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Direitos Humanos

Negros estrangeiros residentes no Brasil detonam nossa fama de “país sem racismo”

Traduzi esta matéria que saiu na NPR, a rádio pública dos Estados Unidos, sobre o racismo no Brasil.  Preparem-se para sentir muita vergonha (original aqui). *** Por Lourdes Garcia-Navarro, da NPR Há uma piada entre os brasileiros de que o passaporte daqui é o mais cobiçado no mercado negro porque, não importa qual a sua […]

Cynara Menezes
25 de maio de 2015, 18h45
kyadderley

(O norte-americano Ky Adderley, residente no Rio, e sua família. Foto: arquivo pessoal)

Traduzi esta matéria que saiu na NPR, a rádio pública dos Estados Unidos, sobre o racismo no Brasil.  Preparem-se para sentir muita vergonha (original aqui).

***

Por Lourdes Garcia-Navarro, da NPR

Há uma piada entre os brasileiros de que o passaporte daqui é o mais cobiçado no mercado negro porque, não importa qual a sua ascendência – asiático, africano ou europeu – você cabe nele. Mas a realidade é muito diferente.

Estou sentada em um café com duas mulheres que não querem ser identificadas devido à delicadeza do assunto. Uma é caribenha; seu marido é um executivo norte-americano.

“Eu achava que seria uma brasileira típica; mas o Brasil que você vê na mídia não é o que conheci quando cheguei”, ela me diz.

Como muitos caribenhos, ela se identifica como multirracial. A ilha de onde vem é uma mistura de raças e etnias, então ela estava eufórica de se mudar para o Brasil, que tem a fama de ser um dos lugares mais harmoniosos racialmente no mundo.

“Quando cheguei, fiquei chocada ao me dar conta da enorme diferença entre raças e cores, e o que esperam de você – qual é o seu papel, basicamente – a partir da cor de sua pele”, ela diz.

Mudar-se para um novo país pode ser difícil; quando você adiciona questões raciais a isso, as coisas podem ficar ainda mais complicadas.

A outra mulher veio de Londres, e também se mudou para o Brasil por causa do trabalho do marido. Ela se autodeclara negra.

“Minha pele é muito escura, então quando saio com meus filhos, às vezes as pessoas perguntam: ‘Você é a babá das crianças?’ E eu tenho de explicar a eles que não, que são meus filhos, que estou cuidando deles”, ela diz.

Uma rápida lição sobre raça e classe no Brasil: o país foi o último lugar nas Américas a acabar com a escravidão. O Brasil também importou dez vezes mais escravos que os EUA – em torno de 4 milhões. Isto significa que mais de 50% da população descende de africanos, mas estes números não significaram mais oportunidades.

Por exemplo: entre os mais brancos e mais ricos, é comum ter uma babá, que tem a pele mais escura. A mulher de Londres diz que as babás são obrigadas a se vestir de branco.

“Eu imediatamente parei de usar branco”, diz, porque estava cansada de explicar que suas crianças eram de fato suas, apesar das deduções dos brasileiros. “Me livrei do branco em meu guarda-roupa, não uso mais”.

Como uma mulher negra com crianças de pele mais clara, ela diz sentir medo de ser parada pela polícia, que normalmente mira as pessoas negras no Brasil. Ela sempre carrega os papéis que mostram que é mãe das duas crianças – algo que nunca tinha de fazer em Londres.

Ky Adderley,  um norte-americano da Filadélfia que dirige uma consultoria em educação no Rio de Janeiro, conta que também ficou chocado ao se mudar para o Brasil.

“Sinto que o racismo aqui é muito mais profundo do que eu senti em qualquer outro lugar”, diz.

Ele conta que sabia como se virar sendo um homem negro nos EUA. “Independentemente do tom da pele da pessoa, há uma noção entre a comunidade negra de que se você possui um pouco de negritude em você, você é negro e assim conseguimos construir uma comunidade realmente rápido.” No Brasil, porém, foi difícil encontrar a mesma rede de apoio. Então ele criou sua própria rede, com outros homens negros expatriados.

“Nós temos um grupo chamado Bros in Brazil”, diz. “É um grupo com cerca de 15 caras agora, que vêm da Europa, África, EUA, e estão vivendo e trabalhando no Brasil como profissionais.”

Eles falam muito sobre questões raciais. O Brasil, Adderley opina, é profundamente segregado em termos raciais, especialmente no Rio. Quando ele caminha com seu cachorro, se não estiver usando terno, é frequentemente questionado se é um passeador de cães profissional.

Ele diz que, no Brasil, ser simplesmente um negro educado parece um ato subversivo.

“Como uma pessoa negra, qual é seu lugar no Rio de Janeiro? Todos os negros que eu vejo estão em empregos no setor de serviços – e quanto mais negro você for, menos é visto”, diz. “Então o papel que você deve ter deve ser de volta à cozinha e não do lado de fora esperando por uma mesa.”

