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Fifagate: um thriller, de Lanús ao Qatar

Como a derrota dos EUA para o emirado do Oriente Médio como sede da Copa de 2022 levou finalmente o FBI a investigar a corrupção na FIFA

Ilustração: Sebastián Angresano/Revista Anfíbia
Da Revista Anfibia
18 de dezembro de 2017, 20h46

Por Alejandro Marinelli e Gustavo Grabia

Tradução Roberto Cataldo Costa*

Ele desligou o telefone e entrou em uma plataforma cheia de gente. Na mão, a pasta com seus papéis do escritório. Dentro, um caderno no qual escrevera uma carta de despedida. Entrou no vagão que o levaria de volta para casa, mas desceu antes do lugar de sempre. Quando as portas se abriram na estação anterior, ele saiu do trem. Lentamente, mas sem parar, caminhou cinco quarteirões em Lanús, ao lado dos trilhos. As câmeras o mostram de terno cinza escuro e camisa branca, passando no espaço deixado por uma parede quebrada. Deu mais uns passos sobre as pedras, até pisar nos dormentes. Passou pelos trilhos e se sentou por um segundo. Ouvia o barulho do trem cada vez mais próximo, até que parou. Ele voltou a caminhar em direção à frente. O guarda o viu e chegou a tocar o apito. Antes do impacto, a pasta caiu de sua mão. Jorge Delhon era um dos funcionários públicos que dirigia o programa Fútbol para Todos. Apenas algumas horas antes, no julgamento de altos funcionários da FIFA nos tribunais dos Estados Unidos, ele havia sido acusado de receber suborno. Sua morte trágica foi o subproduto de uma guerra maior, que havia começado vários anos antes.

O encontro aconteceu em Zurique, no início de dezembro de 2010. Na reunião televisionada para todo o planeta, os 22 membros do Comitê Executivo escolheriam as sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022. A Rússia aparecia como grande favorita para a primeira, e os Estados Unidos esperavam suceder, quatro anos depois, sua grande rival na Guerra Fria. As duas potências estavam confiantes de que levariam um negócio de várias dezenas de bilhões. Os norte-americanos chegaram com uma delegação liderada pelo ex-presidente Bill Clinton, o vencedor do Oscar Morgan Freeman, o famoso atacante Landon Donovan, e fizeram até uma conexão para ouvir Barack Obama falando sobre os benefícios de uma candidatura própria. Os operadores de Clinton lhe garantiram que já tinham os 12 votos necessários, mas o sorriso do ex-presidente desapareceu quando ele ouviu os resultados da primeira rodada: havia conseguido apenas três votos, e o Qatar, 11. Depois vieram mais três rodadas. O Qatar ganhou de 14 a 8, e Clinton teve que fazer um grande esforço para esconder o quanto estava incomodado e apertar a mão do exultante xeque Mohammad bin Hamad al Thani. Ele sabia que alguém o havia traído e ia descobrir quem fora.

Grondona não percebeu que jogar contra os EUA era enfrentar um império. Ele estava acostumado a comprar dirigentes de todos os continentes, e talvez esse tenha sido seu único erro em 30 anos: confiar demais em seu poder

No terceiro intervalo, o chefe da Confederação Sul-Americana de Futebol, o paraguaio Nicolás Leoz, estava no banheiro quando entrou Ricardo Teixeira, então presidente da confederação brasileira, e Julio Grondona veio atrás dele. Eles não o deixaram falar, e ambos o criticaram por não ter votado no Qatar. Leoz disse que havia apoiado o Japão e a Coréia para que não fossem eliminados já no início, mas na rodada seguinte, votaria no Qatar. Não houve mais conversa. Os três saíram tranquilos, como se nada tivesse acontecido em frente à pia. É claro que, na votação seguinte, houve o triunfo desse país bilionário em gás. A cena foi descrita por um ex-dirigente sul-americano e confirmada no mês passado pelo ex-CEO da Torneos y Competencias, Alejandro Burzaco, nos tribunais dos EUA, onde altos funcionários do futebol latino-americano estão sendo investigados.

