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Entrevistas históricas – Hitler em 1923: “Nenhum homem saudável é marxista”

Parece um bolsominion ou o ministro da Educação de Bolsonaro falando, mas é o führer em pessoa: "O bolchevismo é nossa maior ameaça"

Hitler em 1923. Foto: reprodução
Da Redação
10 de abril de 2019, 17h22

Parece a extrema-direita brasileira falando, com seu datado anticomunismo e indisfarçável xenofobia: “O bolchevismo é nossa maior ameaça”; “No meu projeto do estado germânico não haverá lugar algum para o estrangeiro”; “Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma do nosso desastre”. Algumas aloprações podiam muito bem ter saído da boca do novo ministro da Educação de Bolsonaro, Abraham Weintraub: “O socialismo, ao contrário do marxismo, não repudia a propriedade privada”. Mas as palavras são de Adolf Hitler, o genocida que os bolsonaristas querem porque querem jogar no colo da esquerda.

Hitler foi entrevistado pelo escritor alemão-estadunidense George Sylvester Viereck em 1923, quando o futuro führer era, aos 34 anos, um agitador ainda pouco conhecido, mas que tentara dar um golpe de Estado para tomar o governo da Baviera; o artigo seria republicado pela revista Liberty em 1932, quando o líder nazista já estava à frente do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. No ano seguinte, se tornaria chanceler da Alemanha.

Reparem que Viereck, um entusiasmado pró-nazista a vida inteira que chegou a comparar Hitler a Franklin Roosevelt, tenta estabelecer a diferença entre o socialismo e o “nacional-socialismo” inventado pelos nazistas. E o nazista-mor deixa claro: não tem nada a ver uma coisa com a outra. Leia.

***

Hitler: Nenhum homem saudável é marxista

Por George Sylvester Viereck
Tradução Maurício Búrigo*

“Quando eu tomar o poder na Alemanha, acabarei com o tributo externo e o bolchevismo em casa.”

Adolf Hitler esvaziou sua xícara como se contivesse não chá, mas o sangue do bolchevismo.

“O bolchevismo,” continuou o chefe dos Camisas Pardas, os fascistas da Alemanha, encarando-me de modo funesto, “é nossa maior ameaça. Mate o bolchevismo na Alemanha e você restituirá o poder a 70 milhões de pessoas. A França deve sua potência não a seus exércitos, mas às forças do bolchevismo e à dissensão entre nós.”

“O Tratado de Versailles e o Tratado de St. Germain são mantidos vivos pelo bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são duas cabeças de um mesmo monstro. Devemos decapitar ambas.”

Quando Adolf Hitler anunciou este programa, o advento do Terceiro Império que ele proclama parecia ainda no fim do arco-íris. Daí veio eleição atrás de eleição. A cada vez o poder de Hitler crescia mais. Embora incapaz de remover Hindenburg da presidência, Hitler hoje encabeça o maior partido na Alemanha. A não ser que Hindenburg assuma medidas ditatoriais, ou algum desenvolvimento inesperado perturbe por completo todas as maquinações do momento, o partido de Hitler irá organizar o Reichstag e dominar o governo. A luta de Hitler não era contra Hindenburg, mas contra o chanceler Bruening. É duvidoso se o sucessor de Bruening poderá se sustentar sem o apoio dos nacional-socialistas.

Muitos que votaram em Hindenburg estavam, no íntimo, com Hitler, mas um senso profundamente arraigado de lealdade os impeliu, no entanto, a dar seu voto ao velho marechal-de-campo. A menos que surja um novo líder da noite para o dia, não há qualquer um na Alemanha, com exceção de Hindenburg, que possa derrotar Hitler –e Hindenburg tem 85 anos! Somente o tempo e a recalcitrância dos franceses em lutar por Hitler –salvo alguma asneira da sua própria parte, ou divergências dentro dos escalões do partido– o privam da oportunidade de fazer o papel de Mussolini da Alemanha.

