Socialista Morena
Feminismo

Lenin, Clara Zetkin e o puritanismo de setores da esquerda com a prostituição

Debater sobre sexo e casamento é uma atitude burguesa, como criticava o líder revolucionário, ou uma forma de abalar a sociedade patriarcal, como defendiam as mulheres comunistas?

Lenin, Clara Zetkin e a mulher do líder soviético, Nadezhda Krupskaia. Ilustração de Boris Lebedev, 1969
Cynara Menezes
17 de novembro de 2017, 12h35

Lenin estava puto ao receber em seu gabinete no Kremlin, em 1920, a alemã Clara Zetkin, uma das primeiras feministas da história e então representante do Partido Comunista no Reichstag. A voz do líder revolucionário russo era suave, mas sua contrariedade era grande com os rumos do feminismo na Alemanha. Incomodava-o basicamente dois pontos: a “excessiva” ênfase das mulheres em debater sexo e casamento e a defesa da prostituição como atividade profissional.

O diálogo que se desenrola entre Clara e Lenin, narrado por ela em seus diários, nos leva a refletir sobre a origem do puritanismo de setores da esquerda (e do feminismo) em relação às prostitutas. Se há uma frase com a qual toda a esquerda concorda é “meu corpo, minhas regras” no que diz respeito às mulheres. Isso é unânime. O corpo da mulher a ela pertence e nenhum homem (pai, irmão, marido) tem o direito de dispor sobre ele. No entanto, há uma parte da esquerda e do feminismo que resiste em aceitar a prostituição como uma forma de trabalho. Ora, se o corpo é da mulher, o que se exterioriza na liberdade com a qual se veste (ou se despe), isso deveria incluir… vendê-lo se assim o desejar, correto? Segundo alguns esquerdistas e feministas, não.

Há quem diga que “a prostituição é a banalização do estupro”, como se não fosse sexo com consentimento entre dois adultos, que é sobre o que estamos falando. Há quem cite Simone de Beauvoir, que via na prostituta “uma escrava”, em uma relação de exploração onde a mulher é reduzida a “coisa”. As causas para a prostituição, segundo Beauvoir, seriam o abandono pelos pais, amantes ou maridos, o desemprego, a falta de estudo, a exploração sexual, o abuso sexual e doméstico… Para ela, a prostituição acabaria se todas as mulheres tivessem “empregos decentes”… Mas e quem se prostitui porque quer?

Um projeto de regulamentação da profissão de prostituta de autoria do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), em análise no Congresso, foi rechaçado por algumas feministas, acusado de “legitimar a mercantilização do corpo feminino”, enquanto as próprias entidades de prostitutas o defendem dizendo que ele regulamenta algo que já existe e dá mais segurança jurídica às profissionais do sexo em relação, por exemplo, à extorsão policial.

No encontro que teve com Lenin, Clara faz questão de destacar que o líder soviético dava grande importância ao movimento feminino –de fato, a revolução russa trouxe um enorme avanço para as mulheres da União Soviética e do bloco comunista como um todo em comparação às ocidentais. Elas trabalhavam fora, tinham cargos no partido e no Exército, podiam se divorciar por sua própria iniciativa… Eram livres, desde que os homens dessem as diretrizes, é o que se pode concluir do diálogo.

“Em Petrogrado, em Moscou, nas cidades e nos centros industriais afastados, o comportamento das mulheres proletárias durante a revolução foi soberbo. Sem elas, muito provavelmente não teríamos vencido. Essa é minha opinião”, elogiou Lenin. “De quanta coragem deram provas e quanta coragem mostram ainda hoje! Imaginai todos os sofrimentos e as privações que suportaram. . . Mas mantêm-se firmes, não se curvam, porque defendem os sovietes, porque querem a liberdade e o comunismo. Sim, as nossas operárias são magníficas, são verdadeiras lutadoras de classes. Merecem nossa admiração e nosso afeto.”

