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Editora Abril dá calote em demitidos, denunciam funcionários

Demitidos divulgam comunicado em que afirmam ter sido deixados sem pagamento, enquanto a família Civita preserva seu patrimônio

A vida imita a arte: o jornalista Peninha em uma das vezes que foi demitido pelo Tio Patinhas
Da Redação
20 de agosto de 2018, 17h29

É a velha história: o rico no Brasil perde tudo, mas não perde o iate. Não poderia ser diferente com a editora Abril, que demitiu cerca de 800 pessoas, 150 delas jornalistas, antes de entrar com o pedido de recuperação judicial, na semana passada. Nesta segunda-feira, os demitidos soltaram um comunicado em que afirmam ter sido deixados sem pagamento, enquanto a família Civita preserva seu patrimônio, como o repórter Peninha dos gibis do tio Patinhas que fizeram a fortuna da editora Abril.

“Deixemos clara nossa profunda indignação com o fato de a família proprietária da Editora Abril –que durante décadas acumulou com a empresa, e com o nosso trabalho, uma fortuna na casa dos bilhões de reais– tentar agora preservar seu patrimônio e não querer usar uma pequena parte dele para cumprir a obrigação legal de nos pagar o que é devido”, dizem os ex-funcionários.

O Comitê dos Jornalistas Demitidos da Abril foi criado em assembleia realizada na última sexta-feira, 17 de agosto, na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, no centro da capital paulista. Entre outras ações, também foram aprovadas mobilizações conjuntas com as demais categorias afetadas pelas demissões em massa na Abril, além da tomada das medidas jurídicas cabíveis pelo SJSP.

Confira a íntegra do comunicado:

“Abril demite e não paga

Posição oficial dos jornalistas dispensados pela Editora Abril

Na manhã de 6 de agosto, os funcionários da Editora Abril foram surpreendidos pelo fechamento de revistas do grupo e pela dispensa em massa de jornalistas, gráficos e administrativos. Nos dias seguintes, os números estavam em torno de 800 profissionais. Ao todo, 11 títulos foram encerrados. Na vida particular dos empregados da Abril, as medidas têm sido devastadoras. A empresa desligou de forma injusta, sem negociação com as entidades de representação trabalhista e sem prestar esclarecimentos oficiais. Em 15 de agosto, nove dias após o início das demissões, a Abril entrou com pedido de recuperação judicial (acatado pela Justiça) incluindo nesse processo todas as verbas rescisórias dos dispensados e também a multa de 40% sobre o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Ou seja, um dia antes do prazo final para indenizar integralmente os ex-funcionários, a empresa realizou a manobra, fazendo crer que as duas ações (demissão em massa e pedido de recuperação judicial) foram arquitetadas em conjunto, tendo como um dos seus objetivos não pagar os empregados.

Deixemos clara nossa indignação com a família dona da Abril –que durante décadas acumulou com a empresa, e com o nosso trabalho, bilhões de reais– tentar preservar seu patrimônio e não querer usar uma pequena parte dele para cumprir a obrigação legal de nos pagar

Além disso, suspendeu a prestação de contas (antiga homologação), não liberou a chave para o saque do FGTS e as guias do seguro-desemprego, deixando os demitidos sem nenhuma cobertura financeira. Quando tentam contatar o RH, recebem informações contraditórias – portanto, os demitidos permanecem no escuro.

A Editora Abril há muito vem descumprindo outros compromissos com as mulheres e os homens que se doaram e participaram bravamente de um esforço cotidiano para que a empresa se recuperasse da crise pela qual enveredou. Um exemplo: os profissionais desligados em 2017 e no começo deste ano viram suas indenizações sendo pagas em parcelas, algo considerado ilegal. Com a recuperação judicial, eles tiveram as parcelas finais congeladas. Assim, pessoas que não mantêm vínculo com a empresa há pelo menos sete meses se encontram listadas como credoras e impedidas de receber o que resta. Foram também atingidos fotógrafos, colaboradores de texto, revisão e arte, que, igualmente, não verão o seu dinheiro.

Deixemos clara nossa profunda indignação com o fato de a família proprietária da Editora Abril – que durante décadas acumulou com a empresa, e com o nosso trabalho, uma fortuna na casa dos bilhões de reais – tentar agora preservar seu patrimônio e não querer usar uma pequena parte dele para cumprir a obrigação legal de nos pagar o que é devido.

