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Lista tríplice para reitor, refúgio dos falsos democratas

Desde que passei no vestibular para a UFBA (Universidade Federal da Bahia), em 1984, aos 17 anos, perdi a conta de quantos protestos e greves vi no País motivados pelas eleições à reitoria. A razão é sempre a mesma: o desrespeito ao nome escolhido democraticamente em votação pela comunidade universitária, ou seja, alunos, professores e […]

Cynara Menezes
04 de dezembro de 2012, 01h13

Desde que passei no vestibular para a UFBA (Universidade Federal da Bahia), em 1984, aos 17 anos, perdi a conta de quantos protestos e greves vi no País motivados pelas eleições à reitoria. A razão é sempre a mesma: o desrespeito ao nome escolhido democraticamente em votação pela comunidade universitária, ou seja, alunos, professores e funcionários.

Durante a ditadura militar e até a década de 1990 era a famigerada lista sêxtupla quem propiciava aos responsáveis pelo dedazo fazer uma espécie de uni-duni-tê de acordo com a conveniência e as relações políticas dos candidatos. Em 1988, o então presidente José Sarney, que se esmerava em desrespeitar o resultado da eleição para reitor, causou um problemão na UFBA ao escolher o quinto colocado da lista. Os estudantes ocuparam a reitoria durante semanas, protestaram, houve greve. De nada adiantou.

Atualmente, a escolha é feita por lista tríplice e, em 37 das 54 universidades federais, o voto é paritário. Isto significa que o voto de alunos, funcionários e estudantes tem o mesmo peso. Nas demais, os professores têm 70% do peso, e alunos e funcionários, 15% cada um, o que está longe do que se pode chamar de ideal. Ainda assim, felizmente, na esfera federal, nos últimos anos, tem se respeitado a democracia e nomeado o reitor mais votado. O mesmo não se pode dizer das universidades católicas ou estaduais, sobretudo em São Paulo.

O caso da USP é emblemático: em 2009, o então governador José Serra ignorou a votação da comunidade universitária, que optara pelo professor Glaucius Oliva. Serra preferiu nomear seu amigo João Grandino Rodas, segundo lugar na lista, rompendo uma tradição que vinha desde a volta da democracia de nomear o vencedor da eleição. Estudantes, professores e funcionários protestaram contra a decisão autoritária. Em vão. Rodas faz uma gestão, desde o princípio, rejeitada. Tenho curiosidade de ver alguma pesquisa sobre sua popularidade. Aposto que é baixíssima.

Agora é a vez da PUC-SP, onde a professora Anna Cintra, terceira colocada na eleição para reitor, foi escolhida pelo cardeal Dom Odilo Scherer, presidente do Conselho do órgão que administra a universidade. Os estudantes decretaram greve. Os professores acompanharam. Anna Cintra não teve a menor vergonha de assumir um cargo para o qual não foi escolhida democraticamente. Pior: havia assinado um documento, antes do pleito, garantindo que não assumiria a reitoria se não fosse a mais votada. Agora, argumenta que o documento foi uma “armação”, mas não sabe dizer por parte de quem. Existem suspeitas de que sua nomeação se baseia numa tentativa da Igreja de aumentar a influência católica sobre a PUC. Exatamente como no caso de Rodas, comenta-se que a escolha tem o dedo da Opus Dei, a ala conservadora da Igreja.

Há anos o movimento estudantil e as entidades representativas dos docentes e dos funcionários das Universidades lutam para que a eleição para reitor seja direta. Mas, na última reforma universitária, em 2006, a lista tríplice foi mantida. Para quê? Só existe uma explicação possível: para que os falsos democratas possam ser anti-democráticos à vontade, amparados na desculpa de estarem apenas cumprindo as regras. Para que os ditadores de plantão travestidos de cumpridores do regimento possam exercer o mando em instituições de ensino com mão de ferro, do jeito que adoram, sob o manto da legalidade. É o “golpe constitucional” versão universitária.

Enquanto houver lista tríplice para escolha de reitor, deveria ser proibido falar em eleição direta dentro da universidade. A lista tríplice é uma falsidade, uma mentira. Balela. A maior palhaçada da democracia brasileira.


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(5) comentários Escrever comentário

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Camila Efraim em 04/12/2012 - 01h27 comentou:

Democracia, falácia em várias circunstâncias em nosso Brasil.

Responder

mario cezar em 04/12/2012 - 12h32 comentou:

morena, de modo extraordinário, claude levi-strauss, definiu o brasil: " que adentrou o barbárie imposta pelo colonialismo e depois entrou em decadência" e que o grande artista caetano veloso definiu com ares de poética " "que aqui tudo que nasce já é ruina" então, morena, com traços de flor em algum recanto da alma, e algum perfume nas canelas.. tudo está frouxo. no sertão diz-se "acanaiado". a esquerda caminha aguerrida aos atalhos da paranoia. e dialoga aos berros da fantasia. a chamada direita é avassaldora quando trata-se de abocanhar a tudo e todos. é o retorno a fixação anal, de contornar a "obra" com os lampejos do narcisismo patológico. o homem é isso mesmo, um bicho, escondido em sua capa de silicones, batons ou como diria o mestre belchior" frágil, como um beijo de novela"

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Chico em 05/12/2012 - 20h38 comentou:

e viva o democracídeo!

Responder

Bom senso em 04/03/2013 - 19h09 comentou:

A PUC é uma universidade católica. Assim, não há nada demais que o cardeal exerça seu dever e suas prerrogativas para escolher o reitor. Essa possibilidade não está prevista nos estatutos? Chega a ser engraçado comentar que a Igreja queira aumentar sua influência numa universidade CATÒLICA. Essa influência está prevista já no nome da instituição. Quem quiser uma Universidade laica vá para uma que não seja Pontifícia e Católica.

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Bom Senso em 04/03/2013 - 19h10 comentou:

Espero que vocês sejam democráticos e aprovem.

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