Mas o líder revolucionário torcia o nariz para a inclusão das prostitutas entre as “lutadoras de classe”. “A esse respeito, ouvi dizer coisas estranhas”, queixa-se Lenin. “Devo contar-vos. Foi-me dito que uma comunista muito qualificada publica em Hamburgo um jornal para as prostitutas e tenta organizar essas mulheres para a luta revolucionária.” O líder soviético se referia a Ketty Guttmann, comunista e ativista pelos direitos das prostitutas que lançara naquele ano o jornal Der Pranger, na verdade uma publicação absolutamente vanguardista para a época, publicado pela Associação de Prostitutas de Hamburgo.

O Der Pranger é considerado um pioneiro entre as publicações feministas radicais justamente por fazer a aproximação entre as prostitutas e a sociedade. Mesmo perseguido pela Justiça, durou quatro anos e foi incrivelmente popular na época. Entre as reivindicações das prostitutas de Hamburgo enumeradas na publicação, estavam os aluguéis fixos, a revogação da “cerveja obrigatória” nos bordéis, o que forçava as meninas a beber com os pretendentes para aumentar as vendas, e as restrições a que elas estavam sujeitas em seu tempo livre.

No semanário, a prostituição e o trabalho sexual eram o ponto de partida para pensar em questões mais amplas de gênero, sexualidade, trabalho, casamento e reprodução. Ketty Guttmann e as próprias putas abordavam o tema sem que os profissionais do sexo fossem desvalorizados ou vitimados. Lenin não gostou. A visão dele é a que persiste entre setores da esquerda e do feminismo: as prostitutas são apenas pobres coitadas.

“Rosa (Luxemburgo) agiu como comunista ao escrever um artigo no qual tomava a defesa das prostitutas, que são lançadas à prisão por infrações a qualquer regulamento da polícia referente à sua triste profissão. Duplamente vítimas da sociedade burguesa, as prostitutas merecem ser lamentadas. São vítimas, antes de tudo, do maldito sistema da propriedade, e depois do maldito moralismo hipócrita. Somente os brutos ou os míopes podem esquecê-lo. No entanto, não se trata de considerar as prostitutas como um setor especial da frente revolucionária e de publicar para elas um jornal especial”, disse a Clara Zetkin naquele encontro.

Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo em 1910

Para Lenin, só existia luta revolucionária a partir das mulheres trabalhadoras e as putas não estavam entre elas. “Será que não existem, na Alemanha, operárias industriais para organizar, para educar com um jornal, para arrastar à luta? Eis aí um desvio mórbido. Isso me recorda muito a moda literária em que toda prostituta era apresentada como uma doce madona. É verdade que mesmo naquele caso a ‘raiz’ era sã: a compaixão social, a indignação contra a hipocrisia virtuosa da honrada burguesia. Mas essa raiz sã, sofrendo a contaminação burguesa, apodreceu. Em geral, a prostituição, mesmo no nosso país, colocará diante de nós numerosos problemas de difícil solução.”

A prostituta não deveria lutar por direitos de profissional do sexo, mas ser reconduzida “ao trabalho produtivo, indicar-lhe um lugar na economia social; o que, no estado atual de nossa economia e nas condições atuais, é uma coisa complicada e dificilmente realizável”, ele admite. “Eis portanto um aspecto da questão feminina que, depois da conquista do poder pelo proletariado, se apresenta em toda a amplitude e exige solução. Na Rússia soviética, esse problema dará ainda pano para mangas.”

