Socialista Morena
Cultura, Politik

Menos Olavo de Carvalho, mais Vargas Llosa: dicas de leitura para jovens de direita

Uma mini-lista de livros para o jovem liberal (no sentido brasileiro do termo) não perder tempo com autores insignificantes

MARIO VARGAS LLOSA EM 1997, EM MADRI. FOTO: MORGANA VARGAS LLOSA
Cynara Menezes
06 de junho de 2016, 18h31

Eu não tenho absolutamente nada contra as pessoas de direita, juro. Já falei aqui e repito que ser de direita ou de esquerda são apenas formas de ver o mundo e cada um tem a sua. Obviamente não tolero a extrema-direita, mas aí é outro papo. O que me incomoda mesmo no embate com os jovens de direita no Brasil é –me desculpem– a falta de leitura de vocês, o pouco ou nulo preparo para um debate de ideias, que é o que há de mais fascinante na política. É preciso respeitar o opositor, mas para isso é preciso que o opositor se faça respeitar.

Não há como debater política com gente que só leu Olavo de Carvalho na vida ou que alimenta seu intelecto com a revista Veja e seus colunistas. Não dá para discutir com gente que baseia seu discurso contra a esquerda e o socialismo nas bobagens destes guias politicamente incorretos para tolinhos. É impossível travar um duelo com alguém que só cita Ludwig von Mises, um autor distante da realidade brasileira, cujo valor é questionado pelos próprios liberais (e que, vamos falar a verdade, muitos nem mesmo leram). Vocês podem mais, reaçada! Que tal contribuir para elevar o nível do debate nas redes sociais?

É chato, para a esquerda, ficar lendo o tempo todo coisas como “Vai para Cuba”, “Vai para a Coreia do Norte”, “chola mais”, “aceita que dói menos”, “me diga um país onde o socialismo deu certo”, “não sei o que da Venezuela” e outras frases que já lemos um milhão de vezzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzes. O jovem brasileiro é inteligente, seja de esquerda ou de direita. Mas se esforcem mais, não aceitem formar seu pensamento pela diluição vinda da internet ou por apresentadores de televisão sem estofo. Coxinha, o nome já diz, tem que ter recheio!

Numa discussão, é importante possuir repertório. E só se consegue repertório com leituras. Bons livros de autores variados; antigos, mas também recentes. É importante conhecer a cabeça de pensadores atuais. Fiz uma mini-lista de leituras para o jovem liberal (no sentido brasileiro do termo) e para curiosos de qualquer ideologia, que pode ser ampliada no futuro. Espero que curtam.

scruton

Como Ser Um Conservador, Roger Scruton (Record) – O britânico Roger Scruton é considerado uma das grandes figuras do conservadorismo moderno. Neste livro, o ensaísta elucida a visão conservadora sobre o nacionalismo, o socialismo, o capitalismo, o ambientalismo… Melhor ainda se acompanhado de outro clássico do autor, O Que É Conservadorismo (É Realizações), e de um livro que certamente dará a você, jovem reaça, argumentos muito mais profundos para debater com seus amigos esquerdopatas: Pensadores da Nova Esquerda (É Realizações), onde Scruton analisa, entre outros, Sartre, Galbraith e Foucault.

sabres

Sabres e Utopias, Mario Vargas Llosa (Objetiva)  O Nobel peruano Mario Vargas Llosa é um dos meus romancistas preferidos de todos os tempos e, sem dúvida, o liberal que eu mais respeito no mundo. Neste livro de ensaios, Vargas Llosa expõe um pouco de seu pensamento político, ferozmente crítico das ditaduras de direita e de esquerda. Perfeito para o direitoso que gosta de atacar Hugo Chávez e Fidel Castro com sustança e não com clichês. Além de tudo, Vargas Llosa é um cara de direita que não entra numas de ser pudico em termos amorosos.

hitchens

Cartas a Um Jovem Contestador, Christopher Hitchens (Companhia das Letras) – Morto precocemente aos 52 anos em 2011, o autor que explodiu com Deus Não É Grande em 2007 foi, como muitos conservadores famosos, marxista antes de guinar para a direita. Conservou da fase esquerdista o profundo ateísmo. Neste livro, Hitchens escreve para um fictício jovem e debate ideologia com ele, como todos nós poderíamos fazer com inteligência e educação. Generoso, o escritor fornece aos leitores os nomes que influenciaram seu pensamento e “ensina” como ser um bom polemista. Infelizmente o livro está esgotado na editora, só tem em sebo e custa uma nota.

lanterna

A Lanterna na Popa, Roberto Campos (Top Books)  O matogrossense Roberto Campos faria 100 anos em 2017 e é considerado o maior dos liberais brasileiros. Mas quem o lê hoje em dia? Demonizado pela esquerda, que o chamava de Bobby Fields, por sua fama de entreguista e amigo dos EUA, hoje, com a decadência do pensamento de direita no país, Roberto Campos vira um gigante mesmo aos olhos de quem o desprezava. Não tem como comparar o nível dele a um Constantino da vida. Este catatau de 1500 páginas é sua autobiografia e foi best-seller quando foi lançado, não só pelas histórias e visão do autor como por sua prosa fluida e bem-humorada. Um clássico.

