Back in the USSR: como os soviéticos trocaram Lenin por Lennon (& Paul & George & Ringo)

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(Cortesia Leslie Woodhead)

Trinta anos atrás, em julho de 1987, o beatle Paul McCartney resolveu gravar um álbum exclusivamente para seus fãs na União Soviética. Segundo disse Paul na época, era no país comunista que estavam muitos dos seus “seguidores mais leais”. E isso que os Beatles, assim como todos os grandes ídolos do rock and roll, eram tidos como inimigos do regime e seus discos, vendidos apenas no mercado negro. Lançado no ano seguinte, o álbum CHOBA B CCCP (“Back in the USSR”, em russo) foi um sucesso e acabou por dar um empurrãozinho a Mikhail Gorbachev em sua Glasnost, a abertura política que culminaria no fim da URSS em 1991.

CHOBA B CCCP (pronuncia-se Snova Vess-ESS-ESS-er) traz 13 faixas de puro rock raiz interpretadas por McCartney, como Lucille, Summertime e Kansas City. A capa, desenhada pela mulher de Paul, Linda, com a estrela vermelha sobre o rosto do beatle e seu nome em cirílico, é hoje um clássico. O disco foi um dos primeiros vinis de música pop prensados pela gravadora estatal Melodiya, e as 400 mil cópias se esgotaram rapidamente, disputadas por ávidos beatlemaníacos soviéticos e também por colecionadores estrangeiros. No Ocidente, o álbum só sairia após a URSS acabar.

Em janeiro de 1989, Paul teria uma conversa pelo rádio com os fãs da URSS através do serviço russo da BBC, autorizada a transmitir de Moscou a partir de 1987. Calcula-se que 17 milhões de pessoas o ouviram e mais de 300 puderam falar com ele pelo telefone, apesar do alto custo das ligações. McCartney se recusou a responder sobre as ligações entre rock e política, mas dedicou o álbum à Glasnost e à Perestroika, a reestruturação econômica de Gorbachev.

Era mais fácil para os líderes comunistas manterem os jovens afastados das grifes e da Coca-Cola do que do rock and roll. Embora não fosse permitida sua venda, os álbuns dos principais nomes do rock mundial cruzavam a cortina-de-ferro contrabandeados e eram comercializados às escondidas, em becos escuros, como drogas. Os soviéticos também ouviam os hits ocidentais clandestinamente, sobretudo através da Rádio Luxembourg, e descobriram uma maneira de prensar discos em chapas de raio X descartadas pelos hospitais, que eles chamavam de “costelas” ou “música de osso”. A revolução rocker que germinava nos subterrâneos da URSS não podia ser detida nem pela KGB.

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(Foto: Dmitry Rozhkov)

Às vésperas da derrocada comunista, o espectro do rock and roll rondava não só a União Soviética, mas todos os países do Leste Europeu. Submetidos a 70 anos de músicas folclóricas russas, os jovens estavam fartos de dança cossaca e sedentos por sacudir o quadril com o ritmo de Chuck Berry abertamente, livremente. A juventude começa a ocupar as ruas primeiro pelo rock, como uma forma de dizer “não” ao sistema. Exatamente como nós.

Bruce Springsteen fez o primeiro show de rock da Alemanha Oriental em 1988, botando os guris do mundo comunista para cantar a plenos pulmões Born in the USA. Um ano e quatro meses depois, o muro caiu.

No ano anterior, em 1988, com o festival Rock Summer, que ficou conhecido como Glasnost Rock, a Estônia reunira mais de 20 artistas ocidentais como o britânico Public Image Ltd.(PIL) e roqueiros do país diante de um público de 150 mil pessoas. O processo de emancipação da Estônia foi tão intrincado com a música que é chamado de Singing Revolution (Revolução Cantada), título de um documentário de 2007.

Em março de 1989, o Greenpeace lançou em Moscou o álbum Breakthrough (Rainbow Warriors no resto do mundo) com 25 superastros, entre eles Annie Lennox, Peter Gabriel, The Edge do U2, David Byrne do Talking Heads e Chrissie Hynde, dos Pretenders. O disco vendeu 500 mil cópias em um só dia e 3 milhões no total, com renda revertida para o grupo.

