Socialista Morena
Cultura

Elogio ao loser

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, escreveu nos anos 20 Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, no Poema em Linha Reta. Nos anos 1950, tudo indica que foi Charlie Schultz quem lançou a gíria “loser” (perdedor) a partir de uma tira de seus quadrinhos Peanuts (Snoopy no Brasil). “Because […]

Cynara Menezes
11 de novembro de 2012, 21h09

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, escreveu nos anos 20 Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, no Poema em Linha Reta. Nos anos 1950, tudo indica que foi Charlie Schultz quem lançou a gíria “loser” (perdedor) a partir de uma tira de seus quadrinhos Peanuts (Snoopy no Brasil). “Because you’re a loser, Charlie Brown“, diz a gozadora Lucy ao amigo, quando ele pergunta por que sempre caía no mesmo velho truque dela: derrubá-lo, puxando a bola de futebol americano que iria chutar.

Ou pode ter sido o contrário: Schultz popularizou o termo “loser“, que os estudantes começavam a usar como gíria. Não importa. Se até então a palavra só tinha o significado de contrário a vencedor,  a partir dessa época passou a designar um determinado tipo de pessoa nos Estados Unidos: para alguns, um infeliz digno de pena, sem sorte, sem valor. Mas isso é dizer pouco do loser. É verdade que ele leva a pior algumas vezes, mas não é apenas o cara que não ganha, e sim o que não se importa em ganhar. Ao contrário do que muitos pensam, o loser pode chegar lá – mas o que o moveu não foi chegar.

Adoráveis losers como Charlie Brown sempre estiveram no imaginário americano, para causar conforto ou desprezo em seus conterrâneos. Os personagens de Woody Allen, dos irmãos Coen, principalmente O Grande Lebowsky, Robert Crumb ele próprio e seus quadrinhos, um pouco Homer Simpson também, num sentido mais americano médio, e Forrest Gump, o loser lúdico. Não lembro de mulheres losers. Elas, ainda que belas e eles nem tanto, são as que se apaixonam pelos losers, o loser é um conquistador à sua maneira, tem um não sei quê de dar vontade de botar no colo e fazer cafuné.

Há um charme qualquer em quem se move pela vida cheio de dúvidas, indecisões, questionamentos e incertezas, mais do que com ambição e vaidade. Os brilhos dos ouros encantam alguns, mas não todos. Há gente que percebe o passageiro disso tudo e se distrai olhando o horizonte, cheirando o café ou andando na areia úmida. Perder ou ganhar está mais no olhar do outro do que no nosso próprio. Para mim é um vencedor aquele que chora, vacila, teme, cai e corajosamente admite e novamente ri, avança, supera e levanta. A vida é mais verdadeira neles.

Falei que não lembrava de mulheres losers, eu mesma sou uma loser. Fiz escolhas na vida sempre ouvindo o coração, e ele sempre acertou por onde me guiou. O coração tem uma campainha para avisar dos perigos; o bolso, não. Uma vez me falaram de um ditado persa que diz assim: “É nos lugares pequenos que se fazem coisas grandes”. Serve para mim. Não preciso de muito dinheiro, graças a Deus. E não me importa, diriam dois filósofos daqui mesmo.

Às vezes fico pensando que os losers estão acabando, que é algo démodé não desejar conquistar tanto nem tantas coisas, que é coisa do passado querer ir mais ao sabor do vento do que com a trilha toda já predestinada ou almejada. Que nessa vida só há lugar para os vencedores. E às vezes penso justamente o contrário, que tantas crises econômicas das quais eu e metade do mundo não entendemos patavina, vieram para ficar, que uma hora o troço será tão vertiginoso que vai tudo começar a cair. Quanto mais alto se sobe, mais feio é o tombo. Quem será o winner e quem será o loser então, Charlie Brown?

