Feministas X feministas nos EUA: uma mulher deve apoiar outra apenas por ser mulher?

(Gloria Steinem e Hillary Clinton em 1995. Foto: Joe Tabacca/AP)

Ansiosas por ver uma mulher presidir os Estados Unidos pela primeira vez, feministas históricas como Gloria Steinem aderiram à pré-candidatura de Hillary Clinton e têm desapontado jovens feministas ao atacá-las por preferirem um homem, o socialista Bernie Sanders. Questionada no programa de Bill Maher sobre a razão de as jovens mulheres terem escolhido Bernie, Steinem, hoje com 81 anos, usou o mais machista dos estereótipos, dizendo que elas estão lá pelos rapazes. “Quando a gente é jovem, a gente pensa: ‘onde os meninos estão?’ e eles estão com Bernie”. O próprio apresentador falou: “Uh, se eu dissesse isso…”

A grita foi geral entre as jovens feministas, que apontaram o ridículo da frase de Steinem, militante feminista desde a juventude, ao insinuar que as meninas não têm pensamentos políticos próprios e estão à caça de homens. A polêmica chegou ao auge com uma petição online para que Gloria pedisse desculpas, que chegou a recolher quase 5 mil assinaturas antes que a feminista de fato se arrependesse da frase.

“Me expressei mal no programa de Bill Maher recentemente e peço desculpas por ter sido mal interpretada, como se tivesse dito que as jovens mulheres não são sérias em sua posição política”, escreveu Steinem em seu facebook. “Não importa se escolheram Bernie ou Hillary, as jovens mulheres são ativistas e feministas em um número enorme, como nunca se viu antes.”

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Curioso é que, em 1996, a posição de Gloria Steinem sobre Bernie Sanders era diferente. Ela chegou a dizer que o senador era “feminista” e o declarou “mulher honorária”…

Outra personalidade tida como “feminista” (tenho lá minhas dúvidas) a apoiar Clinton é a ex-secretária de Estado Madeleine Albright, a primeira mulher a ocupar o cargo, no governo Bill Clinton. Na semana passada, Albright introduziu Hillary Clinton no comício de New Hampshire bradando: “Há um lugar especial no inferno para aquelas mulheres que não apoiam as outras!” Além de ter sido um mico, pelo visto não funcionou, porque Bernie ganhou a convenção. E por 55% a 44% entre as mulheres.

A reação à frase de Albright também foi imediata, com muitos relembrando algumas de suas piores declarações como secretária de Estado, como por exemplo quando foi questionada sobre a morte de meio milhão de crianças no Iraque e respondeu: “É uma escolha muito difícil, mas o preço –achamos que valeu a pena“. A ex-secretária de Estado foi lembrada ainda por não ter impedido o genocídio em Ruanda, em 1994, quando era embaixadora dos EUA junto à ONU. 800 mil pessoas morreram no massacre perpetrado por extremistas hutus.

Vale a pena apoiar mulheres assim só por serem mulheres? Muitos opositores a Hillary Clinton questionam a posição pró-guerra da própria como secretária de Estado de Barack Obama, defendendo o uso de força militar tanto na Síria quanto na Líbia. Sem esquecer que, como senadora, votou a favor da invasão do Iraque. Feministas deveriam ser naturalmente contrárias à política beligerante e imperialista norte-americana, é o que argumentam as jovens feministas. Ou seriam de direita, como as anti-feministas.

Nas últimas semanas, veio à tona que Hillary recebeu milhares de dólares de firmas que atuam em Wall Street para fazer conferências –só da Goldman Sachs, um de seus maiores doadores de campanha, foram mais de 670 mil dólares como palestrante, fato que Bernie Sanders tem explorado ao máximo para demonstrar as ligações da rival com o capital financeiro e a especulação. Um repórter do site The Intercept chegou a perguntar se ela revelaria o conteúdo de tais palestras. Hillary apenas riu.

Bernie Sanders, ao contrário, votou contra a guerra no Iraque. E apoiou o casamento gay a vida toda, enquanto Hillary, de forma oportunista, mudou de pensamento nos últimos anos –seu marido Bill Clinton assinou como presidente, em 1996, o Defense of Marriage Act, equivalente ao famigerado Estatuto da Família aprovado na Câmara dos Deputados brasileira pelos fundamentalistas liderados por Eduardo Cunha, que só reconhece o casamento entre homem e mulher.

Felizmente, além das jovens, já há outras feministas de uma geração intermediária dizendo que não, o fato de ela ser mulher não é o suficiente para votar em Hillary. E por que seria, afinal? Sororidade tem limites. Vale para os EUA e vale para o Brasil.

UPDATE: a campanha de Bernie Sanders divulgou um vídeo sobre o imbróglio envolvendo Gloria Steinem.

 

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Publicado em 16 de fevereiro de 2016