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Direitista Macri também prometeu isenção de imposto de renda para os pobres –e não cumpriu

Bolsonaro faz a mesma promessa que seu ídolo não cumpriu, pelo contrário: mais trabalhadores argentinos pagam impostos do que antes

Macri e seu parça Temer. Foto: Alan Santos/PR
Martín Fernández Lorenzo
14 de outubro de 2018, 14h23

Quando, no ano passado, descobri a campanha que o MBL (Movimento Brasil Livre) fez enaltecendo o presidente argentino Mauricio Macri, achei, a princípio, que era uma piada dos petistas. Como eles podiam compartilhar uma série de mentiras como aquelas?

A pós-verdade como método de campanha tem sido um instrumento mais do que eficaz. As “notícias” que o MBL compartilhava não eram apenas absolutamente falsas, eram ainda mais positivas do que o próprio governo argentino transmitia. Nem o macrismo foi tão otimista a respeito de si mesmo como o MBL. E olha que estamos falando de um governo de mentirosos.

Ao ouvir o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro declarar que “os trabalhadores não vão pagar imposto de renda” e que “não perderão o bolsa-família”, imediatamente me lembrei do spot de campanha de Mauricio Macri. Idêntico.

O que aconteceu quando Macri chegou ao governo foi exatamente o contrário: hoje, mais trabalhadores argentinos pagam impostos do que em 2015 e não apenas sofreram cortes em todos os programas sociais do governo Cristina Kirchner, como também cortaram as pensões por invalidez e aposentadorias. Mas Bolsonaro, a exemplo do MBL, tentou fazer com que os brasileiros acreditassem no oposto em seu twitter: que Macri reduziu os impostos. Isso é uma mentira.

Macri não só não reduziu os impostos como as contas de energia elétrica e do gás estão pela hora da morte. O poder aquisitivo dos argentinos caiu mais do que o de qualquer trabalhador da América do Sul.

Existem diferenças visíveis entre Macri e Bolsonaro, mas no fundo seus discursos são comparáveis ​​e têm um ponto em comum: apontar o dedo para o outro. Assim como no Brasil é o ódio do PT que motiva o eleitor de Bolsonaro, na Argentina eles venceram a eleição com o mesmo método. No Brasil é “tudo menos o petismo”, na Argentina era “tudo menos o kirchnerismo”.

Os marqueteiros de ambos copiaram a técnica de repetição idealizada por Goebbels, o propagandista de Hitler. São retóricas diferentes, mas geram os mesmos resultados de acordo com a cultura e a idiossincrasia de cada país. Enquanto Bolsonaro apoia abertamente a ditadura, Macri considera o período uma “guerra suja”, um termo nefasto para a nossa sociedade, porque embora não a eleve, chamar 30 mil civis desaparecidos de “guerra suja”, como se houvesse lados igualmente armados em uma batalha, é um aceno indecente às forças armadas.

Ao ouvir Bolsonaro declarar que “os trabalhadores não vão pagar imposto de renda” e que “não perderão o bolsa-família”, imediatamente me lembrei do spot de campanha de Macri. Mas os impostos aumentaram e os projetos sociais foram cortados

Não é por acaso que eles aprovaram a lei de 2×1 para crimes contra a humanidade, que estende aos criminosos da ditadura a regra de que, após dois anos de prisão sem condenação, são computados em dobro os dias em que se passou na prisão. Assassinos e torturadores como Brilhante Ustra, ídolo de Bolsonaro, já desfrutam desse benefício em suas casas.

Sem contar que a família de Mauricio Macri se beneficiou financeiramente dos anos de chumbo. No início da ditadura argentina, a família Macri possuía sete empresas; quando a democracia retornou, no ano de 1983, tinha 47. Ou seja, o discurso de Bolsonaro é explícito e violento e o de Macri não é, mas os ideais não diferem.

Diante das críticas que recebeu por produzir um spot publicitário favorável a ele em uma pizarria como se fosse algo espontâneo, o presidente citou em seu twitter um texto que alguém descobriu ser quase idêntico ao de Adolf Hitler em Mein Kampf, onde pede para “isolar” aqueles que pensam diferente.

Macri não sai hoje para apoiar publicamente Bolsonaro pelo repúdio mundial que o brasileiro tem, mas não há dúvida de que ele é seu candidato, já que tem uma profunda rejeição ao PT. Ele foi o primeiro presidente a legitimar Temer como par. Se Bolsonaro for eleito presidente, os brasileiros viverão o que os argentinos vivem hoje, ou muito pior.

Se o fascista chegar ao poder, vai repetir incansavelmente que “o desastre do PT” é o que justifica uma recessão na economia, o aumento de impostos, a desvalorização da moeda, a fuga de capital, o retorno ao FMI, e um claro aumento da pobreza, e em que os empresários elitistas podem acessar múltiplas facilidades, como se estivessem caçando em um zoológico.

Se Bolsonaro for eleito presidente, os brasileiros sofrerão em sua própria carne o maior revés económico desde o retorno à democracia. Vão ter saudades até de Temer

Por que asseguro isso? Porque o apoio a Bolsonaro entre o empresariado é o mesmo que o presidente argentino tinha na época, do establishment econômico à mídia hegemônica. Uma receita infalível. Hoje, quando tanto Bolsonaro quanto seus filhos negam todas as supostas “notícias falsas” e alegadas difamações sobre o que eles fariam no poder, a última peça de Macrismo pra o segundo turno vem à mente: a campanha do medo.

Esta campanha foi encomendada para ironizar, em todas as redes e  no whatsapp, as previsões da oposição sobre tudo de ruim que Macri iria concretizar no poder. Seus eleitores acharam engraçado, mas tudo que estava ali foi cumprido e até mais do que o previsto.

 

Outra semelhança nas campanhas tem sido a divisão da oposição e o voto em branco. A Frente de Esquerda Argentina chegou a convocar os argentinos para votar em branco no segundo turno.

Eu não considero que a sociedade brasileira seja tão fascista quanto a Argentina oligárquica, mas a manipulação de um aparato grotesco e gigantesco de desinformação em vários canais e redes impuseram um sentimento desprezível como um ideal: ódio.

Macri e Bolsonaro são personagens com variadas características, mas suas políticas de fome, miséria e violência são as mesmas. Se Bolsonaro for eleito presidente, os brasileiros sofrerão em sua própria carne o maior revés económico desde o retorno à democracia. Vão ter saudades até de Temer. As ditaduras entenderam que é muito mais efetivo induzir o povo a embarcar nelas do que impor um regime de força pela força.

 


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