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Joesley Safadão se livrou dos achacadores da Justiça e da política –e ao mesmo tempo da lei

Desde a eleição de 2006, a JBS, empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista, figura entre os maiores doadores de campanha no Brasil. Na presidencial daquele ano, o frigorífico doou 12 milhões de reais; em 2010, o valor saltou para 63 milhões de reais; em 2014, a JBS superou a Odebrecht e se tornou a […]

(Um dos memes do Joesley Safadão que circulam nas redes)
Cynara Menezes
21 de maio de 2017, 12h41
(Um dos memes do Joesley Safadão que circulam nas redes)

(Um dos memes do Joesley Safadão que circulam nas redes)

Desde a eleição de 2006, a JBS, empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista, figura entre os maiores doadores de campanha no Brasil. Na presidencial daquele ano, o frigorífico doou 12 milhões de reais; em 2010, o valor saltou para 63 milhões de reais; em 2014, a JBS superou a Odebrecht e se tornou a maior doadora eleitoral do país, com 366,8 milhões, segundo o que foi registrando no TSE. Os beneficiários da parte ilegal destas doações (as propinas) teriam sido, segundo Joesley Batista, 1.829 políticos eleitos de 28 partidos, principalmente PMDB, PT, PSDB e DEM. Na última eleição, os candidatos Dilma e Aécio Neves receberam legalmente 5 milhões de reais da JBS cada um.

Por conta das doações e dos generosos empréstimos que recebeu do BNDES, Joesley Batista estava sendo investigado pela operação Greenfield e também pela operação Carne Fraca. Nos áudios divulgados esta semana, ele revela sua preocupação com as investigações. A Justiça já havia decidido afastá-lo, em março deste ano, da presidência da J&F, a holding que controla o grupo, e de uma de suas controladas, a Eldorado Celulose. Joesley se movia pelos subterrâneos do Judiciário e da política molhando a mão de quem pudesse para tentar se livrar das investigações e da cadeia. Até que decidiu delatar.

Nos vídeos das delações e nas gravações feitas às escondidas pelo empresário, chamam a atenção duas coisas. A primeira delas é que, em relação a Lula e Dilma, a narrativa de Joesley seja extremamente confusa: ele teria aberto uma conta na Suíça em seu nome, mas que era movimentada por Lula, Dilma e Guido Mantega no Brasil. Ora, não precisa ser um especialista em finanças para saber da dificuldade que existe em se sacar dinheiro de uma conta no exterior estando aqui. Ainda mais quando ela não está em seu nome… A história de Joesley com Dilma e Lula simplesmente não se sustenta com base na lógica. Teria o empresário sido estimulado a citá-los?

O segundo aspecto que chama a atenção é o porquê de Joesley ter escolhido, entre tantos políticos beneficiados por sua “mão aberta”, o tucano Aécio Neves e o presidente Michel Temer para gravar. Seriam eles os maiores solicitadores de dinheiro à empresa? O empresário Joesley Batista faz crer que sim. Em um dos vídeos, aparece afirmando ter dito a Aécio “pelo amor de Deus” para parar de lhe pedir grana. Será que Aécio era mesmo “o mais chato” como disse, em janeiro do ano passado, o delator da empreiteira UTC?

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Em outro vídeo, Joesley afirma, com todas as letras, que 100% do seu “negócio” eram “com o presidente Michel”.

Seu empregado, o também delator Ricardo Saud, chega a dizer que Temer pediu 15 milhões de reais e “embolsou 1 milhão” pessoalmente. “O Michel Temer fez até uma coisa muito deselegante, porque nessa eleição eu só vi dois caras roubarem deles mesmos: um foi o Kassab e outro, o Temer. O Temer me deu um papelzinho e disse: ‘olha, Ricardo, tem 1 milhão que eu quero que você entregue em dinheiro nesse endereço aqui'”, contou Saud, diretor do frigorífico, informando que o endereço era da empresa de engenharia e arquitetura Argeplan, de um amigo do presidente da República. “Eu já vi o cara pegar o dinheiro na campanha e gastar na campanha. Agora, o cara ganhar um dinheiro do PT e guardar no bolso dele, isso ai é muito difícil.”

Além dos políticos, Joesley era achacado por integrantes do Judiciário. Na conversa que complicou Temer e que pode levar a seu impeachment por prevaricação, o empresário fala textualmente sobre a compra de um procurador, um juiz e um juiz substituto. Em relação a estes dois últimos, ele afirmou depois que estava “blefando”, mas não se sabe se isto foi ou não investigado. Quem de fato foi investigado foram o procurador Ângelo Goulart Villela, que receberia uma mesada de 50 mil reais, e o advogado Willer Tomaz, contratado por 8 milhões de reais, ambos já presos a pedido da procuradoria-geral da República.

Mas o que vai acontecer com Joesley agora? Nada além de uma multa de 110 milhões de reais parcelada em 10 anos. O acordo de delação do dono da JBS, já homologado pelo ministro do STF Edson Fachin, foi o melhor já feito desde que se iniciou a Lava-Jato, há três anos. O empresário nem sequer será preso: pelo acordo que fechou, permanecerá solto, sem tornozeleira e com direito de morar no exterior. No sábado, 20 de maio, já foi filmado embarcando para Nova York, nos Estados Unidos, em companhia da mulher, do filho, da cunhada e do parceirão Saud.

Quer dizer, Joesley se livrou, de uma tacada só, dos políticos e dos membros do Judiciário achacadores e, ainda por cima, das garras da Justiça. Com um detalhe: pode ter ficado ainda mais rico esta semana. A JBS admitiu ter comprado dólares após a divulgação da notícia e pode ter lucrado milhões na Bolsa com sua própria delação. Uma jogada de mestre que confirma o apelido que seu dono ganhou nas redes sociais, de gozação. É o próprio Joesley Safadão.

Todo mundo lembrou do capítulo final de Vale Tudo, a imortal novela de Gilberto Braga, de 1988.

Os brasileiros honestos se perguntam que tipo de Justiça é esta que está se praticando na Lava-Jato, onde corruptos e corruptores levam a maior vantagem contanto que delatem alguém, onde delatores escapam da lei tão ou mais ricos do que entraram. A única lição possível que tem ficado de toda esta “operação anticorrupção” até agora é a de que vale a pena roubar muito; depois basta delatar para continuar livre, leve, solto –e milionário.

 

 

 

 

 

 

 


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