Poucas horas depois, o jornal do establishment econômico norte-americano, o The Wall Street Journal, acusava Grondona de receber 75 milhões de dólares para votar na monarquia asiática. Nos dias seguintes, foram publicadas versões que garantiam que ele também influenciava outras confederações. A FIFA convidou o promotor dos EUA Michael García para que investigasse as suspeitas. Seu trabalho de dois anos foi concluído em 2014, mas decidiram não publicá-lo. O texto vazado e publicado pelo jornal alemão Bild apresentou dezenas de provas do pagamento de subornos milionários, pessoas arrependidas e provas de uma viagem de lazer ao Rio de Janeiro, paga pelo Qatar. Entre os líderes convidados estavam Teixeira, Leoz e Grondona.

Poucos dias antes da votação e da cena do banheiro, a seleção argentina jogou com o Brasil em Doha. O pagamento pelo amistoso saiu dos bolsos do Qatar, que, naquela época, estava em uma corrida contra o tempo para promover sua candidatura. O relatório do promotor García também menciona empresas suíças e um investidor sírio, e o sobrenome mais repetido na investigação é o de Grondona.

Dentro das fronteiras do futebol, Grondona era imbatível. Número dois da FIFA e responsável pelas finanças do enorme negócio global da bola, ele soube construir alianças e fazer negócios que aumentaram ainda mais a contabilidade da organização com sede na Suíça. “Ele não percebeu que jogar contra os EUA era enfrentar um império. Ele estava acostumado a comprar dirigentes de todos os continentes, e talvez esse tenha sido seu único erro nos 30 anos em que ocupou a vice-presidência: confiar demais em seu poder. Mas o que aconteceu mais tarde não estava mais dentro de sua categoria, e sim em uma divisão superior”, explica um assessor da FIFA que acompanhava Grondona durante suas longas estadias na Suíça e conta uma história muito ilustrativa, que retrata o ex-presidente do Independiente. “Ele tinha chegado à sede em Zurique e lá estavam reunidos vários dirigentes africanos. Grondona se aproximou da mesa de trabalho e começou a falar naquele tom grosso e monótono particular. Foram cinco minutos sem parar. Quase ninguém falava espanhol, mas eles continuaram olhando para ele até que eles perguntaram entre si se alguém sabia do que ele estava falando. Eu disse a Grondona que eles não estavam entendendo. Ele me olhou e falou: ‘Cheguei até aqui sem saber uma palavra de inglês. Fique tranquilo que eles entendem tudo’.”

O norte-americano que teve o relacionamento mais intenso com os líderes da América do Sul e seus negócios foi o secretário-geral da CONCACAF, que reúne as seleções da América do Norte, da América Central e do Caribe, o excêntrico Chuck Blazer, um milionário sessentão gordo, com barba de Papai Noel. Amigo de Teixeira, ele havia comprado dois andares na Trump Tower, um para si próprio e outro para que morassem os seus gatos. Tinha jatos privados e só comprava carros de edição limitada. Blazer era conhecido como “Senhor 10%”, em função da comissão que recebia sobre a renda da TV, patrocinadores e outros envolvidos com sua confederação. Numa tarde de novembro de 2011, o FBI bateu à sua porta e, desde então, ele se tornou delator de todos os negócios sujos da FIFA. Foram mais de dois anos de investigações silenciosas. Nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, ele gravou vários dirigentes do futebol, usando um chaveiro que deixava em cima da mesa. Assim foi o começo.