Mas não houve show, só autógrafos. A intenção original do Greenpeace era botar para quebrar, mas alguém lá de cima do Politburo disse “não”, contou The Edge à revista oficial da banda irlandesa, Propaganda. “O Greenpeace veio então com a ideia do disco e não demorou cinco minutos para que disséssemos ‘sim'”, comentou o guitarrista do U2 à revista da banda, que ficou surpreso com o que encontrou em Moscou.

“A Rússia era ao mesmo tempo muito mais livre em algumas áreas e muito mais restrita em outras do que eu imaginava. Andamos por onde quisemos. Tínhamos nossos guias –estudantes que falavam inglês–, mas eu pensava que seríamos vigiados por toda parte. Mas outras coisas eram quase impossíveis, como fazer chamadas telefônicas, achar um restaurante, este tipo de coisa que, suponho, a Rússia não teve interesse ou o ímpeto de conseguir. Conseguir um táxi era praticamente impossível.”

Em agosto do mesmo ano a turma do hard rock teve mais sorte: o Moscow Music Peace Festival reuniu na capital do império comunista bandas como Skid Row, Mötley Crüe, Bon Jovi e Ozzy Osbourne no Estádio Lenin, para mais de 100 mil fãs vermelhos do bom e velho rock and roll.

Mas nada se igualou aos Beatles. A teoria de que foram os quatro de Liverpool os grandes impulsionadores da queda do comunismo vem fascinando beatlemaníacos do mundo inteiro há quase uma década, desde que o jornalista britânico Leslie Woodhead lançou, pela BBC, o documentário How the Beatles Rocked The Kremlin, em 2009. No filme, assim como no livro homônimo de 2013, Woodhead sustenta que nada foi mais poderoso na implosão da União Soviética do que os Beatles.

A história do documentarista por si só daria um filme. Em 1962, ainda como estagiário em uma TV local de Manchester, Woodhead fez algumas imagens de quatro garotos desconhecidos tocando num porão de Liverpool chamado… The Cavern Club. Sim, é ele o autor das primeiras imagens conhecidas dos Beatles.

Em seguida, Woodhead foi trabalhar como informante britânico nos países da cortina-de-ferro. Nos anos 1980, quando fazia documentários na União Soviética, sua vida novamente se cruza com os Beatles: começou a ouvir dos locais histórias sobre como a banda tinha ajudado a dinamitar o comunismo. Muito antes de Paul McCartney lançar seu “disco russo”, os soviéticos haviam sido ganhos para a causa roqueira, principalmente após a saída de Nikita Khruschev do poder, quando o país mergulhou numa cafonália sem fim até a ascensão de Gorbachev.

No documentário de Woodhead (clique aqui para assistir no youtube, é genial), o especialista russo em rock and roll Artemy Troitsky lembra que, no início dos anos 1960, era cool ser comunista em todo o mundo e a URSS tinha seus próprios pop stars: Yuri Gagarin, o primeiro homem a chegar no espaço, em 1961, os barbudos revolucionários cubanos e o próprio Nikita. Despojados destes ídolos, a partir de 1964 a juventude soviética passou a admirar e a se espelhar naqueles garotos que faziam música a 2500 quilômetros dali, em Liverpool, na Inglaterra.

“A música soviética era totalmente quadrada, não-cool, os cantores tinham o corte de cabelo errado e cantavam como se participassem de um congresso do Brejnev. A cultura soviética era totalmente sem sex appeal. Era tudo muito rígido, limitado. Não havia nada brilhante nem livre nem funky nem sexy”, diz Troitsky (curiosamente, seu nome lembra Trotsky e o estilo, idem). “O Ocidente tinha instituições enormes, que gastaram milhões de dólares para destruir o sistema soviético, mas tenho certeza que o impacto destas instituições estúpidas foi muito, muito menor do que o impacto dos Beatles.”

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O documentarista e escritor Leslie Woodhead falou com exclusividade ao blog.

Socialista Morena  Os Beatles aparecem em seu documentário, assim como no livro, como uma paixão intensa para a juventude soviética. Sua tese é que esta paixão foi capaz de balançar a ideologia deles, de colocar dúvidas em suas mentes. Qual força foi mais poderosa em atingir os corações e mentes soviéticos, a música, as letras ou o estilo dos Beatles?

