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Cultura

Filme chapa-branca “lava a jato” biografias de Moro e PF e mente sobre Lula

Polícia Federal – A Lei É Para Todos é ruim do início ao fim porque é "engajado" no pior sentido: é feito para transmitir um recado político, não para entreter

Ary Fontoura decepciona como Lula. Foto: reprodução tela de cinema
Cynara Menezes
18 de setembro de 2017, 19h57

Sim, fui ver o filme sobre a Lava-Jato, Polícia Federal  A Lei É Para Todos. Por dever de ofício: como eu poderia avaliar uma obra cinematográfica sem vê-la? Só se eu fosse reaça.

O horário da sessão era 19h, no domingo à noite, e não havia nenhuma fila para comprar os ingressos, pelo contrário: tinha três caixas vazios à minha disposição. Como escolhi um shopping popular, o máximo que poderia encontrar ali seria um pobre de direita. Os coxinhas “de raiz” de Brasília frequentam outro shopping, longe de onde eu moro. Dentro da sala, contei 44 pessoas. As fileiras da frente estavam vazias.

O melhor do filme é o personagem de Alberto Youssef, o doleiro. Interpretado pelo ator uruguaio radicado no Rio Grande do Sul Roberto Birindelli, Youssef diverte, com seu cinismo e humor. Fosse um filme bem feito, o personagem e o ator seriam sem dúvida melhor aproveitados. Mas Polícia Federal é ruim do início ao fim, sobretudo porque é um filme “engajado” no pior sentido: é feito para transmitir um recado político, não para entreter, função primordial do cinema.

Como uma versão cinematográfica da Veja, o filme só existe em função de Lula. É preciso encontrar "a caneta", repetem os policiais

A trama é toda construída com duas intenções: a primeira delas é “lavar a jato” as biografias do juiz Sérgio Moro e dos policiais e procuradores que atuam na operação. Tanto Moro quanto os agentes e delegados são pintados como patriotas que “querem o bem” do país acima de tudo, bons pais, bons maridos, bons filhos. Os seres humanos perfeitos, no sentido Blade Runner de “seres humanos” e de “perfeitos”: o Moro de Marcelo Serrado é tão sério, mas tão sério, que nem parece humano.

O filme fornece à Lava-Jato os argumentos para rebater as sucessivas acusações, sobretudo por parte do PT, de que é “seletiva”, mas começa citando todos os escândalos brasileiros “desde 1500” e esquece a compra de votos para a reeleição de FHC. Em dado momento, um dos personagens centrais, o detetive Julio César, interpretado por Bruce Gomlevsky, diz literalmente  ao pai, um caricato “petista”, que votou e “fez campanha” para o partido de Lula. Um procurador, bem jovem (Dallagnol?) e bem coxinha, responde ao delegado que, em crise de consciência, se pergunta “a gente tá ajudando quem?”: “Eu quero acreditar que a gente está ajudando o Brasil’.

O roteiro é tão medíocre que nem sequer explora, como recurso narrativo, a origem do vazamento da conversa entre o ex-presidente Lula, único momento em 1h47m em que a plateia esboça alguma reação, e ri. O chapabranquismo do filme fica evidente na segunda intenção declarada de Polícia Federal, que tem um produtor “secreto”: manchar a biografia de Lula. Para isso, não se melindra em falsear a história.

A barra de Moro sobre a desnecessária condução coercitiva do ex-presidente é limpa pelo filme. O juiz só ordenou a coercitiva porque a PF pediu, não foi iniciativa dele. O delegado Ivan (Antonio Calloni) justifica que “o presidente se negou a depor ao MP”, o que é uma mentira. Lula nunca se recusou a depor. O filme mente ainda ao mostrar Lula ameaçando os policiais que o conduziram no caso de voltar a ser presidente em 2018. Lula não ameaçou ninguém. Como se não bastassem as fake news de que o ex-presidente é vítima nas redes sociais, agora tem fake news na tela grande.

Ary Fontoura interpreta o pior papel de sua brilhante carreira, compondo um Lula carrancudo, arrogante, ameaçador, rabugento, mal-educado, nem um pouco afável. Nada a ver com o carismático ex-presidente

Como uma versão cinematográfica da Veja, o filme só existe em função de Lula. É preciso encontrar “a caneta”, repetem os policiais a todo momento. Na lousa branca, os esquemas desenhados têm o objetivo de convencer o espectador de que Lula é o chefe, que nem o célebre powerpoint. As palestras do ex-presidente são associadas diretamente a propinas de empreiteiras, coisa que, na vida real, nem Moro foi capaz de fazer. O tom panfletário é tão pouco sutil que todos os personagens são interpretados por atores, menos… a presidenta Dilma Rousseff, que aparece como ela mesma no episódio da nomeação de Lula como ministro.

O trágico para os produtores de Polícia Federal é que o que seria o clímax do filme, a invasão do apartamento de Lula em São Bernardo do Campo, é, na verdade um anticlímax. Escolhido para o papel por ser um antipetista furioso, Ary Fontoura interpreta o pior papel de sua brilhante carreira, compondo um Lula carrancudo, arrogante, ameaçador, mal-educado, nem um pouco afável. Nada a ver com o carismático ex-presidente. Parece mais o rabugento Nonô Correa, da novela O Amor É Nosso, de barba.