Para Lenin, só existia luta revolucionária a partir das mulheres trabalhadoras e as putas não estavam entre elas; tratava-as como pobres coitadas

O líder soviético diz que o partido não irá tolerar esta abordagem da prostituição e cobra de Clara ter tomado alguma providência para impedir. Sem esperar pela resposta, Lenin passa a exigir dela também que os debates e reuniões noturnas dos comunistas dediquem menos tempo para falar de sexo e casamento. Bem a cara de certa esquerda pudica…

“A lista de vossos pecados, Clara, ainda não terminou. Ouvi dizer que ocupai-vos sobretudo com as questões do sexo e do casamento. Esse assunto estaria no centro de vossas preocupações, de vossa instrução política e de vossa ação educativa! Não acreditei no que ouvi. O primeiro Estado no qual se realizou a ditadura proletária está cercado de contra-revolucionários de todo o mundo. A situação da própria Alemanha exige a máxima união de todas as forças revolucionárias proletárias para repelir os ataques sempre mais vigorosos da contra-revolução. E, agora, justamente agora, as comunistas ativas tratam da questão sexual, das formas de casamento no passado, no presente e no futuro, julgam que seu primeiro dever é instruir as operárias nessa ordem de idéias. Disseram-me que o folheto de uma comunista vienense sobre a questão sexual tivera amplíssima difusão. Que tolice, esse folheto!”

Lenin não quer nem saber de Freud. “As hipóteses freudianas mencionadas no folheto em questão conferem ao mesmo um caráter que se pretende ‘científico’, mas no fundo são ignorantes, torpes. Não tenho confiança alguma nessas teorias, nessa literatura específica que floresce com exuberância no terreno sujo da sociedade burguesa. Desconfio daqueles que estão absorvidos constante e obstinadamente com as questões do sexo, como o faquir hindu com a contemplação do próprio umbigo.”

Não era a primeira vez que o líder russo se insurgia contra os debates sobre sexo e casamento, uma demanda das próprias mulheres comunistas, como um “desvio burguês” e “símbolo da decadência burguesa”. Em uma carta de 1915 à revolucionária franco-russa Inessa Armand, com quem teve um longo romance, Lenin critica um trecho do panfleto que ela estava escrevendo onde trata do interesse das mulheres por “amor livre”, uma ideia disseminada pela russa Alexandra Kollontai, para quem o sexo era uma necessidade tão natural à saúde humana quanto a fome e a sede. “Esta é uma demanda burguesa, não do proletariado”, ele diz. As mesmas frases são repetidas a Clara Zetkin.

Desconfio daqueles que estão absorvidos constante e obstinadamente com as questões do sexo, como o faquir hindu com a contemplação do próprio umbigo

“Parece-me que essa abundância de teorias sexuais, que são em grande parte hipóteses arbitrárias, provém de necessidades inteiramente pessoais, isto é, da necessidade de justificar aos olhos da moral burguesa a própria vida anormal ou os próprios instintos sexuais excessivos e de fazê-la tolerá-los. Esse respeito velado pela moral burguesa repugna-me tanto quanto essa paixão pelas questões sexuais. Tem um belo revestimento de formas subversivas e revolucionárias, mas essa ocupação não passa, no fim das contas, de puramente burguesa. A ela se dedicam de preferência os intelectuais e as outras camadas da sociedade que lhes são próximas. Para tal tipo de ocupação não há lugar no Partido, entre o proletariado que luta e tem consciência de classe.”

Clara Zetkin em retrato de Vlasily Meshkov, 1928

Clara contestou, tentando mostrar a ele que as questões sexuais e do casamento estão imbricadas com a libertação da mulher. “Fiz notar que as questões sexuais e matrimoniais, no regime de propriedade privada, suscitavam múltiplos problemas, que eram causa de contradições e de sofrimentos para as mulheres de todas as classes e de todas as camadas sociais. A guerra e suas conseqüências, disse eu, agravaram ao extremo para a mulher as contradições e os sofrimentos que existiam antes, nas relações entre os sexos. Os problemas, ocultos até então, foram agora revelados aos olhos das mulheres e isto na atmosfera da revolução recém-começada. O mundo dos velhos sentimentos, das velhas idéias, desmorona por toda parte. Os vínculos sociais, de uma só vez, se enfraquecem e se rompem. Vêem-se surgir os germes de novas premissas ideológicas, que ainda não tomaram forma, para as relações entre os homens. O interesse que essas questões suscitam exprime a necessidade de uma nova orientação”, ela diz.

