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Contra o feminicídio, Café Tacvba não tocará mais La Ingrata, um de seus maiores sucessos

O grupo de rock mexicano Café Tacvba anunciou esta semana que não tocará mais um de seus maiores sucessos, La Ingrata, cujo vídeo de lançamento foi considerado o melhor do ano pela MTV em 1995. A razão: solidarizar-se com as mulheres que são assassinadas todos os anos no México, que carrega o triste recorde de ser […]

Cynara Menezes
24 de fevereiro de 2017, 18h28
cafetacuba

(O grupo mexicano Café Tacvba. Foto: divulgação)

O grupo de rock mexicano Café Tacvba anunciou esta semana que não tocará mais um de seus maiores sucessos, La Ingrata, cujo vídeo de lançamento foi considerado o melhor do ano pela MTV em 1995. A razão: solidarizar-se com as mulheres que são assassinadas todos os anos no México, que carrega o triste recorde de ser um dos campeões mundiais em feminicídios. A letra de La Ingrata termina justamente com uma mulher assassinada pelo companheiro.

Ingrata, aunque quieras tu dejarme
los recuerdos de esos dias
de las noches tan obscuras tu
jamas podras borrarte.
Por eso ahora
tendre que obsequiarte
un par de balazos
pa que te duela.
Y aunque estoy triste
por ya no tenerte
voy a estar contigo
en tu funeral…

(Ingrata, ainda que queiras deixar-me/as lembranças destas noites tão escuras jamais poderás apagar/ Por isso agora/ terei que obsequiar-te com um par de balaços/ para que te machuque. /E ainda que esteja triste/ por já não ter você comigo/ Vou estar contigo em teu funeral…)

laingrata

(Capa do single de La Ingrata, de 1994)

A confirmação de que La Ingrata não será mais tocada pelo grupo veio na página oficial do Café Tacvba no Facebook, na última terça-feira 21. “Para nós, as mulheres sempre são dignas de muito respeito, amor e cuidado”, dizia a nota, acompanhada do link para uma entrevista ao jornal argentino La Nacion, em novembro passado, onde os músicos mexicanos foram questionados por cantar uma canção que contém um feminicídio ao mesmo tempo em que estão engajados na luta por igualdade de gênero.

“Éramos bem jovens quando fizemos a canção e não estávamos sensibilizados para esta problemática como agora estamos. Creio que é um momento de repensar se vamos continuar tocando a canção ou se mudamos a letra. Porque agora sim estamos sensibilizados, agora sabemos do problema. E eu, pessoalmente, não estou interessado em apoiar isso. Muita gente pode dizer que é só uma canção. Mas as canções são a cultura, e essa cultura é o que faz com que certas pessoas se sintam com o poder de agredir, de fazer dano”, disse o vocalista Rubén Albarrán.

Entre 2007 e 2015 o número de mulheres assassinadas no México duplicou. Cerca de 10 mil mulheres foram assassinadas entre 2012 e 2016, mas menos de 20% destas mortes foram julgadas como feminicídio, segundo a investigação Feminicídios Ocultos, feita pela ONG Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade (MCCI), com o apoio da plataforma CONNECTAS e do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ).

“Com base nestes informes, pelo menos 7,6 mil mulheres que foram assassinadas a bala, esquartejadas, estupradas, asfixiadas ou golpeadas até morrer não foram reconhecidas como vítimas de feminicídios”, diz a investigação. “Um feminicida pode receber uma pena de até 70 anos de prisão em alguns estados mexicanos, mas se o assassino alega que cometeu o crime sob ‘forte emoção’ (que também chamado de crime passional), a pena pode ser reduzida a um quarto.”

A decisão do Café Tacvba de não tocar mais La Ingrata dividiu os fãs no Facebook. Alguns reclamaram e outros apoiaram. “Historicamente a música popular trata as mulheres com falta de respeito. Isso que vocês estão fazendo, simbolicamente, é muito poderoso. Fala da mudança de mentalidade que ocorreu no novo século. Fala da evolução que estão dispostos a seguir e é coerente com as causas que vocês defendem”, disse um dos apoiadores. “Por favor, menos lição de moral e correção política”, criticou outro.

La Ingrata é uma das canções de maior sucesso do grupo mexicano e uma das que mais sacudiam seus fãs nos shows, por seu ritmo empolgante. A conferir se a decisão de não tocá-la mais é para valer.

 

 


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