contra sarampo abaixo da meta.

Entre 2010 e 2017, 169 milhões de crianças em todo o mundo (média de 21 milhões anuais) não receberam a primeira dose da vacina contra o sarampo, alertou o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) no final de abril deste ano. Para a entidade, o aumento no número de crianças não vacinadas abriu caminho para os surtos de sarampo que atualmente atingem vários países.

Para o Unicef, o aumento no número de crianças não vacinadas abriu caminho para os surtos de sarampo em vários países. Os EUA aparecem no topo da lista de países ricos com o maior número de crianças que não receberam a primeira dose da vacina

Nos primeiros três meses de 2019, mais de 110 mil casos de sarampo foram relatados em todo o mundo, um aumento de 300% em relação ao mesmo período do ano passado. Na Alemanha, após um surto de sarampo, o ministro da Saúde, Jens Spahn, apresentou um projeto de lei obrigando os pais que se recusarem a vacinar seus filhos contra o sarampo a pagar até 2,5 mil euros (cerca de 11,2 mil reais) em multas; suas crianças serão expulsas de creches.

No ano passado, a doença matou 136 mil pessoas no planeta e o número de infectados aumentou 50% em comparação com 2017. Os EUA aparecem no topo da lista de países ricos com o maior número de crianças que não receberam a primeira dose da vacina contra sarampo entre 2010 e 2017: mais de 2,5 milhões. Após o surto ser noticiado, um subúrbio de Nova York simplesmente baniu crianças não-vacinadas de frequentar locais públicos, como escolas, shoppings e restaurantes.

A reportagem abaixo, que traduzimos para os leitores do site, mostra como o fundamentalismo religioso, provavelmente impulsionado por fake news da internet, está por trás da recusa de pais norte-americanos em vacinar seus filhos: muitos acreditam que as vacinas possuem fetos de aborto e conseguem dispensa na exigência de vacina alegando razões religiosas. Com isso, quebram a “imunidade de rebanho” e abrem espaço para epidemias de doenças esquecidas. Medievalismo puro. A propósito: Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, é crítico às vacinas.

Leiam, é assustador.

***

Por Mary Meehan, no Woub
Tradução: Mauricio Búrigo

Toni Wilkinson tem sete filhos, três deles abaixo de seis anos, e todos eles educados em casa. Daí que sua casa numa rua sem saída de Lexington, Kentucky, raramente esteja sossegada.

Logo quando se entra pela porta da frente há caixas cheias de sapatos, pilhas de jaquetas em cima de um banco comprido. Do outro lado da sala está a biblioteca da família, abarrotada de livros escolares. Apertados entre eles há títulos controversos que criticam a vacinação, os livros que Wilkinson usava em seu próprio dever de casa, pesquisando vacinas.

Toni Wilkinson ficou sabendo que tecidos de células-tronco de abortos foram usados para produzir algumas vacinas. “E então isso se tornou uma grande questão para mim, porque somos muito pró-vida”, disse

“Eu simplesmente comecei a me questionar, era apenas essa dúvida persistente que não consigo explicar, na verdade”, disse ela. Enquanto tais dúvidas aumentavam ao longo dos anos, a vacinação para seus filhos diminuíam. Seus dois filhos mais velhos são inteiramente vacinados. Os dois seguintes receberam as injeções exigidas somente até o ensino fundamental. Seus três mais novos não receberam vacina alguma.

Wilkinson disse que foi a fé que guiou sua escolha. Ela ficou sabendo que tecidos de células-tronco de abortos foram usados para produzir algumas vacinas. “E então isso se tornou uma grande questão para mim, porque somos muito pró-vida”, justificou.

O Kentucky está entre os 47 estados dos EUA que permitem alguma forma de dispensa por razões religiosas das exigências de vacinação a crianças para que frequentem escolas públicas. O Kentucky está também entre os 22 estados que relataram casos de sarampo este ano.

Duas décadas depois de os EUA terem praticamente eliminado o sarampo, a doença virótica volta a assombrar. Funcionários da saúde relataram recentemente quase 700 casos de sarampo nos EUA, o maior número em 20 anos, e sugerem uma crescente tendência contra a vacinação infantil como causa. Alguns surtos de sarampo em Nova York e Ohio foram associados a comunidades religiosas que se opõem à vacinação, e isso tem intensificado o debate sobre as dispensas por religião.