Bem adiante de seu tempo, Clara Zetkin antevê que uma nova visão do casamento e do sexo pode funcionar como um instrumento de demolição das mentiras da sociedade burguesa. “A mudança das formas matrimoniais e familiares no curso da História, em sua dependência da economia, constituem um bom meio para varrer do espírito das operárias a crença na perpetuidade da sociedade burguesa. Fazer a crítica histórica dessa sociedade significa dissecar sem piedade a ordem burguesa, desnudar sua essência e suas conseqüências e estigmatizar além disso a falsa moral sexual. Todos os caminhos levam a Roma. Toda análise verdadeiramente marxista de uma parte importante da superestrutura ideológica da sociedade ou de um fenômeno social importante deve conduzir à análise da ordem burguesa e de sua base, a propriedade privada; cada uma dessas análises deve conduzir a esta conclusão: ‘É preciso destruir Cartago.'”

Fazer a crítica histórica dessa sociedade significa dissecar sem piedade a ordem burguesa, desnudar sua essência e suas conseqüências e estigmatizar além disso a falsa moral sexual

Lenin parece se dar por vencido, mas volta à carga. “Muito bem. Tendes o ar de um advogado que defende seus companheiros e seu partido. Sem dúvida, o que dissestes é justo. Mas poderia servir apenas para desculpar o erro cometido na Alemanha, não para justificá-lo. Um erro cometido continua a ser um erro. Podeis garantir-me seriamente que as questões sexuais e matrimoniais são discutidas em vossas reuniões sempre do ponto de vista do materialismo histórico vital, bem compreendido? Isso exige conhecimentos vastos, aprofundados, conhecimento marxista, claro e preciso, de uma enorme quantidade de materiais. Dispondes, neste momento, das forças necessárias?”, cobra.

“Outra observação, que não é inútil. O sábio Salomão dizia: cada coisa a seu tempo. Peço-vos responder: é precisamente este o momento de manter ocupadas as operárias, meses inteiros, para falar-lhes do modo como se ama ou se é amado, do modo como se faz a corte ou se aceita a corte entre os vários povos, tanto no passado, como no presente e no futuro? E é isso que se denomina orgulhosamente de materialismo histórico! Neste momento, todos os pensamentos das operárias, das mulheres trabalhadoras, devem estar voltados para a revolução proletária. Ela é que criará inclusive base para as novas condições de casamento e novas relações entre os sexos. Agora, realmente, devem passar para primeiro plano outras problemas, que não aqueles que se referem às formas de casamento entre os maorís da Austrália ou os casamentos realizados entre consanguíneos na antiguidade”, ironiza.

As questões urgentes, segundo Lenin, são outras. “A História põe hoje na ordem do dia do proletariado alemão (…)o problema do desemprego, da rebaixa dos salários, dos impostos e muitas outras coisas. Em suma, penso que tal modo de educação política e social das operárias não é absolutamente o que deve ser feito. Como vos pudestes calar? Devíeis ter usado vossa autoridade!”

Clara cede e responde que os problemas do sexo e do casamento já não estavam mais no centro das discussões nos círculos e nas reuniões noturnas destinadas aos debates. Lenin continua a enxergar uma “predileção desmedida pelos problemas sexuais” entre os jovens, e demonstra um puritanismo que explica a resistência de certa esquerda pudica às questões LGBTs, por exemplo.

