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Darcy: “Não nos esqueçamos de organizar a defesa das instituições contra novos golpistas”

Li este texto escrito pelo antropólogo e político Darcy Ribeiro, grande inspirador deste blog, e fiquei espantada como sua advertência é atual. Ah, se tivéssemos ouvido seus conselhos… Este texto foi escrito às vésperas da aprovação da Lei da Anistia, em 1979, uma lei que não puniu os militares como outros países e cujos efeitos […]

Cynara Menezes
05 de maio de 2017, 17h35
darcyjango

(Darcy Ribeiro ao lado de João Goulart. Foto: arquivo FunDar)

Li este texto escrito pelo antropólogo e político Darcy Ribeiro, grande inspirador deste blog, e fiquei espantada como sua advertência é atual. Ah, se tivéssemos ouvido seus conselhos… Este texto foi escrito às vésperas da aprovação da Lei da Anistia, em 1979, uma lei que não puniu os militares como outros países e cujos efeitos pagamos até hoje. Leiam, dá vontade de chorar diante da situação em que nosso amado Brasil se encontra.

***

Réquiem, por Darcy Ribeiro*

Não nos esqueçamos que este é um tempo de abertura. Vivemos sob o signo da anistia que é esquecimento, ou devia ser. Tempo que pede contenção e paciência. Sofremos todo ímpeto agressivo. Adocemos os gestos. O tempo é de perdão.

Esqueçamos completamente, soterremos no fundo do jazigo dos olvidos eternos os subversivos de 1964 que conspiraram e urdiram o golpe, comandados por um adido militar norte-americano.

Esqueçamos os políticos de então, tão cheios de tão extremado amor pela Constituição e pela rotatividade do poder que só falavam da guerra revolucionária e da marcha do governo para o desgoverno e o continuísmo.

Esqueçamos, sobretudo, os brasileiros que pediram e obtiveram intervenção estrangeira. Primeiro, de ricos dinheiros para o suborno eleitoral e o custeio da campanha antigovernamental. Depois, de homens, de armas e de gêneros para garantir o êxito da empreitada golpista.

Esqueçamos os torturadores, os violentadores, os sequestradores, os assassinos que dilaceraram corpos, arrombaram mulheres, empalaram homens, mataram e esconderam os corpos de tantos pais e filhos de muita gente que aí está chorando e procurando os cadáveres para enterrar.

Esqueçamos os censores que estiveram guardando como cães ferozes a inteligência brasileira para que ela não gemesse nem balisse sequer de horror pelo que via, nem de solidariedade pelos que sofriam.

Esqueçamos os juristas pressurosos, sobretudo os velhos liberais, tão eloquentes antes, na defesa das liberdades, como coniventes depois na liquidação delas e na partição do espólio de cargos e proventos.

Esqueçamos tudo isso, mas cuidado! Não nos esqueçamos de enfrentar, agora, a tarefa em que fracassamos ontem e que deu lugar a tudo isto. Não nos esqueçamos de organizar a defesa das instituições democráticas contra novos golpes militares e civis para que em tempo algum do futuro ninguém tenha outra vez de enfrentar e sofrer, e depois esquecer os conspiradores, os torturadores, os censores e todos os culpados e coniventes que beberam nosso sangue e pedem nosso esquecimento.

*No livro Ensaios Insólitos, L&PM, 1979. Pode ser baixado gratuitamente aqui.

 


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