Blazer era conhecido como “Senhor 10%”, em função da comissão que recebia sobre a renda da TV, patrocinadores e outros envolvidos com sua confederação. Numa tarde de novembro de 2011, o FBI bateu à sua porta e ele se tornou delator dos negócios sujos da FIFA

Fecha a cena. Agora a câmera abre em maio de 2015, no luxuoso hotel Baur au Lac, nos Alpes, onde os dirigentes se reúnem para seu encontro anual. É cedo e muitos deles estão nos quartos. Uma dezena de carros da polícia estaciona na entrada que dá para a encantadora rua Talstrasse. Em fila, os agentes suíços entram e vão até a recepção. Naquela manhã, eles haviam prendido o uruguaio Eugenio Figuerero, o brasileiro José Maria Marín, dois pesos-pesados sul-americanos, um venezuelano, um costarriquenho, um nicaraguense, um dirigente das Ilhas Cayman e o britânico Jeffrey Webb, presidente da CONCACAF e vice da FIFA. Os mandados de prisão haviam sido expedidos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Julio Grondona morrera quase um ano antes, e os líderes argentinos, ocupados com a sucessão, ainda não haviam desembarcado em massa na Suíça. Mas naquela manhã, de um dos bares ao lado da porta do hotel, um homem viu a chegada dos veículos da polícia e escapou da cena: era Alejandro Burzaco, ex-CEO da Torneos y Competencias e homem de confiança de Grondona. Ele também é irmão de Eugenio, Secretário de Segurança da Nação do governo Macri.

Alejandro Burzaco foi procurado obsessivamente pela Interpol até que, dias depois, entregou-se em Bolzano, um vilarejo bucólico no nordeste italiano. Fontes próximas ao seu entorno contaram que, após sua prisão, ele estava tranquilo na Itália, preparando sua estratégia judicial até que, uma tarde, viu três homens morenos que contrastavam com os descendentes de alemães que habitam a região. Dias antes, por telefone, seu irmão lhe havia dito que a polícia da província de Buenos Aires estava procurando por ele, e a presença desses três suspeitos detonou seus nervos. Foi assim que ele pediu para adiantar a partida para os EUA.

Chuck Blazer com a mulher de Ricardo Teixeira e a namorada no camarote da Brahma em 2009

Burzaco era um sujeito temido por rivais e parceiros. Por intermédio da Torneos, chegara ao círculo íntimo de Grondona, que o levava pelo mundo e consultava em primeiro lugar, em qualquer situação econômica que tivesse que resolver. No começo, a relação entre os dois era de conveniência e alguma tensão, mas Burzaco foi conquistando Grondona à medida que obtinha negócios e dinheiro. Um forte concorrente de Burzaco se lembra dele como alguém que procurava levar vantagens, tinha ciúmes de seus contatos e sempre sussurrava no ouvido de Julio Grondona. Mais de uma vez, segundo essa fonte, por sugestão de Burzaco, o ex-dono de ferragem de Sarandí mudou as condições nos contratos. “Em termos de negócios de televisão, Burzaco era interplanetário. Ele convivia com os grandes, com mexicanos, norte-americanos, ingleses e brasileiros. Tinha todos os negócios da FIFA na cabeça. Era odiado, mas reconhecido, porque era brilhante. Enxergava negócios que outros não viam e, ainda por cima, tinha Julio Grondona. Eu acho que ele foi o filho universitário que Grondona não teve. Blazer entregou o nome de Burzaco porque sabia que poucos teriam tanta informação sobre os negócios na América Latina quanto ele”, diz o diretor de uma das empresas rivais regionais.

Burzaco baseou sua estratégia para obter os direitos sobre a Liberadores na T&T Sports Marketing, uma sociedade entre a empresa argentina e a brasileira Traffic, à qual a Fox Panamerican se juntou anos mais tarde. A T&T assinou contratos de forma intermitente, entre 2004 a 2018. De acordo com os vazamentos apresentados nos Panama Papers, Burzaco faturou 370 milhões de dólares através de uma rede de empresas criada em vários paraísos fiscais para obter direitos de televisão. A T&T conseguiu estar nas Ilhas Cayman, em Chipre, no Uruguai e na Holanda, segundo sugeriu a célebre agência Mossack Fonseca.