A maioria das pessoas no Brasil fala para ele que não é uma questão racial, e ele diz que é esta a razão do problema: as pessoas não o encaram de frente.

A preocupação de Adderley é que os problemas raciais no Brasil afetem sua filha. Tempos atrás, uma mulher que estava fotografando a então recém-nascida lhe disse que precisava modificar as características físicas da menina.

“Bem, você pode corrigir o nariz dela, sabe? Aperte ele. Se você apertar o nariz dela todo dia e continuar fazendo isso, ela não terá esse nariz achatado” – o executivo lembra as palavras que a mulher usou.

A mulher de Londres diz que o racismo no Brasil está afetando suas crianças também.

“Meu filho de três anos começou a esfregar meus braços e minha pele quando vinha da escola”, ela conta. “Ele dizia, ‘mamãe, estou tentando apagar o negro da sua pele’.”

Mas há um lado positivo – a mulher do Caribe diz que estar no Brasil a fez muito mais consciente sobre o problema racial. Ela se recusa a parar de usar sua cor favorita, branco.

“Por que a cor da roupa ou da pele da pessoa deveria significar quem você é?”, questiona. “Eu sou quem eu sou. Não estou nem aí sobre o que você pensa – esta sou eu e vou continuar a ser eu mesma.”

 


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Silvana Ferreira em 04/10/2017 - 14h13 comentou:

Boa Tarde
Fico muito triste com Racismo! Morei também em outro País. Na República Dominicana. E lá minhas experiências foram similares. Fiquei feliz em ir viver em um País com um número de negros também mais de 50 por cento da população negra. E uma mistura interracial. Mas também sofri o racismo. Nas praias era barrada. Em alguns hotéis barrada. Mesmo uniformizada. Mas quando ia com meus amigos Brancos era liberada a entradas em hotéis e praias. Alguns negros também eram preconceituosos . Desfilando com suas mulheres brancas e seus filhos meios brancos meios negros. Infelizmente existe racismo no mundo todo. O racismo também é uma questão étnica. Se você é um negro de diferentes países e culturas também sofre preconceitos. A República Dominicana é do lado do Haiti. Fui confundida várias vezes como sendo uma Haitiana. E sofri muitas resistências de negros e brancos. Quando dizia que era Brasileira, aquelas piadas dos biquínis das Brasileiras sempre vinham a tona. Não tenho formação universitária. Sou uma simples negra e garçonete. Meus companheiros de trabalho quase negros quase brancos. Sempre me desclassificam . Me empurrando para atividades de limpeza. Ou outras funções. Como se eu não tivesse condições de exercer a função de garçonete. Ou com piadas de mau gosto . Bem . A luta é diaria Se eu for continuar falar , não vou parar. A luta é árdua. Sou mulher , negra , pobre , latina, solteira , fora dos padrões que a sociedade nos impõe. E lutando. E matando um leão por dia!

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    Daleno Funete Toty em 31/10/2017 - 20h52 comentou:

    Olá eu tenho 20 anos de idade, escrevo apartir de África (Angola). Sou negro felizmente nunca fui vitima de racismo porque aqui 90% da população é negra…
    Eu fico muito triste, porque os nossos antepassados já sofreram a escravatura, e nós hoje continuamos a sofrer. Não é nada bom se sentir mal por causa da cor… Todos nós fomos Criados por Deus… devemos nos respeitar e amar um ao outro não importa a cor assim diz os escritos sagrados… é o meu humilde comentario…

Lucas em 26/12/2017 - 11h51 comentou:

Fama de país sem racismo???? O Brasil é um dos países mais preconceituoso, machista e conservador do mundo. Se essa fama existe em algum lugar, é porque não conhecem absolutamente nada sobre o Brasil. Aqui até o próprio negro tem preconceito contra outros negros e onde muitas mulheres são machistas.

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Roberto Filho em 27/06/2018 - 13h41 comentou:

Na Sociedade latina brasileira, os racistas tem graus de hierarquia… primeiro é o rico, o que possui faculdade, tem sobtenome europeu diferente da colonizacao luso-espanica, serve italiano,etc… porem estes observam se é de linhagem partena. Enfim, a mulher é um trofeu para eles. Para eles, os racistas: o homem filho de homem africano, tem o seu lugar na sociedade como negro, se nasceu de pele clara, é tratado como lixo pelos filhos de europeus de qualquer cor. Prencoceito nao é racismo, mas é melhor o pobre ser negro do que branco…. esta politica ja existiu no EUA “branco lixo” mestiço,
Pobre … cada meio social o seu contexto.

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Black foreigners residing in Brazil detonate | Black Women of Brazil em 13/11/2018 - 10h00 comentou:

[…] and was subsequently translated into Portuguese and featured on numerous Brazilian blogs including Socialista Morena, Projeto Ponte, Instituto Humanitas Unisinos and RAP É O SOM (meaning ‘rap is the […]

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