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Feminismo

Companheira de presidente eleito do México considera termo “primeira-dama” classista

Beatriz Gutiérrez pede que a chamem "Beatriz, nada mais"; presidente eleito anunciou gabinete metade masculino, metade feminino

Beatriz Gutiérrez Müller no dia da votação que elegeu seu marido. Foto: reprodução/twitter
Da Redação
03 de julho de 2018, 12h15

Jornalista, escritora, doutora em Teoria Literária, Beatriz Gutiérrez Müller é também, há 12 anos, companheira do presidente eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, com quem tem um filho. E desde logo avisa: não quer ser chamada de “primeira-dama” por considerar o termo “classista”. “Me chamem de Beatriz, nada mais”, disse.

Aos 49 anos, Beatriz já é considerada a mulher com mais títulos acadêmicos a ocupar a posição de companheira de um presidente da República no México. Em maio, durante um comício em Veracruz, afirmou que quer acabar com a figura da “primeira-dama” porque não quer que no país “existam mulheres de primeira nem de segunda; não queremos homens de primeira nem de segunda. Com todo o respeito às mulheres que desempenharam este papel antes, dizer ‘primeira-dama’ é um tanto classista. Todas somos mulheres, todas fazemos algo importante”.

Para ela, aquela mulher dos anos 1940 que ajudava as crianças carentes “era muito bonita, mas este país mudou”. Beatriz ainda não conheceu a primeira-dama Marcela Temer, que, mesmo tendo menos de 40 anos, encarna justamente esta postura assistencialista, como “madrinha” do projeto Criança Feliz. Desde 2010, quando Dilma Rousseff se elegeu, não tínhamos a figura da “primeira-dama” no país. O golpe a ressuscitou.

No Brasil, o histórico de “primeiras-damas” repete este estereótipo ao qual a esposa do presidente eleito mexicano se refere. Durante os governos militares, as esposas dos generais cumpriam o papel, como faz Marcela em pleno século 21, de primeira-dama dedicada a projetos beneficentes.

Para Beatriz, aquela mulher dos anos 1940 que ajudava as crianças carentes “era muito bonita, mas este país mudou”. Ela ainda não conheceu Marcela Temer, que, mesmo tendo menos de 40 anos, encarna justamente esta postura assistencialista

O primeiro presidente eleito após a volta da democracia, Fernando Collor, aquele do “saco roxo”, também teve uma primeira-dama que se tornou presidente da LBA (Legião Brasileira de Assistência). Itamar Franco não era casado, e a esposa de Fernando Henrique Cardoso, a antropóloga Ruth, tinha horror ao termo, mas também dirigiu um programa social no governo do marido, o Comunidade Solidária. Marisa Letícia, mulher de Lula, não se importava de ser chamada “primeira-dama”, mas se manteve ao largo do  poder.

Segundo Beatriz Gutiérrez, sua aversão ao termo também tem fundamento legal. “No México o artigo 80 da Constituição assinala que o Poder Executivo recai em uma pessoa, ou seja, o poder presidencial não deve ser de uma família nem de um casal. A companheira de um presidente deve participar em tudo que possa até um limite. Isso é ser um companheiro, uma companheira. Não me refiro de jeito nenhum a uma esposa que se converte numa sombra complacente ou dócil diante de um sistema que perpetua as desigualdades”, afirmou.

“Eu quero ser companheira e também quero ser Beatriz, quero seguir fazendo o que me realiza: ser mãe, cuidar da minha família e continuar com a minha profissão, que gosto muito. Graças a tudo isso que conseguir ir adiante de todas as tempestades que atravessamos. Não posso abandonar meu apoio nem minha vida pessoal.”

A exemplo do que estão fazendo todos os novos presidentes sintonizados com o século 21 (Justin Trudeau no Canadá e Pedro Sánchez na Espanha são os casos mais recentes), López Obrador também anunciou que irá ter um gabinete ministerial paritário, metade masculino, metade feminino. Veja quem são as mulheres e que cargo ocuparão.

Aqui, Temer e os (de)formadores de opinião de direita não acham importante ter mais mulheres no primeiro escalão.

 

 


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Maria José em 03/07/2018 - 16h22 comentou:

Excelente postura! Viva Beatriz!

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Claudia em 03/07/2018 - 23h49 comentou:

Primeira-dama é algo abjeto. Sempre direcionada para obras assistencialistas, como se o papel da mulher fosse unicamente de cuidadora. Típico da direita adorar algo como marcela temer, um satélite do marido.
Rita Lee era contumaz perseguidora de Marisa Letícia: “Vou sentir saudades de Marisa Letícia e seu incansável trabalho em prol de porra nenhuma”. Dona Marisa jamais pediu cargos no governo, como outra incensada satélite, Ruth Cardoso (que até no instituto do marido arrumou uma boquinha e cuja filha era funcionária fantasma do Senado).
É cargo machista, paternalista, colocando a mulher como sempre numa posição servil. Se um presidente for casado com uma economista, os conservadores acharão apropriado dar o ministério da fazenda para ela, ou isso é demais para uma cabecinha feminina????

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