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Cultura

Milo Manara: “os que condenam o erotismo muitas vezes são abusadores na intimidade”

O quadrinista italiano fala sobre as acusações de machismo e por que não acredita na homossexualidade de seu biografado Caravaggio

O quadrinista Milo Manara. Foto: Divulgação
Cynara Menezes
06 de julho de 2015, 18h57

Em setembro do ano passado, a Marvel cancelou a capa alternativa do gibi Mulher Aranha número 1, desenhada por Milo Manara, após a controvérsia causada pela forma com que o célebre quadrinista italiano desenhou o bumbum da personagem. O trabalho foi considerado “machista” por feministas e foi questionada até mesmo a técnica usada por Manara, que havia justificado tê-la desenhado assim por causa da posição, subindo o telhado de um edifício. Uma quadrinista chegou a ser convocada para redesenhar a heroína aracnídea na posição anatomicamente “correta”

(A Mulher-Aranha de Manara)

A Mulher-Aranha de Milo Manara

Aos 69 anos, Manara, porém, está em outra. Acaba de lançar mundialmente A Morte da Virgem, o primeiro dos dois volumes da biografia de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), um dos maiores nomes da história da pintura. Ainda assim, corre o risco de se meter novamente em polêmica: seu Caravaggio, desenhado à imagem e semelhança de Andrea Pazienza (1956-1988), o amigo quadrinista de Manara morto de overdose, é apresentado como um herói de capa de espada sempre cercado de belas mulheres. Não há sugestão de que fosse, como foi sugerido algumas vezes, gay.

Sabe-se que Caravaggio, dono de um temperamento tempestuoso, era amigo de homossexuais e prostitutas, mas atualmente a versão de que fosse homossexual é contestada. Seu biógrafo mais recente, Andrew Graham-Dixon, presume que o artista fosse bissexual. Manara se amparou nas informações colhidas por Graham-Dixon para compor a biografia e diz pessoalmente não acreditar na teoria sobre a homossexualidade de Caravaggio, razão pela qual a ignora completamente na versão HQ para sua vida.

Milo Manara falou ao blog com exclusividade por e-mail.

caravaggio

Socialista Morena – Por que, entre tantos grandes artistas italianos, você optou por biografar Caravaggio?

Milo ManaraO que me inspirou foi a extraordinária modernidade de Caravaggio, até mesmo a sua atualidade, como pessoa e como artista. Seu caráter rebelde, sua indignação diante do poder e da prepotência, seu espírito aventureiro de pirata, a falta de cálculo e prudência com as quais se jogou na vida até o fim, nos trazem um personagem que talvez possa nos dizer algo sobre nossos medos e nossa atitude derrotista diante da vida. A modernidade de sua pintura é ainda mais impressionante: a forma como compôs suas obras-primas usando modelos como atores e o uso hábil de luzes artificiais fazem de Caravaggio um precursor do cinema. Caravaggio também expressa todo seu poder dramático na representação da crueldade humana, na desesperada e aparentemente indiferente capacidade dos homens de infligir dor a outros homens. Olhando para o Martírio de São Mateus ou de Santa Úrsula ou, especialmente, de São João Batista, é impossível deixar de pensar nas horríveis cenas que vemos na televisão todos os dias. São a representação do horror do qual parece que a humanidade não é capaz de se libertar.

SM – O senhor foi chamado de “machista” por desenhar a Mulher-Aranha de forma sensual. Vivemos em tempos politicamente corretos demais?

MM Em vez de politicamente correto eu prefiro falar em hipocrisia. As indumentárias dos super-heróis, principalmente das super-heroínas, me parecem concebidas expressamente para ser sensuais. Eu não fiz nada além de representar essa personagem em ação, ao alcançar o telhado de um arranha-céu. Escolhi o enquadramento mais eficaz. Isso é tudo. O resto é apenas hipocrisia.

SM – O senhor colaborou com Federico Fellini. Fellini também sofreria críticas semelhantes hoje em dia? Será que atualmente ele seria capaz de escapar da acusação de ser politicamente incorreto?

MM Fellini sofreu uma série de críticas, mas sempre seguiu seu próprio caminho, sem se preocupar. E a história lhe deu razão. Ele representava a realidade, com suas luzes e suas sombras. Foi ferozmente criticado, especialmente em seus últimos filmes, nos quais expressava sua amargura com o declínio cultural que estava assistindo. Mas, também neste caso, se trata do triunfo da hipocrisia.

caravaggiomanara

SM – Muito tem sido falado sobre a suposta homossexualidade de Caravaggio. O senhor disse que não concorda. Mas, se Caravaggio fosse homossexual, Milo Manara poderia desenhar sua história? Ou seu trabalho depende da existência da mulher?

MM Eu certamente contaria a história de Caravaggio mesmo que fosse comprovada sua homossexualidade. Para mim, a falsidade da afirmação de que Caravaggio era homossexual está no fato de que ele nunca foi condenado por isso. E, no entanto, este era um crime muito grave naquela época, que poderia ser punido com a morte. Além do mais, eu não desejo contar os hábitos sexuais de Caravaggio, mas a enorme importância que teve na história da arte. No entanto, na vida de Caravaggio houve muitas mulheres e todas foram muito importantes para ele. Isto é certo: elas existiram e aí estão seus quadros para comprovar.

SM – O senhor acha que o erotismo é malvisto no mundo de hoje?

MM Infelizmente tenho que falar mais uma vez de hipocrisia. Aqueles que condenam o erotismo muitas vezes são abusadores na intimidade. Vícios privados e virtudes públicas, para citar um famoso filme dos anos setenta (de Miklós Jancsó; no Brasil, Vícios e Prazeres, 1976). Na verdade, o erotismo ocupa um lugar muito importante na vida das pessoas e é um componente fundamental da vida. Se é malvisto, só se for publicamente, nos círculos oficiais. Mas na vida das pessoas normais não é nada desaprovado. Pelo contrário.

capacaravaggio

LIVRO: Caravaggio – A Morte da Virgem
AUTOR: Milo Manara
EDITORA: Veneta
QUANTO: R$59,00 (66 págs.)

 

 

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Nicole em 17/10/2017 - 16h14 comentou:

Erotismo e hipersexualiazação são coisas completamente diferentes! Principalmente, quando SEMPRE é a mulher sendo distorcida para que esteja na posição de objeto luxurioso.
E como vocês podem ser tão hipócritas em sugerir que o erotismo é perseguido, ou não está em voga nos dias de hoje! Vão ver um clipe da Rihanna, opa, mas aí é uma mulher empoderada com sua bunda e mamilos expostos apenas pelo seu bel prazer e não mulher sendo usada de capaxo, né, não deve ser erotismo então…
Patrulha pra defender machos escrotos é o que mais tem -.- , como se o Manara já não fosse homenageado o suficiente pelos anos de desserviço à imagem da mulher na ficção!

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