Tínhamos vários sócios em diferentes partes do mundo, como a Fox Sports nos EUA, a Mediapro na Espanha, a TV Globo no Brasil, a Full Play em Buenos Aires, a Traffic. Éramos sócios do grupo Clarín na Argentina

Hoje Burzaco está sentado em uma cadeira nos tribunais do Brooklyn. Seu julgamento foi adiado para que ele declarasse no processo contra o ex-presidente da Confederação Sul-Americana (Conmebol), o paraguaio Juan Angel Napout, o ex-presidente da Federação Peruana, Manuel Burga, e o brasileiro José Maria Marín. É apenas um dos vários processos em que estão envolvidos 42 altos funcionários da FIFA.

Inicialmente em privado e, na semana passada, publicamente, diante do promotor Sam Nitze, Burzaco detalhou como subornava para obter os direitos de televisão sobre os principais eventos do futebol continental, e deu nomes de dirigentes, empresas, contas bancárias, paraísos offshore. Aqueles que acompanham o processo de perto acreditam que o FBI tem provas suficientes para que todos os acusados ​​acabem na prisão, mas que seus procedimentos para obtê-las não foram os mais transparentes. Portanto, se não há testemunhos sólidos, os advogados de defesa podem solicitar a anulação do processo. Os detalhes estão sendo fornecidos pelo ex-CEO da Torneos.

“Eu paguei subornos a Juan Napout entre 2010 e 2015, a José Maria Marín, entre 2012 e 2015, e a Manuel Burga, entre 2010 e o final de 2013”, disse ele no primeiro dia de audiências. No dia seguinte, quando Burzaco passou em frente a Burga para chegar diante do juiz, o dirigente acusado olhou para ele e passou o dedo desafiadoramente pelo pescoço. Burzaco despencou e começou a chorar. A testemunha deixou a sala e a audiência teve que ser adiada. A promotoria lhe pediu para esclarecer o incidente.

“Tínhamos vários sócios em diferentes partes do mundo, como a Fox Sports nos Estados Unidos, a Mediapro na Espanha, a TV Globo no Brasil, a Full Play em Buenos Aires, a Traffic. Éramos sócios do grupo Clarín na Argentina”, disse ele, e só mencionou o Clarín para sustentar que não pagava subornos, algo que parece difícil em um contexto de atores que desembolsavam grandes somas para manter negócios enormes. “Eu participei do pagamento de subornos desde que comecei como acionista da Torneos, em 2005, até Grondona morrer, em julho de 2014. O objetivo do nosso diálogo era acertar tudo, discutir os mecanismos sob os quais o suborno seria pago, confirmar, em outros casos, que o suborno fora recebido corretamente. Pedir as ações ou a influência (do dirigente), inclusive que fosse pago suborno em determinados contratos, assinar, estender, nunca rescindir. Eu fiz isso em todos os momentos da minha vida neste negócio. Acho que esse é um bom resumo”. Assim Burzaco sintetizou o que parecia um libreto repassado várias vezes.

Após a morte de Grondona, eu tive uma reunião com Napout e o dirigente brasileiro Marco Polo del Nero, e eles foram diretamente ao assunto dos subornos. Eles me disseram, em termos gerais, para onde enviar as verbas agora

O que surpreendeu o promotor Nitze foi que Burzaco tivesse nomeado o coordenador do Fútbol para Todos (FPT), Pablo Paladino, e o homem que acabou nos trilhos do trem, Jorge Delhon. Durante seu primeiro testemunho, ele desviou o rumo de suas respostas e disse que sua empresa, que havia ficado de fora das televisões locais em 2009 por decisão do governo Kirchner, voltou ao jogo transmitindo partidas do River Plate na série B do Campeonato Argentino, e que teve que subornar esses dois ex-funcionários com quatro milhões de dólares. O promotor parecia surpreso porque as perguntas que o interessavam estavam relacionadas aos dirigentes sul-americanos que estão no banco dos réus neste momento. De fato, ele não pediu muitos detalhes e voltou à trama anterior. Alguns dos jornalistas que cobrem o caso nos EUA veem a mão do governo argentino nessa declaração. Não porque Burzaco estivesse mentindo, mas porque ofereceu essas informações por iniciativa própria. O que também chama a atenção é que ele não tenha ido mais acima na cadeia de responsabilidades. Se houve subornos, é muito improvável que eles não superado o nível da chefia de Gabinete, que controlava o FPT. No futuro se poderá observar se ele será favorecido de alguma maneira.

