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Cultura

Há 38 anos, Beth Carvalho cantava no show do Riocentro que os militares queriam explodir

A cantora morreu no mesmo dia do histórico Show do Trabalhador, que militares de extrema-direita tentaram explodir pelos ares em 1981

Beth no Riocentro em 1981. Foto: reprodução
Cynara Menezes
01 de maio de 2019, 15h52

Coincidência incrível e emblemática do país neste momento: a cantora Beth Carvalho, militante de esquerda a vida toda, morreu, aos 72 anos, no mesmo dia em que o atentado ao Riocentro completava 38 anos. Em 30 de abril de 1981, um ataque a bomba planejado pela extrema-direita do Exército, insatisfeita com os ventos de redemocratização do país, pretendia assassinar os maiores nomes da MPB que participavam do Show do Trabalhador –entre eles, Beth, com 35 anos então.

Chico, Alceu, Cauby, Gal, João Nogueira, Clara Nunes, Elba Ramalho, Ivan Lins, Simone, Miúcha… Teriam sido todos mortos se a bomba não tivesse explodido no colo do sargento. Beth teria nos deixado com 38 anos de antecipação

Naquela noite, um público de cerca de 20 mil pessoas lotava a casa de shows, celebrando com música o 1º de maio. Era a segunda vez que o Show do Trabalhador acontecia; o primeiro fora no ano anterior, trazendo grandes ídolos como Chico Buarque, Djavan, João do Vale, Clara Nunes, Dorival Caymmi, Gonzaguinha, Alceu Valença… Em 1980, data da primeira edição, já havia acontecido um atentado a bomba contra a realização do evento, com a explosão de uma loja do Rio que vendia ingressos para o espetáculo.

Organizado pelo Cebrade (Centro Brasil Democrático), ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e presidido por Oscar Niemeyer, o Show do Trabalhador tinha roteiro e coordenação de Chico e fazia, naquele ano, uma homenagem especial a Luiz Gonzaga. Enquanto os artistas cantavam no lado de dentro, no estacionamento do Riocentro, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, codinome “agente Wagner”, e o capitão Wilson Dias Machado, codinome “dr. Marcos”, dentro de um Puma GTE, carro de playboy na época, se preparam para explodir todo mundo pelos ares e provocar uma chacina.

Mas a bomba, que seria colocada sob o palco, acabou explodindo no colo do sargento, que morreu na hora. O capitão Machado ficou gravemente ferido. O Exército jamais assumiu a autoria do atentado, e associou-se à imprensa para tentar jogar a responsabilidade da bomba no colo de organizações de esquerda que nem existiam mais àquela altura. Não colou. “A ditadura fez isso, ia matar todos nós, artistas, a maioria da música popular brasileira estava lá e mais de 20 mil pessoas assistindo a gente”, disse Beth em depoimento à GloboNews, em 2011.

“Eu socorri ele (Machado) e o tirei de dentro do carro, com os olhos esbugalhados, o braço chamuscado e o abdome sangrando muito. Como não consegui falar com ele, botei a mão na carteira dele e vi que era capitão do Exército. Eu era militar e tentei salvar um militar”, contou em 2014 à Comissão Nacional da Verdade o corretor de imóveis Mauro César Pimentel, testemunha do atentado.

O Puma destruído e o sargento morto. Foto:

Aos 18 anos, Pimentel servia ao Exército e tinha saído de Niterói com dois amigos para ir ao Riocentro, na zona oeste do Rio. Segundo a Agência Brasil, ele viu dois cilindros no banco de trás do Puma e um no colo do sargento, que se irritou ao vê-lo olhar para dentro do carro e o xingou. Como tinha esquecido algo em seu carro, parado atrás do Puma, ele voltou depois e, ao passar novamente pelos militares, foi hostilizado novamente: “Sai daqui agora, seu filho da puta!”, disse um deles. Ao se afastar, Pimentel ouviu o estrondo da explosão e correu em direção ao carro.

O som da explosão foi ouvido lá dentro, mas o show continuou. “A plateia toda que estava em mim de repente olhou para trás e depois voltou em seguida para mim como se nada houvesse acontecido”, contou Alceu Valença. Só na saída todo mundo soube do que de fato sucedeu do lado de fora.

“Além da bomba que explodiu no Puma, ocorreu uma segunda explosão no interior do Riocentro, na miniestação elétrica responsável pelo fornecimento de energia do centro de convenções. A bomba foi jogada por cima do muro da miniestação, mas explodiu em seu pátio e a eletricidade do pavilhão não chegou a ser interrompida” diz o relatório preliminar Caso Riocentro: Terrorismo de Estado contra a População Brasileira, publicado pela Comissão da Verdade em 2014.

O relatório conclui sobre o atentado que foi “um minucioso e planejado trabalho de equipe realizado por militares do I Exército e do Serviço Nacional de Informações (SNI) e que o primeiro inquérito policial militar (IPM) sobre o caso, aberto em 1981, foi manipulado para posicionar os autores diretos da explosão apenas como vítimas”. O capitão Machado, em vez de punido, acabou promovido.

“A ditadura fez isso, ia matar todos nós, artistas, a maioria da música popular brasileira estava lá e mais de 20 mil pessoas assistindo a gente”, disse Beth em depoimento à GloboNews, em 2011

O coordenador da CNV, Pedro Dallari, disse que o caso Riocentro foi o último de uma série de 40 atentados ocorridos entre janeiro de 1980 e abril de 1981 para “dificultar a abertura política iniciada em 1979 e dar uma sobrevida ao regime militar”. De acordo com a Comissão, a bomba que pretendia matar a nata da MPB brasileira e milhares de pessoas inocentes era um artefato explosivo improvisado, de fabricação artesanal, do tipo acionador de tempo (bomba-relógio), com a utilização de autoexplosivo à base de nitroglicerina, cerca de 150 gramas. Chico, Alceu, Cauby Peixoto, Gal Costa, João Nogueira, Clara Nunes, Elba Ramalho, Ivan Lins, Simone, Miúcha… Teriam sido todos mortos se a bomba não tivesse explodido no colo do sargento. Beth teria nos deixado com 38 anos de antecipação.

Há cinco anos, a divulgação do relatório da Comissão da Verdade, com estas e outras revelações sobre a violência de Estado na ditadura, deixou os militares furibundos. Não é por acaso o ódio que passaram a sentir por Dilma Rousseff. Assim como não é por acaso que o presidente da República não tenha soltado nem sequer uma nota de pesar sobre a morte de uma das principais estrelas de nossa música.

 


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