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Cultura, Politik

Encontros surpreendentes: Allen Ginsberg & The Clash

É o tipo de coisa que renova minha fé na sincronicidade: estava eu lendo a deliciosa graphic novel Os Beats, biografia dos beatniks com roteiro de Harvey Pekar, quando me deparei com uma informação que tem tudo a ver com esse blog. Sendo tão fã do Clash quanto da geração beat, achei incrível nunca ter […]

Cynara Menezes
17 de dezembro de 2012, 19h57

(Allen Ginsberg, Joe Strummer e Mick Jones do Clash. Foto: Hank O’Neal)

É o tipo de coisa que renova minha fé na sincronicidade: estava eu lendo a deliciosa graphic novel Os Beats, biografia dos beatniks com roteiro de Harvey Pekar, quando me deparei com uma informação que tem tudo a ver com esse blog. Sendo tão fã do Clash quanto da geração beat, achei incrível nunca ter sabido que o poeta Allen Ginsberg (1926-1997) fez alguns trabalhos junto com a banda. Ginsberg contou que estava ouvindo muito punk rock na época e acabou sendo apresentado a Joe Strummer (1952-2002), o líder do Clash, de quem se tornou amigo.

Comunista de pai e mãe, admirador de Che Guevara, a quem dedicou um poema, o poeta beat bem que tentou pertencer a algum tipo de regime de esquerda, que foi conhecer in loco, tanto na América Central quanto no Leste europeu. Acabou sendo expulso de Cuba e da antiga Tchecoslováquia porque era um libertário avant la lettre: homossexual (teve um companheiro por mais de 40 anos), entusiasta do amor livre, da descriminalização da maconha e do pacifismo, obviamente não estava a fim de calar sobre o que pensava em nenhuma parte, muito menos em seu país natal, os Estados Unidos. Ginsberg era a personificação do livre pensador, gente que costuma incomodar governos, não importa a ideologia reinante.

Com The Clash, Allen Ginsberg gravou ao vivo na lendária turnê no Bonds Club em Times Square, Nova York, no ano de 1981,  o poema Capitol Air, acompanhado pela banda, onde ilustra sua ojeriza à tirania, da direita à esquerda. E onde acaba por contar a história do mundo naquele período, com críticas absurdamente atuais ao capitalismo (eu mesma traduzi; se vocês têm sugestões, o original está aqui).

Capitol Air

Eu não gosto do governo de onde vivo
Eu não gosto da ditadura dos ricos
Eu não gosto de burocratas me dizendo o que comer
Eu não gosto de cães da polícia farejando ao redor dos meus pés

Eu não gosto da censura comunista aos meus livros
Eu não gosto das reclamações marxistas sobre minha aparência
Eu não gosto de Castro insultando membros do meu sexo
Esquerdistas insistindo que nós temos a solução mística

Eu não gosto de capitalistas me vendendo Coca gasolina
Multinacionais queimando árvores da Amazônia para fumar
Grandes corporações dominando o pensamento da mídia
Eu não gosto dos top-bananas que estão roubando os bancos da Guatemala

Eu não gosto dos campos de concentração Gulag da KGB
Eu não gosto da dança da morte dos maoístas cambojanos
15 milhões foram mortos pela secretaria de terror de Stalin
Ele matou nossa velha revolução vermelha para sempre

Eu não gosto de anarquistas gritando que o amor é livre
Eu não gosto da CIA, eles mataram John Kennedy
Tanques paranóicos em Praga e na Hungria
Mas eu não gosto da contra-revolução paga pela CIA

Tirania na Turquia ou Coréia em 1980
Eu não gosto da democracia dos esquadrões da morte da direita
Estado Policial Irã Nicarágua Ontem
Laissez-faire por favor, governos, mantenham sua polícia secreta longe de mim

Eu não gosto de supremacistas nacionalistas brancos ou negros
Eu não gosto dos narcos & máfia vendendo heroína
O general que intimida o Congresso com seu paletó de tweed
O presidente erguendo seus exércitos no Leste & Oeste

Eu não gosto da polícia argentina torturando a verdade
O terror do Governo domina as notícias de El Salvador
Eu não gosto de sionistas agindo como tropas nazistas
Libertação palestina cozinhando Israel dentro da sopa muçulmana