O julgamento que está sendo realizado no Brooklyn aponta, em especial, aos contratos sobre direitos de televisão das Copas Libertadores e Sul-Americana, que foram assinados em 2008 e correspondiam às edições de 2014 a 2022. Sendo assim, ao voltar a responder sobre o tema original do processo, Burzaco sustentou que Grondona controlava todos os subornos para essas duas competições. “Ele decidia quem recebia quanto e, às vezes, mudava isso a seu bel prazer ou ficava com parte do dinheiro”, declarou diante de uma sala que ficou em silêncio após suas palavras. “Em 2006, Grondona recebia 600 mil dólares por ano, mas isso logo passou a um milhão, e depois a 1,2 milhão. De Luca e Figueredo também recebiam 600 mil em 2006, enquanto Leoz recebeu um milhão”, disse ele, revelando toda a tabela de preços. Em sua declaração, Burzaco garantiu que Grondona recebeu a maioria desses pagamentos em dinheiro. Às vezes em uma sacola, em um envelope deixado em sua casa ou com seu motorista, ou então iam direto a Alhec Tour, a financeira preferida do titular da AFA, a Associação do Futebol Argentino.

Além de Burzaco e Grondona (citado como co-conspirador número 1), o relatório do Fifagate inclui outros argentinos: os ex-secretários da Confederação Sul-Americana, José Luis Meiszner e Eduardo Deluca, e os empresários Hugo e Mariano Jinkis, pai e filho. Todos conseguiram não ser extraditados, sendo que o primeiro alegou problemas coronarianos e diabetes, e o outro, assim como os Jinkis, gozou da boa vontade do juiz Claudio Bonadío para entender que, como os contratos suspeitos eram entre entidades privadas, não houve crime de “suborno”.

No início do século, os Jinkis haviam começado a operar em uma região não explorada, o Pacífico. Inicialmente, obtiveram os direitos de televisão do Equador. Depois, foram acrescentando Peru, Colômbia, Chile e, mais tarde, Venezuela –todos atores menores na distribuição do dinheiro da televisão. Com esses representados detrás de si, em uma tarde de 2012, propuseram a Grondona entrar na divisão continental. Grondona consultou Burzaco sobre a incorporação dos Jinkis ao negócio. Ele não gostava de certos movimentos de Mariano Jinkis. Burzaco também não gostava, mas eles se deram conta de que precisavam deles. “Grondona sentia antipatia pelo Jinkis filho, pois o considerava um mentiroso. Mas também não gostava muito deles por serem judeus”, Burzaco disse ter ouvido de Grondona. Apesar das contrariedades, para Grondona, negócios eram negócios. Ele também se dava conta de que precisava deles, então convocou o Jinkis pai para ir ao posto Esso que tinha na esquina das ruas Mitre e Castelli, em Avellaneda.

Julio Grondona havia chegado cedo, como todas as manhãs, à farmácia do posto. Tomou café da manhã e entrou em seu escritório, um espaço mínimo cheio de fotos antigas dos jogadores do Arsenal e do Independiente. Nesse lugar sem ostentações, o dono do futebol fechou dezenas de grandes negócios com empresários e dirigentes de primeira linha. Jinkis chegou lá sem ter certeza do que aconteceria. Diante da eterna calculadora de rolo em que Grondona mexia como um cacoete durante as reuniões, os dois acertaram que a Full Play, a empresa dos Jinkis, e a Torneos ficariam com os contratos da Copa América de 2015, a do Centenário e a de 2019. Para isso, montaram a empresa Datisa, à qual a Traffic se somaria em seguida. Sem que soubessem, esse acordo com os brasileiros seria um terrível passo em falso para todos.

