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Lula: “Quero enfrentar o candidato da Globo em 2018”

Por Charles Nisz* O que deveria ser uma mera etapa estadual da eleição para presidente do PT, na quadra esportiva do Sindicato dos Bancários de São Paulo e Osasco, no último final de semana, virou um evento gigantesco. Equipes de televisão, rádio, imprensa alternativa e blogueiros foram cobrir o congresso do partido, além dos milhares […]

Cynara Menezes
09 de maio de 2017, 22h08
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(Lula na Feira da Reforma Agrária em São Paulo. Fotos: Filipe Araújo)

Por Charles Nisz*

O que deveria ser uma mera etapa estadual da eleição para presidente do PT, na quadra esportiva do Sindicato dos Bancários de São Paulo e Osasco, no último final de semana, virou um evento gigantesco. Equipes de televisão, rádio, imprensa alternativa e blogueiros foram cobrir o congresso do partido, além dos milhares de militantes petistas que encararam o frio e a chuva fina de uma sexta-feira à noite para ver Gleisi Hoffman e Lindbergh Farias, os dois postulantes ao cargo. Havia ainda um visitante ilustre, o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Mas quem atraiu toda aquela pequena multidão ao sindicato foi Luiz Inácio Lula da Silva.

Eram 19h15 e o povo já se aglomerava pelas arquibancadas do local. Bandeiras do PT e do movimento negro e o arco-íris LGBT se misturavam a singelos cartazes com os dizeres “Saudade da Dilma” ou “Desfaz o golpe e traz a Dilma de volta”. De acordo com o cronograma, o evento começaria às 19h, mas o trânsito da sexta-feira derrubou a previsão. Aos poucos, os principais nomes do partido foram chegando à quadra, no centro de São Paulo. Haddad atraiu a atenção das moçoilas, moças e senhoras, encantadas com a simpatia do ex-prefeito e dublê de galã. Minutos depois, chegaria Eduardo Suplicy, folclórica figura do PT e um dos fundadores do partido.

Mas o frenesi se instalou para valer quando um senhor de 71 anos, grisalho e ligeiramente calvo adentrou a garagem do sindicato. Berros e mais berros de “Lula” e “presidente” fizeram com que fotógrafos, repórteres e militantes dessem trabalho aos seguranças de Luiz Inácio. O “presidente” parecia ter duplo sentido nos gritos dos manifestantes, por ser o tratamento que se dá a um ex-ocupante da cadeira no Planalto e pelo desejo confesso dos petistas de que ele volte a sentar na mesma cadeira em 2018.

A imensa maioria dos presentes já passou dos 30 anos de idade. Uma constatação preocupante para um partido que precisa de renovação. “Precisamos rejuvenescer”, disse Gleisi Hoffman, ao final do seu discurso, o primeiro da noite, parafraseando o recém-falecido Belchior. “Lula precisa da nossa força, mas é ele que vem nos animando a lutar contra o governo Temer”, disse a senadora.

O discurso sorridente de Gleisi foi uma antítese da inflamada fala de Lindbergh Farias. O senador parecia ter incorporado o espírito do cara-pintada líder dos protestos contra Collor 26 anos atrás: “Precisamos enfrentar a Globo e os bancos. Não podemos aceitar que tirem da disputa o líder das pesquisas eleitorais”, berrou Farias. Para Lindbergh, é hora de regular a mídia, taxar grandes fortunas e heranças e desmilitarizar a PM. Será que o PT fará mesmo isso se voltar ao poder?

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(Gleisi, Lula e Mujica no Congresso estadual do PT)

Pepe Mujica foi o decano da mesa na abertura do 6º congresso estadual. “A luta de classes não pode ser a luta do ódio. Quem quer o confronto, a briga, é a direita. Nossa luta tem que ser por um mundo sem opressores. Trocar a polaridade da opressão não resolveria nada”, disse Mujica. Antevendo 2018, ele falou sobre a importância da militância virtual. “Houve manipulação nas eleições dos EUA e essa influência digital confere um poder que jamais foi obtido em qualquer ditadura. A Internet é de vocês, jovens, e cabe a vocês ficarem atentos contra a disseminação de informações falsas em meios digitais.”