Mais risível é ver um filme nacional macaqueando os sitcoms policiais e de advogados da Sony, com os protagonistas bebendo no balcão de um bar descolado após o expediente. Quantos bares brasileiros têm balcões onde as pessoas se sentam para beber, gente? Com certeza o roteirista é fã de Ally McBeal, porque os policiais e procuradores fazem até karaokê… O resultado, porém, está mais para minissérie do SBT.

Não é à toa que a superprodução teve péssimas críticas e naufraga na bilheteria, apesar da presença maciça em cinemas de todo o país. É um erro banal tentar subestimar a inteligência do espectador. O público sabe reconhecer quando um filme é fraco. E quando uma operação para “acabar com a corrupção” é pura canastrice.

 

 


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Fernando em 18/09/2017 - 20h52 comentou:

Quem mente, o filme ou a blogueira?

Primeiro, Lula se recusou a depor sim:

https://oglobo.globo.com/brasil/lula-nao-vai-depor-em-investigacao-sobre-triplex-no-guaruja-18776536

Segundo, ele tentou intimidar os policiais sim, com as mesmas palavras ditas no filme, de que se lembraria deles quando voltasse a ser presidente.

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/moro-advertiu-lula-sobre-intimidacao-a-autoridades/

O filme retrata os bandidos como o são: bandidos! E ridiculariza com toda razão aqueles que os defendem e tentam manchar os procuradores e juízes envolvidos na Lava Jato.

Por fim, ao contrário do que a blogueira comentou, o filme teve sucesso para os padrões nacionais, sendo a melhor estreia do ano de um longa produzido no Brasil.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/09/1917487-filme-sobre-a-lava-jato-tem-maior-abertura-de-filme-nacional-no-ano.shtml

Pelo jeito, a verdade incomoda os petistas… E aí precisam construir as narrativas pra enganar a massa de manobra.

Responder

    Cynara Menezes em 20/09/2017 - 15h48 comentou:

    até a veja, porta-voz dos coxinhas, diz que o filme mente. “lula NUNCA ameaçou os policiais” http://veja.abril.com.br/blog/e-tudo-historia/o-que-e-verdade-em-10-pontos-do-filme-da-lava-jato/

    RafaeL em 25/09/2017 - 23h05 comentou:

    Fernando,

    O Lula se negou a prestar depoimento ao Promotor Cássio Conserino e NUNCA aos responsáveis pela 24ª fase da Operação Lava Jato (objeto da medida coercitiva).
    E por que a negação do ex-Presidente? Simplesmente porque o Promotor Cássio Conserino, ao procurar a revista “Veja” e dizer que iria denunciá-lo, fez um PREJULGAMENTO. OU SEJA, não faria nenhum sentido prestar um depoimento que não seria levado em conta no processo.

    Entendeu agora???

    PS:
    Sinceramente, nem sei por que ainda fico tentando explicar isso a vocês de Direita… É como recitar Shakespeare a uma barra de chocolate!

Michael em 19/09/2017 - 09h12 comentou:

Cynara, você não é o público deste filme. O filme é feito para pessoas que acreditam na operação lava jato. Como você não faz parte desse grupo, por que perdeu seu tempo assistindo?

E mais, não existe arte isenta ou imparcial de visão política, um artista (inclui-se o cineasta), coloca em sua obra sua visão de mundo, consequentemente a sua visão política sobre determinado tema.

Filmes engajados à esquerda – palmas, filmes engajados à direita – vaias.

Cynara, você pode ser melhor que isso.

Abraço.

Responder

    Cynara Menezes em 19/09/2017 - 10h03 comentou:

    “você não é o público”. isso não existe. um filme é bom ou ruim, e esse filme é ruim

Michael em 19/09/2017 - 11h23 comentou:

Você não é.

Sua visão política, bem como a vivência e julgamento da situação que está ocorrendo diante dos seus olhos, não te impedem, mas prejudicam a sua avaliação sobre o filme.

A não ser que você faça uma análise técnica do filme, assim como Pablo fez em seu canal no YT, que por mais técnica que parecesse ainda teve seus pontos pessoais. Porém, você não é especialista em cinema e, mesmo que fosse, seu julgamento seria prejudicado.

Cynara, existe uma coisa que se chama predisposição e isso, mesmo que você não queira interfere no julgamento, seu e de qualquer ser humano.

Se eu apresentar um filme sobre a trajetória do Marighella, a um cineasta ou crítico de cinema que seja de direita, certamente, mesmo que de forma involuntária, ele atenuará as qualidades e potencializará os defeitos.

É natural que isso aconteça, porque crítica, seja ela cinematográfica literária, etc, é o no fim das contas opinião.

Abraço.

Responder

Sergio em 20/09/2017 - 14h20 comentou:

Muito bom o filme! Que venha o segundo.

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