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Horrores do neoliberalismo: avó inglesa se mata por não poder pagar “imposto do dormitório”

Quem paga a conta da crise na Europa? Os pobres, claro. Assim como vem acontecendo na Espanha, onde tem gente se matando por conta dos despejos promovidos pelos bancos, agora é na Inglaterra que começam a aparecer suicidas por questões econômicas. No último dia 4 de maio, Stephanie Botrill, de 53 anos, deu fim à […]

Cynara Menezes
15 de maio de 2013, 21h07

(protesto contra o imposto do dormitório na Inglaterra)

Quem paga a conta da crise na Europa? Os pobres, claro. Assim como vem acontecendo na Espanha, onde tem gente se matando por conta dos despejos promovidos pelos bancos, agora é na Inglaterra que começam a aparecer suicidas por questões econômicas. No último dia 4 de maio, Stephanie Botrill, de 53 anos, deu fim à própria vida porque não podia pagar uma nova taxa instituída pelo governo conservador de David Cameron: o “imposto do dormitório” (bedroom tax). Trata-se de um imposto bizarro que vai atingir sobretudo os mais carentes, porque é direcionado às casas e apartamentos administrados pelas prefeituras, onde moram as famílias de baixa renda, pagando aluguel.

Com o novo imposto, as pessoas que vivem nestas casas terão de pagar uma taxa extra de 10 libras semanais por quarto desocupado. Ou seja, se seu filho saiu de casa, você precisa dar uma grana ao governo por isso. Estima-se que mais de 220 mil famílias serão atingidas pelos cortes impostos por Cameron nos benefícios sociais. O primeiro-ministro já passou o facão na educação, saúde e segurança e agora chega à moradia. Obviamente as novas regras têm provocado protestos no país. Sindicatos, oposição e até líderes religiosos se uniram sobretudo contra o malfadado imposto do dormitório, que começou a vigorar no dia 1 de abril.

Stephanie Botrill, que criou os dois filhos como mãe solteira, estava triste por ter que deixar a casa onde viveu durante 18 anos porque não tinha como pagar o imposto. Como os filhos cresceram e foram morar sozinhos, ela teria que pagar, pelos dois quartos vazios, 80 libras a mais por mês (cerca de 245 reais), algo impensável em seu apertado orçamento. Já tinha até empacotado as coisas para ir embora quando tomou a decisão de se matar. Em um bilhete ao filho, Steven, de 27 anos, Stephanie deixa muito claras as razões para o ato desesperado: “Não se culpe porque terminei com a minha vida. Os únicos responsáveis estão no governo”.

Como no Brasil, os jornais ingleses também têm a tradição de não noticiar suicídios, mas, neste caso, como envolvia políticas públicas, abriram uma exceção. Integrantes do gabinete de Cameron tentaram minimizar o caso. Um ministro lamentou a morte “trágica”, mas disse ser “errado” conectá-la às políticas do governo, como se a própria Stephanie não tivesse feito isso em sua carta suicida.

O que mais me impressiona, além da crueldade destas leis supostamente para “resolver” a crise (eu duvido), é a possibilidade de se instaurar no país uma sociedade policialesca a la 1984 de George Orwell –ou à moda do regime stalinista que o livro criticava. Quem vai denunciar os moradores que têm quartos sobrando? Haverá dedos-duros oficiais? Eles serão premiados? Se for feita pelo governo, como será esta vigilância? Todo mês irá um fiscal às casas para verificar quantas pessoas estão lá morando? E o que é pior: para onde irão as pessoas que não podem pagar o imposto do dormitório, como Stephanie? Tristes tempos.

 


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(7) comentários Escrever comentário

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Carlos Fischborn em 16/05/2013 - 17h56 comentou:

Na França existe uma epidemia de suicídios de empregados de empresas privatizadas mas a imprensa não vê isso como um problema.

Cynara, me desanima entrar no teu blog, tanto em casa quanto no trabalho, a tua página é super "trancada", tudo demora pra acontecer (se mover). Chega a travar todo o navegador incluindo outras guias/janelas abertas.

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Lucas em 09/06/2013 - 14h24 comentou:

Pelo menos não se mataram fugindo da Ilha… ah, esqueci, não é desta ilha que isto acontece!

Responder

    Attila Louzada em 09/06/2013 - 17h29 comentou:

    Pelo menos?! Você passou sério no que escreveu?

    Paulo em 25/07/2013 - 05h30 comentou:

    Se matar por conta do aumento dos impostos em um país desenvolvido não me parece mais grave do que se matar como consequência da pobreza extrema e da supressão das liberdades individuais que são a realidade da outra Ilha. O comentário do Lucas pode ter sido irônico ou inoportuno frente à tristeza de uma notícia de suicídio, seja onde for, mas não foi de forma alguma equivocado. Eu também preferia enfrentar um imposto de 10 libras pelo uso de um privilégio em um país rico (um quarto sobrando em um apartamento subsidiado pelo Governo) do que ganhar 25 dólares por mês como neurocirurgião e não ter liberdade de expressão e de voto.

Paulo em 25/07/2013 - 05h22 comentou:

Como os liberalistas e neoliberalistas defendem menos Governo e menos imposto, nem sei se entendi o que a "Socialista Morena" quis dizer com o título deste post. Que eu saiba, quem adora altos impostos para sustentar o Estado superprotetor e onipresente são os socialistas (morenos ou branquelos).

No entanto, o que certamente posso dizer é que os apartamentos sujeitos a este imposto são somente aqueles subsidiados pelo Governo, isto é, pelo contribuinte. Manter apartamentos subsidiados com dormitórios vazios me parece um desvio da finalidade do subsídio. Outras famílias mais numerosas ficam sem aluguel subsidiado como consequência do luxo ao qual os locatários – cujos filhos sairam de casa – querem se dar. Por isso, não entendo a revolta contra o imposto.

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Aspone em 02/09/2013 - 21h56 comentou:

PERAÍ!! O Governo cria um imposto e o culpado é liberalismo (que quer diminuir/eliminar o governo)? Sério??

Responder

Cesar Massimo em 03/09/2013 - 08h43 comentou:

Companheiros,
Creio que erramos na manchete. a correta seria.
"horrores-do-COMUNISMO-avo-inglesa-se-mata-por-nao-poder-pagar-imposto-do-dormitorio/"
Os liberais são contra os impostos. Nós comunistas sim, somos a favor dos impostos. Quanto mais impostos, mais teremos para redistribuir ao nosso gosto. Se um ou outro suicidar? Não faz diferença para nossa causa tão nobre.

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