Parte da crise, sabe-se, é global e impactou a imprensa do mundo inteiro. Outra parte deve-se ao fato de a Abril ter perdido o contato com a pluralidade de opiniões e se afastado da diversidade que caracteriza a população brasileira

Por fim, é preciso considerar o prejuízo cultural da medida. Com o encerramento dos títulos Cosmopolitan, Elle, Boa Forma, Viagem e Turismo, Mundo Estranho, Guia do Estudante, Casa Claudia, Arquitetura&Construção, Minha Casa, Veja Rio e Bebe.com, milhares de leitoras e leitores ficaram abandonados. Para a democracia brasileira e para a cultura nacional, a drástica medida representa um enorme empobrecimento. Morrem títulos que, ao longo de décadas, promoveram a educação, a saúde, a ciência e o entretenimento; colaboraram para a tomada de consciência sobre problemas da sociedade; formaram cidadãos e contribuíram para a autonomia e o desenvolvimento pessoal de todos os que liam e compartilhavam a caudalosa quantidade de conteúdos produzidos pelas revistas impressas, suas versões digitais ou redes sociais. Nada foi colocado no lugar desses veículos, abrindo enorme lacuna na história da comunicação no nosso país.

Parte da crise, sabe-se, é global e impactou a imprensa do mundo inteiro. Outra parte deve-se ao fato de a Abril ter perdido o contato com a pluralidade de opiniões e se afastado da diversidade que caracteriza a população brasileira. Uma gestão sem interesse no editorial sucateou as redações, não soube investir em produtos digitais e comprometeu a qualidade de suas publicações sob o pretexto de “cortar custos”. Além disso, deu ouvidos apenas a executivos e consultorias, sem levar em consideração os profissionais da reportagem e o público.

Neste momento difícil para toda a nação, com o desemprego se alargando, nós, jornalistas demitidos, estamos organizados e contando com o apoio do Sindicado dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP). Também estamos unidos às demais categorias – gráficos e funcionários administrativos. É uma demonstração de tenacidade na defesa da integralidade dos nossos direitos e um sinal de prontidão para enfrentar as necessárias lutas que virão. Não pedimos nada além do que o nosso trabalho, por lei, garantiu.

São Paulo, 20 de agosto de 2018

Comitê dos Jornalistas Demitidos da Abril”

Com informações do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo

 


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Sergio em 20/08/2018 - 18h14 comentou:

É a máxima de quem está no poder. Aliás, quanto a Abril recebeu de verba publicitária de empresas públicas? E a Globo? E o Facebook? O erro já começa por aí! Vamos em quase 24 anos de governos PSBDebistas, Petistas e MDbebistas, e nenhum deles mexeu nesse queijo. Todos continuam pedindo a bênção da Globo.

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Paulo em 20/08/2018 - 19h18 comentou:

Eu seria considerado muito fdp se dissesse que não tô nem aí? Principalmente qt aos jornalistas. Fodam-se!!

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Priscilla em 20/08/2018 - 22h16 comentou:

Seria, não. É.

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Gleice em 20/08/2018 - 22h34 comentou:

Já que você perguntou, vou responder, eu considero sim
Muito fdp quem se fica satisfeito ou indiferente com uma demissão em
Massa, seja de classe trabalhadora for.

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Sergio em 21/08/2018 - 09h57 comentou:

Paulo, não é por aí não. Há pessoas que são honestas, que dependem desse salário. Não apenas jornalistas “fdp” são mandados embora. Mas, há todo o operacional. Gente que vive literalmente do salário. Sem salário, não há como pagar as contas mais básicas. Não é fácil. Nessas horas, é que que tem que se pensar nessas pessoas. Ampará-las.

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Claudia em 27/08/2018 - 07h12 comentou:

Ora, ora, ora…. Os jornalistas demitidos foram procurar abrigo no sindicato, é? Mas sindicatos não são compostos de vagabundos que tiram o suado dinheirinho do trabalhador? Não são formados por espiroquetas vermelhos? Pensei que, no mundo civilizado dos jornalistas paulistas, tudo era negociado entre patrões e empregados, sem a participação dos vagabundos de sindicato….

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LUIZ HORTENCIO FERREIRA em 27/08/2018 - 15h53 comentou:

Realmente existe muitos que não são jornalistas que estão neste barco e vão sofrer! Agora jornalistas que me desculpem, mas contribuíram de uma forma ou outra para disseminação e aprovação destas reformas neoliberais, como a trabalhista, que agora vão ter que conviver com isso! Infelizmente!

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SONIA MARIA ROSSI CARUZO em 30/08/2018 - 14h17 comentou:

Pois é funcionários pedindo ajuda ao sindicato? Ah tá

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