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Cultura

Essa revolução tem fins meramente ilustrativos. Por Banksy

Numa noite de terça, durante o verão, eu tentei pintar numa ponte ferroviária sobre a Portobello Road, no oeste de Londres, pôsteres mostrando o ícone revolucionário Che Guevara escorrendo gradualmente para fora da imagem. Todo sábado, a feira embaixo da ponte vende camisetas, bolsas, roupas de bebê e broches de Che. Eu acho que estava […]

Cynara Menezes
21 de maio de 2013, 13h34

Numa noite de terça, durante o verão, eu tentei pintar numa ponte ferroviária sobre a Portobello Road, no oeste de Londres, pôsteres mostrando o ícone revolucionário Che Guevara escorrendo gradualmente para fora da imagem. Todo sábado, a feira embaixo da ponte vende camisetas, bolsas, roupas de bebê e broches de Che. Eu acho que estava tentando, ao reciclar incessantemente um ícone, fazer uma declaração sobre a reciclagem incessante de um ícone. Parece que as pessoas sempre pensam que, ao se vestirem como um revolucionário, elas não precisam agir como um de fato.

Subi na ponte lá pelas quatro da manhã. Tudo estava silencioso e tranquilo até que dois carros se aproximaram bem devagar e estacionaram na rua. Parei o que estava fazendo e fiquei observando por trás dos arbustos, num dos lados da ponte. Após alguns minutos não havia mais movimento e imaginei que seria seguro continuar.

Eu já estava no quinto pôster quando ouvi um grande estrondo e um barulho de madeira se partindo. Um dos carros tinha dado ré pela rua e subido pela calçada, arrebentando a porta de uma loja de celulares. Seis pequenos vultos com capuzes e cachecóis cobrindo o rosto entraram correndo na loja e jogaram tudo que podiam em sacos plásticos pretos. Em menos de um minuto já estavam de volta nos carros, que saíram cantando pneu pela Portobello Road, lá embaixo. Fiquei parado, boquiaberto, com um balde numa mão e um esfregão com o cabo serrado na outra, o único homem jovem de aparência suspeita nas proximidades da loja. Tive a impressão de que as coisas podiam ficar feias pro meu lado se eu continuasse ali, então larguei o balde, subi a cerca e pulei pra rua.

A área estava cheia de câmeras, por isso botei o capuz do casaco, mantive a cabeça baixa e corri até o canal. Fiquei imaginando que os garotos àquela altura já deviam estar em Kilburn, acendendo um baseado e se perguntando: “Por que alguém fica pintando retratos de um revolucionário quando pode realmente agir como um?”

Banksy é o pseudônimo de um grafiteiro, diretor de cinema e ativista inglês. O texto acima foi retirado do livro Guerra e Spray – Banksy (editora Intrínseca, tradução Rogério Durst)


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(2) comentários Escrever comentário

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Molina em 21/05/2013 - 14h38 comentou:

Trata-se de uma pessoa só?

Responder

    morenasol em 21/05/2013 - 15h03 comentou:

    tudo indica que sim.

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