O Kentucky e estados vizinhos no Ohio Valley oferecem um estudo de caso e o potencial para algumas lições oportunas sobre as implicações na saúde pública das isenções de vacinação. Enquanto o Kentucky e Ohio permitem as isenções, a West Virginia não.

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs, em inglês), algumas vacinas foram desenvolvidas com o uso de culturas de células humanas colhidas de dois abortos legais nos anos 1960. Pesquisadores mantêm essas linhagens de células em laboratórios e nenhum tecido fetal adicional foi acrescentado desde que foram originalmente criadas. Mas as preocupações de Wilkinson se junta às de outros que se opõem ao aborto incondicionalmente.

Kentucky e Ohio permitem que pais com objeções religiosas tais como estas matriculem uma criança na escola sem comprovar que foram vacinadas. West Virginia não [permite]. “A West Virginia começou a ter leis estaduais sobre vacinas no final do século 18 e nunca houve qualquer tipo de dispensa por crença religiosa ou pessoal nas nossas leis,” disse Jamie Lynn Crofts, uma advogada de direitos civis em Charleston, West Virginia.

O Kentucky está entre os 47 estados dos EUA que permitem alguma forma de dispensa por razões religiosas das exigências de vacinação a crianças para que frequentem escolas públicas. Também está entre os 22 estados que relataram casos de sarampo

Ele disse que com sua taxa de vacinação de 98%, bem acima da média nacional, a West Virginia poderia ser um modelo para os outros estados. “Levar em consideração nosso programa e o quanto tem sido eficaz poderia ser um ótimo guia para estados que estejam na expectativa de reformar suas leis a fim de impedir surtos no futuro,” disse ela. As taxas de vacinação no Kentucky e em Ohio são de 92,6% e 92,1%, respectivamente, ambas abaixo da taxa média nacional de 94,3%.

Crofts disse que a opinião que se tem a respeito da vacinação pode depender de quando se nasceu. A maioria da Geração do Milênio, por exemplo, não tem experiência alguma com o sarampo e talvez não o veja como uma ameaça.

Cartaz do governo australiano contra o sarampo nos anos 1990

O CDC relata que antes do programa de vacinação do sarampo começar, em 1963, estimava-se que 3 a 4 milhões de americanos contraíssem sarampo a cada ano. Apenas cerca de 500 mil doentes se apresentavam a cada ano ao CDC. Destes, 400 a 500 morriam, 48 mil eram hospitalizados, e 1.000 desenvolviam encefalite (inchaço do cérebro) a partir do sarampo.

Embora o surto atual pareça insignificante diante desses números históricos, os funcionários da saúde estão preocupados. O benefício à saúde pública de uma vacinação depende em parte do que é chamado de “imunidade de rebanho”, alcançada apenas quando uma alta percentagem de vacinação mantenha a doença à distância. Um estudo da Universidade de Oxford descobriu que 19 de cada 20 pessoas precisam ser vacinadas para manter a imunidade do rebanho contra o sarampo.

Nenhuma religião americana importante procura proibir vacinas de maneira explícita. Alguns dentro da Igreja Católica encorajam a vacinação. Mas um conjunto menor de membros da igreja, como Wilkinson, rejeita vacinas por razões morais, devido ao uso no passado de células fetais no desenvolvimento de alguma vacina.

Desinformação sobre vacinas serem “feitas de aborto”

Essa crença religiosa é a parte-chave de um processo instaurado pelos pais de um aluno da Assumption Academy (Academia da Assunção), uma escola particular no norte do Kentucky. A maioria dos alunos não eram vacinados, resultando num surto recente de 32 casos de catapora. Quando a Secretaria de Saúde do Kentucky do Norte restringiu atividades escolares para refrear a disseminação da doença, alguns alunos e pais promoveram uma ação, argumentando que isso violava seus direitos.

A escola publicou um comunicado de imprensa sobre o surto em seu site explicando o que pensa sobre a vacina. “Embora a Igreja Católica não se oponha às vacinações em princípio, considera moralmente ilícito o desenvolvimento de vacinas a partir de tecidos fetais abortados,” rezava o comunicado.

Não é a primeira vez que surtos são associados a uma comunidade religiosa específica. O CDC viu a conexão entre membros não-vacinados das comunidades Amish em Ohio e o último surto, que bateu o recorde em 2014. Pesquisadores descobriram que pessoas nessas comunidades constituíam quase que metade dos casos no surto nacional.