(Originalmente publicado no site de CartaCapital em 01/12/2011)


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
(7) comentários Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Leandro em 12/11/2012 - 00h34 comentou:

♪ Beautiful loser, read it on the wall
♪ And realize, you just can't have it all
♪ Just can't have it all, just can't have it all
♪ Oh, oh… Can't have it all
(Bob Seger)

Responder

    Luiz em 12/11/2012 - 04h42 comentou:

    a iincrível,magnífica,suprema escritora e pensadora Hilda Hillst,que frequentei algumas vezes em sua casaem Jundiai foi uma champion loser….procure ler algumas coisas dela.Os livros de sacanagem que foi obrigada a escrever por pura sobrevivencia,mas que o seu talento e sensibilidade tranformou os xxx em o x das questões sexuais……_

    Allana em 12/11/2012 - 13h52 comentou:

    Yes!! Hilda Hilst era loser total!! Bem lembrado!

José Antõnio em 12/11/2012 - 12h51 comentou:

O dia em que as mulheres pararem de tratar os losers como párias, como seres assexuados e indgnos da sua atenção, ai sim poderemos ter alguma esperança.

Responder

Doce Camille em 12/11/2012 - 13h16 comentou:

Cynara, sou uma loser. Feliz com minhas escolhas. Sofro com algumas, sorrio com outras e assim vivo, vivendo, à margem… sempre na contramão. O que me faz feliz? Deixar alguém bem. Adorei seu texto e deixo aqui uma abraço afetivo e meu carinho por ele.

Responder

Zeca Moraes em 12/11/2012 - 13h17 comentou:

Lindo texto, Cynara. E lembro mais, lembro que o conceito de "loser" é não mais que o complemento e antônimo do "winner", a expressão do modelo individual capitalista e especialmente do neoliberal. Winner é o yuppie dos anos 80, que ganha seu primeiro milhão de dólares antes dos 30 anos, ainda que ao custo de extirpar de si qualquer tipo de escrúpulo e humanidade. E o faz orgulhosamente. É um tremendo workaholic, não menos orgulhosamente. Tem um caríssimo SUV blindado, um verdadeiro tanque de guerra, 4×4, que passa real ou metaforicamente por cima do que, ou ainda melhor, de quem quer que seja. Não tem amizades, tem networking. É casado e tem filhos, mas apenas como conveniência social. (ambos se traem, mas fingem que não vêem a traição do outro… se porventura for inevitável admitir, mostram-se escandalizados ou arrependidos, conforme a conveniência, e "salvam" o casamento) Winner, loser… são as escolhas que fazemos na vida. Feliz? Infeliz? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Responder

Lucila em 26/04/2014 - 19h12 comentou:

Interessante. Nunca me preocupei, de verdade, em ser uma loser (exceto por alguns filmes da sessão da tarde e algumas canções de rock, nunca fui muito influenciada pela cultura norte americana, ao menos, conscientemente). Mas sempre me preocupei em ser produtiva. As pessoas com as quais eu me relacionei profissionalmente nunca entenderam bem essa minha postura, de ser eficiente e eficaz, independente da exposição e do retorno financeiro. Quando precisei parar minha atividade profissional, foi com a mesma determinação que eu empenhava no trabalho. Muitos, por eu abandonar um emprego público, sonho dourado de dez entre dez aspirantes da vitória, acharam que eu tinha perdido a sanidade mental. Mas abandonei pelo mesmo motivo que me dedicava muito, para ser produtiva, agora, na função de auxiliar alguém que eu me importava a se superar. Não é fácil repensar/reduzir/parar/recomeçar, mas, como diz uma canção que adoro, "o glamour tá na lida/ e não me custa nada/só me custa a vida".

Responder

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Politik

Nise, o gato e eu. Por José Carlos Peliano


O economista José Carlos Peliano conta com exclusividade para o blog sobre sua amizade com a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), que passou à história por se rebelar contra as “terapias” agressivas que eram…

Politik

Coisas que tenho aprendido sobre o tempo


A primeira coisa que eu descobri é que o tempo é igual ao joelho. Com sorte, você não vai se lembrar dele até os 40 anos, mais ou menos. Durante a infância e a juventude,…