Albânia: de ditadura comunista a maior plantadora de maconha da Europa

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(Camponesa da Albânia defendendo sua plantação de maconha)

Eu falava outro dia da estranha necessidade de parte da esquerda de possuir governos aliados, guias, “protetores”. Como alguns fazem atualmente com o líder russo Vladimir Putin, sendo que a Rússia dele nada tem de socialista ou sequer progressista. Um exemplo histórico dessa necessidade é a relação do PCdoB com a Albânia. Imaginem que houve uma época que o PCdoB se espelhava neste pequeno país comunista do sudeste da Europa, governado pelo stalinista Enver Hoxha com mão de ferro e considerado pelos comunistas daqui como o “farol do socialismo”. O pessoal do PCdoB só saiu dessa em 1995, ano em que abandonaram também o bigode inspirado em Josef Stalin, que hoje renegam.

O interessante da Albânia é que era um país comunista não alinhado à União Soviética, com quem rompeu relações em 1961 (por fidelidade a Stalin), e sim à China, com quem acabaria rompendo em 1978, tornando-se um dos países mais isolados do mundo até 1992, quando o comunismo acabou. Hoxha havia morrido sete anos antes, após quatro décadas de domínio marcado pela perseguição a dissidentes, a religiosos e até a quem usasse barba. Por conta da repressão aos muçulmanos, o uso de barba foi proibido no país. Por outro lado, graças ao isolacionismo, a Albânia saiu do comunismo com uma dívida externa pequeníssima e com um traço comum a muitos países da chamada “cortina de ferro”: mulheres empoderadas.

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(Mulheres nas Forças Armadas da Albânia durante o comunismo)

Esta semana, a BBC informou que a Albânia, a velha Albânia do PCdoB, se tornou a maior produtora de maconha da Europa. Eles mesmos não têm o hábito de consumir a erva, mas lucram com ela: estima-se que a cannabis seja uma indústria de 1 bilhão de euros (R$ 3,64 bilhões)  na Albânia, o que não é nada que se possa desprezar em um país pobre. “Na Albânia, um quilo da droga é vendido por 100 a 200 euros (R$ 364 a R$ 727). Na Itália, esse valor pode chegar a cerca de 1,5 mil euros”, diz a BBC. Famílias inteiras trabalham nas fazendas de maconha na zona rural, e não têm problemas morais quanto a isso. Embora haja forte repressão, as autoridades acabam fazendo vista grossa porque, queiram ou não, a cannabis gera empregos.

“Como garçom eu ganhava um terço do que eu ganho com cannabis”, diz um jovem de 20 anos à reportagem. Mais de duas décadas após o fim do comunismo, ainda é difícil encontrar trabalho legal e fixo no país –não no negócio da maconha. “Às quatro da manhã é possível ver multidões indo ao trabalho. As ruas estão cheias –mulheres, homens, jovens, até crianças…” Em junho de 2017 vai estrear uma superprodução norte-americana baseada na história de uma aldeia albanesa que sobrevive do plantio e da venda da maconha, Lazarat, considerada a cidade que produz mais maconha ilegalmente em toda a Europa: 900 toneladas por ano. Os habitantes já estão com medo de serem estereotipados por Hollywood como criminosos.

Ironia do destino: na sua época albanesa, o PCdoB era totalmente contra a maconha e reprimia muito os militantes que queriam usar a droga. Hoje a maior parte dos dirigentes do partido é a favor da descriminalização da cannabis. Evoluíram. E nisso voltam a se encontrar com a Albânia.

 

 

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Publicado em 18 de dezembro de 2016