O Tratado de Versailles e o Tratado de St. Germain são mantidos vivos pelo bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são duas cabeças de um mesmo monstro. Devemos decapitar ambas

O primeiro Império Germânico chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a renunciar à coroa imperial. O segundo império chegou ao fim quando Guilherme II, a conselho de Hindenburg, buscou refúgio na Holanda. O terceiro império está emergindo vagarosa, mas seguramente, embora possa dispensar cetros e coroas.

Encontrei-me com Hitler não na sua sede, a Casa Parda em Munique, mas numa casa particular –a residência de um ex-almirante da Marinha alemã. Discutimos o destino da Alemanha entre xícaras de chá.

“Por que,” perguntei a Hitler, “você se denomina um nacional-socialista, já que o seu programa de partido é a própria antítese do que seja atribuído normalmente ao socialismo?”

“O socialismo,” respondeu, pousando sua xícara de chá com jeito belicoso, “é a ciência de lidar com a riqueza comum. O comunismo não é socialismo. O marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu tirarei o socialismo dos socialistas”.

“O socialismo é uma antiga instituição ariana, germânica. Nossos ancestrais germânicos possuíam certas terras em comum. Cultivavam a ideia da riqueza comum. O marxismo não tem direito algum de se disfarçar de socialismo. O socialismo, ao contrário do marxismo, não repudia a propriedade privada. Ao contrário do marxismo, não implica negação alguma da personalidade e, ao contrário do marxismo, é patriótico.”

O marxismo não tem direito algum de se disfarçar de socialismo. O socialismo, ao contrário do marxismo, não repudia a propriedade privada. Podíamos nos ter denominado Partido Liberal

“Podíamos nos ter denominado Partido Liberal. Escolhemos nos denominar nacional-socialistas. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o cumprimento das reivindicações justas das classes produtoras pelo Estado, levando em conta a solidariedade da raça. Para nós, Estado e raça são uma coisa só.”

Hitler, em si, não é de um tipo germânico puro. Seus cabelos escuros revelam algum ancestral alpino. Durante anos recusou-se a ser fotografado. Isso fazia parte da sua estratégia –ser conhecido apenas pelos seus amigos a fim de que, na hora da crise, pudesse aparecer aqui, ali e em todo lugar sem ser notado. Hoje já não poderia mais passar na mais longínqua aldeia da Alemanha sem ser reconhecido. Sua aparência contrasta de modo inusitado com a agressividade de suas opiniões.  Jamais reformador algum de maneiras tão mansas pôs a pique a embarcação do Estado ou cortou gargantas na política.

“Quais,” continuei meu interrogatório, “são os princípios fundamentais de sua plataforma?”

“Acreditamos em uma mente sã num corpo são. O corpo político deve estar sadio se for para a alma estar sã. Saúde moral e física são sinônimas.” “Mussolini,” interpus, “me disse o mesmo.” Hitler ficou radiante.

“As favelas,” acrescentou, “são responsáveis por nove décimos e o álcool por um décimo de toda a depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Lutamos contra as forças da desgraça e da degeneração. A Baviera é relativamente sã porque não está completamente industrializada. Porém, toda a Alemanha, inclusive a Baviera, está condenada ao industrialismo intensivo por nosso território ser pequeno. Se desejamos salvar a Alemanha devemos nos encarregar de que nossos fazendeiros permaneçam fiéis à terra. Para fazermos isso, eles devem ter lugar para respirar e lugar para trabalhar.”

“Onde encontrarão lugar para trabalhar?”

“Devemos manter nossas colônias e devemos expandir rumo ao Leste. Havia um tempo em que podíamos ter partilhado o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora só conseguimos esticar nossos membros com cãibras em direção ao Leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.”

“Não é,” perguntei, “possível à Alemanha reconquistar o mundo economicamente sem estender seu território?”

Hitler sacudiu a cabeça com determinação.

“O imperialismo econômico, como o imperialismo militar, depende do poder. Não pode haver comércio mundial algum em larga escala sem poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder mundial e comércio mundial. Contudo, a Alemanha não pode se estender comercial ou territorialmente até que recobre o que perdeu e até que encontre a si mesma.”