Eu não gosto dos atos oficiais secretos da coroa
Você pode escapar de assassinato no governo, isso é um fato
Policiais anti-choque jogando gás lacrimogêneo em garotos rebeldes
Na Suíça ou Tchecoslováquia Deus proíbe

Na América é Attica, na Rússia são os muros de Lubianca
Na China se você desaparecer nem você mesmo saberia
Insurjam-se, insurjam-se cidadãos do mundo, usem seus pulmões
Respondam aos tiranos todos eles têm medo de suas línguas

200 bilhões de dólares inflaram a guerra mundial
Nos EUA todos os anos eles querem mais
A Rússia tem tantos tanques quanto aviões laser
Dê ou pegue 50 bilhões e nós podemos explodir os cérebros de todo mundo

As escolas faliram porque a História muda toda noite
Metade das nações do mundo são ditaduras de direita
O único lugar do mundo onde o socialismo funcionou foi em Gdansk, cara
O mundo comunista se manteve junto com o sangue de prisioneiros

Os generais dizem que sabem de algo pelo qual vale a pena lutar
Eles nunca dizem o que é até começar uma guerra injusta
A histeria da mídia com os reféns iranianos é um saco
O xá se mandou com 9 bilhões de pilas iranianas

Kermit Roosevelt e seus dólares derrotaram Mossadegh
Eles queriam seu óleo então conseguiram o lixo do aiatolá
Eles apoiaram o xá e treinaram sua polícia, a Savak
Todo o Irã era nosso refém durante um quarto de século. Esta é a verdade, Jack

O bispo Romero disse ao presidente Carter para parar
De mandar armas para a Junta de El Salvador, por isso foi morto
O embaixador White deu o alarme sobre as mentiras da Casa Branca
Reagan o chamou de volta porque ele olhou nos olhos da freira morta

Metade dos votantes não sabia que era tarde demais
As manchetes de jornais chamaram isto de meio comando
Algumas pessoas votaram em Reagan de olhos bem abertos
Três de cada quatro não votaram nele, isto é um desastre

A verdade pode ser difícil, mas a falsidade é fácil
Leia nas entrelinhas, nosso imperialismo é de meia-tigela
Mas se você acha que o Estado do Povo é seu desejo do coração
Pule do fogo de volta para a frigideira

O sistema o sistema na Rússia e na China é igual
Critique o sistema em Budapeste esqueça seu nome
Coca Cola Pepsi Cola na Rússia & China são realidade
Kruschov gritou em Hollywood “Nós vamos enterrar vocês”

América e Rússia querem bombardear uma à outra, OK
Todo mundo morto em ambos os lados todo mundo rezando
Todos exceto os generais em suas cavernas onde podem se esconder
E enrabar uns aos outros esperando pelo próxima aventura

Nenhuma esperança para o comunismo; nenhuma esperança para o capitalismo Yeah
Todo mundo está mentindo em ambos os lados Nyeah Nyeah Nyeah
A sangrenta cortina de ferro do poder militar americano
É a imagem distorcida da torre do demônio vermelho da Rússia

Jesus Cristo era imaculado mas foi crucificado pela multidão
Os soldados da lei e da ordem de Herodes fizeram o trabalho
Flowerpower é bacana, mas não existe proteção para a inocência
O homem que atirou em John Lennon era um admirador

A moral desta canção é que o mundo é um lugar terrível
A indústria científica devora a raça humana
Policiais em todos os países armados com gás lacrimogêneo & TV
Mestres secretos em toda parte burocratizam para mim e para você

Terroristas e policiais juntos constroem a fúria da classe baixa
Assassinos da propaganda manipulam as classes mais altas
Não sabem dizer a diferença entre indesejável & provocador
Se você está se sentindo confuso o governo acertou

Conscientize-se, conscientize-se, onde quer que você esteja não sinta medo
Confie no seu coração, fuja da paranóia, querido
Respire junto com uma mente comum
Armado com Humor alimente & ajude a iluminar o sofrimento da humanidade.

No último disco do Clash, Combat Rock, de 1982, Allen Ginsberg recita poemas e um mantra durante a performance da canção Ghetto Defendant, que escreveu em co-autoria com Joe Strummer.

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Leandro Romano em 06/01/2015 - 22h24 comentou:

Parabéns pelo postagem. Eu sou muito fã de The Clash, e já havia ouvido falar de Allen Ginsberg. Vou tentar comprar alguns livros dele. Obrigado pela dica camaradas.

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