“Disseram-me que os problemas sexuais são mesmo um assunto predileto das vossas organizações juvenis. Isto é particularmente escandaloso, particularmente deletério para o movimento juvenil. Tais assuntos podem contribuir facilmente para excitar, para estimular a vida sexual de certos indivíduos, para destruir a saúde e a força da juventude. Deveis lutar também contra essa tendência. O movimento feminino e o juvenil têm muitos pontos de contato. Nossas camaradas comunistas devem fazer, portanto, junto com os jovens, um trabalho sistemático. Isso trará como resultado elevá-las, transportá-las do mundo da maternidade individual para o da maternidade social. É preciso contribuir para todo despertar da vida social e da atividade da mulher, para ajudá-la a elevar-se acima da mentalidade estreita pequeno-burguesa, individualista, da sua vida doméstica e familiar.”

Lenin continua. “Mesmo entre nós, uma grande parte da juventude trabalha diariamente para rever a concepção burguesa da ‘moral’ nos problemas sexuais. E devo dizê-lo, é a elite de nossa juventude, aquela que realmente promete muito. Como observastes, nas condições criadas pela guerra e pela revolução, os antigos valores ideológicos são abalados, perdem sua força. Os novos valores só se cristalizam lentamente, através da luta.”

O líder revolucionário russo, aos 50 anos, mostra-se preocupado com a “sede ardente de prazeres fáceis” pela juventude

“As concepções sobre as relações entre o homem e a mulher são transtornadas, assim como os sentimentos e as idéias. Delimitam-se de novo os direitos do indivíduo e os da coletividade e, por isso, os deveres do indivíduo. É um processo lento e muitas vezes doloroso, de perecimento e de nascimento. Isso é igualmente verdade no terreno das relações sexuais, do casamento e da família. A decadência, a putrefação, a lama do casamento burguês, com as suas dificuldades de dissolução, com a liberdade para o marido e a escravidão para a mulher, a mentira infame da moral sexual e das relações sexuais enchem os melhores homens de um desgosto profundo. O jugo que as leis do Estado burguês fazem pesar sobre o casamento e a família agrava ainda mais o mal e torna os conflitos mais agudos. É o jugo da ‘sagrada propriedade’ que sanciona a venalidade, a baixeza, a obscenidade. E a hipocrisia convencional da ‘honrada’ sociedade burguesa faz o resto.”

O líder revolucionário russo, aos 50 anos, mostra-se preocupado com a “sede ardente de prazeres fáceis” pela juventude, embora afirme compreender que são “ardores” típicos da idade e que seria falso pregar ascetismo monástico a comunistas. “Longe disso. O comunismo deve trazer não o ascetismo, mas a alegria de viver e o bem-estar físico, devidos também, à plenitude do amor. Penso que o excesso que se observa hoje na vida sexual não produz nem a alegria de viver nem o bem-estar físico, mas, pelo contrário, os diminuem. Ora, em épocas revolucionárias isto, é mau, muito mau”, afirma a Clara. O que incomoda Lenin é que o sexo se torne “a preocupação principal” dos jovens.

“Muitos qualificam sua posição de ‘revolucionária’ e ‘comunista’. Creem sinceramente que assim seja. Não nos ouvem, a nós, velhos. Embora eu não seja absolutamente um asceta melancólico, essa nova vida sexual da juventude e freqüentemente, dos adultos, me parece muitas vezes totalmente burguesa, um dos múltiplos aspectos de um lupanar burguês. Tudo isso nada tem a ver com a ‘liberdade do amor’, tal como nós comunistas a concebemos. Conheceis, sem dúvida, a famosa teoria segundo a qual, na sociedade comunista, satisfazer o instinto sexual e o impulso amoroso é tão simples e tão insignificante como beber um copo de água. Essa teoria do ‘copo de água’ deixou a nossa juventude louca, inteiramente louca.”

“Ela foi fatal a muitos rapazes e moças. Seus defensores afirmam que é uma teoria marxista. Belo marxismo esse para o qual todos os fenômenos e todas as modificações que se dão na superestrutura ideológica da sociedade decorrem de pronta, em linha direta e sem quaisquer reservas, unicamente da base econômica! A coisa não é tão simples como parece. Um certo Frederico Engels, já há muito tempo, salientou em que consiste verdadeiramente o materialismo histórico. Considero a famosa teoria do ‘copo de água’ como não marxista e anti-social. Na vida sexual se manifesta não só aquilo que deriva da natureza, mas também o que nos dá a cultura, quer se trate de coisas elevadas ou inferiores.”