Em 2017, os legisladores do Kentucky revogaram a exigência da assinatura de um médico no requerimento para uma dispensa religiosa. Agora, os pais simplesmente dão entrada com um formulário assinado e autenticado em cartório

No Kentucky e em Ohio, legisladores estão indo na outra direção, mesmo que ambos estados tenham taxas de vacinação abaixo da média nacional. “Não tem havido conversa alguma sobre eliminar isenções às vacinas no Kentucky de que eu esteja ciente neste ponto,” disse o diretor de Saúde Pública do Kentucky, Dr. Jeffrey Howard.

Howard disse que apoia as vacinas e que há um monte de mal-entendidos e mitos em torno delas. Mas, diz ele, o Kentucky é um lugar onde as pessoas querem proteger as liberdades pessoais, tais como vacinar ou não um filho. Disse que as solicitações de dispensa estão aumentando e que os legisladores estão facilitando o acesso às isenções.

Em 2017, os legisladores do Kentucky revogaram a exigência da assinatura de um médico no requerimento para uma dispensa religiosa. Agora, os pais simplesmente dão entrada com um formulário assinado e autenticado em cartório. Um projeto de lei que está sendo discutido em Ohio faria mudanças semelhantes para aumentar o acesso às isenções.

Algumas vacinas foram desenvolvidas com o uso de culturas de células humanas colhidas de dois abortos legais nos anos 1960. Pesquisadores mantêm essas linhagens de células em laboratórios e nenhum tecido fetal adicional foi acrescentado desde então

Scott Gottlieb foi diretor do FDA (Food and Drug Administration) federal, de 2017 até ao começo deste mês. Agora, é membro residente no American Enterprise Institute. Gottlieb disse que as isenções religiosas estão em ascensão junto com o número de casos de sarampo.

“Penso que seria altamente inapropriado se começássemos a ver governos assumirem um papel mais ativo, sobretudo o governo federal, no sentido de obrigar a vacinar, porque acho que estas questões têm sido deixadas sob supervisão estadual por um monte de boas razões,” disse ele.

Gottlied disse que o aumento súbito no número de infecções reflete “uma relutância trágica em adotar o que é uma das nossas mais eficazes e seguras vacinas”. E isso em breve forçará os funcionários da saúde a decidirem tomar medidas duras. “Agora mesmo estamos no ponto em que começamos a ver surtos de tal alcance que vamos chegar a um ponto decisivo, ou talvez a um ponto qualquer, logo.”

Cartilha pró-vacinação contra sarampo. Ilustra: Sophie Blackall

Toni Wilkinson está ciente da controvérsia sobre as decisões em relação à vacinação tais como as suas. Wilkinson disse que sua decisão teve reação, o que incluiu conflitos dentro da família e comentários sarcásticos nas redes sociais. Ela e amigos que fizeram escolhas semelhantes se tornaram cuidadosos até para discutir sobre vacinas com as pessoas. “Você lê algumas das coisas que dizem e pode virar algo muito nojento. Tipo: ‘Estas pessoas não deveriam poder ter filhos se não vão vaciná-los.’ A coisa pode ficar feia.”

Ela disse que ainda se sente segura da sua decisão. “Deus coloca filhos nas famílias por uma razão”. Mas ela admite ter breves momentos de dúvida. “Acho que ainda tinha um pouco de medo, tipo: ‘e se meu filho tiver o que é considerada uma doença evitável por vacina, o que é que eu vou sentir?’”

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Dri em 05/05/2019 - 15h48 comentou:

Que mundo é esse que estamos vivendo? É só retrocesso! Não dá para entender como chegamos a este ponto, com pessoas se negando a tomar vacina. É inacreditável. Desculpe, mas nessas horas dá raiva de religião, não é brincadeira não. Que horror, totalmente lunáticos!

Responder

João Junior em 06/05/2019 - 09h03 comentou:

Existe uma cruzada contra a ciência. Cruzada mesmo. A igreja cansou de ter fiéis esclarecidos, que fazem muitas perguntas e de ver a quantidade de ateus aumentando. É sobre poder e nada mais. Enquanto a ciência e a religião conviviam sem problemas, estava tudo bem. Mas essa convivência não é mais pacífica porque a ciência cada vez mais inclina-se para longe da religião porque tem-se observado a incompatibilidade entre essas duas formas de pensar e de construir a sociedade.

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