Leslie Woodhead – Eu acho que o estilo e a música dos Beatles representaram liberdade e energia juvenil para os garotos soviéticos dos anos 1960, tudo aquilo que eles não podiam achar na cultura jovem oficial. O sentimento de prazer com a música –’uma luz brilhante em uma vida triste’, como um dos meus entrevistados falou– era mais importante do que as letras, que a maioria da juventude não podia entender. O fato de os Beatles e sua música serem odiados e proibidos pelo governo os fez ainda mais desejados pelos jovens. Quando a jovem geração soviética se deu conta de que a música dos Beatles era alegre e que eles eram divertidos e fofos, perceberam que a propaganda oficial contra o Ocidente era uma mentira e confirmaram que foram enganados pelo Estado. Os Beatles foram vitais em acender a fagulha da rebelião em todo o Leste europeu.

SM – Qual foi o efeito do álbum soviético de Paul McCartney naquele momento?

LW – O disco foi disputadíssimo em todo o bloco soviético. No meu livro eu descrevo como os marinheiros mercantes russos venderam aqueles álbuns raros nos portos ocidentais, onde ele não podia ser comprado, por uma fortuna. Alguns ganharam dinheiro suficiente para comprar um carro! Mas naquela época muitos jovens soviéticos já tinham seus próprios discos dos Beatles e o álbum de Paul foi apenas uma parte daquele momento anti-soviético do final dos 1980. Paul escolheu aquelas canções antigas porque eram fáceis de gravar rapidamente e porque não teria problemas de copyright como seria se gravasse canções originais dos Beatles.

SM – Vi algumas frases atribuídas a Gorbachev sobre os Beatles. Ele realmente falou sobre eles?

LW – Sim, Gorbachev realmente disse que os Beatles tiveram um papel importante em mudar a União Soviética e ajudar a Glasnost.

SM – No entanto, não consigo ver os Beatles como “anticomunistas”. Eles parecem para mim mais como “pró-liberdade” e “antitotalitaristas”, você não acha?

LW – Sim, eu concordo. Os Beatles como grupo não eram diretamente políticos e suas músicas certamente não eram “anticomunistas”. Acho que foi o espírito livre das canções deles que realmente ajudaram a produzir mudança e, como um dos meus entrevistados disse em St. Petesburgo, ‘varreram os fundamentos do totalitarismo’.

Quando a repressão ao rock começou a acabar, já na era Gorbachev, até mesmo o “cantor oficial” do sistema, Joseph Kobzon, fazia covers das canções dos Beatles… O primeiro beatle a pisar em solo russo foi Ringo Starr, em 1998. Paul McCartney só faria seu tão esperado show em Moscou em 2003, mais de 15 anos após o disco soviético. Ainda na chegada, o cantor e a segunda mulher, Heather Mills, ouviram dos oficiais de aduana o mesmo que Woodhead ou qualquer um que visita o país ouve: que os russos aprenderam inglês ouvindo os Beatles.

O casal foi recebido no Kremlin por ninguém menos que o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Paul tocou Let It Be ao piano para Putin, a quem descreveu ao jornal The Guardian na época como “fabuloso”.

Putin não prometeu aparecer no histórico show da Praça Vermelha. Mas então, subitamente, eis que rola uma movimentação na platéia de mais de 100 mil pessoas… Paul finge que não vê o presidente chegando com sua entourage e segue cantando.

A apoteose, é claro, vem quando sir Paul McCartney canta Back in The USSR, gravado pela primeira vez no Álbum Branco, em 1968. Ao fundo, pôsteres com as imagens de Stalin, Lenin e do passado soviético no telão –ao mesmo tempo em que bandeiras comunistas se agitam na plateia.

O fim desta história que ainda não acabou é irônico. Uma das provocações dos rebeldes ucranianos em 2013 era colar o nome “Lennon” em cima das placas das avenidas “Lenin” espalhadas pelas grandes cidades do país. Em março do ano passado, finalmente uma rua do mais anti-comunista dos países da antiga república soviética mudou de nome: deixou de ser “rua Lenin” para ser “rua Lennon”. Vão-se algumas estátuas, erguem-se outras. Lenin says goodbye, Lennon says hello.

 

 

 

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Publicado em 5 de março de 2017