“Sem dúvida, a sede deve ser saciada, Mas será que um homem normal, em condições igualmente normais, se deitará no chão, na rua, para beber água suja de um lameiro? Ou beberá em um copo marcado nas beiradas por dezenas de outros lábios?”, compara. “De fato, beber água é coisa pessoal. Mas, no amor, estão interessadas duas pessoas e pode vir uma terceira, um novo ser. É disso que surge o interesse social, o dever para com a coletividade. Como comunista, não sinto simpatia alguma pela teoria do ‘copo de água’, embora traga a etiqueta de ‘amor livre’. Além de não ser comunista, essa teoria nem é nova sequer. Recordai-vos, certamente, de que foi ‘pregada’ na literatura em meados do século passado, como ‘emancipação do coração’, que a prática burguesa transformou depois em ‘emancipação da carne’. Então, se pregava com mais talento que hoje. Quanto à prática, não posso julgá-la.”

Não confiarei, quanto à segurança e à firmeza na luta, nas mulheres cujos romances pessoais se misturam com a política, nem nos homens que correm atrás de todas as saias. Não, isso não é compatível com a revolução

As palavras de Lenin a Clara Zetkin deixam claro que ele coloca os esportes e os exercícios físicos, além dos estudos, acima do debate sobre o sexo. “Mente sã em corpo são. Nem monge, nem D. Juan e nem mesmo, como meio-termo, filisteu alemão. Não confiarei, quanto à segurança e à firmeza na luta, nas mulheres cujos romances pessoais se misturam com a política, nem nos homens que correm atrás de todas as saias e os que se deixam enfeitiçar pela primeira moça que surge. Não, isso não é compatível com a revolução.”

Neste momento, diz Clara, Lenin se ergue bruscamente, bate na mesa e dá alguns passos pela sala. “A revolução exige concentração, tensão das forças, tanto das massas, como dos indivíduos. Não pode tolerar estados orgíacos, do tipo peculiar às heroínas e aos heróis decadentes de D’Annunzio. Os excessos na vida sexual são sinal de decadência burguesa. O proletariado é uma classe em ascensão. Não necessita inebriar-se, atordoar-se, excitar-se. Não precisa embriagar-se nem com excessos sexuais, nem com álcool. Não deve olvidar, e não olvidará a baixeza, a lama e a barbárie do capitalismo. Utiliza seus maiores impulsos de luta na situação de sua classe e no ideal comunista. O que lhe é necessário é clareza e sempre clareza. Assim, repito, nada de fraqueza, nada de desperdício ou destruição de forças. Dominar-se, disciplinar os próprios atos não é escravidão, e é igualmente necessário no amor.”

Na sociedade brasileira de hoje, em que se ressuscitam o puritanismo e a moral burguesa como forma de dominação da sociedade, é preciso colocar, ao contrário do que dizia Lenin, estas questões no centro da discussão. Elas se tornaram tão importantes quanto o debate sobre os direitos dos trabalhadores. Clara Zetkin tinha razão.

 

 


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(2) comentários Escrever comentário

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Daltro Griebler Ferreira em 18/11/2017 - 07h43 comentou:

Tenho interesse neste assunto

Responder

MARIO MIRANDA DE ALBUQUERQUE em 22/11/2017 - 16h34 comentou:

Só agora com esse texto entendi de onde provinha a resistência de alguns em incluir a reivindicação de “encontros íntimos” na pauta de luta dos presos políticos em um presídio de presos políticos de SP durante a ditadura militar. O argumento era exatamente o de “evitar o desvio das energias revolucionárias”.

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