Falocracia e o puritanismo seletivo dos machistas (que nem sabem onde fica o clitóris)

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(Eu e amigas na Esplanada dos Ministérios na sexta)

O clitóris, o único órgão do corpo humano que existe exclusivamente para proporcionar prazer (e às mulheres), foi descrito pela primeira vez no século 16. Há dúvidas se quem o descreveu primeiro foi o anatomista italiano Realdo Colombo, em 1559, ou se ele apenas copiou um estudo anterior de seu colega Gabrielle Falloppio, de 1550.

O clitóris tem 8 mil terminações nervosas, o dobro do pênis, que tem 4 mil. Similar ao órgão masculino, possui inclusive uma espécie de glande, e é erétil, ou seja, fica duro. Como a ciência é dominada pelos homens, foram necessários quatro séculos para que o clitóris fosse estudado com profundidade e só em 1998 uma mulher, a urologista australiana Helen O’Connel, revelou a real anatomia do órgão. Entre outras descobertas,  sabe-se hoje que o clitóris é maior do que se imaginava: somando a parte externa e a interna, tem entre 7 e 12 centímetros. Maior do que muito pênis por aí…

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(O clitóris como era visto pelo anatomista Georg Ludwig Kobelt em 1844…)

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(…e como se sabe que é o clitóris, hoje)

Pesquisas mostram que 25% dos homens (e 30% das mulheres!) nem sequer sabem onde fica o clitóris. Eu arriscaria dizer que, entre os homens machistas, este número é bem maior. Não é chute. Uma pesquisa feita pela empresa Sex Wipes em São Paulo em 2014 revelou que 43% dos homens não fazem sexo oral em suas mulheres porque têm nojinho das vaginas delas, embora 78% deles tenham afirmado que gostam de receber boquetes de suas parceiras. Machistões. E vocês acham que estes homens sabem onde fica o clitóris?

Pois bem: entre as gravações clandestinas feitas pelo juiz Sergio Moro na privacidade do ex-presidente Lula, está um diálogo em que ele critica um procurador da Lava-Jato, Douglas Kirchner, processado por agressão à mulher, e evoca as “mulheres de grelo duro” do PT a reagir. “Ele batia na mulher, levava a mulher no culto religioso, deixava ela sem comer, dava chibatada nela, sabe? Cadê as mulher de grelo duro lá do nosso partido?”, queixa-se Lula em conversa com o ex-ministro dos Direitos Humanos Paulo Vannucchi. O procurador acabou INOCENTADO da acusação pelo Conselho Nacional do Ministério Público, sob a desculpa de que Kirchner era na verdade VÍTIMA, porque foi a religião quem havia feito uma “lavagem cerebral” nele. Sério, leiam mais aqui.

“Grelo” é um dos nomes populares para clitóris. Tem também pinguelo, castanha, botão, carlotinha… Grelo duro, portanto, significa clitóris ereto. Se transformarmos para o masculino, seria o correspondente a “pau duro” ou “pênis ereto”. Muita gente achou grosseira a afirmação de Lula e perguntou se as mulheres de esquerda teriam reação igual caso o reaça-mor Jair Bolsonaro dissesse o mesmo, como se isso fosse possível. O machista Bolsonaro no máximo chamaria as mulheres de “grelo mole”… Mas a pergunta correlata não é essa. É: e se Lula tivesse falado em “homens de pau duro”, teria tanta gritaria?

Na sociedade falocêntrica em que vivemos, as expressões relacionadas ao pênis são permitidas e consideradas normais, cotidianas, praticamente “de família”. A palavra “caralho”, por exemplo, é feito vírgula na boca de quase todo mundo, mas vai falar em “buceta” toda hora para ver como se escandalizam… Imaginem se em vez de dizer “é do caralho!” passássemos a dizer “é da buceta!”? Homens falam o tempo todo em “botar o pau na mesa” quando se referem a mostrar coragem. Como seria a reação deles se as mulheres dissessem que querem “botar o grelo na mesa”? Eu acho hilária essa dupla moral, além do imperativo de que “mulher deve ser educadinha, homem não”.

Lula não foi machista, ao contrário. Querem fazer o teste? Perguntem a algum homem se se sentiria ofendido ao ser chamado de “pau duro”. Óbvio que não, isso seria considerado um elogio. Então por que cargas d’água nós, mulheres, nos ofenderíamos ao ser chamadas de “grelo duro”? Lula quis dizer, sobre as mulheres a quem se referia, que são fortes, guerreiras. Assim como o “homem de pau duro”, “com aquilo roxo” ou “pica grossa” é considerado valente, corajoso, fodão. Mas eles podem, não é mesmo?

Homens e mulheres da velha mídia atacaram Lula por seu “machismo” e “grosseria” ao falar em “grelo duro”. Sintomaticamente, nenhum deles foi capaz de criticar o procurador Douglas Kirchner por agredir a mulher. Nas redes sociais, os mesmos reaças que aplaudiram mandar a presidente da República “tomar no cu” diante do mundo em plena Copa criticavam Lula por “machismo”. Os mesmos misóginos que chamam Dilma de “puta” e “vaca” nas manifestações mostraram indignação com o uso do termo pelo ex-presidente. Os mesmos canalhas que mandaram fazer um adesivo com a presidenta de pernas abertas para colar na abertura do tanque do carro partiram para cima de Lula. Puritanismo seletivo…

Na sexta-feira 18, na manifestação pela democracia em Brasília, levei um cartaz provocativo, que sabia que iria inflamar os reaças: “TEAM GRELO DURO”, eram as palavras. Não deu outra. Quando cheguei em casa, o twitter e o facebook estavam em polvorosa. Todas as páginas machistas e antifeministas da internet atacavam a mim e às amigas que aparecem comigo na foto, com os “elogios” de praxe: “putas”, “vacas”, “sapatonas”. E Lula é que é machista.

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Houve até um “inteligentão” fã de Bolsonaro que fez um meme dizendo que as feministas não gostam de receber “psiu”, mas gostam de ser chamadas de “grelo duro”. É verdade. Sabe por quê? Porque quando um homem dá “psiu” a uma mulher na rua, ele a está reduzindo a um pedaço de carne sem cérebro. E quando Lula fala em “grelo duro” ele está colocando as mulheres NO MESMO PATAMAR dos homens. Se eles têm “pau duro”, nós temos “grelo duro”. Isso não é machismo coisa nenhuma: é feminismo. Lula foi feminista.

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E afinal: quem precisa de inveja do pênis quando se tem grelo duro? O meu, a propósito, é de adamantium.

 

 

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Publicado em 19 de março de 2016