Em meados de 2014, convocado pelo antigo proprietário da Traffic, José J. Hawilla, os Jinkis, juntamente com Burzaco, foram para os EUA discutir negócios. O que eles não sabiam era que o brasileiro estava sob custódia e concordara em colaborar com o FBI delatando seus sócios –muito semelhante ao que Burzaco faz agora diante da Justiça daquele país. Nessas conversas na Flórida, os argentinos reconheceram os subornos pelos quais estão sendo investigados. De acordo com os números fornecidos pelo ex-executivo da Torneos y Competencias, os subornos que a Datisa pagou pelas edições da Copa América chegaram a 81 milhões de dólares. Foi assim que eles entraram na lista negra do FBI. Os Jinkis também são investigados por lavagem de dinheiro.

No último dia de julho de 2014, todos os dirigentes argentinos e sul-americanos passaram pela sede da AFA, em Ezeiza. Julio Grondona morrera um dia antes e as delegações chegaram ao aeroporto e, dali, foram diretamente ao campo de treinamento da seleção argentina. Estava frio e muitos temiam que, com a morte do homem forte da FIFA, também lhes chegasse o inverno. O velório fora armado na cancha de Futsal, onde, em dezembro do ano seguinte, se produziria o inesquecível 38 a 38 na eleição para a AFA, entre Luis Segura e Marcelo Tinelli. Estavam Joseph Blatter, então presidente da FIFA, a ex-presidente argentina Cristina Kirchner e meio século de jogadores e técnicos das séries A a D e do interior, que tinham ido se despedir. A mídia mostrou o desfile de carros de luxo entrando pelo portão que dá na estrada. Sem querer aparecer, em um canto da sala e a metros do caixão, vários altos dirigentes da Conmebol decidiram que era necessário agir rápido. “Após a morte de Grondona, eu tive uma reunião com Napout e o dirigente brasileiro Marco Polo del Nero, e eles foram diretamente ao assunto dos subornos. Eles me disseram, em termos gerais, para onde enviar as verbas agora, o dinheiro que costumava ser coletado por Grondona, entre outros executivos sul-americanos. Além disso, também resolveram quanto Segura receberia como novo titular da AFA”, relatou Burzaco. Com a morte de Grondona, seu protegido, o uruguaio Figueredo, cairia do topo da Conmebol, e o paraguaio Napout tomaria seu lugar. Uns dias mais tarde, a substituição seria oficializada.

Em meados de 2014, convocado pelo antigo proprietário da Traffic, José J. Hawilla, os Jinkis, juntamente com Burzaco, foram para os EUA discutir negócios. O que eles não sabiam era que o brasileiro concordara em colaborar com o FBI

Como é normal na Argentina, os processos por corrupção contra funcionários públicos estão avançando, mas os relacionados a empresas e empresários não têm o mesmo destino. A grande maioria das multinacionais de televisão no Brooklyn opera e tem contratos assinados. Apesar de estar sob suspeita, a Fox compartilha metade dos direitos do futebol argentino. Os outros 50% são da Turner, que detém parte da Torneos y Competencias, a empresa que Burzaco dirigia. Poucos se importaram com a oferta maior da ESPN na licitação. Pesou mais a recomendação de Barack Obama em sua visita à Argentina e a reunião na Casa Rosada, que Macri teve com o número dois da Turner Latinoamerica.

A investigação do futebol global, esse prato frio que foi servido sete anos depois, tinha como objetivo ensinar uma lição aos que estivessem envolvidos no apoio ao Qatar. O Fifagate não veio mudar a ordem das coisas, e sim mantê-la. São os mesmos atores, que se reciclam e ocupam negócios semelhantes. Não se deu importância à revelação dos subornos nem à morte de milhares de empregados semi-escravizados que constroem os estádios da Copa do Mundo de 2022. A indicação não será revertida. Talvez os derrotados em Zurique, em 2010, não tenham podido provar da vingança mais aguardada, pois o arquiteto dessa traição deixou este mundo antes que pudessem acusá-lo e manteve sua lógica em pé até o último dia. Mas, como se vê na nova distribuição dos direitos, e apesar das prisões e processos judiciais em andamento, nada será muito diferente. Por fim, como dizia o anel de Grondona, homem que tinha seu escritório em um posto de gasolina, tudo passa.

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