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Machocracia: o homem moldado no Paleolítico que se identifica com Bolsonaro

Orgulhosos em ser grosseiros e preconceituosos, os bolsominions parecem esconder certo medo de se tornarem uma espécie em extinção

Bolsonaro indo votar no segundo turno. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Luís Fernando Tófoli
12 de novembro de 2018, 16h15

Em primeiro lugar, é importante iniciar esse texto explicando que o termo ‘machocracia’ não é, de verdade, um conceito acadêmico. A palavra usual e mais elegante para se fazer referência a governos dominados por seres humanos do sexo masculino se chama ‘androcracia’ ou ‘falocracia’, que são palavras mais requintadas e linguisticamente mais harmônicas.

Machocracia é um termo pouco rebuscado, que combina a palavra ‘macho’ com o que em grego indica governo ou forma de dominação política. Do ponto de vista acadêmico ela foi usada em poucos textos. Mas escolhi falar de machocracia aqui porque atualmente, no Brasil, extrapolamos a falocracia –que é default no mundo.

Nossa falocracia agora vai além: ela é composta de homens orgulhosos em serem grosseiros e preconceituosos, e que debaixo de seus tesos músculos (ou barrigas flácidas) parecem esconder certo medo de se tornarem algo como uma espécie em extinção. Nossos machos em questão não aceitam a visibilidade e o protagonismo que o feminismo e as novas sexualidades vêm ganhando no cenário dos costumes, e há uma boa chance que este sentimento tenha alavancado uma considerável parte dos votos a Jair Bolsonaro.

Momentos de tosquidão pedem palavras toscas, e então é mesmo sobre a machocracia que eu gostaria de conversar nesta oportunidade, a partir de alguns estudos interessantes de Psicologia sobre a liderança e a opinião política no universo masculino. Evidentemente, estes resultados não esgotam o tema, que é algo muito mais amplo. Ainda assim, os resultados encontrados são curiosos.

Em uma revisão recente no Journal of Applied Psychology se constatou que é comum que homens galguem postos na hierarquia exibindo alguns traços de transtorno de personalidade antissocial. Embora não tenham o diagnóstico de transtorno mental (e é importante reforçar isso), essas pessoas exibem traços atenuados do que se espera encontrar naqueles que são popularmente chamados de psicopatas: a busca pela dominação do outro, a dificuldade em controlar arroubos e impulsos e a pouca capacidade de se colocar no lugar dos outros, a chamada empatia. Estamos falando do tipo de comportamento que nos acostumamos a ver apresentado nos másculos membros do clã Bolsonaro.

Embora não tenham diagnóstico de transtorno mental, essas pessoas exibem traços do que se espera encontrar em psicopatas: a busca pela dominação do outro, a dificuldade em controlar arroubos e impulsos e a pouca capacidade de sentir empatia

O estudo discute que embora tais atitudes não estejam associadas maior sucesso nos resultados de uma empresa, e os subalternos de chefes desse tipo se sintam miseráveis, a chance de se subir na carreira apresentando esse tipo de comportamento é considerável… mas apenas para homens. Segundo os pesquisadores, se você é uma mulher e apresenta tais traços, você será malvista e terá menor chance de crescer na hierarquia organizacional, por ser considerada “agressiva” ou “autoritária”.

Cartum de André Dahmer

Outro texto recente, publicado na revista Political Psychology, também mostrou diferenças entre homens e mulheres. Os autores coletaram dados de 12 estudos diferentes sobre força física na parte superior do corpo e opiniões sobre desigualdade social.

O artigo apontou que homens “bombadinhos” têm a maior tendência a considerar aceitável a desigualdade social, mesmo quando não estão no topo da hierarquia socioeconômica. Não é clara a direção dessa relação, se ela for real. Ou seja, não se sabe se ficar mais forte levaria alguém a ser de direita ou se quem é de direita tem uma maior tendência a ir malhar.

A chance de se subir na carreira apresentando esse comportamento é considerável… mas apenas para homens. Se você é uma mulher e apresenta tais traços, será mal-vista e terá menor chance de crescer, por ser considerada “agressiva” ou “autoritária”

Há, porém, evidências indiretas de que “explodir” os bíceps e “rasgar” os peitorais pode levar alguém a diminuir a sua preocupação com a desigualdade. E, mais uma vez nesse caso, o efeito não aparece nas mulheres. Para elas, serem fisicamente mais fortes ou fracas não influencia suas visões políticas.

