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Direitos Humanos

Em vez de Trump, direita dos EUA culpa Obama pelo racismo crescente no país

Quando é que a direita terá coragem de assumir a culpa pelos próprios erros? Nunca. Melhor culpar o negro. Ou o pobre. Ou o petista. Ou o nordestino

Obama visita famílias de New Orleans em 2015. Foto: Pete Souza/Casa Branca
Cynara Menezes
04 de junho de 2018, 16h06

Lá como aqui: em vez de “culpa do PT”, ou “culpa do Lula”, é “culpa do Obama”. Nos EUA, onde desde que o reaça Donald Trump foi eleito as denúncias de racismo, intolerância e xenofobia só fazem aumentar, a direita decidiu culpar… o ex-presidente Barack Obama, que é negro. Esqueçam as frases de Trump incentivando o supremacismo branco e o preconceito descarado contra mexicanos e imigrantes em geral. A culpa é de Obama.

Na televisão, comentaristas de direita atribuem a Obama ter “dividido” o país e “exacerbado” as diferenças entre as raças. Onde é que nós já vimos isso antes? “O que está sendo ignorado aqui é o papel que Barack Obama jogou nisso tudo. Você não simplesmente passa de eleger o primeiro presidente negro para eleger Donald Trump. Houve algo entre essas duas coisas”, disse o ex-senador republicano e duas vezes candidato a presidente Rick Santorum na CNN no domingo à noite.

Na televisão, comentaristas de direita atribuem a Obama ter “dividido” o país e “exacerbado” as diferenças entre as raças. Onde é que nós já vimos isso antes?

“Muitas, muitas, muitas pessoas viram que Barack Obama estava exacerbando ainda mais o racismo neste país”, continuou Santorum, para pasmo de uma ex-assessora de Obama também presente, Karine Jean-Pierre. “Como? O que ele fez?”, ela perguntou. “Toda vez que havia uma controvérsia onde alguém ‘de cor’ estava envolvida, ele tomou o lado contra a polícia, várias vezes.”

Da mesma forma que aqui os reacionários fazem perguntas sem sentido como “mas em 13 anos o PT não acabou com a pobreza?”, os direitistas dos EUA cobram Obama por não ter “acabado” com os problemas raciais durante os oito anos em que esteve no poder. Negros de direita como a youtuber e ativista do Turning Point USA (o MBL de lá), Candace Owens, também participam da jogada, culpando o ex-presidente por ter “deteriorado” as relações entre as raças desde que chegou à presidência.

“Eu culpo Barack Obama. Seus oito anos na presidência fizeram um estrago enorme às relações raciais neste país”, disse Candace, uma espécie de Fernando Holiday de saias, à reacionária Fox News, como se antes de Obama o país fosse um paraíso racial. Segundo a youtuber, a quem Donald Trump recebeu pessoalmente na Casa Branca e a quem considera “uma pensadora muito inteligente”, as mortes cotidianas de negros pela polícia são um assunto “trivial”.

Até mesmo o New York Times, jornal considerado “liberal”, postou um tweet culpando Obama pelas tensões raciais no país, que apagou após acusações de falsa simetria. “Obama ofereceu alívio. Trump solta bombas verbais. Mas ambos foram acusados, em um país polarizado, de fazer as tensões raciais piorarem”, escreveu o jornal na chamada para uma matéria sobre as diferenças entre os estilos de ambos presidentes tratarem a questão racial. O termo “polarização”, aliás, parece ter virado uma febre, tanto quanto aqui.

Durante a presidência, Obama era tão frequentemente “culpado” por tudo que até gravou um quadro cômico onde ele mesmo dizia a frase tão repetida país afora quando qualquer coisa ruim acontecia: “Thanks, Obama”.

No ano passado, após a passeata neonazi de Charlottesville, em vez de apontar o dedo para as frases supremacistas de Trump, a direita também preferiu jogar tudo nas costas do negro. “Foi Obama quem fez as relações raciais no país retrocederem 100 anos”, disse um reaça ao portal Vox. Uma coordenadora da campanha de Trump em Ohio chegou a dizer que antes de Obama “não havia racismo” nos EUA.

Exatamente como fazem aqui com Lula em relação a Bolsonaro, Obama é considerado “culpado” até mesmo pela eleição de Trump, por ter “pavimentado o caminho” dele ao poder, pregando a “divisão” no país entre ricos e pobres, negros e brancos. As pesquisas de opinião, claro, são usadas para confirmar isso.

Não parece a mídia comercial brasileira atribuindo a Lula e ao PT todas as desgraças de 500 anos de história? “Lula soltou o monstro do ódio”, afirmou um colunista de terceira categoria na revista Época em abril. Em 2016, em O Globo, Cora Ronai vaticinou que foi Lula quem inventou a luta de classes.

Agora mesmo, com a fracassada política de preços da Petrobras sob o comando do tucano Pedro Parente, que causou a greve dos caminhoneiros, a ladainha continua, culpando Lula por ter permitido aos caminhoneiros comprarem caminhões. “Subsídios inflaram a frota de caminhões”, publicou a Folha.

Alexandre Garcia, o ex-porta-voz da ditadura que trabalha como comentarista na Globo, foi pelo mesmo caminho e virou piada nas redes sociais.

Quando é que a direita, brasileira ou norte-americana, terá coragem de assumir a culpa pelos próprios erros? Nunca. Melhor culpar o negro. Ou o pobre. Ou o petista. Ou o nordestino.

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Alexander em 06/06/2018 - 10h39 comentou:

O texto tem meias verdades. A comparação entre os países e os problemas não é direta e fácil, nem mesmo os espectros políticos são os mesmos.

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