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“Guia Politicamente Incorreto” na TV engana autores para conseguir entrevistas

Produtores do canal History (sic) omitiram que depoimentos seriam utilizados em série desprezada pelos historiadores por falsear fatos para atacar a esquerda

Trecho do programa em que os índios são acusados de destruir a natureza. Foto: reprodução
Da Redação
23 de outubro de 2017, 14h52

A desonestidade intelectual do Guia Politicamente Incorreto, série de livros que falseia a história com a intenção de atacar a esquerda, chega a um novo patamar. Prestes a estrear na televisão, a equipe da produtora que faz o programa para o canal History (!) ludibriou historiadores, autores de livros históricos e de biografias ao omitir que os depoimentos que estavam dando eram para o tal “guia”. Certamente porque não conseguiria as entrevistas se não fosse assim: pelo menos seis entrevistados já pediram para excluir sua “participação” forçada.

O primeiro a reclamar foi o biógrafo de Getúlio Vargas, Lira Neto. “No dia 2 de fevereiro deste ano, uma equipe do History Channel veio em minha casa. Entrevistou-me para o que seria, segundo me informaram, genericamente, ‘uma série sobre a história do Brasil’. Tomaram quase duas horas de meu tempo. Fiquei pasmo quanto o entrevistador, Matheus Ruas, da produtora Fly, pediu-me explicitamente para responder às questões como se, do outro lado da lente, sentado na poltrona, estivesse o Homer Simpson”, escreveu Lira em seu facebook.

“Estranhei, mas respondi às perguntas, com alguma indignação interior e o máximo de didatismo. Agora fico sabendo que, a partir de amanhã, 21 de outubro, minha fala será aproveitada em uma série intitulada ‘Guia Politicamente Incorreto’, baseada em uma coleção de livros homônimos. O sentimento é de que fui ludibriado. Ninguém me informou antes, durante ou logo após a entrevista qual era a inspiração do programa. Cometi um erro. Assinei uma autorização de direito de imagem, sem ler, como de praxe, confiando na boa fé do entrevistador. Sinto-me violentado em fazer parte de qualquer produção que recorra à superficialidade e ao polemismo fácil.”

O sentimento é de que fui ludibriado. Ninguém me informou antes, durante ou logo após a entrevista qual era a inspiração do programa

No fim-de-semana, outros historiadores se juntaram ao jornalista e escritor em sua queixa. Laurentino Gomes, Lília Scwarcz, Thales Guaracy, Isabel Lustosa e Mary del Priore também reclamaram não ter sido avisados de que as entrevistas seriam utilizadas no programa baseado na série de livros que não conta com o menor respeito no meio literário ou historiográfico.

Laurentino, autor de 1808, sobre a chegada da família portuguesa ao Brasil, apoiou Lira no twitter.

Enquanto isso, o canal History continua usando as imagens dos autores ludibriados em seus canais de divulgação.

Autor dos livros, o colunista da Veja Leandro Narloch admitiu no facebook não ter havido a explicação necessária aos entrevistados, atribuindo o problema a uma “mancada” da produtora e não a algo intencional para conseguir os depoimentos. “Entendo a queixa dos entrevistados e concordo com o pedido. Quem participa precisa saber do que está participando. O entrevistado tem todo o direito de saber com quem está conversando e qual o objetivo da entrevista -não só para decidir se aceita falar, mas para moderar suas opiniões”, escreveu.

Como acreditar em um programa supostamente de história cuja impostura já começa nas entrevistas?

Hoje, Lira Neto comentou novamente no facebook que o diretor da série (aquele que havia pedido a ele para falar “como se fosse com Homer Simpson”) “reconheceu o erro ético” e se comprometeu a eliminar as entrevistas e seu nome do material de divulgação. Laurentino Gomes escreveu ter aceitado as “desculpas” de Narloch e da produtora.

Fica a pergunta: como acreditar em um programa cuja impostura já começa nas entrevistas? Como acreditar que seja sério um “guia” do qual pessoas sérias pulam fora com medo de ter seu nome associado a ele? Seguidores do canal History (sic) no twitter já haviam reclamado de postagens nos últimos dias em que a emissora assume o discurso da série, como este em que os índios são acusados de destruir a natureza.

O mais lamentável é que, agora que os autores e historiadores comprometidos com os fatos históricos pediram para sair, a picaretagem, ops, o programa sobre “história” do Brasil ficará ainda mais em mãos dos falseadores da direita.

 

 


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