“Estamos na posição de um homem cuja casa tenha sido queimada até o chão. Ele deve ter um teto em cima da cabeça antes que se possa permitir ter planos mais ambiciosos. Fomos bem-sucedidos em criar um abrigo de emergência que mantivesse a chuva do lado de fora. Não estávamos preparados para pedras de granizo. Contudo, uma saraivada de infortúnios veio abaixo, em cima de nós. A Alemanha tem vivido numa verdadeira tempestade de catástrofes, nacional, moral e econômica. Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma do nosso desastre. As maiorias parlamentares oscilam com a disposição do momento. O governo parlamentar desbarra o portão ao bolchevismo.”

“Ao contrário de alguns militaristas alemães, você não é a favor de uma aliança com a Rússia soviética?”

Hitler evitou uma resposta direta a esta questão. Evitou-a de novo recentemente, quando a Liberty lhe pediu que respondesse à declaração de Trótski de que sua tomada de poder na Alemanha implicaria numa luta de vida ou morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia soviética.

“Talvez não convenha a Hitler atacar o bolchevismo na Rússia. Ele pode até considerar uma aliança com o bolchevismo como sua última cartada, se estiver em risco de perder o jogo. Se –insinuou numa ocasião– o capitalismo se recusa a reconhecer que os nacional-socialistas são o último baluarte da propriedade privada, se o capital impede sua luta, a Alemanha talvez seja compelida a lançar-se nos braços tentadores da sereia, a Rússia soviética. Mas está determinado a não permitir que o bolchevismo se enraíze na Alemanha.”

Ele reagiu com cautela no passado às tentativas de aproximação do chanceler Bruening e outros, que desejavam formar uma frente política unida. É improvável que agora, em vista do constante aumento no voto dos nacional-socialistas, Hitler esteja com disposição para se comprometer em qualquer princípio fundamental com outros partidos.

 

Nossos trabalhadores possuem duas almas: uma é germânica, a outra é marxista. Devemos despertar a alma germânica. Devemos extirpar o cancro do marxismo. Marxismo e germanismo são antíteses

“Os conluios políticos dos quais uma frente unida depende,” Hitler me fez notar, “são demasiado instáveis. Tornam quase impossível uma conduta claramente definida. Vejo por todo o lado o percurso em ziguezague de compromisso e concessão. Nossas forças construtivas são estorvadas pela tirania dos números. Cometemos o equívoco de aplicar aritmética e a mecânica do mundo econômico ao estado de subsistência. Somos ameaçados por números sempre crescentes e ideais sempre minguantes. Números e nada mais não têm importância.”

“Mas e se a França retaliar vocês, invadindo a sua terra uma vez mais? Ela invadiu o Ruhr uma vez antes. Pode invadir de novo.”

“Não importa,” retrucou Hitler completamente alterado, “quantos quilômetros quadrados o inimigo possa ocupar se o espírito nacional for despertado. Dez milhões de alemães livres, prontos a perecer a fim de que seu país possa viver, são mais potentes que 50 milhões cuja vontade de poder esteja paralisada e cuja consciência de raça esteja contagiada por estrangeiros.”

“Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas nossa salvação pode começar do canto mais insignificante. Mesmo se tivéssemos 10 acres de terra apenas e estivéssemos determinados a defendê-los com nossas vidas, os 10 acres se tornariam o foco da regeneração. Nossos trabalhadores possuem duas almas: uma é germânica, a outra é marxista. Devemos despertar a alma germânica. Devemos extirpar o cancro do marxismo. Marxismo e germanismo são antíteses.”

“No meu projeto do estado germânico, não haverá lugar algum para o estrangeiro, necessidade alguma do esbanjador, do usurário ou especulador, ou qualquer um incapaz de trabalho produtivo.”

As veias na fronte de Hitler saltaram de maneira ameaçadora. Sua voz preencheu a sala. Houve um barulho na porta. Seus seguidores, que sempre permaneciam ao alcance da voz, tal como guarda-costas, lembraram ao líder de sua obrigação de discursar numa reunião.

Hitler engoliu seu chá e se levantou.

(Traduzido da versão publicada pelo jornal britânico The Guardian em 2007)

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