bayly

Meu autor reaça favorito: o peruano Jaime Bayly. Nunca foi traduzido no Brasil, uma pena. Bayly é um ótimo escritor. Publicou 16 romances, vários deles de teor homoafetivo, e sempre esteve envolvido com política. É descaradamente escravo do dinheiro e vive em Miami, de onde transmite seu programa de entrevistas. Para quem entende bem o castelhano, recomendo perder um tempo lendo suas deliciosas crônicas no jornal Peru 21. Nenhum dos bufões da direita brasileira chega ao chulé de Jaime Bayly, que ainda por cima é assumidamente bissexual. Ele já quis ser candidato a presidente do Peru (e ainda quer), mas os políticos tradicionais de lá não lhe deram abrigo partidário. Pupilo de Vargas Llosa, hoje é inimigo ferrenho do mestre. Rancoroso, é capaz de apoiar até a esquerda do que um de seus muitos desafetos. Por exemplo: nesta eleição, prefere Keiko Fujimori a Pedro Pablo Kuczynski e vive dizendo que Vargas Llosa “exagera” nas críticas à filha de Alberto Fujimori, o ex-ditador peruano. Brilhante, polêmico, hilário, loco como una cabra. Este é um escritor reaça com quem adoraria dividir uma cerveja.

 

 


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(11) comentários Escrever comentário

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Manoel em 12/09/2017 - 10h06 comentou:

E para jovens de esquerda?

Responder

    Cynara Menezes em 12/09/2017 - 11h20 comentou:

    na tag #literatura tem vários

Rubily F. Souza em 22/10/2017 - 00h45 comentou:

Parabéns, Cynara. Sou de direita, gosto demais do professor Olavo, que é um dos maiores intelectuais brasileiros, desde Mario Ferreira dos Santos e Gustavo Corção. Mas achei que seu artigo pegou leve com quem não é esquerda. É verdade, Roger Scruton e Roberto Campos são nomes de peso. Dos pensadores da esquerda, eu respeito gigantes como György Lukacs e Theodor Adorno, que estou começando a ler. Enfim, é possível ler e aprender com ambos os lados, pois antes de mais nada: conhecimento é poder. Não se pode contestar um ou outro lado, sem primeiro ler vários (e bons autores), tanto de esquerda, como da direita.

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ALEXANDRE LAGO em 13/01/2018 - 20h48 comentou:

GOSTEI MUITO DO TEXTO. MUITA LUCIDEZ E EQUILÍBRIO.

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Apropinquante em 02/06/2018 - 19h47 comentou:

Pessoas de esquerda lêem tanto quanto de direita, mas alguns escritores da esquerda são obrigatórios em muitos cursos e de direita não. Não são os livros que produzem ideias, mas as pessoas que os lêem. Quem me fez de direita, foram as pessoas de esquerda.

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Agathodaimon em 14/07/2018 - 12h34 comentou:

Faltou O Liberalismo – Antigo e Moderno, do José Guilherme Merquior, reeditado pela É Realizações. Há um grande filósofo britânico, Michael Oakeshott, que teve uma coletânea de textos publicada aqui no Brasil, sob o título de Conservadorismo, pela editora Ayine, entre eles, O racionalismo na política e Ser conservador, de leitura imprescindível. O Isaiah Berlin também é importantíssimo e possui várias obras traduzidas pela Companhia das Letras e outras editoras. São esses três autores que indico para quem se interessa em ampliar seu repertório intelectual e debater ideias em alto nível.

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Elias Colissi em 26/08/2018 - 20h19 comentou:

Um filósofo obrigatório pra qualquer pessoa que se diga “de direita” é Eric Voegelin.

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Raphael Basso em 30/03/2019 - 17h13 comentou:

A Cynara não tolera os anarcocapitalistas?
😋

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Francisco em 15/05/2019 - 00h59 comentou:

Sou de centro direita. O maior problema da direita é o pouco interesse dos seus membros na política, se resume a ser antipetista e ponto. Há muita divergência entre conservadores e liberais, ausência de partidos declaradamente de direita, congressos, etc. Ano que vem tem eleições municipais e a esquerda vai se articular e ganhar espaço…

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Paulo Guarnieri em 09/06/2019 - 19h09 comentou:

Até pensei em adquirir um livro do Roger Scruton, mas dai me lembrei que o Constantino tava propagandeando esse livro. Se ele leu e continua um retardado, achei que não iria me acrescentar.

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José Almeida em 24/06/2019 - 09h58 comentou:

Realmente, não dá pra aguentar coxinha sem recheio.

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