Uma hora depois da abertura chegou a vez de Lula falar. O ex-presidente rememorou as iniciativas de diplomacia global iniciadas em seu governo: entre os países da América Latina, entre nosso continente e os países árabes e a criação dos Brics. Tudo indicava uma versão envelhecida do discurso do “Lulinha paz e amor”, expressão cunhada pelo marqueteiro Duda Mendonça na eleição de 2002. Entretanto, o tom da fala foi subindo. E quanto mais alto o tom, mais reagia a plateia.

O primeiro petardo foi para Donald Trump: “Hillary não gosta muito da América Latina, mas é mais competente que Trump. Os EUA merecem um líder menos retrógrado e com mais senso de humor”, disparou, para risada dos presentes. Depois, o alvo foi o homológo (imitador?) do presidente norte-americano, João Dória, prefeito de São Paulo: “Quando eu apoiei Haddad, achava que São Paulo ia gostar de um prefeito doutor. Ele é advogado, professor, tem trocentos diplomas. Mas pelo visto, o problema é de classe, porque o Fernando perdeu para um almofadinha, um coxinha que se passou por João Trabalhador”.

Veio então o assunto que todos esperavam ouvir: a operação Lava-Jato e as acusações contra ele. “Desde as eleições municipais, falam que o PT acabou. Faz dois anos que falam ‘o Lula vai ser preso amanhã’. Se não me prenderem logo, é capaz que eu vire presidente e talvez eu os mande prender por mentir”. Uma provocação sobre o processo aberto pelo MPF, mas que serviu como gasolina para os meios de comunicação –mais uma vez, as palavras de Lula foram usadas para acusá-lo de ameaçar censurar a imprensa. Talvez porque o ex-presidente não tenha papas na língua ao afirmar: “Quero ser candidato em 2018 contra o candidato da Globo”.

(Popstar. Foto: Paulo Pinto/AGPT)

O tom de Lula é de quem, mesmo contrariado, está disposto a ir para a disputa. Dá a impressão de que gostaria de estar com as chuteiras penduradas, vendo Dilma terminar o segundo mandato e curtindo Marisa e os netos. E a lembrança de Marisa foi mesmo o momento mais terno do discurso: “Todo dia, eu chegava em casa e tomava uma dose de uísque com ela. Faz três meses que ela morreu e dia desses, eu cheguei em casa, pus duas doses. Segurei uma com a mão esquerda e outra com a direita e brindei como se ela estivesse comigo. Obviamente, não posso fazer isso todo dia, ou terei problemas com a bebida”, disse o ex-presidente, numa mistura de humor e nostalgia da esposa. O 6º congresso estadual do PT foi batizado com o nome dela.

Lula voltou a dizer que desistirá de concorrer se for encontrada de fato alguma ilegalidade contra ele. “Se provarem que pedi dinheiro, que depositaram dinheiro ilegal para mim, desisto de ser candidato. Se isso for provado, terei traído a confiança de vocês”. E também voltou a falar em regulamentar a mídia. “Não é possível que nove famílias tenham o monopólio da mídia nesse país. Ninguém apanhou mais na imprensa do que esse rapaz”, disse, apontando para Fernando Haddad. “Se eleito, acho que temos que pensar numa regulamentação da mídia.”

Faltava ainda falar do processo a ser julgado por Sérgio Moro: “A tese está pronta: ‘o PT é uma organização criminosa e não havia como Lula não saber de tudo'”. Para Lula, pior que as acusações é a destruição da imagem pública de seus integrantes e da política em geral. “Miraram no PT, mas destruíram a política como um todo. O resultado foi o crescimento de um fascista como Jair Bolsonaro.”

A cada frase de efeito, gritos da plateia; o som da bateria da Juventude do PT subia. Mas bastava Lula retomar o discurso e se fazia silêncio na abarrotada quadra do Sindicato dos Bancários. “O Lula é um pé de mandacaru. Para quem não conhece um pé de mandacaru, ele não precisa de muita água para sobreviver. Não precisa da imprensa, precisa é do apoio de vocês, do apoio da militância do PT. Tudo isso aflorou em mim algo que eu achei que estava morto. Aos 71 anos, estou com mais tesão de ser candidato do que na minha primeira eleição, aos 30 anos.”

 

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