A contemporaneidade parece ter dado uma guinada na direção de líderes que derramam testosterona: Venezuela, Turquia, Rússia, Polônia, Hungria, Estados Unidos. A adição mais recente, vergonhosamente, é o séquito de machinhos que segue o presidente eleito do Brasil.

Depois de tantos avanços sociais, estamos nos voltando para líderes cujo traço definidor foi moldado no Paleolítico. Parece, enfim, que a ideia de que o avanço científico e tecnológico irá nos conduzir de uma forma linear e inequívoca para um mundo mais igualitário não passa de uma enorme balela.

Vale olhar para os resultados destes dois estudos e ponderar por quais razões os homens podem ser tão confortavelmente mais (perdoem o trocadilho) escrotos. É claro que mulheres não são santas, são humanas também. E muitas delas reproduzem o ideário machista, como pudermos ver diante do fenômeno das bolsonaristas mais aguerridas.

Homens “bombadinhos” têm maior tendência a considerar aceitável a desigualdade social, mesmo quando não estão no topo da hierarquia socioeconômica. E, mais uma vez, o efeito não aparece nas mulheres. Para elas, serem fisicamente mais fortes ou fracas não influencia suas visões políticas

Ainda assim, por que nós, os carnavalescos e supostamente afáveis brasileiros, fizemos a opção por sermos governados pela tosca machocracia? Para responder essa pergunta, é necessário ultrapassar os números frios das pesquisas quantitativas de Psicologia Evolutiva ou mesmo das Neurociências em geral.

Vamos precisar de Psicanálise, Filosofia, Antropologia, Ciências Sociais, todo o conjunto das escolas de pensamento que são tão odiadas pelo presidente eleito, por razões que, enfim, não são muito difíceis de serem compreendidas.

A distopia machista brasileira está aí, real, e pronta para começar. Talvez ela esteja acontecendo de forma temporária, como um refluxo efêmero do avanço das pautas que questionam o poder estabelecido do macho nos costumes. Talvez ela tenha chegado para ficar por um longo e desolador tempo em que a falta de empatia será o tom da moda.

O tempo que essa temporada irá durar depende de nós, brasileiros. Cabe então que os que não concordamos com o retrocesso nos direitos civis  e em particular os homens que se recusam a se identificar com a escrotidão– ergamos a voz para sermos ouvidos e, com afeto e resiliência, estarmos contra a corrente que arrasta o mundo e o Brasil na direção da machocracia.

Luís Fernando Tófoli é psiquiatra e professor da UNICAMP

 

 


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romualdo matus em 12/11/2018 - 22h40 comentou:

de onde vc tira q a neurobiologia e psicologia evolutiva (faltou mencionar a etologia) só adicionam números frios? acho q confundiu com física e matemática. elas são ciências verdadeiras q nos permitem entender com profundidade o comportamento do animal humano. o contrário daquelas pseudociências q vc cita, como filosofia e sociologia, q nunca aclararam nada e nem vão. penso q fe7 isso para poder ligar e carregar de força o final de sua crítica q, por outro lado, é muito bem feita e precisa, a ñ ser esse erro crítico de apreciação.
parabéns pela visão e análise.

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romualdo matus em 12/11/2018 - 22h44 comentou:

** psicanálise tampouco é ciência. foi apenas uma proposta de trabalho de freud enquanto surgia coisa melhor, dadas as deficiências científicas naturais de sua época…se ele estivesse vivo hoje, seria neurobiólogo. ele mesmo jogou sua psicanálise no lixo no final de sua vida quando a descreve como apenas um curso de resignação…revisionistas nunca entenderam a honestidade intelectual de freud e ignoraram essa revelação.

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Gil em 14/11/2018 - 18h54 comentou:

É interessante como a parcialidade ofusca tão refinada discorrência. Avanço social, é interação indistinta e harmônica entre as pessoas, privilégios criados para subdivisões dentro da raça humana só estimulam a competição desnecessária e vendam os olhos de quem se beneficia da ocasião, o que é escancaradamente visível no passado recente em nosso BRASIL. Mudanças são atemporais, apesar de serem registradas como benéficas ou maléficas em um intervalo de tempo. O fato é que para o nosso próprio bem torçamos por dias sempre melhores e ai só o tempo dirá.

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